Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 6 – O futuro do trabalho: sentido e valor do trabalho na Europa – Parte VIII

Este artigo retoma em primeiro lugar a história longa do trabalho, mostrando como a noção de trabalho tem sido enriquecido por novos significados ao longo dos séculos. Em seguida, analisa-se a importância que os europeus dão ao trabalho e empenhamo-nos em descrever as consequências sobre o trabalho e a utilização do discurso atual, de acordo com o qual a revolução tecnológica atual seria um portador de transformações radicais. O documento examina então o futuro do trabalho nas próximas décadas à luz de três cenários principais que estão entre si em concorrência para descrever o futuro do trabalho nas próximas décadas.

Parte VIII

(Dominique Méda, publicação da OIT, 2016, Tradução Júlio Marques Mota)

4.1.2 O cenário da revolução tecnológica

O outro cenário que parece angariar mais votos dos economistas, empresários e governos parece ser o da revolução tecnológica. O livro Secular Stagnation: Facts, Causes and Cures publicado em 2014, que apresenta as posições dos economistas do mundo entre os mais influentes, se ele contém, é certo, um texto de Robert Gordon (2014) reiterando as suas dúvidas sobre a eventualidade de um retorno ao crescimento devido à presença de “ventos contrários” , entre os quais a exaustão da inovação tecnológica, no entanto, expressa uma crença partilhada e determinada na capacidade da revolução tecnológica para impulsionar a produtividade e relançar uma nova vaga de crescimento: “a economia pode estar a enfrentar alguns ventos desfavoráveis, mas o vento tecnológico é mais forte, é como um tornado” (Mokyr, 2014, p. 88). Se ainda não vemos os benefícios deste “tornado”, de acordo com vários autores desta publicação, não é só porque nem todas as inovações ainda ocorreram, mas também e especialmente porque os nossos instrumentos de medida não são adaptados para os colocar em evidência. O relatório apresentado em Davos em janeiro de 2016 e intitulado “The Future of Jobs”, ( “o futuro dos empregos”) confirma o estatuto oficial destas teses (WEF, 2016).

É o desenvolvimento deste cenário é ele o mais provável? Poderia, em todo o caso, chocar com três grandes limites. Em primeiro lugar, baseia-se num um determinismo tecnológico forte (tudo o que é possível deve acontecer) e parece negligenciar a resistência dos grupos sociais confrontados com as consequências desses mesmos desenvolvimentos, devido quer às perdas de emprego associadas (certo, os Luditas perderam a batalha, mas pode ser de outra forma), quer ainda à concorrência desleal exercida (ver processos levantados contra a Uber, especialmente na Califórnia ou ainda a proibição feita à empresa de trabalhar em várias grandes cidades da Alemanha ou as resistências éticas à difusão de determinados produtos ou processos como o carro sem condutores que colocam no centro a questão da responsabilidade e dos acidentes, como nos primeiros momentos da industrialização, ou seja ainda pela desumanização implicada pela difusão em larga escala de processos automatizados. Nalguns países como a França, o desenvolvimento de caixas automáticas nas grandes superfícies é dificultado principalmente pela recusa dos clientes, especialmente os idosos, para estarem numa relação apenas com máquinas, e é difícil encarar a automação completa dos processos de trabalho em muitos setores de saúde, educação, agricultura ou cuidados pessoais por razões de apego às relações humanas que o trabalho envolve. Muitos acreditam que, para apoiar o emprego, o enriquecimento do trabalho (particularmente em relação às relações) e a coesão social, a automação deve estar contida em certos limites muito específicos. O economista Bertrand de Juvenil, criticando a busca de ganhos de produtividade, escreveu que, se eles constituem o pro gresso para o consumidor, este último implica um “re gresso ” para o produtor (1968, p. 55).

