Sobre os nossos dirigentes internacionais: da falta de ética à incapacidade de compreender a realidade económica. 3 – Os salários e a questão não resolvida do euro. Por Alberto Bagnai

Imagem série

Fotografia de Leonel Brás. Tirada junto à IP3, 24 horas depois do fogo ser considerado extinto.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3. Os salários e a questão não resolvida do euro

Por Alberto Bagnai (*)

Publicado por Il Sole 24 ore, em 12 de maio de 2017

Texto 3

O euro foi considerado o maior sucesso da ciência económica, mas está a tornar-se na mais humilhante derrota para a profissão de economistas. Agradeço ao jornal Sole 24 Ore ter-me permitido, com apreciável espírito de abertura, expor e discutir no âmbito de um abalizado debate um paradoxo que diz respeito a todos nós, seja-se economista ou não.

O euro é considerado um grande acontecimento da ciência económica: não conheço nenhum outro caso em que se tenha estado em condições de prever com uma tão grande e desconcertante precisão as consequências de uma decisão política. Vejamos sobre isto três exemplos. Como primeiro exemplo, vejamos o último Boletim económico do BCE, em que se lamenta como o crescimento dos salários na zona euro está a ser muito ténue, o que sugere uma provável subestimação dos dados oficiais sobre o desemprego. Estamos, por conseguinte, nas condições previstas em 1996 por Rudiger Dornbusch, quando advertia que a União Monetária “teria transferido para o mercado do trabalho a tarefa de regular as questões relativas à competitividade”, tornando prevalecentes as condições de desemprego. Trata-se do que hoje chamamos de “desvalorização interna”, um mecanismo com o qual uma união monetária deve poder contar, se quiser sobreviver (como o mostrou Mundell em 1961). Em segundo lugar, em toda a Europa os partidos eurocéticos progridem (apesar das derrotas), e põem em causa o modelo de integração política europeia. É exatamente o que Nicholas Kaldor tinha previsto em 1971, quando nos prevenia de que “se a criação de uma união monetária e o controlo da Comunidade sobre os orçamentos nacionais exercerem uma pressão tal que leve ao desabamento do sistema, essa união monetária terá então impedido uma união política em vez de a favorecer”. Enfim, Macron nem sequer tinha tomado posse, e a recusa por parte da Alemanha da proposta francesa de Eurobonds evidenciava já como a potência hegemónica não pretendia abandonar a própria intransigência. Excelente exemplo do que Martin Feldstein dizia em 1997: “a aspiração francesa à igualdade e a expetativa alemã de hegemonia não são coerentes”.

Tudo se está a passar como os melhores de entre nós tínhamos previsto e, por conseguinte, o debate sobre o euro de um economista intelectualmente honesto estaria exposto em quatro palavras: “nós tínhamo-lo dito!”. Seria, certo, uma atitude estéril, mas sempre melhor do que aquilo a que assistimos desde 2008 até aos nossos dias. Em vez de delinearem vias de saída de uma armadilha que tinha sido tão bem descrita, os economistas de profissão desacreditaram-se, defendendo com argumentos dúbios o mesmo projeto de que tinham previsto a sua falência (acerca da qualidade dos argumentos subscrevo quanto foi escrito por Perotti no sítio lavoce.info de 12 de maio passado).

Este projeto é incoerente, por um motivo muito simples, ilustrado por Alberto Alesina em 1997 (quando criticava a união monetária): um mercado comum tem sentido somente na medida em que apoie o crescimento quando do resto do mundo venham choques como o da crise americana de 2008. Infelizmente, dado que numa união monetária o ajustamento macroeconómico necessariamente passa pela desvalorização interna (corte dos salários), a moeda única torna vãos os benefícios do mercado único: porque cortando os salários restringe-se a procura interna exatamente quando se teria necessidade dela para substituir a procura externa entretanto tornada insuficiente.

Naturalmente é difícil defender um projeto incoerente permanecendo coerente com os dados, com a teoria, ou consigo mesmo. A criação do euro, por conseguinte, está-se a tornar a mais estrondosa derrota da profissão de economista que, defendendo argumentos incoerentes, se coloca a uma luz dúbia aos olhos da opinião pública. Tomo mesmo aqui três exemplos, tirados deste debate.

A ideia de Paul de Grauwe de que a Grécia e a Espanha “iniciaram um processo de desvalorização interna com resultados positivos” é um pouco incoerente com os dados: o desemprego em 2016 foi de 23,7% na Grécia e 19,6% na Espanha. Não é preciso uma grande virtude para obter salários baixos quando uma em cada cinco pessoas estão a andar por aí à procura de emprego. À luz dos dados, mais do que um sucesso destes países, a análise de Grauwe põe em relevo uma enorme perda de contato com a realidade diária, o que certamente não vai ajudar a fazer com que gostem da nossa profissão. A ideia de John Cochrane de que a moeda é irrelevante para o crescimento (os economistas falam de “neutralidade” da moeda) choca não não só com importantes resultados científicos, tais como a análise realizada por Dani Rodrik sobre o papel de uma taxa de câmbio excessivamente forte na restrição do crescimento de um país, mas também choca com o que as próprias instituições europeias agora admitem de dentes quase cerrados: as reformas estão a causar deflação, sem conseguirem promover o emprego de forma decisiva (nota 23 do citado boletim económico do BCE).

