Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 1. Em forma de conclusão e como homenagem ao Carlos Tenreiro, caminhando por terrenos que com muita mestria ele dominava: a política económica e monetária (2ª parte-conclusão). Por Júlio Marques Mota

Carlos Tenreiro

Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

1. Em forma de conclusão e como homenagem ao Carlos Tenreiro, caminhando por terrenos que com muita mestria ele dominava: a política económica e monetária (2ª parte-conclusão)

Por Júlio Marques Mota, 15 de abril de 2018 julio-marques-mota

 

(2ª parte-conclusão)

3. A taxa de juro neutra e o modelo neoliberal

O que a taxa de juro neutra nos mostra é que a sua determinação revela que esta é uma construção teórica que exige a aplicação e a verificação do modelo neoclássico com todas as suas hipóteses, sejam elas, o conceito de crescimento equilibrado, o conceito de taxa NAIRU, de PIB potencial, que ninguém sabe bem o que é, acrescentemos, o conceito de produtividade marginal dos fatores, de produtividade global dos fatores e assim sucessivamente. Com a confirmação da derrocada do modelo, eis-nos que os mesmos conceitos perduram mesmo para além dessa derrocada.

Um exemplo curioso é-nos fornecido por um documento do BNP PariBas, de 8 de junho de 2017, intitulado Où se trouve le niveau du taux neutre? :

Eis as mudanças mais evidentes que influenciaram a política monetária na OCDE [depois do rebentar da crise em 2008]:

1) Um endividamento muito mais elevado, o que tornou as economias mais sensíveis às taxas de juros e menos resistentes aos aumentos dessas mesmas taxas.

2) Uma diminuição relativamente recente do desemprego apesar do crescimento moderado do PIB, um sinal da diminuição das taxas de crescimento potencial do PIB.

Se estas duas alterações se afiguravam agora como estruturais, a nova taxa diretora “normal” seria inferior à taxa antiga tida antes como sendo a taxa “normal”. Para verificar esta hipótese, e em caso afirmativo, para saber o quão longe a nova taxa “normal” desceria, analisei a evolução da taxa de crescimento potencial do PIB numa dada conjuntura durante a última década. Uma vez que é frequentemente reconhecido que a taxa de crescimento potencial do PIB evolui em conjunto com a taxa de juro diretora neutra, qualquer variação na primeira leva a uma mudança na segunda.

Existem várias razões para esta relação entre a taxa de crescimento potencial do PIB e a taxa de juro diretora neutra. Em primeiro lugar, a taxa de crescimento potencial é a que se aplica quando uma economia está em equilíbrio, ou seja, quando a inflação é estável e coerente com o objetivo, e em que todos os recursos são utilizados, ou seja, quando o PIB assume o seu valor potencial. Neste caso, a taxa de juro diretora também deve ser neutra.

A segunda razão é que a taxa de crescimento potencial do PIB pode ser vista como um indicador do rendimento financeiro de uma economia em situação de crescimento equilibrado como foi acima definido. Apesar dos riscos quanto ao investimento financeiro (enquanto a taxa diretora é isenta de risco), a taxa potencial neutra reflete o retorno de um investimento bem diversificado do qual a taxa diretora não se deve desviar muito.

A terceira razão é que os fatores estruturais que influenciam o crescimento potencial do PIB também influenciam a economia em geral. Por exemplo, há razões para acreditar que o declínio da taxa de crescimento potencial da OCDE resulta de um declínio na produtividade total dos fatores. Se esta afirmação está correta, então a procura de investimento também deve diminuir, o que reduziria a necessidade de aumentar as taxas diretoras.

É evidente que é difícil acompanhar a evolução das taxas de crescimento potenciais devido a fatores variáveis inobserváveis. Por isso, devemos desenvolver um modelo que reflita as propriedades do crescimento potencial. Para o efeito apoiámo-nos no trabalho de Arthur Okun de 1962. Este último estava interessado na ligação entre o crescimento económico e o desemprego. No início dos anos 1960, ele demonstrou, de modo empírico, que cada aumento de 1% no desemprego causava uma diminuição de 2% sobre a taxa do crescimento potencial do PIB. Refiz essa análise usando dados atualizados para os Estados Unidos. O gráfico 1 mostra que a relação entre variações no crescimento do PIB e o desemprego permanece válida.

