Sobre uma carta enviada ao Primeiro-ministro António Costa, ao Ministro da Saúde e ao Diretor do Hospital Pediátrico de Coimbra. Por Júlio Marques Mota

25-de-abril-sempre 2018

Sobre uma carta enviada ao Primeiro-ministro António Costa, ao Ministro da Saúde e ao Diretor do Hospital Pediátrico de Coimbra

Por Júlio Marques Mota JULIO_MOTA

Algumas reflexões em torno do espírito de Abril de outrora e algumas lágrimas sobre o espírito de Abril de agora

A carta enviada às autoridades portuguesas refere-se ao caso de uma criança de 4 anos com um problema de cárie dentária, um problema simples, mas cujo tratamento exige que o mesmo seja feito num bloco operatório. Trata-se de uma criança cujo sistema de saúde é o Serviço Nacional de Saúde e que, residindo em Coimbra, tem como meio de tratamento o Hospital Pediátrico de Coimbra. Depois de aguardado algum tempo de marcação de consulta, foi pelo médico de serviço reconhecida a necessidade do referido tratamento, a que acrescentou a seguinte informação: dentro de 15 dias será chamada a fazer análises para informação do anestesista e, depois, entrará na lista de espera que é atualmente de 6 meses para ser chamada para tratamento da cárie [1]. Se até lá não receber nenhuma marcação de consulta para ida ao bloco operatório, a lista é longa de seis meses ou mesmo mais, receberá um voucher para ir a uma instituição privada. Ficámos estarrecidos. Haverá de forma relativamente constante cerca de trezentas crianças em fila de espera, foi o que ficámos a saber. E o meu protesto na carta enviada às autoridades portuguesas é feito não apenas em nome da minha neta, mas de todos aqueles que têm de aguardar pela sua vez nas filas de espera, porque a saúde não está em primeiro lugar!

Relativamente ao caso em presença explicado na exposição enviada, tenho consulta para a minha neta Adriana já marcada numa clínica privada, a Sanfil em Coimbra, para o dia 2 de maio próximo. Ninguém de bom senso poderia admitir que se espere seis meses, vivendo de abcesso em abcesso, à espera de um voucher para ir a uma clínica privada, dispondo de especialistas em saúde oral para crianças e de bloco operatório, para tratar de uma cárie dentária numa criança de 4 anos, exceto na Administração Pública em Portugal [2]. Isto é sempre verdade, mesmo para aqueles que não têm nada e que, portanto, não podem suportar os custos de uma ida a um bloco operatório numa clínica privada. Reencontramos aqui a questão dos sem nada, no fundo os muitos esquecidos da Democracia, aqueles a quem se pede sempre que votem pelas liberdades e direitos que a Democracia supostamente garante, mas que a eles objetivamente pouco ou nada se lhes garante.

Entretanto, nestas duas semanas, pura coincidência ou não, os jornais têm sido o espaço em que se tem posto a nu as carências em termos de saúde pública do nosso país, mas quase sempre escamoteando que este é um dos muitos legados da Troika e dos governos a seu mando: um país em que se descapitalizaram os serviços de saúde, em que se desmantelaram as estruturas de apoio aos centros hospitalares de maiores dimensões, em que se desfizeram até as carreiras profissionais dos trabalhadores do setor [3]. Aqui o silêncio é de ouro, mas pela minha parte é um comportamento que não estou disponível para aceitar.

Tudo isto nos mostra que a política da austeridade da Troika não abandonou ainda as instituições portuguesas, por mais que nos venham a afirmar o seu contrário. Que o problema é complexo, é garantidamente assim. Que a reversão do conjunto das políticas da destruição que foi aplicado sobre o nosso país tem que ser feita com cuidado, tem de ser assim feita, com certeza. Mas há aqui também uma certeza, é que a reversão das políticas seguidas desde 2008 tem de ser concretizada, e quanto a isso não se veem sinais claros nesse sentido. Os necessitados deste país não se satisfazem apenas com belos discursos sobre o sentido da Democracia, satisfazem-se primeiro que tudo com obras que a esta lhe confiram objetividade e sentido, e àqueles confiram o sentimento de verdadeira cidadania, dignidade e qualidade de vida. É como resultado da ausência destas obras que se começa a instalar um sentimento de desilusão face à geringonça, se começa a ganhar a certeza de que se está perante uma sociedade bloqueada, e quando assim é começa-se a ganhar a certeza de que todas as derivas são possíveis, o que é, no mínimo, altamente inquietante.

