Sobre os nossos dirigentes internacionais: da falta de ética à incapacidade de compreender a realidade económica. 4 – O euro e o princípio da autoridade, por Roberto Perotti

Imagem série

Fotografia de Leonel Brás. Tirada junto à IP3, 24 horas depois do fogo ser considerado extinto.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 texto 4 autoridade

4. O euro e o princípio da autoridade 

 

 

Por Roberto Perotti (*)

Publicado por lavoce.info em 12 de maio de2017

O princípio da autoridade nunca é um argumento convincente, e é espantoso que seja utilizado por tantos economistas (que se orgulham de serem constitucionalmente profanos) no debate sobre o euro. Menos ainda autoriza a usar os dados de uma forma superficial e incorreta.

Alguns dias atrás, um grupo de 25 laureados Nobel publicou nas páginas do Le Monde um apelo a favor do euro. Do outro lado e deste lado dos Alpes, para muitos este apelo era o suficiente para considerar encerrado o debate: “ipsi dixerunt”[disseram eles], e isto deve bastar. No entanto, todos sabem que entre esses prémios Nobel alguns não têm o menor conhecimento de macroeconomia, e outros nunca lidaram com questões europeias (e algum, suspeito até, nem sequer saberá indicar no mapa onde está a Bélgica). As instâncias dos eurocéticos, ainda que em certos casos apresentados confusamente, expressam um desconforto real: merecem um tratamento menos superficial. Desde quando entre os economistas (que se orgulham de serem constitucionalmente profanos) se faz vingar o princípio da autoridade? Com as devidas proporções, esta situação corre o risco de recordar a reforma protestante: na fúria de ipse dixit [ele disse], anátemas e excomunhões, os escolásticos, mesmo com todos os seus títulos académicos e os seus ofícios eclesiásticos, foram literalmente varridos por Lutero e Calvino.

Argentina em 2002: nem tudo é assim tão óbvio

Sem perturbar os prémios Nobel, a mesma atitude condescendente também é encontrada no nosso debate. Um exemplo é como alguns pro-euro citam frequentemente a experiência da Argentina, que no inverno de 2002, aboliu o Conselho Monetário (uma espécie de União Monetária com o dólar) e desvalorizou fortemente.

A desvalorização [da moeda nacional face ao euro] reduz o preço das exportações italianas em euros, aumentando assim a procura de produtos italianos e o emprego; mas também aumenta o preço em liras das importações, reduzindo assim o poder aquisitivo dos salários e de todos os rendimentos. Os defensores da saída do euro, os não-euro, argumentam os defensores do euro, “tornam a desvalorização mais fácil”, porque eles nunca mostram explicitamente este segundo efeito de desvalorizações, e que pode levar a uma redução da procura, do PIB per capita e do emprego.

Não há verdades reveladas neste campo: no fim, é tudo uma questão empírica. Os defensores do euro frequentemente citam dois dados. O PIB real (ou seja, a quantidade de bens e serviços produzidos na economia argentina) caiu em 2002 em 12 por cento, uma recessão terrível. Mas eles muitas vezes omitem um outro dado: pouco depois, a partir de 2003, o PIB começou a aumentar à taxa de 8 por cento em cada um dos cinco anos seguintes. Em 2004 ele estava de volta aos níveis de 2001, e em 2005 era muito superior. Um opositor do euro poderia assim, razoavelmente, concluir com estes dados que a desvalorização funcionou.

Com isto não se quer negar a enorme revolta social que aconteceu naqueles anos na Argentina, com um fortíssimo aumento na pobreza e de outras manifestações dramáticas do mal-estar. Mas é razoável atribuir tudo isso à abolição do regime monetário? A economia argentina sob o regime monetário já estava em queda livre: nos três anos anteriores a 2002, o PIB já havia caído em 10%. O sistema monetário de indexação ao dólar era simplesmente insustentável. Se eu levantar a tampa de uma panela a ferver, o vapor que sai da panela não foi causada pela minha ação de levantar a tampa: de facto, posso dizer que evitei uma explosão pior.