Gráfico 1. Relação entre crescimento do PIB e a taxa de desemprego

Texto 1 7

Fonte:  BEA, BLS, em 8 de Junho de 2017

A relação acima foi chamada de «lei Okun». Esta lei foi modificada várias vezes desde o seu lançamento nos anos de 1960. Aqui é utilizada a lei Okun segundo as duas fórmulas seguintes:

Texto 1 8

Estas fórmulas permitem-me estimar a taxa de crescimento potencial real de uma economia, bem como a NAIRU, que indica em que ponto se deve situar a taxa de desemprego quando a economia está em equilíbrio.

A taxa de crescimento potencial representa a taxa de crescimento quando o desemprego se mantém constante, ou seja, quando o rácio da primeira equação define a taxa de crescimento potencial real. Na segunda equação, a2 define o nível da NAIRU [7]. Dividi os dados em duas amostras, uma amostra referente ao longo prazo (1949-2016) e outra no curto prazo (1995-2016) para analisar a evolução da relação destas variáveis ao longo do tempo. Depois, apliquei as regressões sobre os dados dos Estados Unidos, da zona euro, da Suécia e da Noruega. Utilizei vários pontos de partida com base na qualidade dos dados a que tive acesso.

Os resultados são os seguintes (observe que o crescimento dos dois países nórdicos é maior do que o verificado na zona euro):

Texto 1 9

De acordo com estimativas, as taxas de crescimento potencial reais desceram na maioria de países ou regiões em aproximadamente 1%, enquanto o crescimento potencial foi mais elevado nos Estados Unidos do que na zona euro. Mostram também que os dois países nórdicos, a Noruega e a Suécia, apresentam taxas de crescimento potenciais mais elevadas, e próximas da dos Estados Unidos. Ao contrário dos Estados Unidos ou da zona euro, o crescimento potencial do PIB da Suécia não diminuiu, sugerindo melhorias estruturais na economia sueca (talvez o mesmo se passe com a Noruega), que lhe permitiu funcionar a contracorrente da tendência global caracterizada por um declínio nas taxas de crescimento potencial. Se estes dados estiverem corretos, eles implicam que a taxa de juro diretora neutra para a Noruega e a Suécia é superior à da zona do euro, o que deveria conduzir a uma apreciação potencial das suas moedas. Fortes de um crescimento a longo prazo e de uma moeda mais forte, os países nórdicos são realmente atrativos para os investidores. A tendência para a descida da taxa de crescimento potencial nos Estados Unidos e na zona euro coaduna-se claramente com a crença geral de que a nova norma como taxa diretora neutra é menor em 1% do que antes da falência do Lemon Brothers. O mesmo é válido para as estimativas de que o crescimento potencial do PIB americano é superior ao da zona euro. Esta discrepância é devida à maior flexibilidade e dinamismo da economia americana.

A Reserva Federal dos EUA (FED) foi o primeiro grande banco central a eliminar as suas medidas de estímulo monetário. O seu primeiro objetivo é a neutralidade monetária através de uma redução no seu programa de flexibilização quantitativa (QE) e um aumento na sua taxa diretora. No entanto, até que valor deve o FED aumentar as suas taxas antes da sua política monetária começar a pesar sobre a atividade económica, em vez de apoiá-la, como tem sido feito atualmente? As estimativas na tabela acima indicam que a taxa neutra deve ser ligeiramente inferior a 4%.” (sublinhado do texto é da nossa responsabilidade)

[Curiosamente, em fevereiro de 2018, o programa do FED aponta para esta evolução, e é neste quadro que se desenrolou o grande abalo sistémico que atravessou as principais bolsas mundiais em Fevereiro de 2018.]

Relativamente à variação das taxas pelo FED este ponto é ilustrado no gráfico abaixo, onde o crescimento potencial real é estimado com base na lei de Okun, que usa uma regressão recursiva para estabelecer a evolução ao longo do tempo e compará-lo com a taxa diretora em termos reais dos Estados Unidos. De acordo com o gráfico, a taxa diretora real observada é na maior parte do tempo menor do que a taxa de crescimento potencial. Este resultado era de prever, uma vez que a taxa diretora efetivamente praticada é sem risco quando a economia é frágil durante a maior parte do período, o que justifica uma menor taxa diretora inferior ao nível da taxa de juro neutra. No entanto, as duas variáveis não parecem evoluir da mesma maneira, o que alguns interpretam como um enfraquecimento recente da relação entre elas.