Hoje fala-se muito em reversão, reversão que em Portugal não vejo praticamente em lado nenhum, para além de uns pingos na redistribuição do rendimento e de um sentimento de melhoria, mas relativa, na função pública. À margem desta questão em Portugal, deixem-me citar um dos mais importantes economistas da atualidade, Michael Pettis sobre a reversão dos modelos de crescimento, neste caso do Japão e da China, da passagem de modelos de crescimento baseados em altas taxas de poupança para modelos baseados em taxas de crescimento dos salários. Num texto intitulado High Wages Versus High Savings in a Globalized World, diz-nos:

Os métodos acima mencionados [de altas taxas de poupança, ou seja, de baixos salários] são formas diferentes de impulsionar a poupança interna, limitando a parcela do rendimento total, ou PIB, que as famílias podem consumir. O que fez o modelo japonês diferenciado, como eu o vejo, é mais uma maneira de impulsionar a poupança, desta vez por meio de certos impostos ocultos destinados a restringir a participação das famílias no PIB. A China e outros países do leste asiático usaram o mesmo conjunto de impostos ocultos.

A mais óbvia destas maneiras foi a repressão financeira e as taxas de câmbio acentuadamente subvalorizadas; o primeiro atua como um imposto implícito sobre a poupança que, no seu ponto mais alto durante a última década na China, atingiu 5% do PIB a ser transferido das famílias para os mutuários (principalmente empresas estatais, governos locais e grandes empresas). Essas transferências limitavam o rendimento das famílias e consequentemente limitavam o peso do consumo no PIB total e, assim, forçavam a taxa de poupança a subir.

Diz-nos ainda Michael Pettis:

Eu não penso que isso tenha sido um acidente. Embora aumentar a taxa de poupança nacional por meio de uma combinação de repressão financeira e moeda desvalorizada se tenha tornado uma maneira muito poderosa de fazê-lo rapidamente, essa abordagem deixou países como o Japão e a China com tipos específicos de distorções nas suas contas nacionais que parecem especialmente difíceis de reverter. À medida que a participação das famílias no PIB diminuía, a parcela de algum outro setor económico aumentava e este último tornava-se muito poderoso, tornando politicamente difícil reverter o processo uma vez que ele atingisse os seus próprios limites. O setor que sai reforçado com esta abordagem foi geralmente o setor empresarial, mas também poderia ser o governo, como na China, ou até mesmo investidores estrangeiros, como ocorria tipicamente em certas economias dependentes de recursos na era pós-colonial.

O texto de Michael Pettis é claro, mesmo naquilo que se pode ver como uma situação paralela com a privatização de grandes setores da economia portuguesa a favor, sobretudo, do capital. No texto de Pettis sublinho a expressão repressão financeira, sublinho a expressão impostos ocultos, sublinho o que está subjacente, a transferência de rendimentos de uma classe, a dos que não têm, para os que têm, o que no nosso caso pode ser bem evidenciado pelo desmantelamento dos serviços públicos, da medicina publica para a medicina privada hoje na mão de grandes empresas, portuguesas ou chinesas, como a CUF ou a Luz Saúde (conglomerado chinês Fosun), ou outras.

Aqui, a necessidade de reversão da política da saúde é mais que necessária, é urgente. Mas será neste caminho que se vai seguir, retomando o projeto Arnaut/João Semedo ou, ao contrário, será antes o caminho da financeirização do sistema de saúde que vai ser seguido, estabelecendo-se com este último caminho, dois sistemas de saúde, o sistema para os que nada ou quase nada têm e o sistema para os que podem?

A diretiva da União Europeia relativa à financeirização aí está, a ideia dos títulos (de dívida) de impacto social também, (Social Impact Bonds – SIB), os cursos de formação de gente para este tipo de modelo de financeirização começam também a ser já visíveis e o suporte dos grandes bancos internacionais para este efeito é, seguramente, garantido. A tudo isto, acrescente-se, há também já um Fundo para a Inovação Social (FIS), que vai mobilizar 55 milhões de euros. Este Fundo visa financiar iniciativas de empreendedorismo e inovação social que desenvolvam projetos inovadores para a resolução de problemas sociais. Diz-nos ainda sobre isto o Diário de Notícias:

O FIS vem completar o pacote de quatro programas de financiamento da Iniciativa Portugal Inovação Social, disponibilizados no âmbito do Portugal 2020. Três outros estão já a decorrer – Capacitação para o Investimento Social, Parcerias para o Impacto e Títulos de Impacto Social – para apoiar organizações que não têm capacidade de gerar receitas.

