Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte III

À luz da tendência verificada ao longo de quase meio século, o aumento muito elevado do desemprego não pode ser atribuído à produtividade. Além disso, nenhuma estatística confirma o declínio do número de empregados, nem nos países ricos, nem à fortiori no mundo, pois que, desde o fim da Segunda Guerra mundial, o número de empregados dobrou, alcançando hoje quase 2,5 milhares de milhões


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A centralidade do trabalho vivo – Parte III

As implicações teóricas do trabalho vivo. Que evolução do trabalho e da produtividade?

(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)

A hipótese principal subjacente às objeções sobre a centralidade do trabalho é do tipo histórico, “historicista”, diz Jean-Philippe Deranty [20]. Invenção moderna devido ao capitalismo, o trabalho não comportaria em si-mesmo nenhum caráter antropológico. Será imediatamente referido que não é sequer uma questão de falar sobre o trabalho vivo, uma vez que este último adjetivo está intrinsecamente muito ligado à vida, o que obviamente supera o quadro capitalista. Muito logicamente, se apenas a sociedade contemporânea conhece o trabalho, as transformações atuais do capitalismo devem envolver as do trabalho e remover (se é que este alguma vez as teve ) todas as características intrínsecas que lhe atribuem os adeptos da sua centralidade, sejam elas económicas, sociopsicológicas ou filosóficas.

Qual é a evolução do trabalho e da produtividade?

O tom tinha sido dado nos anos de 1990 por dois bestsellers: : Le Travail, une valeur en voie de disparition de Dominique Méda [21], et La Fin du travail de Jeremy Rifkin [22].] Estes dois livros tinham levantado uma discussão que perdurou. [23]. E no último período, alguns trabalhos têm avançado o prognóstico de que uma grande proporção dos empregos desapareceria nas próximas décadas, pelo menos nos países capitalistas desenvolvidos, sob a impulsão do digital e da automação, a robotização. Por exemplo, os economistas de Oxford, Carl Benedikt Frey e Michael Osborne [24], calcularam que 47% dos funcionários nos Estados Unidos seriam ameaçados de perderem os seus empregos, especialmente os trabalhadores de escritório e os empregados em atividades de serviço e de comércio. Noutros lugares, 42% dos empregos franceses seriam automatizados em vinte anos [25], e 59% dos empregos alemães seriam assim desaparecidos nas próximas décadas [26]. Mas a OCDE, criticando a metodologia destes estudos, considera valores cinco vezes mais baixos. [27]

Em todo o caso, se o risco de perda de emprego for confirmado, seria o aumento da produtividade do trabalho que estaria envolvido, seria então esta  a sua causa. Ora, a constatação seguinte é estabelecida de forma segura. Durante mais de quatro décadas, o progresso na produtividade do trabalho no mundo tem estado tendencialmente a descer, exceto até a crise de 2007 nos países emergentes e temporariamente nos Estados Unidos (gráfico abaixo). Esta tendência para o abrandamento líquido nos ganhos da produtividade estabelece a dúvida nos círculos dos economistas mainstream, que falam do risco da estagnação secular. [28]

Taxa de crescimento anual médio da produtividade per capita de 1971 a  2015

grafico

A surpresa é grande, como muito bem expressa o economista Robert Solow: “os computadores estão em toda parte, exceto nas estatísticas de produtividade” [29]. À luz desta tendência verificada ao longo de quase meio século, o aumento muito elevado do desemprego não pode ser atribuído à produtividade. Além disso, nenhuma estatística confirma o declínio do número de empregados, nem nos países ricos, nem à fortiori no mundo, pois que, desde o fim da Segunda Guerra mundial, o número de empregados dobrou, alcançando hoje quase 2,5 milhares de milhões . E nos países ricos a parcela do número de empregados na população ativa continua a situar-se em torno de 90%.

Mesmo um autor tão atento às evoluções do trabalho como André Gorz comete um erro de perspetiva quando diz: na verdade, a crise dos sistemas de proteção social não tem nada a ver com a falta de recursos financeiros. É o resultado direto de outra crise, que está relacionada com a centralidade do trabalho remunerado.

Durante o período fordista, a proteção social foi financiada por contribuições obrigatórias, ou seja, por contribuições sociais pagas por funcionários e empregadores. Estas contribuições faziam parte do custo do trabalho. No entanto, o trabalho assalariado está em declínio e uma das principais razões para este declínio é que os empregadores querem reduzir todos os aspetos dos custos laborais. Entre eles, as contribuições são de particular importância, uma vez que estes recursos podem ser geridos por fundos de pensões. [30]

