Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica. Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise – 1. Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã – uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia (20ª parte – Anexo parte 5). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

 

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise

 Parte IV texto 1 1

1. Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã – uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia (20ª parte – Anexo parte 5)

Por Finance Watch, em 15 de dezembro de 2014

Autor: Frédéric Hache. Editor: Greg Ford

 

(20ª parte – Anexo parte 5)

ANEXO: Sobre o papel central das garantias e do financiamento de títulos

(…)

5. Cinco questões que vale a pena colocarmo-nos

Em virtude dos riscos sistémicos potenciais associados à revitalização da titularização e financiamento de títulos, poderemos colocar a nós mesmos várias questões antes de se ir nessa direção.

1. Como é que a promoção da transformação de liquidez é consistente com a defesa do encorajamento do capital paciente para financiar ativos reais?

O capital paciente, de longo prazo, não requer, por si, transformação de liquidez para investir em ativos ilíquidos. A transformação de liquidez, o processo que transforma ativos ilíquidos em ativos financeiros líquidos negociáveis (como o faz a titularização) é útil para facilitar as transações de curto prazo, mas não é indispensável para o investimento de longo prazo.

Alguns investidores de longo prazo poderão preferir ativos líquidos, devido a restrições da atual regulamentação, contabilização, de recursos e de mandatos de investimento, menor apetência de risco e expetativa de retornos adicionais.

Compreendemos que o investimento de longo prazo não é apenas uma questão de fazer aquisições e deter posições, e pode envolver outras estratégias de curto prazo. Não obstante, deve-se zelar para que qualquer que seja a estratégia os investidores de longo prazo desempenhem um papel contra-cíclico. Além disso, a menor liquidez e possibilidade de negociação dos ativos não garantidos pode promover comportamentos mais sãos e sustentáveis, tais como uma atenção renovada à avaliação direta do risco por parte dos investidores e uma correspondente diminuição do comportamento mimético. Deveria também reduzir a interconectividade e a pró-ciclicidade do sistema financeiro, graças a uma menor dependência nas avaliações externas de risco, a uma menor utilização do financiamento colateralizado, um menor envolvimento de investidores “dinheiro quente” [322] e um menor risco do fantasma de liquidez.

 

2. Devemos reiterar o papel central das garantias no nosso sistema financeiro?

Dado que se verificou ser o excesso de elasticidade no nosso sistema financeiro um dos principais fatores que contribuíram para crise financeira e dado que a crise mostrou igualmente que nenhuma garantia permanece sempre segura e líquida [323], também de ser colocada a questão de se queremos fortalecer o papel central das garantias no nosso sistema antes de se conseguir atenuar as externalidades negativas.

Ao promover-se um crescente papel dos bancos de investimento e dos empréstimos de instituições não bancárias, estaremos a aumentar a apetência pelas garantias, uma vez que muitas destas entidades são de elevada intensidade em garantias. Simultaneamente, uma revitalização da titularização criará mais ativos de garantia e alimentará esta apetência, aumentando a interconectividade, a concentração e a pró-ciclicidade [324].

Esta promoção suscita também a questão essencial de qual será o modelo de financiamento das instituições que geram crédito de longo prazo para a economia real. Deveremos favorecer mais instituições de fim lucrativo com estruturas de financiamento mais débeis? Poderá valer a pena recordar que nem todos os modelos bancários dependem completamente do financiamento por grosso, e que os bancos tradicionais que dependem mais de depósitos não criam os problemas acima descritos.

Poderá também ser bom ter presente que o papel omnipresente das garantias é bastante recente em termos de padrões históricos, e que não há muito tempo o nosso sistema financeiro funcionava bem sem elas. Embora seja pouco provável que revertamos esta tendência, o papel da regulamentação é tratar as externalidades negativas e fornecer os incentivos corretos. Dado que a consciência dos riscos aumentou tremendamente entre as entidades internacionais de regulação nos últimos cinco anos, devemos internalizar as externalidades negativas do financiamento de títulos antes de estar a alimentar o seu desenvolvimento.

 

3. Sendo as transações de financiamento de títulos criação de alavancagem, isso suscita a questão de que quantidade de alavancagem é realmente necessária no sistema financeiro?