Sublinho aqui Parcerias para o Impacto e Títulos de Impacto Social, sublinho aqui o Estado a abandonar funções suas a favor dos privados. E tudo leva a crer que com a saúde ir-se-á passar o mesmo. A proliferação de vouchers indica isso mesmo.

E a pergunta que aqui deixo é: será por aqui, por efeito colateral, que se irá, depois tentar passar à mercantilização, diga-se talvez privatização, de um outro campo, o da saúde, depois de se aprender a rodar bem os mecanismos da financeirização dos serviços ditos sociais? Penso que sim, pois ganho o hábito da financeirização no campo social tornar-se-á depois mais fácil engolir a pílula da privatização de grande parte os serviços de saúde e tanto mais quanto desde há anos se tem vindo a vender a ideia de que o Estado gere mal, de que o Privado, esse, gere bem.

A este propósito um relatório bem recente (janeiro de 2018) do conceituado Departamento Nacional de Auditoria do Reino Unido questiona a existência de comprovação substantiva de que tenha havido quaisquer economias financeiras com as PPPs (vd. PFI and PF2, National Audit Office) e um relatório da European Federation of Public Service Unions (EPSU) de maio de 2014 – Public and Private Sector Efficiency- conclui que “existe (…) experiência exaustiva de todas as formas de privatização e (…) evidência sobre a comparação da eficiência técnica. Os resultados são notavelmente consistentes em todos os setores e todas as formas de privatização e externalização: não existe evidência empírica de que o setor privado seja intrinsecamente mais eficiente” (cf. Introduction).

Se assim for, que fará a geringonça, que fará o PS, ou melhor, que fará a sua ala esquerda que suponho defende o projeto Arnaut/Semado contra a sua ala direita, aquela que quis destruir a formação da geringonça logo à partida? O que se sabe de imediato é que à iniciativa do Bloco, que está a preparar uma nova Lei de Bases com ajuda de António Arnaut, o PSD, segundo as informações recolhidas pelo PÚBLICO, irá por seu lado contrapor-se estando já a ser preparado um documento orientador pelo grupo sobre Saúde do Conselho Estratégico Nacional (CEN), coordenado por Luís Filipe Pereira, antigo ministro de Durão Barroso e de Pedro Santana Lopes.

Um elemento da direção PSD já disse que “O ideal é um sistema do tipo que hoje existe na ADSE, que serve os funcionários públicos e cuja filosofia é preciso alargar a todos os cidadãos que não trabalham para o Estado“. Ou seja, mais e mais vouchers! O Governo quis marcar terreno, nomeando a ex-ministra Maria de Belém Roseira para coordenar o seu projeto. Ontem, Maria de Belém sugeriu precisamente que a nova Lei de Bases fosse objecto de um pacto de regime. Não parece que isto sejam boas notícias.

Tudo nos leva a pensar que a ala direita do PS tentará fazer nesta matéria, a da saúde pública, um acordo tipo Bloco Central, mercantilizando ainda mais a saúde precária neste país de gente precária, na sequência de obra feita já por um antigo ministro do PSD, Paulo de Macedo, o homem de quem o PS parece muito gostar e a quem se paga 400 mil por ano, num organismo público, a Caixa geral dos Depósitos. Estamos para ver se o António Costa, nosso ilustre Primeiro-ministro, e todos os que no PS se empenham no projeto sustentado pela geringonça conseguirão resistir à força da sua ala direita que, como toda a direita, está sempre à espera que a geringonça venha a falhar. Pelo meio, o lobing será enorme, e o dinheiro que irá escorrer não irá ser pouco. Tem sido historicamente sempre assim. Se a tendência for esta em Portugal, e porque não, cabe à esquerda perceber que é mais uma porta de Abril que sobre as suas esperanças se estará a querer fechar e por gente que se assume de esquerda. Veremos pois o que se vai seguir.

Não me quero alongar para não passar por mal-educado, mas tanto quanto se vê na Europa, na UE, com a diretiva União dos Mercados de Capitais, não será isto um processo, uma agenda, a favor da privatização dos serviços de saúde? Possivelmente não o será, se as gentes de esquerda se impuserem, mas para já é o que parece ser, isso sim. Se não parece como tal, como explicar então o sofrimento possível de muitas crianças durante seis meses para depois irem ser tratadas ao setor privado  com dinheiro público?