Texto 1 10

Por conseguinte, deve verificar-se se os fatores que influenciam a oferta e a procura de capitais permitiriam explicar melhor e antecipar a taxa diretora neutra (…).”

É pois claro que a importância da taxa de juro neutra é aquela que lhe confere pura e simplesmente o modelo neoliberal com todo o seu vasto e complexo quadro de hipóteses que nada têm a ver com a realidade, em tudo o que envolve, por exemplo, a determinação do PIB potencial que é mais uma variável inobservável e derivada de outras variáveis igualmente não observáveis, e o drama todo que se mostra à evidência depois de 2008 é que tudo se faz para torcer a realidade de modo a torná-la conforme com o modelo que sustenta a classe dominante no poder. Voltaremos ainda a este tema.

Vejamos um excerto de texto bem significativo retirado de um documento oficial do Banco do Canadá ( The Neutral Rate of Interest in Canada, setembro de 2014):

Uma medida da posição neutra da política monetária, a taxa de juro neutra, fornece uma referência em relação à qual se pode avaliar o grau de estímulo monetário numa economia.

(…)

Todo o investimento deve, em última análise, ser financiado pela poupança. A nível mundial, ou seja, numa economia fechada, isso significa que o investimento e a poupança devem sempre ser iguais [8]. Mas a igualdade de poupança e investimento não é automática. As famílias decidem quanto economizar com base nos níveis de rendimento atual e no seu rendimento esperado e na taxa de retorno que eles podem ganhar com as suas poupanças (a taxa de juros). Da mesma forma, as empresas escolhem quanto investir em novos capitais com base no custo de financiamento (taxa de juro) e no retorno marginal esperado sobre o investimento de capital (o produto marginal do capital).

Texto 1 11

No curto prazo, os ajustamentos ao nível do rendimento (ou do PIB) podem tornar a poupança desejada (poupança ex-ante) igual ao investimento desejado (investimento ex-ante) a uma qualquer dada taxa de juro. No entanto, no longo prazo, é de esperar que a produção atinja o valor potencial (ou de pleno emprego). Assim, após os efeitos cíclicos de todos os choques se terem dissipado, (os efeitos conjunturais) apenas a taxa de juro pode tornar a poupança igual ao investimento. A taxa de juro que assegura que a poupança é igual ao investimento a longo prazo é a taxa neutra (Figura 1). Isso fornece-nos o enquadramento para refletirmos sobre os determinantes da taxa neutra: podemos analisar os determinantes da poupança e do investimento. (…)

Sobre este tipo de raciocínio tipicamente neoclássico deixem-me citar aqui Lautenbach sobre a relação entre poupança e investimento:

(…) Sublinhando assim o contraste com a teoria tradicional, podemos afirmar que a análise da atividade económica nos indica: não é o investimento que é determinado pela poupança, mas, inversamente, é sim a poupança que é determinada pelo investimento. A poupança é um puro conceito de distribuição. A poupança não decide qual é o volume total do investimento, mas apenas determina a proporção em que as diversas entidades económicas contribuem para o crescimento da economia com o investimento realizado.

[A este propósito assinala Heiner Flassbeck: “… investimento e poupança são sempre entre si iguais, não há nenhuma necessidade da taxa de juro para que se verifiquem compensações ou ajustamentos de modo a que investimento e poupança sejam iguais. A taxa de juro, essa sim, tem a função de permitir controlar o investimento de forma racional, ou seja, para que a economia funcione a nível do pleno emprego e em condições normais de trabalho e que todas as forças produtivas sejam plenamente utilizadas.]

(…) Não há a menor dúvida de que esta afirmação é verdadeira e aplica-se à economia fechada. Mas essa afirmação não inclui nenhum juízo de valor sobre a poupança. No máximo, leva a que se obtenha uma tomada de consciência que faz descer a poupança do reino das nuvens altíssimas, em cujo trono estava sentada e em plena glória, para a terra onde irá perder uma parte da sua imagem divina e da sua pureza angelical. (…)” (vd. Crise da Democracia, Crise da Política, Crise da Economia: o olhar de alguns analistas não neoliberais – 1. Fundamentos da Teoria Económica (4ª parte), por Wilhelm Lautenbach).

Estamos a citar um texto dos anos de 1930, e o contraste com o texto do banco central do Canadá é abissal. Trata-se de visões do mundo e da realidade diametralmente opostas.