A procura de ativos de garantia para fins de financiamento de títulos é uma procura de alavancagem. Podemo-nos questionar a consistência de tentar reduzir a alavancagem dos bancos através de requisitos mais altos de capital, por um lado, enquanto se promove a criação de alavancagem pró-cíclica no sistema financeiro, por outro. Dadas as necessidades de financiamento da economia real comparado com o vasto montante de capital financeiro, uma resposta curta não é propriamente se este capital é canalizado para onde é necessário.

Uma resposta mais longa envolveria analisar que rentabilidade devia a indústria financeira esperar razoavelmente: a alavancagem é um modo de aumentar a rentabilidade da indústria financeira, agravado pelo facto de que o endividamento é injustificadamente favorecido em relação ao capital próprio pelos regimes tributários e que a rentabilidade é frequentemente equiparada a rendimento do capital próprio.

 

4. Devemos ter criação de dinheiro com rácios de reserva definidos pró-ciclicamente pela indústria financeira?

Como vimos anteriormente, as garantias são como dinheiro em esteroides, em que as tesouradas são equivalentes aos rácios de reserva, e o número de vezes que são re-utilizadas equivale ao multiplicador monetário, mas com a diferença de que ambos os fatores flutuam com o ciclo económico e a expetativa do mercado. Poder-se-ia argumentar que não tratar esta questão equivaleria a deixar os bancos escolherem livremente a sua alavancagem, o que alguns fizeram através da confiante “otimização do risco ponderado”, com os resultados que conhecemos.

 

5. Pode o mercado Repo suportar o ónus da integração financeira e provarão as garantias baseadas em ativos serem o ativo seguro da UE que a dívida soberana não foi capaz de ser?

Os decisores políticos reconhecem agora que as fugas nos sistemas financeiros assentes no mercado começam, e/ou são propagadas, através do mercado Repo [325]. Com a finalidade da integração financeira bem como de propósitos de estabilização, os ativos que são usados como garantia para transações Repo e outras transações de financiamento de títulos necessitam decisivamente serem considerados seguros e líquidos a todo o tempo pelos participantes de mercado, particularmente em tempos de dificuldades.

Falta saber se as garantias baseadas em ativos de empréstimos das PME conseguirão manter essa confiança melhor do que a dívida garantida pelos Estados-membros, que não há muito era considerada isenta de risco. Embora a titularização esteja a evoluir no sentido de maior transparência, maior normalização e menores conflitos de interesses, não estamos convencidos de que todos os problemas estejam tratados. Além disso, ainda que o estivessem, o próprio ativo subjacente – nomeadamente empréstimos às PMEs – é muito heterogéneo, sujeito aos ciclos económicos e políticas económicas dos Estados-membros e muito provavelmente impactados pelo estado das suas finanças públicas. Além disso, sendo a expetativa do mercado e a perceção dos investidores instáveis e, por vezes, exageradas, mesmo na ausência de comprovados problemas, poderá não ser inteiramente descabido questionar a assunção de que as garantias baseadas em ativos cumprirão essa promessa e o pressuposto de que os investidores nunca diferenciarão entre empréstimos garantidos de países com problemas e de países saudáveis.

 

(continua)

[322] NT. Investidores de “dinheiro quente” (hot money), refere-se a fundos que são controlados por investidores que procuram ativamente retornos de curto prazo. Estes investidores pesquisam o mercado à procura de oportunidades de investimento de curto prazo com elevada taxa de juro. (…) Os bancos habitualmente atraem “dinheiro quente” oferecendo certificados de depósito de curto prazo com taxas de juro acima da média. Logo que estes bancos reduzem a taxa de juro ou outra instituição oferece taxas mais altas, os investidores de “dinheiro quente” retiram os seus fundos e deslocam-nos para outra instituição com taxas mais altas. O conceito de “dinheiro quente” não se aplica apenas aos bancos. Os investidores podem deslocar os seus fundos para diferentes países para tirarem partido de taxas de juro favoráveis. Vd.  https://www.investopedia.com/ask/answers/09/hot-money.asp

[323] Excepto os títulos do tesouro dos EUA.

[324]  BIS 2013b

[325] Gabor 2014a

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