Na minha exposição há uma afirmação que pode parecer pura provocação, mas que o não é, quando escrevo:

“Dos tempos da minha infância aos tempos da minha velhice, as semelhanças são flagrantes, mas os tempos aparentemente são muito diferentes. Serão mesmo muito diferentes?”. Para os sem nada e face aos que quase tudo têm, os tempos de ontem e os de hoje serão eles mesmo muito diferentes?

Quando coloco em confronto os dois períodos de tempo não comparo uma situação global contra outra situação global, diferença de tempo histórico, mas sim a situação de precariedade relativa da maioria dos que não têm nada ou quase nada contra a minoria dos que quase tudo têm, nos dois momentos do tempo, década de 50 e agora.

Sei que me falarão imediatamente da liberdade de expressão (e as outras liberdades ou direitos?) mas à maioria da população, a população dos sem nada, são as outras liberdades ou direitos que lhes importam primeiro que tudo, depois sim, a liberdade formal. Esquecer isto, é não perceber depois os populismos de direita ou de esquerda que atravessam neste momento toda a Europa, com exclusão ainda de Portugal, mas neste caso, graças a essa enorme criação, saúde-se, chamada pela direita de geringonça. O que se pede aos políticos de hoje, aos de esquerda, é que não deixem que se percam as esperanças que o povo português depositou na geringonça. Isto é o mínimo que se lhes pode pedir, corrijo, é o mínimo que se lhes pode exigir.

Não perceber isto, é não perceber o que escreveu recentemente um muito bom analista dos mercados financeiros, Charles Hugh Smith em This Is The Turning Point, e que passo a reproduzir:

O ditado «o verme virou-se» refere-se ao momento em que os oprimidos finalmente passaram a ter o suficiente e se viraram contra os seus poderosos opressores.

Os vermes finalmente viraram-se contra as elites privilegiadas – as que têm beneficiado da globalização, da corrupção, do estímulo dos bancos centrais e da especulação dos cartéis impostos pelo Estado. Não importa tanto o que é que os peritos consideram quanto aos vermes estarem a virar à esquerda ou à direita; O importante é que os impotentes finalmente começaram a desafiar os seus senhores privilegiados.

Embora os poderes se esforcem em tentar aplacar ou reprimir a revolta dos sem poder, o génio da desunião política e da desordem social não podem ser recolocadas, de novo, na garrafa. Foi necessária uma geração de crescente desigualdade, corrupção e de erosão de oportunidades para criar uma sociedade dos protegidos (os ricos) e dos desprotegidos (os que não têm), e agora, estar a carimbar mais regulações e distribuir o Universal Basic Income (UBI) não irá reequilibrar um sistema irrevogavelmente desequilibrado.

Mas o aumento da resistência, ainda nascente, é apenas metade da história: as tendências económicas e os ciclos também estão a rodar, e mesmo que os vermes permaneçam passivamente no subsolo, essas reversões vão atrapalhar o status quo. A narrativa dominante – a correção, a bondade e a sustentabilidade do crescimento sem fim do consumo e da dívida – será desfeita, e as contradições internas desta Nova Idade Dourada (aumento da desigualdade riqueza / rendimento / poder) finalmente romperão a fina fachada da estabilidade que foi conseguida nos últimos nove anos de «recuperação»”.

Os vermes no presente texto, mesmo que debaixo do chão, mesmo que ainda invisíveis, senhores Deputados, somos nós, os que nada ou quase nada têm, os d’en- bas, e no caso em presença da minha neta, são os invisíveis, os ignorados ou esquecidos pela Democracia, que paulatinamente serão deslocados para o setor privado, sofrendo portanto dos mecanismos ocultos da repressão financeira de que fala Michael Pettis, até que… “se rompa a fina fachada da estabilidade que foi conseguida nos últimos nove anos de «recuperação»” de que nos fala Charles Hugh Smith. Se acharem que vale a pena, pensem também nisto.

De um modo nada diferente nos fala o atual Presidente de Fannie Mae, Doug Duncan, uma duas grandes empresas responsáveis pelo crédito à habitação nos Estados Unidos:

E quanto à economia interna, o que provavelmente me incomoda mais do que qualquer outra coisa, é o declínio na criação de novas atividades. Este declínio tem-se processado ao longo destes últimos trinta anos.(…) Há algumas razões pelas quais me preocupo com isso. Acabei de fazer um comentário sobre o facto de sermos uma economia empreendedora, o que significa que ela é “dinâmica” – as pessoas não se importam se o rendimento médio é maior do que o delas, se os seus rendimentos estiverem na mediana. Se estas pessoas esperam que haja uma oportunidade para que eles cresçam e ganhem um desses altos rendimentos, então eles estão bem. Mas se perderem essa esperança, isso levar-nos-á a alguns possíveis resultados de economia política que não considero particularmente ideais.

