Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte III – A finança ao serviço da sociedade e não a sociedade ao serviço da finança – 3. Investir não é andar a apostar (6ª parte). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte III – A finança ao serviço da sociedade e não a sociedade ao serviço da finança.

Parte III texto 3 1 investing not betting

3. Investir não é andar a apostar (6ª parte)

Colocando os mercados financeiros ao serviço da sociedade. Tomada de posição sobre MiFID 2/MiFIR, a Diretiva relativa aos mercados de instrumentos financeiros

 

Por Finance Watch, 24 de abril 2012

Autor: Benoît Lallemand. Editores: Thierry Philipponnat, Greg Ford, Emily McCaffrey

(6ª parte)

I. O valor social dos mercados financeiros (continuação)

(…)

C. Investimento e especulação

O economista Nicholas Kaldor deu-nos a seguinte visão sobre a distinção entre investir e especular:

[A especulação é] … a atividade de compra (ou de venda) de mercadorias com vista à revenda (re-compra) numa data posterior, em que o motivo que está por detrás dessa ação é a expetativa de uma mudança relevante no preço em vigor e não um ganho resultante da sua utilização ou de qualquer tipo de transação efetuada com elas ou da sua transferência entre mercados diferentes. [18]

A especulação olha para o preço

Com base nesta definição, [19] Keynes argumentou que os mercados poderiam ser eficientes, ou seja, os preços poderiam refletir o valor, se a grande maioria dos participantes do mercado tiverem o que ele chama de “perspetiva empresarial” (o que chamaremos de “investimento”), como oposto a uma “perspetiva especulativa”. Keynes, de uma forma que se tornou famosa, descreve como um mercado dominado por especuladores se afasta da realidade no que poderia ser chamado de “auto-referencialidade”:

… o investimento profissional [especulação] pode ser comparado aos concursos de jornal em que os competidores têm que escolher os seis rostos mais bonitos de entre uma centena de fotografias, sendo o prémio concedido ao competidor cuja escolha melhor corresponde às preferências médias dos concorrentes como um todo; de modo que cada membro concorrente tem que escolher, não os rostos que ele mesmo considera mais bonitos, mas os que ele acha mais provável que sejam escolhidas pelos outros membros concorrentes, estando todos a encarar o problema do mesmo ponto de vista. Não é um caso de escolher aqueles que, na sua opinião, são realmente os rostos mais bonitos, nem mesmo aqueles que a opinião média realmente pensa serem os mais bonitos. Chegamos ao nível de interrogatório onde dedicamos a nossa inteligência a antecipar o que a opinião média espera que a opinião média seja. E alguns, eu acredito, praticam níveis de interrogatório ainda superiores. [20]

Investimento é uma parceria com o negócio subjacente

Isto ilustra que o investimento e a especulação não se diferenciam apenas pelo horizonte temporal. [21] Com base em informações transparentes em mercados equitativos e ordenados, o investimento cria uma parceria entre a empresa ou a entidade que está a ser financiada e o investidor – vinculando-os no sucesso ou na adversidade. O valor captado pelo investidor deriva da atividade da economia real. O investidor e o beneficiário do capital estão a ganhar ou a perder juntos. A especulação, por outro lado, é um jogo de soma zero onde o dinheiro obtido por um especulador é perdido pelo outro lado da transação e vice-versa.

Uma vez que entendemos a especulação como a captação de um lucro através da compra ou da venda de ativos, é óbvio que ela depende de mercados secundários altamente líquidos. [22]

D. Liquidez e volume

A liquidez pode também incentivar a especulação

Ao tirar as lições da crise de 1929, Keynes não estava a culpar indivíduos gananciosos e mal-intencionados. Ele estava antes a apontar para uma estrutura de mercado que incentiva o comportamento especulativo em detrimento da alocação adequada do capital. Curiosamente, Keynes identificou como o principal “incentivo à especulação” … os mercados secundários excessivamente líquidos. [23] O que ele quis dizer é que a possibilidade de liquidar um ativo em qualquer dia e hora leva à ilusão de liquidez de investimento para a comunidade como um todo, ou seja, que qualquer pessoa pode comprar ou vender a qualquer momento. E isto, por sua vez, desvia a atenção dos participantes do valor do ativo subjacente, incentivando o foco nas variações do seu preço. Na realidade, é a adequação do preço ao valor, suportada pelos investidores genuínos, que garante estabilidade dos mercados (com exclusão dos choques externos). Se os preços variam drasticamente devido a estratégias especulativas e na ausência de “fornecedores de liquidez” adequados, a liquidez pode secar rapidamente com todos a correrem para comprar/vender ao mesmo tempo. Em geral, a volatilidade dos mercados aumentará com a proporção de especuladores.

Keynes argumentou, para ilustrar o seu ponto de vista, que a compra de um recurso “ilíquido” encoraja a que se faça uma análise mais aprofundada dos aspetos essenciais da empresa, do governo ou de outro beneficiário de capital.

Portanto, a liquidez pode ser assim descrita:

  • Do ponto de vista dos investidores

A capacidade de converter um ativo da sua carteira em dinheiro ou noutro ativo num prazo razoável, sem ser penalizado pelos movimentos de preços.

  • Do ponto de vista dos especuladores

A capacidade de comprar e vender ativos de qualquer tipo, sempre que desejado, com base nas previsões da sua flutuação de preços (como é a própria atividade de compra e venda que gera o lucro).

A liquidez não deve ser confundida com volume

Outra distinção importante a ser feita é entre liquidez e volume. A um nível muito geral, a liquidez é a capacidade de um participante no mercado comprar e vender à vontade com impacto mínimo no mercado. De forma muito diferente, o volume é uma medida do número e do valor monetário das transações efetivamente realizadas, independentemente do impacto no preço dessas transações. Liquidez e volume não são apenas conceitos diferentes, mas também são conceitos que podem ser contraditórios como, por exemplo, quando o volume gerado pelo comportamento especulativo agressivo tira liquidez de outros participantes do mercado. Existem muitos exemplos de negociação em altos volumes em mercados ilíquidos: o crash do mercado de ações dos EUA de 6 de maio de 2010 foi disso um exemplo perfeito (ver mais adiante Caixa 5). Contrariamente à liquidez genuína, o volume não contribui necessariamente para a formação de preços ou para a estabilidade dos mercados financeiros.

(continua)

“Investing not betting”, disponível em http://www.finance-watch.org/press/press-releases/328-investing-not-betting-fw-position-paper/

Notas

[18] Kaldor (1939).

[19] “Se me é permitido, tomarei o termo especulação para a atividade de prever a psicologia do mercado, e o termo empresa ou empreendimento para a atividade de prever o rendimento prospetivo dos ativos ao longo de toda a sua vida…” Keynes, opcit.

[20] Keynes, opcit.

[21] Alguns definem investimento como ‘especulação a longo-prazo’ e vice-versa.

[22] Os mercados primários permitem o encontro entre aforradores/investidores e aqueles que procuram capital próprio. Os mercados secundários permitem o encontro entre investidores que compram e/ou vendem e outros investidores que vendem e/ou compram.

[23] Ele foi a primeira pessoa a propor uma taxa sobre as transações como meio de incentivar o investimento de longo prazo.

 

 

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