No caso do texto do Banco Central do Canadá, sublinhemos apenas que se passa do curto prazo (explicado de uma forma altamente discutível) para o médio e longo prazo com uma facilidade brutal, como realidades distintas, como se o longo prazo não seja o resultado de interações e múltiplos períodos de curto prazo! Passa-se no texto do Canadá de conceitos como poupança e investimento desejado a poupança e investimento efetivo mais rapidamente do que passa um gato sobre brasas.

E teoricamente as questões de fundo, e profundas, que estão por detrás destas relações e entre elas, são pura e simplesmente ignoradas. Dizem-nos ainda que a longo prazo deve-se esperar que “a produção atinja o valor potencial (ou de pleno emprego)”, e isto mostra de modo impressionante a forma ligeira como os neoliberais nos explicam a realidade económica. Dito por outras palavras, isto mostra-nos como é que os modelos dos neoliberais são uma representação, como todos os modelos, mas aqui de uma realidade que não é certamente a nossa, a de todos nós, são a representação de uma “realidade” totalmente imaginária, o que nos faz lembrar aqui o livro de Paul Watzlawick, questionando se a realidade é real.

 Os mesmos que dizem que a taxa de juro neutra é a medida que serve de referência para a política monetária, dizem-nos acreditarem que ela exista! Paralelamente temos aqui os conceitos de pleno emprego e de PIB potencial, para além do conceito de produtividade marginal dos fatores, os quais, objetivamente, ninguém sabe o que é! Mas deixemos a produtividade marginal dos fatores de lado, uma vez que este conceito é aqui “irrelevante” [9]  e retomemos então os conceitos de PIB potencial e de pleno emprego, com tudo o que estes conceitos envolvem, como por exemplo a NAIRU [10].

Vejamos o que nos diz John Mauldin, num importante texto, de 18 de fevereiro de 2018, intitulado A Dependência dos Dados … de Dados Imaginários, citando um artigo de Jared Bernstein (The Washington Post de 12 de fevereiro de 2018):

“Os eventos recentes expuseram um buraco no meio do conhecimento dos economistas sobre os principais parâmetros económicos: não sabemos nem a taxa de desemprego ao nível do pleno emprego nem o nível potencial do produto interno bruto (PIB).

Esse buraco é particularmente importante neste momento. A combinação do corte de impostos financiado pelo défice e a nova lei sobre as despesas públicas estão a injetar centenas de milhares de milhões numa economia que muitos argumentam que já está ao nível do pleno emprego. Se assim é, então a maior parte dessa despesa extra não levará a novos investimentos, empregos ou a salários reais mais altos. Quando os recursos humanos e de capital da economia estão totalmente utilizados (o PIB real é igual ao PIB potencial), o estímulo fiscal apenas gera inflação e taxas de juros mais elevadas. Mesmo que a procura extra possa criar alguma pressão salarial, será atingida com uma inflação maior, de modo que os salários reais – o poder real de compra do salário – não mudarão de modo algum.

O problema é que aqueles que avançam este argumento afirmam implicitamente saber que a “taxa natural de desemprego” – a menor taxa de desemprego consistente com a inflação estável – é aproximadamente igual à atual taxa de desemprego. Ou seja, eles acreditam que estamos no pleno emprego. Mas a verdade é que eles não têm como saber isso, e um indicador-chave – a inflação – sugere que eles podem estar errados.

Mais adiante diz John Mauldin:

Se o leitor argumenta que estamos em “pleno emprego”, segue-se daí que está então à espera de que haja uma inflação salarial. Mas isso não é o que estamos a ver. Oitenta por cento dos trabalhadores estão a ver muito pouco crescimento salarial. (…)

(…)

Depois, há o “PIB potencial”[11], ou a produção teórica máxima não inflacionária do país. O que é que isso nos diz? Em primeiro lugar, notemos que dificilmente adotamos o PIB real, embora este seja uma função de (principalmente) dados observáveis. Um pequeno exército de pessoas passa toda a sua carreira recolhendo os dados de entradas no PIB. Eles também fazem um bom trabalho; mas ninguém sabe realmente se eles estão a coletar os dados certos para apoiar as conclusões que todos tiram. Além disso, o PIB não mede todas as coisas que costumávamos comprar a preços significativamente mais elevados, que contribuiram para o PIB, mas que agora (por exemplo) estão disponíveis nos nossos telefones a custo “zero”.

