A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (6ª parte-conclusão). Por Michael Pettis

egoista

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (6ª parte-conclusão)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 2 de fevereiro de 2017

 

APÊNDICE 3: O que é que determina a taxa de poupança dos americanos?

Eu mencionei duas hipóteses erradas, mas profundamente ancoradas, que estão por detrás da maioria das discussões à volta da balança comercial. A primeira é que a balança comercial tem primazia sobre a balança de capital. A segunda é que a quantidade de investimento produtivo em qualquer economia, incluindo a dos Estados Unidos, é limitada pela quantidade de poupança. Há uma terceira. Esta é a hipótese implícita de que a taxa de poupança interna de qualquer economia é determinada de forma endógena como função das preferências de poupança familiar.

Esta última hipótese é simplesmente errada, embora infernalmente difícil de remover, e por duas razões. Primeiramente, as poupanças totais incluem as economias dos agregados familiares mas não se limitam a estas, e em muitos casos excedem e em muito as poupanças dos agregados familiares. Segundo, como já foi discutido acima e mostrado várias vezes (vd. por exemplo aqui, aqui [11], e aqui [12]), a exigência de que o excesso de poupança sobre o investimento num país deve ter como contraponto um excesso de investimento sobre a poupança noutro país sginifica, uma vez que reconheçamos que o investimento produtivo não tem que estar restringido pela falta de poupança, que é então puramente uma questão de lógica que em pelo menos um desses dois países a taxa de poupança foi determinada não endogenamente, mas sim pelas condições do outro país. A implicação que a maioria das pessoas acha mais difícil de acreditar é que as taxas de poupança americanas são quase totalmente determinadas fora dos Estados Unidos. As famílias americanas não provocam as baixas poupanças americanas. Enquanto os parceiros comerciais forem exportadores líquidos de capitais para os Estados Unidos, este país deverá ter um défice comercial e a sua taxa de poupança deve cair abaixo da sua taxa de investimento.

Esta hipótese está implicitamente subjacente a grande parte do debate sobre o comércio internacional. Os analistas, por exemplo, argumentarão de forma irrefletida que as taxas de poupança extremamente elevadas da China refletem o comportamento de aforradores das famílias chinesas, e que as taxas de poupança extremamente baixas dos Estados Unidos são a consequência de uma tendência sistemática entre americanos para o sobre consumo, que é simplesmente o oposto da poupança excessivamente baixa do país (e esta é em qualquer economia igual, por definição, ao valor do PIB menos o consumo), e que por esta razão os americanos não economizam o suficiente para satisfazer as necessidades de investimento interno. É por isso, dizem esses analistas, que os Estados Unidos são forçados a explorar a generosidade dos estrangeiros e pedir emprestado no exterior para atender às necessidades de investimento doméstico. Como Yi Wen do banco do Federal Reserve de St. Louis erroneamente explica, a poupança elevada de China tem que ver apenas com as necessidades dos agregados familiares chineses:

Primeiramente, nós precisamos de compreender porque é que a China está disposta a emprestar aos Estados Unidos quando ainda está a lutar com baixo consumo per capita. A resposta é que os agregados familiares chineses precisam de poupar por motivo de precaução, mas não têm boas oportunidades de investimento internamente para as suas poupanças.

Em seguida, continua a utilizar o mesmo erro de lógica para explicar que o défice comercial dos EUA é a consequência das preferências das famílias americanas em termos de poupanças:

Os Estados Unidos têm estado a ter grandes e persistentes défices comerciais com outras economias, especialmente com os mercados emergentes como a China, desde há décadas. Os desequilíbrios comerciais persistentes implicam que os Estados Unidos têm consumido mais do que produzem ou, equivalentemente, economizado menos do que têm investido. Isto significa que os Estados Unidos têm contraído pesados empréstimos no estrangeiro (em especial na China) para financiar o seu investimento interno.

Os críticos dizem que para reequilibrar a sua balança corrente, os Estados Unidos precisam de ou aumentar a sua taxa de poupança ou reduzir a sua taxa de investimento. Ambas as abordagens são dolorosas para a economia americana pois qualquer das medidas levará a uma menor procura agregada e, consequentemente, a uma recuperação económica mais lenta. No entanto, a própria natureza do défice comercial em si oferece uma solução.