4.1.3 Os limites do cenário da revolução tecnológica: produção sem coordenação

Mas o desenvolvimento deste cenário colide com dois outros limites fortes. Em primeiro lugar, pelo menos na configuração apresentada pelos trabalhos acima mencionados – automação, redução de emprego e fim do assalariado (ver secção 3,1) – este cenário parece ser baseado em pressupostos duvidosos. Recorda-se que Ronald Coase (1937) indicou que a escolha entre uma organização de produção baseada no contrato de emprego ou a compra de prestações no mercado (contrato comercial) dependia dos custos de transação. Os proponentes de uma visão automatizada e desmaterializada de suporte à produção, como Jérémy Rifkin (2015), que os custos de transação se tornaram tão baixos hoje que a organização da produção através da hierarquia e do contrato de emprego já não se justifica, o que permite prever o fim do assalariado, e finalmente… da própria empresa. Mas se isso é verdade para determinados componentes ou processos, podemos dizer que este é o caso de todos os bens, produtos e serviços? Não é o oposto que poderia acontecer, ou seja, o aumento exponencial dos custos de transações de certos materiais, certos benefícios, certas transações? E acima de tudo, podemos imaginar uma produção realizada sem processos de coordenação, graças a uma gestão remota organizada por um algoritmo? E isso será que faz desaparecer a figura do empregador? Naturalmente, uma grande parte da produção mundial é realizada através de cadeias de valor extremamente fragmentadas e geridas por computador (OIT, 2015). Mas há muitas empresas de coordenação. Há uma entidade que executam a função de coordenação – mesmo que seja delegada a um algoritmo – e que, em última análise, captura o valor.

Não parece que, por enquanto, se possa prever uma economia em que a produção seja assegurada pela montagem das prestações adquiridas no mercado por uma plataforma sem qualquer coordenação no que diz respeito à construção de aviões, edifícios… Não parece que, se fôssemos todos empreendedores ou freelancers, a plataformas seria suficiente para coordenar as nossas ações da mesma maneira que a produção não parece provável que se possa tornar totalmente individualizado, por exemplo, através de impressoras 3D. Apesar do otimismo dos investigadores como Chris Anderson (2012) que veem nestas últimas uma tecnologia real da rutura, não parece que a construção dos planos ou dos edifícios em grandes quantidades pode ser feita desta maneira altamente personalizada pela impressão 3D, e não é certo que uma tal revolução industrial seria suscetível de economizar material e energia.

4.1.4 Os limites do cenário da revolução tecnológica: esquecer a questão ecológica

Esta visão automatizada e desmaterializada da produção parece realmente bastante contraditória com o facto de que o consumo mundial dos materiais nunca foi tão elevado (Krausmann, 2009). E este é o terceiro limite deste cenário, que parece ser o mais decisivo: o impasse radical que está a ser feito sobre o aumento das quantidades consumidas, bem como o custo das matérias-primas e da energia a que corremos o risco de em breve nos vermos confrontados e, mais genericamente, sobre a reconversão ecológica em que as nossas sociedades devem exercer o mais rapidamente possível se levarmos a sério o trabalho científico que realça a magnitude da ameaça ecológica, em particular que pesa sobre o clima, se nos colocamos na perspetiva de reduzir o aumento de temperatura em 2 ° C no final do século validado pelo COP 21. Mais genericamente, este cenário ignora totalmente as suspeitas legítimas que agora estão a pesar sobre o crescimento e os seus efeitos. No entanto, o trabalho científico nos últimos anos (IPCC, 2014;) Rockstrom et al., 2009; (Barnosky et al., 2012) obrigam-nos a uma releitura do nosso passado e a despertar a ambivalência radical do crescimento. Foi, naturalmente, a causa de imensos benefícios e de progressos até agora desconhecidos, que ninguém pensaria em questionar, mas foi também, particularmente na segunda metade do século XX, produzindo males, degradação e danos ao património natural, à coesão social e ao trabalho (Beck, 1992;) MEDA, 1999 e 2013; Gadrey, 2010; Heinberg, 2011). Os anos de 1970 foram, nas sociedades ocidentais, o momento em que esta consciência foi expressa e muitas reflexões foram devotadas a estas questões: pensamos no trabalho de Ivan Illich (1973), Jean Baudrillard (1970), Bertrand de Jouvenel (1968), Meadows (1972), Herman Daly (1972), ou Fred Hirsch (1976), evocando os riscos associados à nossa crença comum no crescimento como o principal objetivo das empresas e no PIB como um instrumento para medir o seu progresso. Entendemos hoje que o crescimento não pode voltar, mas acima de tudo que provavelmente não é desejável que ele volte, nos países ocidentais, a taxa que experimentamos durante o que Angus Manu (2006) chamou a idade de ouro, este momento em que as emissões de gases de efeito estufa e as diferentes poluições e degradações se tenham ~intensificado tanto que o termo Antropoceno foi forjado para designar esta era dominada pela capacidade dos seres humanos em mudar as condições da vida na terra (Crutzen e Stoermer, 2000).