Escrevi já textos inteiros a falar sobre as limitações da medição do PIB. Compreendo totalmente porque é que devemos ter a medição do PIB, mas precisamos reconhecer o que é e o que não é. Não é um número significativo e exato entregue do Monte Olimpo pelos deuses da economia. É, na melhor das hipóteses, uma concatenação de aproximações, cujo movimento, com base nessas aproximações, nos pode dar informações sobre a economia – mas não com uma qualquer precisão real. O Google Maps fornece-nos direções muito precisas. O valor do PIB parece-se mais como “Estamos a ir para o oeste; não vamos para o norte”.

Depois usamos essa estimativa do PIB, essa distorcida e incompleta medida de crescimento, para inferir o PIB potencial, ou o quão elevado este valor nebuloso poderia ser se alguns dos valores das suas entradas, os insumos, mudassem.

Então perguntamo-nos quão perto estamos desse vago derivado de uma medida incompleta resultante de uma construção hipotética, para que possamos modificar as políticas fiscais e monetárias. É importante entender que se, de facto, agora começamos a ultrapassar o nosso PIB potencial, a teoria económica sugere que a inflação – e talvez nem mesmo uma inflação moderada – esteja bem ali, já ao virar da esquina. Eu não sou um economista doutorado, mas para mim isto parece uma hipótese imprudente.

(…)

Os astrónomos podem olhar para os céus e inferir que os planetas que eles não conseguem ver estão a girar em torno de estrelas que eles podem ver. Eles podem fazer isso porque compreendem com alguma precisão como é que funciona a gravidade. (…) A economia possui pouco tais certezas, embora muitos economistas pensem que sim, ou pelo menos é isso que desejam.

Confiança zero

Isso leva-nos ao atual dilema do mercado. Está a economia perto da situação de sobreaquecimento, ou não? Pessoas verdadeiramente sinceras olham para os mesmos dados e aparecem com respostas radicalmente diferentes. Isso não aconteceria se a economia fosse uma ciência dura. Nós aplicaríamos os dados às leis conhecidas e a resposta correta seria óbvia. Não, isto não é nada óbvio, mas os decisores políticos atuam como se assim fosse. (…).”

Creio ficarmos entendidos quanto à capacidade explicativa dos modelos teóricos dominantes, a teoria neoliberal, nem que seja a propósito da taxa de juro neutra, que eles acreditam que existe, e com tudo o que ela pressupõe!

 

4. A ciência económica neoliberal: um mito como ciência e um enorme desperdício de recursos

Chegados aqui, deixem-me citar dois excertos do texto Rachas, de 3 de março de 2018, de Doug Noland, texto este que adiciono à coletânea publicada em homenagem ao meu antigo colega e amigo Carlos Tenreiro, recentemente falecido, texto este que se insere dentro da área científica em que durante muitos anos seriamente trabalhou.

Diz-nos um texto reproduzido por Doug Noland:

“27 de Fevereiro – Bloomberg (Jeanna Smialek): “Chamemos-lhe a guerra das estrelas. O debate começa a aquecer sobre se a taxa de juro neutra da Reserva Federal – comumente chamada de r-star – está prestes a aumentar e a perspetiva sobre a política monetária dos Estados Unidos gira em torno de quem tem razão. Por um lado, o presidente do Fed de San Francisco, John Williams e os seus co-autores, pensam que os fatores de longo prazo estão a manter a taxa de juro que não aviva nem retarda o crescimento, o que terá de levar o FED a ter de deixar de aumentar as taxas de juro deste ciclo e num ponto historicamente baixo. Por outro lado, o economista-chefe da Goldman Sachs, Jan Hatzius, acha que o declínio recente se deve a fatores cíclicos e pode reverter-se de forma significativa, permitindo ao Fed elevar as taxas no próximo ano. O confronto intelectual é relevante, pois Jerome Powell dirige-se para Capitol Hill terça-feira para o seu primeiro testemunho como Presidente do FED e, como os observadores do banco central procuram ansiosamente pistas sobre como o novo chefe espera que a r-neutra evolua “.

E Doug Noland diz:

Uma quantidade incrível de esforço intelectual tem sido gasta sobre a “r-neutra”, sobre a curva de Philipps, a NAIRU (non-accelerating inflation rate of unemployment- em português, “taxa de desemprego não aceleradora da inflação”) e similares. “R-neutra” – a taxa neutra – é um mito. Não há um nível único de preço agregado – não existe uma taxa de juro de equilíbrio. Importante, as três práticas épicas [vd. mais abaixo] alteraram completamente a dinâmica dos preços na finança e na economia real. Quanto à inflação esta já não é interpretada como havendo demasiado dinheiro à procura de poucos bens e serviços. Demasiado “dinheiro” – nesta era de avanço tecnológico importante, de globalização e de mudanças na natureza da produção económica – já não tem como sendo a sua principal manifestação a problemática da inflação dos preços ao consumidor.

