Em 1999, uma criança nasceu, de parto prematuro e com deformidades congénitas: o Euro 20 anos depois – alguns textos sobre a sua atribulada existência. Texto nº 3. A zona euro tem 20 anos – Parte II


A zona euro tem 20 anos – Parte II

( Jacques Sapir, 1 de Janeiro de 2019)

SG1

3. Uma repartição dos fluxos de capitais?

A unificação dos mercados financeiros há muito que era considerada o único resultado verdadeiramente positivo da zona euro[38]. Embora tivesse havido uma unificação dos mercados de dívida, os espaços  continuavam a ter o seu  traço, mesmo remoto, da economia real, tal como as bolsas de valores, permaneceram marcadas pela “forte resistência das segmentações nacionais”[39]. Mas hoje, porém, temos o direito de nos interrogarmos se as finanças europeias não estarão totalmente livres da lógica da economia real na zona euro. De facto, existe agora uma des-correlação entre os movimentos financeiros e os movimentos reais[40]. Com efeito, a mobilidade dos capitais desapareceu desde o período de crise aguda de 2010-2013[41]. Recorde-se que o interesse da criação de uma União Monetária é, em teoria, promover, através do desaparecimento do risco cambial, a mobilidade do capital entre países. Isto deverá permitir que as poupanças financiem os projectos mais interessantes e deverá, por conseguinte, em teoria, contribuir tanto para o crescimento global da região como para a sua eficiência económica. Mas é evidente que a zona euro não permite actualmente que se invista em poupanças onde elas seriam mais eficazes na zona e não revelou um efeito significativo de “mercado único”, um efeito que era esperado pelos defensores europeus.

Graphique 8

gy1Source : Base de données du FMI, Global World Outlook

A falta de circulação de capitais, que a evolução das taxas de poupança mostra claramente dentro da zona euro, e que é bem indicada no estudo NATIXIS, torna ainda mais dramática esta quebra de competitividade dentro do euro, levando a uma subvalorização da moeda alemã e a uma sobrevalorização das moedas da Bélgica, Espanha, França e Itália. Levanta igualmente o problema da segurança da esfera financeira na zona euro, na ausência de um verdadeiro mecanismo de socialização dos fundos financeiros, nomeadamente no caso de novas crises bancárias. No entanto, estas crises são uma possibilidade muito real a relativamente curto prazo, quer se trate do Deutsche Bank, cujo custo de resseguro (através de Credit Default Swaps) duplicou num ano [42], quer se trate dos bancos italianos[43].

Para além do risco de exposição para os bancos franceses a uma crise dos bancos italianos, é evidente que, na ausência de uma circulação  de capitais, é toda a construção da zona euro se torna excessivamente frágil face a uma nova crise financeira. A acção do BCE só pode retardar uma crise sistémica. Voltamos, portanto, à ausência de um verdadeiro mercado de capitais na zona euro, uma situação altamente paradoxal numa União Monetária, mas é uma situação de facto. Esta situação é mais um sinal do inacabado estrutural desta zona e dos perigos, tanto a curto como a médio prazo, que esta inacabada zona representa para as economias dos países da zona euro.

É possível reformar a zona euro?

Então diremos que tudo isto está a acontecer numa altura em que a “zona euro” continua fundamentalmente incompleta: não houve um orçamento comum (pelo menos certamente não nas proporções necessárias) nem uma união fiscal ou uma união de transferências. Tudo isto é verdade. No entanto, é de notar que os vários membros da zona euro diferem muito quanto às soluções a apresentar. O bloqueio aqui não é apenas económico, é também político. Esta incapacidade de alcançar o que alguns (e por vezes honestamente) consideraram ser o “programa global” do euro é o produto da resistência institucional de vários países e, acima de tudo, da resistência da Alemanha

 Para a Alemanha  nunca se colocou a questão de ter um orçamento federal e a única forma aceitável de “federalismo” seria o controlo da Alemanha sobre os orçamentos de outros países. Este país sempre se recusou, da forma mais categórica, a aceitar os vários pedidos de “união de transferências”, pedidos que, no entanto, seriam lógicos na perspectiva de uma União Europeia de tipo federal. Com efeito, a Alemanha utilizou a UE para promover os seus próprios interesses nacionais em detrimento de outros países[44].

 O carácter incompleto da “zona euro” não é, por conseguinte, conjuntural, como se afirma, mas sim estrutural. A Alemanha queria esta situação porque era a única que lhe convinha. Consequentemente, o futuro da União Económica e Monetária parece muito sombrio. Esta “união” deveria saber o que aconteceu às  “uniões “, isto é, dissolveram-se[45]. Mas, ao comportar-se assim,  é provável que conduza à dissolução da própria União Europeia.

O fracasso da zona euro é agora evidente para a grande maioria dos observadores. Este fracasso conduz os países da zona euro à sua perda, mas, para além disso, tem um impacto significativo na economia internacional. O facto de o Euro condenar um grupo de países a um baixo crescimento tem consequências importantes para o resto do mundo. É por isso que a dissolução da zona euro parece ser agora uma prioridade absoluta.


Notas: 

[38] Aglietta M., “Espoirs et inquiétudes de l’Euro” in M. Drach (ed.), L’argent – Croyance, mesure, spéculation, Éditions la Découverte, Paris, 2004, pp. 235-248.

[39] M. Aglietta, “Espoirs et inquiétudes de l’Euro” p. 237.

[40] NATIXIS, Que se passe-t-il si les marché financiers sont décorrélés de l’économie de la zone Euro, Flash Economie, n° 168, 15 février 2016.

[41] NATIXIS, Pour l’instant la zone Euro est un échec, Flash Economie, n° 955, 5 septembre 2018.

[42] Reuters, « Due Credit », https://www.breakingviews.com/considered-view/deutsche-banks-misleading-cds-hide-a-wider-truth/

[43] https://www.lemonde.fr/economie/article/2018/05/25/l-inquietude-pour-les-banques-italiennes-ressurgit_5304416_3234.html

[44] https://jacobinmag.com/2018/08/wolfgang-streeck-interview-germany-european-union

[45] Bordo, Michael, and Lars Jonung. Lessons for EMU from the History of Monetary Unions. London: Institute of Economic Affairs, 2000. De Cecco, Marcello. “European Monetary and Financial Cooperation before the First World War.” Rivista di Storia Economica 9 (1992): 55-76 ; Silva, S. and S. Tenreyro, “Currency Unions in Prospect and Retrospect,” Annual Review of Economics, (2010), Vol. 2(1):51-74.


O quarto texto desta série será publicado amanhã, 25/02/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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