Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 7. Não haverá nenhum boom económico (1ª parte). Por Lance Roberts

Carlos Tenreiro

Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7. Não haverá nenhum boom económico (1ª parte)

Por Lance Roberts lance roberts de real investment advice

real investment advice em 15 de fevereiro de 2018

Texto 7 1

Na semana passada, o Congresso aprovou uma resolução contínua de 2 anos, ou C.R., para manter o governo financiado durante as eleições de 2018. Embora o “conservadorismo fiscal” tenha sido colocado no altar dos sacrifícios para satisfazer os deuses “reeleitos”, a questão maior é agora o impacto na economia e, em última instância, nos mercados financeiros.

A passagem dos US $ 400 mil milhões da C.R. tem um impacto que muito pouca gente entende. Quando uma C.R. é aprovada, esta mantém os gastos do governo na mesma base anterior mais um aumento de 8%. A recente C.R. apenas adicionou US $ 200 mil milhões por ano a essa linha de base. Isso significa que, durante a próxima década, a C.R. adicionará US $ 2 milhões de milhões em despesas públicas ao orçamento federal. Em seguida, acrescente a isso todas as outras despesas aprovadas, como os 200 mil milhões de dólares propostos num projeto de lei sobre despesas em infraestruturas, como o dinheiro para a reforma da DACA / Imigração ou ainda toda uma série de outros programas de bem-estar social que exigirão financiamento adicional.

Mas isso é apenas metade do problema. A recente aprovação da reforma fiscal reduzirá em cerca de US $ 2 milhões de milhões as receitas nesta mesma década.

Isto é matemática fácil.

Reduza US $ 2 milhões de milhões nas receitas públicas, adicione US $ 2 milhões de milhões em gastos e cria um buraco de US $ 4 milhões de milhões no orçamento. É claro que isso são US $ 4 milhões de milhões em adição à atual taxa de gastos, que continua a atual aceleração do “problema da dívida”.

Texto 7 2

Mas as coisas ainda vão ficar piores.

Como Oxford Economics referiu via Zerohedge:

Os cortes de impostos aprovados no final do ano passado, combinados com a conta de despesas públicas aprovada pelo Congresso na semana passada, farão com que os défices fiquem muito mais altos. Além disso, o próprio orçamento de Trump prevê que a dívida dos EUA atinja US $ 30 milhões de milhões até 2028: um aumento de US $ 10 milhões de milhões.

Oxford está certo. A fim de “pagar” todos os gastos propostos, num momento em que o governo receberá menos receita na forma de arrecadação de impostos, a diferença será financiada por meio de emissão de dívida.

Simon Black  escreveu recentemente uma nota interessante sobre isto:

Há menos de duas semanas, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos divulgou muito discretamente as suas próprias projeções internas para os défices orçamentais do governo federal nos próximos anos. E os números são mesmo muito horríveis.

A fim de preencher os buracos dos seus crescentes défices, o Departamento do Tesouro espera contrair empréstimos de quase US $ 1 milhão de milhões neste ano fiscal. Depois, quase US $ 1,1 milhão de milhões no próximo ano fiscal. E até US $ 1,3 milhão de milhões no ano seguinte.

Isto significa que a dívida nacional excederá US $ 25 milhões de milhões até 30 de setembro de 2020.”

O leitor pode projetar a taxa de execução com bastante facilidade e ela não nos mostra um resultado bonito.

Texto 7 3

É claro que a “responsabilidade orçamental ” é coisa que já não se encontra em Washington desde há muito tempo, por isso, o que são mais US $ 10 milhões de milhões neste momento?

Texto 7 4

Embora esta questão não passe ao lado de uma grande maioria de americanos que “escolhem” prestar-lhe atenção, ela foi rapidamente descartada por grande parte dos meios de comunicação dominantes e pelos congressistas que estão na corrida para a sua reeleição, sugerindo antes que a reforma tributária impulsionará significativamente o crescimento económico na próxima década. A declaração geral foi:

“Ao aprovar a tão necessária reforma tributária, finalmente vamos libertar o motor do crescimento económico que mais do que pagará por estes cortes de impostos no futuro”.

Não descarte a importância de US $ 25 a 30 milhões de milhões em dívida pública dos EUA. É maior do que as dívidas de todas as outras nações do mundo – juntas.

O Congresso matou o boom económico

Embora seja realmente um ótimo ponto de discussão, a realidade é que isso não é verdade.

Como mostrei anteriormente, não há absolutamente nenhuma evidência histórica de que o corte de impostos, sem ser compensado por cortes nas despesas, leve a um crescimento económico mais forte.