Existem, em vez disso, fortes vagas inflacionárias nos mercados de valores mobiliários e ativos. Demasiado “dinheiro” – e apoio ativo do banco central – procurando quantidades limitadas de títulos (e casas de luxo, imóveis comerciais, arte, peças de coleção, etc.) Os académicos precisam de abandonar a ideia da taxa “r-neutra”. Determinar a política monetária com base numa noção complicada de índices agregados de preços ao consumidor (ou de equilíbrio económico) no cenário atual assegurará um financiamento desestabilizador para os mercados de valores mobiliários e de outros ativos.

No testemunho de Powell, mencionou-se a visão há muito tempo aceite de que os bancos centrais não deveriam estar envolvidos na atividade de alocação de crédito. No entanto, os banqueiros centrais contemporâneos foram até ao ponto de favorecer ostensivamente os mercados de valores mobiliários. Isto é fundamental para explicar a razão pela qual os riscos de estabilidade financeira reinam agora de uma forma absoluta. Os banqueiros centrais devem ter uma visão ampla da estabilidade monetária e começarem a libertarem-se da atividade de incentivar os fluxos financeiros e a especulação nos mercados. Eu sei, outros estão em desacordo, mas acredito que a maioria dos banqueiros centrais prefere voltar à gestão monetária tradicional. Depois de quase uma década, eles ficaram cansados da experiência; de racionalizarem a experiência; de justificarem a experiência.

E a conclusão que tira Doug Noland da situação presente é a seguinte:

Ao longo dos anos, as nossas [do Nasdaq] análises centraram-se em três práticas épicas e inter-relacionadas: 1) Financiamento sem entraves na base do mercado. 2) Uma estrutura económica americana desindustrializada e baseada nos serviços e no consumo. 3) Inflação monetária através da política ativa do Banco Central e manipulação de mercado.

Estas práticas desenfreadas tiveram como efeito combinado inundar o mundo com “dinheiro” (as posições financeiras expressas em dólares), inflacionando bolhas de ativos históricas interna e externamente. A finança americana desequilibrada tem tido como prática desequilibrar as finanças a nível global. Segundo um título de sexta-feira do ZeroHedge: “Pat Buchanan Blasts ‘The Fatal Delusions of Western Man – We fed the Tiger, and Created a Monster…- Os sinais de alarme de Pat Buchanan- As ilusões fatais do homem ocidental – nós alimentámos o tigre e criámos um monstro”. a China é inigualável em termos de alimentar as finanças sem restrições em dólares enquanto defende o seu poder económico, a sua riqueza nacional, o seu poder militar e as suas ambições globais. E, enquanto a bolha não explodir, não teremos uma compreensão mais clara sobre a quantidade de riqueza que foi redistribuída e sobre o quanto foi roubado e destruído – e para o que haverá inevitavelmente graves consequências.

As miríades das bolhas globais têm sido fundamentais para uma redistribuição sem precedentes da riqueza, para um enorme aumento da desigualdade e para a estagnação económica – um combustível potente para o populismo e para os movimentos anti-globalização (domingo haverá eleições italianas). O pano de fundo alimentou a ascensão do homem forte político, ditador e déspota. Num mundo profundamente dividido, aparentemente o único entendimento comum é que os banqueiros centrais e os decisores políticos não tolerarão a deslocação do mercado, a recessão ou a crise”.

E do populismo Doug Noland dá-nos um bom exemplo, Donald Trump. Mas vale a pena ler os comentários que ele reproduz:

2 de março – Bloomberg (Joe Deaux, Andrew Mayeda, Toluse Olorunnipa e Jeff Black): “O presidente Donald Trump respondeu contra uma onda de críticas relativamente às tarifas aplicadas sobre e aço, dizendo ao mundo que não só as guerras comerciais são boas, como são fáceis de vencer. Trump está a enfrentar a raiva de industriais e parceiros comerciais na China e na Europa após ter anunciado tarifas de 25% sobre o aço importado e 10% sobre o alumínio por “um longo período de tempo”. A ordem formal deverá ser assinada na próxima semana. “Quando um país (EUA) está a perder muitos milhares de milhões de dólares em comércio com praticamente todos os países com os quais negoceia, as guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, disse Trump num tweet de manhã cedo na sexta-feira.