O professor Stephen Roach da Universidade de Yale implicitamente faz a mesma suposição num artigo para o blog Project Syndicate:

O que os candidatos não vão dizer ao povo americano é que o défice comercial e as pressões que ele coloca sobre os trabalhadores da classe média decorrem de problemas criados em casa. Na verdade, a verdadeira razão para os EUA terem um défice multilateral tão elevado é que os americanos não aforram.

Roach segue, referindo-se à “sólida identidade em que a poupança deve ser igual ao investimento em cada ponto no tempo.”

Mas há aqui uma torção bem crítica: para importar a poupança estrangeira, os Estados Unidos devem ter um enorme défice internacional como contraponto na balança de pagamentos. A imagem espelhada da escassez de poupança da América é o seu défice na balança corrente, que tem sido em média de 2,6% do PIB desde 1980. É esse défice crónico na balança corrente que impulsiona o défice comercial multilateral com 101 países. Para contrair empréstimos a partir do exterior, a América deve dar aos seus parceiros comerciais algo em troca do seu capital: a procura por produtos feitos no exterior.

É aqui que reside o nó da questão para a politização dos problemas da balança comercial da América. Reduzir drasticamente o comércio com a China, como Donald Trump faria eficazmente com a sua proposta de uma tarifa de 45% sobre os produtos chineses vendidos nos Estados Unidos seria um tiro nos próprios pés. Sem fixar o problema da poupança, a parte chinesa do desequilíbrio comercial multilateral de América seria redistribuída simplesmente por outros países – o mais provável é que o seja a produtores de mais alto custo.

O pressuposto errado aqui é considerar que os Estados Unidos têm uma taxa de poupança muito baixa por razões endógenas, e que a China tem uma taxa de poupança muito elevada por causa de uma propensão cultural a aforrar. Nenhuma destas duas afirmações é verdadeira. No caso da China, as suas taxas de poupança estão entre as mais altas jamais registadas principalmente por causa da baixa parcela que as famílias chinesas têm no PIB, proporção esta que está entre as mais baixas jamais registadas. Como eu escrevi num outro lugar:

A taxa de poupança extraordinariamente elevada da China é quase totalmente explicada pelos mecanismos de transferência que subsidiaram o crescimento rápido ao longo das últimas duas décadas, deixando as famílias chinesas com a menor quota do PIB no mundo, e talvez a mais baixa jamais registada numa grande economia. Aritmeticamente, para não mencionar precedentes históricos, pode facilmente explicar-se porque razão estas transferências, que durante este século ascenderam a qualquer coisa entre 5 e 8 por cento do PIB anualmente, conduziram à redução do peso do consumo das famílias relativamente ao PIB devido à redução do peso do rendimento das famílias por unidade PIB e naturalmente as poupanças elevadas são simplesmente o oposto do baixo consumo.

Dito por outras palavras, a taxa de poupança elevada de China tem muito pouco a ver com os agregados familiares chineses e é na sua maior parte estrutural. É o resultado de três décadas de políticas que subsidiaram o crescimento rápido com transferências do sector doméstico deixando, por isso mesmo, as famílias chinesas com uma quota extremamente baixa do PIB. Não surpreendentemente, o consumo das famílias é, consequentemente, uma parcela extremamente baixa do PIB, como é o consumo total, que consiste principalmente de consumo doméstico. Uma parcela baixa do consumo relativamente ao PIB é o mesmo que dizer que se está perante uma parcela relativamente elevada da poupança por unidade de PIB e, porque a taxa de poupança extraordinariamente elevada de China é mesmo maior do que a sua taxa de investimento muito elevada, a China deve exportar as poupanças excedentárias e ter, como contraponto, uma posição excedentária da sua balança corrente.

Nem a taxa de poupança dos EUA é definida pelas propensões culturais das famílias americanas. Surpreendentemente, como pode inicialmente parecer, por causa da sua balança de capital aberta, do seu sistema financeiro flexível e do seu estatuto de paraíso seguro, as taxas americanas da poupança são largamente a consequência de distorções externas. Para ver porquê, vamos supor que existem apenas dois países no mundo, os Estados Unidos e o Japão, e que as políticas japonesas que fizeram descer a parcela de rendimento das famílias, como foi o caso na década de 1980, deixaram o país com poupanças ex ante que substancialmente excederam o investimento desejado. O Japão é capaz de exportar facilmente o excesso de poupança para os Estados Unidos e manter um excedente comercial que lhe permite resolver a sua insuficiência na procura interna.