Texto 7 5

Até mesmo o congressista Kevin Brady, presidente do Comité Instrumentos e Meios (Ways and Means), da Câmara de Representantes, confirmou o mesmo.

Défices, e défice orçamental, são ALTAMENTE destrutivos para o crescimento económico, pois têm efeitos diretos negativos sobre as receitas brutas e sobre o capital poupado igualmente. Tal como o cancro – a execução de défices adicionais crescentes, juntamente com um défice público continuado, continua a destruir o capital poupado e prejudica a formação de capital.

A dívida é, por sua própria natureza, um cancro no crescimento económico. À medida que os níveis de endividamento aumentam, eles consomem mais capital ao desviá-lo dos investimentos produtivos para o serviço da dívida. À medida que os níveis de dívida se espalham pelo sistema, consomem maiores quantidades de capital até que eventualmente matam o hospedeiro. O gráfico abaixo mostra o aumento da dívida federal e o seu impacto no crescimento económico.

Texto 7 6

A realidade é que a maior parte do crescimento agregado da economia desde 1980 foi financiado por défice governamental, pela criação de crédito e pela redução da poupança. Isso reduziu o investimento produtivo na economia e a produção da economia diminuiu. À medida que a economia desacelerou e os salários caíram, o consumidor foi forçado a assumir mais alavancagem para manter o seu padrão de vida, o que, por sua vez, reduziu a poupança. Como resultado do aumento da alavancagem, uma parcela maior do seu rendimento é necessária para responder ao cargo da dívida – e com isso, o “cancro da dívida” cercou todo o sistema.

A teoria austríaca dos ciclos de negócios tenta explicar os ciclos de negócios por meio de um conjunto de ideias. A teoria vê os ciclos de negócios:

“Como consequência inevitável do crescimento excessivo do crédito bancário, exacerbado por políticas inerentemente prejudiciais e ineficazes do banco central, que fazem com que as taxas de juros permaneçam baixas demais por demasiado tempo, resultando numa criação excessiva de crédito, em bolhas económicas especulativas e na redução da poupança.”

Texto 7 7

O problema que ainda não é reconhecido pelo atual governo e pelos economistas de pensamento dominante é que os défices excessivos e a criação exponencial de crédito já não podem mais ser sustentados. O processo de uma “contração de crédito” acabará por ocorrer sobre um longo período de tempo, à medida que consumidores e governos forem forçados a terem de enfrentar os défices.

A boa notícia é que o processo de “limpeza” do mercado permitirá eventualmente que os recursos sejam realocados de volta para usos mais eficientes e a economia comece a crescer novamente em condições mais sustentáveis e orgânicas.

Hoje, no entanto, as expectativas de um retorno às taxas de crescimento económico do passado são provavelmente apenas um conto de fadas. Os últimos 9 anos dos retornos do mercado de ações foram alimentados por milhões de milhões de dólares de apoio e injeções diretas no sistema financeiro – e esse apoio não é sustentável a longo prazo. Embora as injeções tenham impedido que a economia caísse numa situação de depressão no curto prazo – o desenrolar desse apoio acabará por suprimir o crescimento económico nos anos vindouros.

Não há como alcançar as metas necessárias “sem dor”. O tempo para implementar medidas de austeridade é quando a economia está numa situação de excedente orçamental e se está próximo do pleno emprego. Esse tempo foi duas administrações atrás, quando a economia terá desacelerado mas poderia ter absorvido e ajustado as medidas restritivas. No entanto, quando as coisas estão bem, ninguém quer “concertar o que não está estragado”. O problema hoje é que, com uma alta dependência do apoio do governo, os altos níveis de subemprego e os crescentes défices orçamentais, a implementação de medidas de austeridade só desencorajará o crescimento económico futuro que depende precisamente das coisas que necessitam ser “consertadas”.

Os processos que impulsionaram o crescimento económico nos últimos 30 anos estão agora a começar a acontecer ao contrário, e quando combinados com as mudanças demográficas nos EUA, o impacto pode ser muito mais imediato e prolongado do que os media, os economistas e os analistas estão atualmente a prever. Os sacrifícios terão que ser feitos, a economia arrastar-se-á por baixas taxas de crescimento, os indivíduos terão que trabalhar muito mais tempo para chegarem à idade de passagem à reforma e a próxima geração de americanos levará uma vida muito diferente da vida que a geração atualmente em situação de reforma está a desfrutar.

É simplesmente uma função da matemática.

Texto original em There Will Be No Economic Boom

O autor: Lance Roberts é economista, especialista em mercados financeiros, diretor e editor chefe de Real Investment Advice, chefe de estratégia de portfolio em Clarity Financial.

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