Em primeiro lugar, Gorz começa por dizer que a crise de proteção social não se deve a uma falta de recursos financeiros, e imediatamente contradiz isso invocando a vontade dos empregadores de reduzir as contribuições sociais. Em segundo lugar, para o assunto que estamos a falar aqui, é errado dizer que o trabalho remunerado está a regredir, absoluta ou relativamente. O que está a regredir são  os direitos conquistados pelos assalariados e é, a longo prazo, a duração individual média do trabalho. Assim, devemos, em vez disso, dar razão a Robert Castel, para quem a condição do assalariado permanece marcada pelo vínculo de subordinação ao empregador capitalista, mas é também hoje, graças a dois séculos de lutas sociais, caracterizado por um conjunto de direitos sociais: “podemos e devemos sublinhar as sérias ameaças que pesam sobre o trabalho, mas ninguém hoje tem o direito de dizer que o trabalho foi ” abolido “, ou que a força de trabalho foi” abolida “[31]. Há uma consequência política desta oposição: enquanto André Gorz abandona a ideia de uma emancipação no trabalho [32], Castel considera que o assalariado hoje “significa”, pode-se dizer, o trabalhador (e talvez ainda mais a “trabalhadora) ao mesmo tempo que o trabalho os aliena” e que o papel social do trabalhador não “se esgota” a “ser um consumidor de bens materiais” porque “o trabalho é um ato social sancionando a utilidade social do trabalhador que acede à esfera pública e se faz reconhecer como um sujeito de direito. ” [33].


Notas

[20] Jean-Philippe Deranty, « Cartographie critique des objections historicistes à la centralité du travail », op. cit.

[21] Dominique Méda, Le Travail, une valeur en voie de disparition, Paris, Éditions Aubier, 1995. Depois, a autora desmentiu este diagnóstico e isto graças aos inquéritos  que ela realizou ou dirigiu : Dominique Méda, Patricia Vendramin, Réinventer le travail, Paris, PUF, coll. « Le lien social », 2013 ; veja-se taambém o seu artigo muito documentado  « Quelques résultats des enquêtes européennes sur le rapport au travail » dans ce numéro des Possibles.

[22] Jeremy Rifkin, La Fin du travail, Paris, La Découverte, 1996 ; L’âge de l’accès, La nouvelle culture du capitalisme, Paris, La Découverte, 2000 ; La troisième révolution industrielle, Comment le pouvoir latéral va transformer l’énergie, l’économie et le monde, Paris, Les Liens qui libèrent, 2012.

[23] Veja-se, na época, Dominique Schnapper et Philippe Petit, Contre la fin du travail, Paris, Textuel, 1997 ; e também  Jean-Marie Harribey, « Travail, emploi, activité : essai de clarification de quelques concepts », Économies et Sociétés, Série « Économie du travail », A.B., 1998, n° 20, 3, p. 5-59. Hoje, reina a confusão  quanto  à redução  do tempo de trabalho . Assim, o  Coletivo  Roosevelt  defende a redução do tempo de trabalho. Mas vejamos como este é aqui definido pelo Coletivo :  « Escolhendo não trabalhar a tempo integral, com isso outras pessoas podem ser recrutadas.» (Exposition itinérante, 2017). Esta proposta é completamente  contraditória com uma  redução coletiva de tempo integral e liga-se à  prática capitalista atual de tempo parcial imposto a  alguns (e especialmente algumas), enquanto outros trabalham demasiado.

[24] Carl Benedikt Frey et Michael A. Osborne, « The Future of Employment : How Susceptible Are Jobs to Computerisation ?] », septembre 2013.

[25] Roland Berger Strategy Consultants, « Les classes moyennes face à la transformation digitale », rapport, octobre 2014.

[26] ING-Diba, « Are robots about to take away 18 millions jobs ? », Thelocal.de, 4 mai 2015.

 [27] Melanie Arntz, Terry Gregory et Ulrich Zierahn, « The Risk of Automation for Jobs in OECD Countries », OECD, 2016.

[28] Ver a síntese desta discussão  em Attac , Par ici la sortie, Cette crise qui n’en finit pas, Paris, Les Liens qui libèrent, 2017. Para os detalhes técnicos veja-se  Jean-Marie Harribey, « L’impact cumulé des crises sociale et écologique sur le devenir de la croissance : la fin programmée de celle-ci ? », Colloque Recherche et Régulation, juin 2015 ; « La crise est bien celle du capitalisme », Les Possibles, no 9, printemps 2016 ; Michel Husson, « Stagnation séculaire : le capitalisme embourbé », À l’encontre, 5 juin 2015 ; « La fin de l’émergence du Sud », À l’encontre, 22 mars 2015 ; « Stagnation séculaire ou croissance numérique ? », hussonet, janvier 2016 ; Xavier Ragot, « De quoi la stagnation séculaire est-elle le nom ? », L’Économie politique, nº 70, avril 2016.

[29] Robert M. Solow, « We’d Better Watch Out », New York Times Book Review, 12 juillet 1987.

[30] André Gorz, « Vers la multiactivité », Entretien avec Vladimir Safatle, 2005, in André Gorz, Le fil rouge de l’écologie, Entretiens inédits, Édition établie et présentée par Willy Gianinazzi, « Quête de la vraie vie », Postface d’Erich Hörl, « Les adieux », 2 octobre 2007, Paris, Éd. de l’E.H.S.S., 2015, p. 93.

[31] Robert Castel, « Salariat ou revenu d’existence ? Lecture critique d’André Gorz », octobre 2012.

[32] André Gorz, L’immatériel, Connaissance, valeur et capital, Paris, Galilée, 2003.

[33] Robert Castel, ibid


.Artigo original aqui

 A quarta parte deste texto será publicada, amanhã, 27/10/2017, 22h


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