 Mas o que o trabalhador que conseguiu o emprego com menor salário também recebeu foi uma formação sobre como chegar ao trabalho na hora certa, como trabalhar um dia inteiro. Eles adquiriam algumas competências e alguns comportamentos que funcionavam amplamente no mercado de trabalho. Com o tempo, eles subiriam na escala dos rendimentos salariais e a maioria deles acabava por chegar à classe média e comprar uma casa. Isso está a desmoronar-se.

Se esse motor de crescimento para as pessoas foi eliminado, poderíamos então estar diante de uma subclasse permanente que comporta um conjunto totalmente diferente de conotações para uma sociedade o que, para mim, é altamente preocupante.

Na exposição por mim enviada às autoridades portuguesas interrogo-me pois se os tempos de hoje, tempo da Democracia, no que diz respeito aos precários, aos de muito poucas posses ou mesmo de nenhumas, são relativamente muito diferentes dos tempos do fascismo de antes dos anos sessenta. Para estes precários de hoje, e a minha neta irá fazer no futuro parte destes, não creio que haja muita diferença face aos precários de outrora como se mostra com a história na exposição relatada, uns e outros terão tido ou têm o sentimento de terem vivido ou de viverem numa sociedade bloqueada em termos de futuro. Se a minha tese está certa, creio então que devemos todos ter vergonha disso mesmo, após mais de 40 anos de Democracia.

Ao ler a resposta do Serviço Nacional de Saúde, reproduzida na Adenda, fica-se com a sensação amarga, muito amarga mesmo de que se verifica a crítica que Charles Hugh Smith faz às democracias atuais, sobretudo à democracia americana quanto nos diz que “a democracia já não tem nada a ver com um sistema que tem como função resolver os problemas reais e ser um sistema baseado na responsabilização das pessoas. O sistema democrático passou a ter como função persuadir o público de que tudo está bem ou então de o distrair com controvérsias estéreis.

Pior ainda, com essa resposta do Serviço Nacional de Saúde e de acordo com o que exponho às autoridades portuguesas na exposição acima referida, fico dolorosamente com a sensação de que no fascismo do tempo de Salazar e antes dos anos sessenta se tinha em termos relativos mais cuidado com os que nada ou quase nada tinham do que se tem agora, evidentemente na condição, claro, de que não se pertencesse à pequena e média burguesia esclarecida, até porque o que o fascismo mais temia era a cultura, nem se pertencesse ao núcleo duro de uma classe operária ainda em fraca ritmo de construção de uma consciência de classe e que sob a égide do PC se constituiu depois como um dos motores da Revolução de Abril. Mas estes estratos sociais pesavam pouco na sociedade portuguesa de então.

Esta realidade, é certo, modificou-se radicalmente, depois do início dos anos sessenta por diversas razões. Entre estas sublinho:

  • o aparecimento da guerra colonial, com o forte aumento das despesas militares e da correspondente mobilização militar.
  • o disparar da emigração, o que levou a fortes modificações no mercado de trabalho, na estrutura salarial, no aumento dos salários e na correspondente consciência para si da classe trabalhadora.
  • a plastificação intelectual das forças militares, pela entrada de muitos universitários nas fileiras das forças armadas.
  • as diversas crises estudantis ligadas também à contestação e à guerra colonial.
  • a agudização da consciência de classe da pequena e média burguesia, bloqueada por um sistema assente em baixos salários, não industrializado, e em que via os seus filhos a serem destruídos pela guerra, e é neste período que nascem, por exemplo, o MDP/CDE e a SEDES.
  • a necessária entrada de capital estrangeiro, a gerar tanto uma base operária forte, (Lisnave, Setenave, por exemplo), como a gerar a primeira experiência mundial de maquilhadoras (Timex, Applied Magnetics, Siemens, etc). E aqui não podemos esquecer a enorme pressão que as multinacionais fizeram sobre o governo de Marcelo Caetano para que desvalorizasse o escudo. No quadro das maquilhadoras em presença, trabalhava-se já da mesma forma e com o mesmo objetivo que mais tarde se viria a trabalhar nas zonas económicas especiais na China ou ao longo da mais longa fronteira de maquilhadoras do Mundo, a fronteira do México com os Estados Unidos, ou seja a trabalharem apenas para exportação. Neste caso, a desvalorização do escudo corresponderia a uma transformação de custos em lucros, uma vez que todos os custos em moeda nacional ficariam mais baratos em moeda estrangeira e os lucros aumentariam no mesmo montante em que se reduziam os custos.