A exportação líquida de poupança do Japão para os Estados Unidos significa que os Estados Unidos são forçados a ser um importador líquido de poupança (não há restrições sobre o investimento estrangeiro nos Estados Unidos). Esta é apenas uma outra maneira de dizer que os Estados Unidos devem ter um défice na balança corrente e que o investimento americano deve exceder as poupanças americanas pelo montante da sua importação líquida de poupança. Ou colocando isto sob a forma de uma equação:

Poupança do Japão – Investimento no Japão= Investimento dos Estados Unidos – Poupança dos Estados Unidos

Como é que é possível que os Estados Unidos tenham um défice de poupança que está a contrabalançar os fluxos de investimento japonês para a economia americana? Logicamente, há apenas duas maneiras. Ou o investimento americano deve ter aumentado em consequência da exportação das poupanças pelo Japão para os Estados Unidos, ou suas poupanças devem ter caído (ou alguma combinação destas duas). Como é que o investimento pode aumentar? Há, outra vez, duas maneiras logicamente pelas quais o investimento japonês nos Estados Unidos pode fazer com que o investimento agregado dos Estados Unidos aumente. Pode haver um aumento do investimento produtivo, ou um aumento do investimento não produtivo, com este último consistindo de um aumento excessivo (ou não desejado ex-ante) de inventário ou de investimento indevidamente feito.

  • Investimento produtivo: os governos ou as empresas podem ter identificado oportunidades de investimento produtivo, mas porque o capital é escasso e excessivamente caro, são incapazes de obter no mercado bancário ou financeiro o financiamento a um custo razoável. Nesse caso, importando capital do Japão, os Estados Unidos podem aumentar o seu volume de investimento produtivo, e isso provocará um impulso na futura produção de bens e serviços, parte da qual pode ser utilizada para reembolsar o Japão e a outra parte pode ser retida pelos americanos, fazendo que ambos os países ganhem. Embora este possa ter sido um cenário realista há 150 anos atrás, ou mesmo há 50 anos atrás, num mundo repleto de poupanças em excesso, os mutuários credíveis nos Estados Unidos não encontrarão dificuldades em financiar desta forma o investimento. Isto é, por outras palavras, um cenário muito improvável.
  • Investimento improdutivo como um aumento indesejado no inventário: se as exportações japonesas de produtos manufaturados vêm substituir bens produzidos por fabricantes americanos, estes verão um aumento do investimento sob a forma de aumentos indesejados no inventário. Este aumento no inventário deve efetivamente ser financiado por uma dívida mais elevada o que não é sustentável.
  • Investimento improdutivo como investimento inadequado: à medida que o dinheiro japonês inunda os Estados Unidos, ele pode desencadear o uma explosão no setor imobiliário ou nas bolsas de valores, o que conduz a previsões excessivamente otimistas sobre o crescimento ou à procura especulativa no setor imobiliário. O investimento não produtivo resultante é efetivamente financiado pela dívida, cujo serviço não pode ser satisfeito pelo valor acrescentado criado por este investimento.

 

O problema é que os fluxos líquidos de entrada de capitais japoneses não são muito provavelmente contrabalançados por um aumento do investimento produtivo nos Estados Unidos, mas pode ser parcialmente contrabalançado por um aumento no investimento não produtivo. Porque os fluxos líquidos do capital japonês devem ser exatamente igual ao excesso do investimento americano sobre a poupança americana, se o investimento não aumenta ou aumenta menos do que a quantidade de fluxo líquido, então as poupanças devem diminuir.

É aqui onde reina a maior quantidade de confusão no debate sobre o desequilíbrio da balança comercial. A ideia de que as preferências das famílias americanas determinam a taxa de poupança americana está errada de tantos pontos de vista, mas isto por alguma razão inexpugnável. Na verdade, a taxa de poupança para qualquer economia credível com uma conta de capital aberta e investimento estrangeiro significativo é amplamente determinada pelas decisões de investimento estrangeiro. No nosso caso, em que o aumento do investimento é menor do que o fluxo de capital líquido entrado, a poupança deve, pois, diminuir. Há principalmente duas maneiras pelas quais a poupança pode diminui:

  • O desemprego pode aumentar. No caso dois acima, uma vez que os fabricantes americanos não são mais capazes de aumentar o inventário indesejado, eles devem fechar a produção e despedir os trabalhadores. Quando os trabalhadores são despedidos a quantidade de bens e serviços que produzem cai a zero, mas, claro, o seu consumo não. Porque a poupança é a diferença entre produção e consumo, os trabalhadores desempregados fazem então cair a taxa de poupança.
  • No caso três acima, o disparar em alta do valor dos títulos e dos mercados imobiliários criam um efeito de riqueza que pode desencadear um boom de consumo, o que exige que os agregados familiares reduzam as suas poupanças ou aumentem os seus níveis de empréstimo (que é a mesma coisa) porque consomem uma parte maior do seu rendimento.