A tecnologia desempenha um papel decisivo nos trabalhos que visam modelar a evolução futura das nossas sociedades: os críticos dos efeitos destrutivos do crescimento no património natural são, de facto, relativizados por muitos economistas que, na continuação do Solow (1986), consideram que o progresso tecnológico reduzirá a intensidade energética (o volume de emissões de CO2 por unidade do PIB) e alcançará o crescimento “verde” ou “limpo”, de modo a tornar a revolução tecnológica perfeitamente convergente com o imperativo ecológico.

No entanto, vários estudos mostram que os avanços tecnológicos necessários para descarbonizar o crescimento terão de ser exponenciais (disruptivos) para garantir a “dissociação” absoluta (Jackson, 2009). Husson (2010), por exemplo, demonstrou que a consecução dos objetivos do GIEC ( redução de 85 por cento nas emissões de CO2 entre 2000 e 2050, permitindo não ultrapassar um aumento de temperatura de 2 ° C no final do século, GIEC IPCC 2014) é incompatível com o crescimento contínuo, incluindo a hipótese de se encarar uma rutura tecnológica real. Na verdade, no caso em que a intensidade do CO2 no PIB[1] (16) continua a cair ao mesmo ritmo que nos últimos 40 anos (1,5 por cento por ano), o PIB global teria que cair em 3,3 por cento por ano até 2050. Se esta redução da intensidade do carbono no PIB fosse multiplicado por dois (3 por cento por ano), a taxa de crescimento do PIB deverá declinar em 1,8 por cento por ano.

4.1.5 Os limites do PIB

Os trabalhos da Comissão sobre a medição do desempenho económico e do progresso social (Stiglitz, Sen, Fitoussi, 2009), Comissão criada a convite do Presidente da República francesa Nicolas Sarkozy em 2008 confirmou as críticas da capacidade do PIB para contabilizar a riqueza e alertar sobre a degradação em curso (MEDA, 2000 e 2013;) Gadrey e Jacques-Catrice, 2005; Gadrey, 2010; Cassiers, 2014), e validou a ideia de que o PIB não desempenha o papel de alerta. O PIB, uma convenção criada em meados do século XX, tornou-se oficialmente o principal indicador de medição de desempenho do país de acordo com o sistema nacional de contabilidade 2008, tem muitas limitações: não leva em conta muitas atividades (domésticas, familiares, amigáveis, voluntários, de cidadania, lazer…) essenciais para a reprodução da sociedade; este não é afetado pelas desigualdades de consumo ou participação na produção; a contabilidade de que resulta não é patrimonial e, portanto, não é possível tornar visível, além da soma dos valores adicionados, a evolução dos ativos mobilizados e afetados durante o processo de produção e consumo. Se considerarmos que a urgência absoluta é garantir a sustentabilidade, primeiramente em termos físicos, de nossas sociedades, então precisamos de construir um certo número de normas ambientais como um objetivo principal e relativizar tanto o uso exclusivo do PIB para medir Progresso e o objetivo do próprio crescimento.

4.2 O cenário da conversão ecológica: uma oportunidade de renovar com o pleno emprego e mudar o trabalho

O cenário da revolução tecnológica não leva em conta a deterioração causada pelo crescimento e não parece satisfazer as imensas expectativas que agora são colocadas no emprego e no trabalho (cf. secção 2.2).