Todos estes fenómenos, que claramente estavam interligados, levaram à erosão do sistema e criaram as condições objetivas que desembocaram no golpe de Estado do 25 de Abril. A seguir, este transformou-se em revolução popular por obra das Forças Armadas, dos movimentos populares sejam eles oriundos da classe operária, do campesinato, ou do setor terciário, ou ainda e também da pressão exercida pela pequena e média burguesia, todos estes estratos sociais robustecidos na sua consciência de classe pelas suas lutas sobretudo na década dos anos 60 e princípio dos anos setenta. Foram todos estes movimentos que levaram a que o golpe de Estado de Abril se tenha transformado depois numa revolução que portas mil de esperança ao povo português abriu mas que entretanto fomos deixando fechar, uma após outra até ao aparecimento da Troika e dos governos que assumiram ser a sua expressão e a sua extensão.

Ora, trata-se de começar a abrir as portas que outros fecharam e é urgente que isso comece a ser feito. Fazê-lo exige estabelecer políticas de reversão das políticas até há pouco seguidas e é essa necessidade de reversão que o caso da minha neta e das 300 crianças que esperam por cuidados de saúde no Hospital Pediátrico, e noutros possivelmente, evidencia. Por isso o trazemos à luz do dia face aos silêncios dos gabinetes.

Não insistir na necessidade da reversão, não impor a sua própria realização, se bem que faseada de forma diferenciada em atuações sobre o muito curto prazo e ações sobre o médio e longo prazo, significa, parafraseando Doug Duncan, de Fannie Mae, que se esse motor de desenvolvimento e de aprofundamento da Democracia não for estabelecido, não for disponibilizado para toda a gente, poderíamos então estar a manter e a alargar uma subclasse permanente que comporta um conjunto totalmente diferente de conotações para uma sociedade democrática o que, para mim, é altamente preocupante. E como se viu na nota sobre o jornal Observador, como poderia ser igualmente com O Correio da Manhã, o certo é que a Direita espreita, e disposta a lançar veneno sobre as incapacidades da esquerda e a sua falta de opções, tão condicionada está ela pelo travão que Mário Centeno impõe, colocando a austeridade em primeiro lugar. E contra isto não há belos discursos que valham.

Tudo isto exige que não sejamos todo Centeno, antes pelo contrário, exige-se que todos nós sejamos contra Centeno, exige que se tenha como meta a alcançar o aprofundamento da Democracia em vez da austeridade, e as duas metas são entre si contraditórias. Há pois que escolher, senão é a fúria da realidade que escolherá por nós e aí será, então, tarde demais para a Democracia, para as esperanças renovadas de Abril que a geringonça voltou a alimentar.

Coimbra, 25 de Abril de 2018

Notas

[1]  Os quinze dias passaram e o silêncio das autoridades é aqui pesado como o chumbo. Nem sequer a carta a marcar a data para ir fazer as análises foi recebida. É pois tudo isto que me leva a tornar pública a carta enviada ao Primeiro-ministro, ao Ministro da Saúde e ao Diretor do Hospital Pediátrico, assim como estas Reflexões em torno do espírito de Abril.

[2]  Os custos são neste caso necessariamente muito superiores a uma ida normal ao dentista, quanto mais no caso da minha neta em que a sua ida ao dentista era gratuita, por se tratar de uma especialista minha amiga.

[3]  Não acredito que seja uma coincidência, mas sim uma campanha orquestrada para denegrir a geringonça. Partindo de factos autênticos, vestindo-se para isso de pele de cordeiro, eis a Direita a ignorar o que fez e a tornar agora responsável a geringonça pelo que esta não fez. Ainda agora o jornal eletrónico Observador começa a lançar uma campanha contra os serviços públicos, aparentemente com o propósito de querer que estes sejam melhorados! Diz-nos o jornal:

“Conhece algum caso em que o Estado está a falhar? O seu hospital não funciona? Chove na Escola onde o seu filho anda? A esquadra tem más condições? Preencha o formulário para os jornalistas do Observador investigarem.”

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