2 Março – Axios (Mike Allen e Jonathan Swan): “O presidente Trump há muito tempo meditou sobre fazer o que quer, quando quer, como quer. Trump queria tarifas em aço e alumínio – grandes – agora. Trump queria negociar com o Congresso – em público, no tribunal, de surpresa e com muito ruído, tudo para as câmaras. Trump queria abandonar toda e qualquer limitação do Código Penal e considerar a morte ao estilo de Singapura para todos os traficantes de drogas. Trump quer jogar com as suas próprias regras, sozinho. Porque é que isto interessa: a sua equipa de trabalho às vezes conseguiu persuadi-lo. Não mais. Cansado das restrições, cansado da sua equipa, Trump está-se a divertir com passar reprimendas a praticamente todas as pessoas que o servem.”

E diz Doug Noland:

As tarifas de Trump não deviam aparecer como uma surpresa. Talvez os mercados finalmente estejam a começar a chegar a um acordo com o desequilíbrio e a turbulência da presidência do Trump. Os rumores dizem que o menino querido de Wall Street, Gary Cohen, tendo perdido na luta contra as tarifas, poderia estar a caminho de saída da equipa de Trump. É alarmante ver o espetáculo do Presidente referindo-se ao Procurador-Geral como “Desagradável”, e o Sr. Sessões a continuar a afirmar “Eu continuarei a desempenhar as minhas funções com integridade e honra…”

E esta série de textos será concluída com a publicação dos discursos de Elisabeth Warren no Senado dos EUA em que desafia os seus pares a terem consciência do verdadeiro crime que estão a cometer ao aprovar uma lei que revoga os mecanismos financeiros de proteção ao povo americano criados depois do rebentar da crise em 2008, e em que se põem os relógios do sistema financeiro americano ao nível de antes da crise, como se nada de profundamente errado tivesse ocorrido entre 2008 e agora!

Assim, com essa notável intervenção no Senado de Elisabeth Warren concluiremos a série dedicada ao meu amigo e antigo colega Carlos Tenreiro, agora falecido.

 

Notas

[7] NAIRU : taxa de desemprego não inflacionista; se o desemprego desce abaixo deste limite de referência, a inflação acelera-se.

[8] Em economia fechada os valores de poupança e investimento são sempre iguais, o que é verdade por definição e, portanto, no plano dos factos, no plano da “realidade real” não tem qualquer sentido considerar as curvas S e I como independentes. É certo que o autor se escuda em falar em termos de grandezas desejáveis, mas depois passa desse plano para um outro igualmente desejável que espera vir a verificar-se! Sendo sempre I=S qualquer que seja a taxa de juro em economia fechada, teremos em economia aberta, uma relação equivalente. Nesta última hipótese, diremos então que a poupança líquida (S-I) é sempre igual à soma do défice orçamental (G-T) com a posição líquida externa (X-M), o que nos dá as famosas relações diabólicas a que se refere o economista chefe de Nomura, Richard Koo. Para uma análise rigorosa sobre o absurdo das curvas abaixo representadas como explicação da realidade a que se querem referir, veja-se de entre diversos artigos já publicados no blog A Viagem dos Argonautas o trabalho de Lautenbach sobre a igualdade I=S qualquer que seja a taxa de juro intitulado Fundamentos da Teoria Económica e o texto de Michael Pettis intitulado Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção.

[9]  Sobre este tema veja-se no blog A Viagem dos Argonautas o texto “SOBRE O TEXTO DE  RICARDO A MARX, DE MARX A RICARDO, SOBRE O LIVRO DE PIKETTY, SOBRE A DINÂMICA DAS DESIGUALDADES: ALGUMAS REFLEXÕES” – por JÚLIO MARQUES MOTA – (2 a 12 de junho de 2014).

[10] Sobre este conceito veja-se no mesmo blog, por exemplo, toda uma série de textos dedicada a este conceito, entre os quais “A NAIRU explicada: porque é que os economistas não pretendem que o desemprego se venha a situar a um nível demasiado baixo” (23 e 24 de dezembro de 2014).

[11] Sublinhado nosso.

 

Principais referências bibliográficas da presente nota de leitura:

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