Como os exemplos acima mostram, quando os Estados Unidos são um recetor líquido de fluxos de capital estrangeiro, deve equilibrar os fluxos com um ajustamento equivalente na diferença entre o investimento interno e poupança interna. Os cinco cenários acima descrevem quase todas as formas possíveis para os Estados Unidos se poderem ajustar, e estes basicamente resumem-se a uma combinação de três opções: ou os fluxos de entrada de capital estrangeiro levam a que aumente o investimento produtivo, ou eles levam a que suba a carga da dívida (isto é, a dívida sobe mais rapidamente do que a capacidade de serviço da dívida), ou faz com que o desemprego suba. Não existem outros ajustamentos plausíveis.

A questão fundamental é saber se os investimentos produtivos nos Estados Unidos têm sido limitados pela falta de financiamento. Nos mercados de capitais altamente desenvolvidos e flexíveis de hoje, centrados na economia dos EUA, é difícil imaginar muitos cenários potenciais em que o investimento dos EUA tenha sido urgentemente necessário e não tenha sido implementado, só porque foi impossível obter nos mercados de capitais o necessário financiamento. Se é realmente o caso que os fluxos de investimento estrangeiro para os Estados Unidos não levam o investimento produtivo agregado a aumentar, então não podem ajudar a economia a crescer mas fazem com que a carga da dívida aumente ou que seja o desemprego a aumentar.

Alguns economistas argumentarão que o simples facto de que o investimento interno exceda as poupanças internas é a prova suficiente de que os Estados Unidos precisam de poupanças estrangeiras para financiar as suas necessidades de investimento. Esta confusão baseia-se num mal-entendido sobre a balança de pagamentos e na forma como as identidades contabilísticas funcionam. Imagine, por exemplo, que o Japão reduzia as suas exportações de capitais líquidas para os Estados Unidos. Isto não deixaria os investimentos dos EUA subitamente sem financiamento.

Dependendo de como o investimento japonês afetou a economia dos EUA e da forma como ele se retraiu, se o desemprego nos Estados Unidos era elevado este iria diminuir, fazendo com que as poupanças das famílias americanas aumentem, ou então quer o consumo dos EUA quer o investimento americano mal alocado [investido de forma não eficiente ou mesmo socialmente desnecessário] deixando de ser impulsionados pelo mercado de ações e pelos booms imobiliários, iriam declinar, ou os inventários excessivos seriam vendidos. Em qualquer caso, o investimento americano permaneceria inalterado, e ou a carga da dívida americana ou o desemprego americano iriam declinar, a fim de se substituir o investimento japonês que estava a diminuir. Se isso parece bom demais para ser verdade, não é. É simplesmente o reverso do processo em que os Estados Unidos foi o destinatário dos fluxos de capitais japoneses líquidos.

 

APÊNDICE 4: A natureza estática dos modelos de arbitragem

Os modelos construídos em torno de identidades contabilísticas são de facto modelos de arbitragem. Eles são muitas vezes poderosos e elegantes, mas os economistas muitas vezes não conseguem reconhecer que eles são necessariamente estáticos, e esses modelos podem facilmente ignorar processos dinâmicos que podem também ser relevantes por razões de política económica. O modelo de vantagens comparadas de David Ricardo, por exemplo, é de tirar o fôlego pela sua forma elegante e clara entre as ferramentas analíticas mais poderosas da economia, mas é importante compreender que a sua conclusão — qualquer intervenção comercial ou distorção leva a que a composição e direção do comércio internacional fique longe de um ideal construído em torno das vantagens comparadas — pressupõe implicitamente que a vantagem comparada é estática. Isto significa que o argumento das vantagens comparadas em favor do comércio livre assume relações estáticas em termos de produtividade.