Qual seria o cenário que permitiria o desenvolvimento de um “trabalho de qualidade” e se oporia à perda de sentido e à degradação das condições de trabalho, que são encontradas tanto nas sociedades ocidentais como nos países emergentes, mesmo que com graus muito diferentes. Nos países ocidentais, a ascensão do estresse, a rutura por esgotamento nervoso, Burnout, a intensificação dos contratos atípicos (Parent-Thirion et al., 2012), aos países emergentes para onde algumas das produções sujas e indecentes (porque as normas sociais e os problemas ambientais são menos rigorosos e são mais baixos os custos de trabalho), se deslocalizaram com as condições de trabalho altamente degradadas, com acidentes de trabalho dramáticos, como Rana Plaza, com o desenvolvimento de fábricas chamadas sweatshops, em português ditas fábricas de suor. E, na maioria dos casos, uma certa impotência dos sindicatos para se oporem a essas dinâmicas, ao mesmo tempo que a taxa de sindicalização evolui a par com um maior bem-estar no trabalho (Gallie e Zhou, 2013) e com uma menor progressão das desigualdades (José e Buitron, 2015).

Será que se pode esperar um processo como o descrito por Crawford no seu Elogio do Carburador. Ensaio sobre o significado e o valor do trabalho? Responsabilizando-se pela perda de sentido de trabalho o agravamento da obsessão pela rentabilidade e produtividade, bem como a criação de instrumentos de gestão que podem duplicar os números destes objetivos, quem organiza a separação do trabalhador com os resultados diretos do seu trabalho, o que produz, e os impede de aceder ao reconhecimento daqueles a quem o trabalho se destina, Crawford lamenta que nas nossas sociedades se tenham esquecido das condições do que é um bom trabalho e do facto de que este é uma parte constituinte de uma vida com qualidade. A curto prazo, Crawford propõe tentar encontrar trabalho nos interstícios da economia, um trabalho cuja saída de mercado seja totalmente compatível com a escala humana de interações face-a-face. Mais genericamente, Crawford apela a uma posição “republicana” sobre o trabalho, com o objetivo de desenvolver as condições económicas que podem garantir em primeiro lugar a independência dos trabalhadores, uma posição que os americanos tinham acabado, com um grande arrependimento disso mesmo, por abandonar: é a este momento-anterior à deriva liberal e capitalista que se deu em meados do século XIX ” que teve lugar no meio do século XIX- que Crawford gostaria de voltar. Mas é necessário para isso, e ele di-lo claramente, regressar a um estado anterior: anterior ao desenvolvimento do capitalismo, do assalariado, das fábricas, da divisão do trabalho.

4.2.1 Levar a sério o imperativo da responsabilidade

Um tal processo parece agora difícil de admitir. Por outro lado, a ambição da qualidade do emprego e do trabalho digno pode ser um dos elementos centrais do cenário que parece ser logicamente derivado da adoção do acordo de Paris na COP 21: o cenário da conversão ecológica. Este consiste em considerar que se leve a sério todo o trabalho científico de que se dispõe e adotar a máxima proposta por Hans Jonas em  O Princípio da Responsabilidade: “agir de modo a que as consequências das nossas sejam compatíveis com a permanência da vida autenticamente humana  na Terra” (p. 30). Jonas supõe que nós adotamos ao nível internacional de estritas normas sociais e ambientais e que organizamos a adaptação das nossas sociedades racional e rapidamente a esses novos condicionalismos. E que adotamos como uma bússola não mais um indicador do aumento das quantidades produzidas e do valor acrescentado pelos seres humanos, usando uma unidade de conta exclusivamente monetária, mas sim os indicadores denominados em termos físicos, biológicos e sociais, enquadrando a produção destinada a atender às necessidades sociais em padrões sociais e ambientais compatíveis com a reprodução das sociedades.

Um dos grandes méritos deste cenário é que ele permite conjugar a resolução questão ecológica e a resolução da questão social. Reconhecidamente, alguns argumentam que a reconversão ecológica é sinónimo de perdas de emprego e de preços mais elevados, que se esta exige uma relativização do objetivo do crescimento e a promoção de um raciocínio “para lá do crescimento”, nós corremos o risco de ter menos emprego, uma vez que este último parece ser particularmente dependente dele. Aqui eu gostaria de defender a opinião de que devemos, em qualquer caso, comprometer-nos da forma mais urgente na conversão ecológica, sem esperar um “dividendo duplo”, mas que também é possível torná-lo numa formidável oportunidade tanto para se retomar o objetivo do pleno emprego como para mudar o trabalho.


Notas:

[1] A quantidade de  CO2 emitida para produzir um dólar de PIB


Artigo original aqui

 A nona parte deste texto será publicada, amanhã, 31/12/2017, 22h


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