Ainda sobre isto, os melhores economistas tinham-se já expresso: as consequências negativas das reformas estruturais sobre a produtividade do trabalho tinham sido ilustradas por Robert Gordon já em 2008. Para Cochrane a moeda é como o óleo no motor de um carro. A metáfora é (involuntariamente) correta. Uma má gestão do óleo tem consequências a longo prazo tal como uma má gestão da moeda: no primeiro caso, queima-se a cabeça do motor e o carro para; no segundo caso queima-se um continente (e a economia mundial para).

Se de Grauwe é incoerente com os dados, e Cochrane é incoerente com a teoria, Feldstein é incoerente consigo mesmo. A sua ideia de que os rácios de débito e de crédito não poderiam voltar a ser redenominados em novas unidades de conta (ou seja, que os italianos, pagos em novas liras, continuariam a pagar as suas hipotecas em euros), é inconsistente com o que o mesmo Feldstein reconheceu em 2012, quando, falando da Grécia na revista Foreign Affairs, admitia que somente os contratos assinados sob legislação externa não são redenomináveis  (mas os contratos de hipoteca em Itália  com bancos italianos estão redigidos sob  a lei italiana).

Todas estas incoerências são de sentido único: estão a alimentar um projeto medonhamente sem sentido, que também não é credível em termos comunicativos, depois dos desastres anteriores anunciados (e não previstos) no caso do Brexit, na eleição de Trump, no caso do “não” ao referendo. É pesaroso ver Barry Eichengreen, um dos especialistas mais brilhantes sobre o fim do padrão ouro, a dizer que “a história não faz marcha atrás”.

Essa ideia “rectilínea” de progresso faria sorrir qualquer aluno nas nossas escolas, mas acima de tudo, mais uma vez, esta ideia coloca a nossa profissão a uma luz bem má. A nossa tarefa, como intelectuais e como economistas, é descobrir e estudar alternativas, não fechá-las, não nos entrincheirarmos atrás do mantra do Não HÀ Alternativa. Se não estivermos à altura deste desafio, a sociedade civil será pois levada a considerar-nos irrelevantes, e teremos então de admitir que merecemos bem ser assim considerados.

 

Texto original “I salari e la questione irrisolta dell’euro” em  http://www.ilsole24ore.com/art/notizie/2017-05-12/-salari-e-questione-irrisolta-dell-euro-225121.shtml?uuid=AEm3GeLB

(*) O autor: Alberto Bagnai estudou economia na Universidade de Sapienza (Roma), onde se doutorou em Ciência Económica em 1993. Em 1996 investigador em Econometria. Nesse período publicou com Francesco Carlucci o primeiro modelo agregado da economia europeia. Com Stefano Manzochchi aprofundou o tema mobilidade dos capitais nos países em vias de desenvolvimento, contestando o paradoxo de Feldstein-Horioka, e estudou os determinantes das crises das balanças de pagamentos, dando uma definição empiricamente rigorosa do sudden stop. Desde 2005 é professor associado de Política Económica no departamento de Economia da Universidade Gabriele d’Annunzio em Chieti-Pescara. É investigador associado no Centre de Recherche en Economie Appliquée à la Mondialisation (CREAM) da Universidade de Rouen. É membro do comité diretivo de International Network for Economic Research (INFER). É professor convidado do Centre for Globalisation Research da Universidade Queen Mary de Londres. Tem artigos publicados em China Economic Review, Open Economies Review, Applied Economics, Economic Modeling, Energy Policy, Cambridge Journal of Economics, International Review of Applied Economics, e outras revistas, bem como ensaios editados por Routledge e Palgrave McMillan.

Autor do livro “Tramonto dell’euro”, novembro de 2012 (Premio Canova di Letteratura Economica e Finanziaria em 2013) e “L’Italia puó farcela” em 2014.

Autor do blog http://goofynomics.blogspot.com.es/http://www.ilfattoquotidiano.it/blog/abagnai/.

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Qualquer cidadão comum sabe que desde o império romano, passando pelo do Vaticano, ,experimentado o napoleónico, maltratado pelo de Bismark e aterrorizado pelo de Hitler já estava provado que unificações dos Estados europeus actualmente existentes jamais conseguirão vingar. Talvez fosse possível uma Confederação, no caso feliz de existirem as múltiplas Nacionalidades havidas no que foi a Primeira Europa, mas uma Federação – uma UE – nunca vingará. Se a força militar e o direito dinástico falharam parece um tanto ridículo pensar-se que os economistas – eternamente errados – conseguiriam acertar com o uso da arma moeda. Viva a Europa das Cem Bandeiras. CLV.

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