Esta hipótese é claramente errada. Num mundo estático, o argumento da indústria nascente de Alexander Hamilton seria fútil, e seria raro encontrar países cujas transições de economias atrasadas para economias avançadas ocorreram durante períodos de proteção comercial, de política pública industrial e de grande iniciativa do Estado a que os americanos na primeira metade do século XIX chamaram de melhorias internas. Na verdade, desde a emergência económica dos Países Baixos e do Reino Unido, principalmente de cujas experiências Hamilton concebeu as suas ideias, quase todos os países que alcançaram o estatuto de economia avançada (é difícil encontrar uma única exceção) seguiram direta ou indiretamente as ideias do programa de Hamilton [13], incluindo a proteção aduaneira para as indústrias nascentes. Isso sugere, no mínimo, que, embora os modelos estáticos possam ser muito poderosos e possam esclarecer imensamente a tomada de decisões, devemos considerar como é que as mudanças dinâmicas dentro de um sistema podem afetar o modelo assim como devemos igualmente considerar as recomendações de política que essas mudanças geram.

O dinamismo das vantagens comparadas não invalida as teses de Ricardo sobre o comércio livre, mas significa que há casos em que a economia global, e certamente as economias individuais, podem beneficiar no longo prazo com a intervenção comercial. Elas beneficiam, no entanto, apenas na medida em que essas intervenções corretamente transformam as vantagens comparadas, e se assim não for não beneficiarão. Proteger as indústrias nascentes, por outras palavras, pode funcionar se e só se essas indústrias estiverem a investir fortemente na inovação para aumentar a produtividade, que quase sempre requer um ambiente de intensa concorrência interna. A proteção aduaneira não pode funcionar, no entanto, se for concebida para proteger os campeões nacionais.

A razão pela qual aponto para os riscos que vêm da aplicação de modelos lógicos estáticos para um sistema dinâmico é a seguinte. Embora pense que o meu modelo tem argumentos muito poderosos contra a excessiva desigualdade de rendimento num mundo de capital abundante – e eu pessoalmente acredito que reverter várias décadas de concentração de rendimento é a tarefa de longo prazo mais urgente para os Estados Unidos, se quisermos retornar aos dias de alta produtividade e crescimento do PIB – gostaria de acrescentar que as políticas de redistribuição do rendimento também afetam os incentivos para os indivíduos e para as empresas que podem eles próprios afetar o crescimento da produtividade, o que é um processo dinâmico e não estático. É importante, por outras palavras, que as políticas de redistribuição de rendimento sejam consistentes com a dinâmica de produtividade.

Um último ponto: aqueles que se opõem a toda a intervenção comercial de qualquer tipo parecem pensar que o modelo das vantagens comparadas de Ricardo prova que é sempre em benefício dos Estados Unidos, ou de qualquer outro país, remover as restrições comerciais estejam ou não os parceiros comerciais a fazer o mesmo. Esta interpretação bastante extraordinária é baseada mais, ao que parece, na fé religiosa do que na elegância lógica de Ricardo. Na verdade, Ricardo não prova tal coisa. O valor económico é maximizado, no modelo de Ricardo, apenas num mundo em que o comércio global é construído totalmente em torno de vantagens comparadas e em que não existem distorções políticas relacionadas com o comércio internacional. Nesse mundo, qualquer intervenção é destruidora de valor, ou seja, destruidora de riqueza. Num mundo suboptimal em que alguns países intervêm, é fácil provar que certos tipos de intervenção beneficiam efetivamente o país interveniente, bem como a economia global. O que é mais importante ainda é que, embora este modelo aponte os benefícios para a economia dos EUA da redistribuição de rendimento, ele também mostra como estes benefícios podem ser drasticamente desperdiçados se a economia americana é forçada a importar largas quantidades de capital vindas do resto do mundo.

 

Texto disponível em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/67867

Notas

[11] N.E. Texto editado na presente série em 30 de setembro e 1 de outubro, sob o número 6, “Foi o excesso de poupanças alemãs, e não a temperança, aquilo que causou a crise europeia”, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/09/30/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-6-foi-o-excesso-de-poupancas-alemas-e-nao-a-temperanca-aquilo-que-causou-a-crise-europeia-1a-parte-por-mi/ e seguinte.

[12] N.E. Texto editado na presente série em 2 e 3 de outubro, sob o número 7, “Equilíbrio interno e externo”, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/10/02/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-7-equilibrio-interno-e-externo-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguinte.

[13] N.E. Vd. texto número 1 da presente série, “A China e a História dos modelos de crescimento dos Estados Unidos”, publicado nos dias 19-20-21 de setembro, https://aviagemdosargonautas.net/2018/09/19/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-1-a-china-e-a-historia-dos-modelos-de-crescimento-dos-estados-unidos-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguintes.

 

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