O salário real argentino: uma queda clamorosa … de estilo

A condescendência é perigosa e contraproducente porque leva a tratar com superficialidade problemas complexos. Nestes dias circulou pelas redes sociais um gráfico  (de uma obra de Stephanie Schmitt-Grohe e Martin Uribe da Universidade de Columbia) que, segundo os defensores do euro, fecharia definitivamente a questão. Aqui está. Representa o (alegado) salário argentino real imediatamente após a desvalorização: uma queda de 70%!

salario argentina 1

 

O que há de errado com a interpretação que foi dada a este gráfico? Uma redução de 70% no salário real em um ano deve imediatamente obrigar cada um de nós a desconfiar: mesmo durante as invasões bárbaras, tal praga nunca ocorreu. Na verdade, esse gráfico não mostra o salário real no sentido de evolução do poder de compra de um salário argentino médio durante os anos de desvalorização, mas o salário argentino expresso em dólares. Após o final do regime monetário, o peso desvalorizou de um fator de quatro, o que explica a redução dos salários em dólares em cerca de 70%.

Mas, para calcular o poder de compra do salário típico argentino, não devemos usar a taxa de câmbio, mas sim os preços em pesos no cabaz típico de bens e serviços comprados pelo salário típico argentino, ou seja, o índice de preços ao consumidor. Naquela época, a Argentina era um país bastante fechado com uma incidência de exportações e importações no PIB de cerca de 10%. O preço da maioria dos bens e serviços não aumentou proporcionalmente à desvalorização.

Não é fácil encontrar dados fiáveis sobre os salários argentinos antes de 2002. No entanto, o Instituto Argentino de Estatística publica o valor total dos salários pagos em cada ano, o número de assalariados e as horas trabalhadas. A única série histórica de tempo suficientemente longo sobre os preços ao consumidor é a dos preços ao consumidor na grande Buenos Aires. Com esses dados pode-se reconstruir o salário real médio, tanto por trabalhador como por hora trabalhada. Ambas as variáveis revelam uma redução de 20% em 2002 e 2003: muito forte e socialmente perturbadora, mas longe dos 70% do gráfico. Foi totalmente recuperado até 2006.

salario argentina

 

A Suécia em 1993 e o uso seletivo de dados

A economia argentina de 2002 era muito diferente do que é hoje a economia italiano, como diversas foram as razões para entrar na união monetária.

Um exemplo talvez mais interessante para a Itália é o da Suécia. Em 1993, no meio de uma forte e prolongada recessão, a Suécia desvalorizou a coroa em relação ao marco em mais de 30%. O PIB continuou a diminuir em 2% em 1993, mas a partir de 1994 e nos seis anos seguintes, aumentou para quase 4% ao ano. Claro, muitas outras coisas aconteceram na Suécia nesse mesmo período, e é difícil atribuir o relançamento da economia exclusivamente à desvalorização. Mas isso sugere que, quando se fala sobre fenómenos controversos, não existem atalhos: a afirmação “uma desvalorização reduz sempre dramaticamente o salário real” não se torna verdadeira somente porque é muitas vezes repetida sem olhar para os dados.

A arrogância académica

Eu, pessoalmente, acredito que deixar o euro seria um desastre para a Itália e que o modelo sueco não é reprodutível na Itália. Mas isso é irrelevante: a minha intervenção tem uma intenção metodológica. Como em todos os assuntos económicos (e não só), nada permite o uso de dados de forma superficial, errónea e contraproducente, simplesmente porque se acredita que o argumento é tão óbvio que não vale a pena perder tempo com pessoas menos qualificadas academicamente, e tudo é permitido porque o debate deveria ter sido encerrado por um grupo de 25 prémios Nobel.

 

Texto original “L’euro e il principio di autorità” em  http://www.lavoce.info/archives/46721/leuro-principio-autorita/

 

(*) O autor: Licenciado pela Universidade Bocconi, doutorou-se em Economia pelo MIT de Cambridge, Massachusetts em 1991. Após 10 anos de docência na Universidade de Columbia de New York (cátedra vitalícia) e dois anos no European University Institute de Florença, em 2005 torna-se professor ordinário na Universidade de Bocconi, onde é também membro do centro de investigação IGIER e de que foi diretor entre 2006 e 2008. É investigador no Center for Economic Policy Research (CEPR) de Londres e Investigador Associado no National Bureau of Economic Research (NBER), EUA. Foi consultor do FMI, do Banco de Desenvolvimento Inter-Americano, do BCE e do Banco de Itália, e Consultor Académico do Federal Reserve Board de Washington. Foi co-diretor do Journal of the European Economic Association. Foi conselheiro económico do Primeiro-Ministro de setembro 2014 a dezembro 2015. É editorialista do Sole 24 Ore. Obras publicadas: “Meno Pensioni, Più Welfare” (Il Mulino, 2002, con Tito Boeri, ) e “L’Università Truccata” (Feltrinelli, 2008) e “Status quo” (Feltrinelli, 2016).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: