Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – Fronteiras, por Rosa Montero

pobresericos

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Obrigado a Rosa Montero e El País

Fronteiras

Rosa Montero Por Rosa Montero

El Pais semanal, em 6 de julho de 2018

Sinto-me como na cobarde Europa dos anos trinta, observando a subida de Hitler com certa inquietação mas sem querer preocupar-me verdadeiramente.

Durante grande parte da minha vida vivi num mundo em que existia a União Soviética, essa URSS que hoje começa a parecer algo tão remoto como o império hitita. O planeta estava dividido pela cortina de ferro, e um dos argumentos principais que se esgrimiam no nosso lado capitalista para evidenciar a maldade aberrante do sistema contrário era a denúncia da falta de liberdade que os seus cidadãos tinham para se deslocarem. Não podiam sair dos seus países, não podiam cruzar consoante as fronteiras, era-lhes muito difícil obter passaporte. E devo dizer que era uma crítica muito sensata: um sistema que converte os seus cidadãos em reclusos no seu próprio país é um sistema profundamente doente. Em contraposição a isso, nós no Ocidente enchíamos a boca com encomiásticos elogios à nossa mobilidade individual. Todo o ser humano possuía o direito inalienável de se deslocar para onde desejasse, consagrava a propaganda do nosso setor. E eu acreditei nela.

Vinte e nove anos depois da queda do muro de Berlim vivemos numa sociedade na qual esse mesmo sistema ocidental proíbe que dezenas de milhões de pessoas cruzem as fronteiras e que exerçam o seu supostamente inalienável direito de se deslocarem livremente. Segundo a ACNUR agora mesmo existem 68,5 milhões deslocados compulsivos, uma cifra recorde na história. Dir-se-ia que estamos a copiar a antiga URSS, só que, em vez de restringir a mobilidade aos nossos cidadãos, estamos a fazer do resto do mundo uma prisão.

Escrevo tudo isto e sei que, quando coloque este texto na rede, haverá uns quantos que soltarão, julgando-se além disso originais e espertos, o rançoso chavão de “espero que os leveis para as vossas casas”. E é que, à medida que a tragédia aumenta e a mortandade engorda (mais de 3.000 afogados no Mediterrâneo em 2017 a tentarem chegar à Europa), vai crescendo também um populismo xenófobo de uma ferocidade aterradora. Trump metendo crianças em jaulas (o escândalo obrigou-o a dar marcha atrás, mas por quanto tempo?), a Hungria aprovando uma lei que criminaliza a quem ajude os imigrantes, e a Itália, com o ministro Salvini à cabeça, em plena deriva neofascista. Os energúmenos despiram os disfarces: até se vangloriam da sua brutalidade. Sinto-me como na cobarde Europa dos anos trinta, observando a subida de Hitler com certa inquietação mas sem me querer preocupar verdadeiramente, para assim não ter que implicar-me a combatê-lo.

Não digo que o problema não seja difícil de solucionar: é colossal, talvez o maior desafio que o mundo enfrenta hoje. Mas pareceria que nem sequer estamos a tentar procurar uma saída. Só vejo que nos entrincheiramos, que fechamos fronteiras, que condenamos milhões de pessoas à morte ou ao inferno. A magnitude do drama paralisa-nos; preferimos não pensar nisso, converter as vítimas em frios números. Os xenófobos até as culpabilizam: para que vêm? Há um poema chocante que leva um par de anos a incendiar as redes. É de Warsan Shire, uma jovem poeta britânico-somali: “Ninguém abandona o seu lar, a menos que o seu lar seja a boca de um tubarão. Somente corres para a fronteira quando vês que toda a cidade também o faz (…). A criança com quem foste à escola, que te beijou até te dar tonturas detrás da fábrica, segura uma arma maior que o seu corpo (…). Ninguém poderia aguentar isso, ninguém teria a pele suficientemente dura: ‘Voltem para vossa casa, negros’, ‘sujos imigrantes’, ‘querem roubar-nos o que é nosso’ (…). Como podes suportar as palavras, os olhares sujos? Talvez consigas porque esses golpes são mais suaves que a dor de um membro arrancado. Talvez possas porque essas palavras são mais delicadas que catorze homens entre as tuas pernas (…). Quero ir para casa, mas a minha casa é a boca de um tubarão. Ninguém deixaria a sua casa a menos que a sua casa o persiga até à costa”. É um poema largo. Vale a pena procurá-lo na internet e lê-lo. Vale a pena fazer o esforço de não o esquecer. Vale a pena assumir que as fronteiras são hoje o problema mundial mais premente, e que estão na terra mas também dentro de nós mesmos, confinando com a indignidade da nossa indiferença.

 

Texto original em https://elpais.com/elpais/2018/07/02/eps/1530541177_711355.html

 

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