Em 1999, uma criança nasceu, de parto prematuro e com deformidades congénitas: o Euro 20 anos depois – alguns textos sobre a sua atribulada existência. Texto nº 10. Como é que a crise não resolvida na zona euro nos põe a todos em perigo


Como é que a crise não resolvida na zona euro nos põe a todos em perigo

(Grace Blakeley, 23 de Janeiro de 2019)

 O empenhamento da Alemanha na austeridade e a sua recusa em apoiar a reforma fundamental do euro são irresponsavelmente complacentes.

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A crise da zona euro nunca foi resolvida. Foi apenas convenientemente esquecida. A disputa entre a Itália e a Comissão Europeia sobre o orçamento da primeira foi apenas o último episódio de uma luta política e económica em curso entre os Estados do Norte e do Sul da zona euro.

Após uma negociação exaustiva, os dirigentes da UE chegaram a acordo, em dezembro último, sobre um acordo destinado a tornar a União Monetária mais sustentável.

O acordo incluía medidas para reforçar o Mecanismo Europeu de Estabilidade – o fundo conjunto de resgate criado em 2012 – para utilização em futuras crises bancárias. Mas o acordo deixa por resolver algumas questões definidoras – desde o seguro coletivo sobre os depósitos bancários até um orçamento separado para a zona  euro. A realidade é que, enquanto os líderes da UE mexem nas margens, as contradições fundamentais do euro persistem.

Desde a década de 1990, a contenção salarial alemã – baseada num acordo corporativo entre sindicatos, empresas e o Estado – tornou o país significativamente mais competitivo do que outros membros da zona euro. A “contenção” é, naturalmente, um eufemismo – na realidade, os salários alemães tornaram-se dissociados  da evolução da produtividade, o que significa que os ricos reivindicam uma parte cada vez maior do crescimento antes dos impostos (como se mostra com detalhe  no recente livro de Oliver Nachtwey, “Crise oculta da Alemanha”).

Os fortes lucros sustentaram os elevados níveis de investimento das empresas alemãs, permitindo décadas de crescimento sustentado da produtividade. Estas tendências combinaram-se para fazer da Alemanha um líder na produção especializada e de alto valor acrescentado, permitindo-lhe satisfazer a crescente procura do resto do mundo.

A baixa produtividade dos países do Sul da Europa tem sido menos bem sucedida. Com efeito, em muitas economias da UE, como a Grécia e a Espanha, o PIB é ainda hoje mais baixo em termos per capita do que antes da crise de 2008.

A rápida expansão do euro exacerbou as divergências entre o núcleo do Norte e a periferia do Sul da zona euro. A perda de controlo interno sobre a política monetária criou dois problemas interligados para os chamados PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha).

Primeiro, a sobrevalorização do euro em relação às economias desses países fez com que as  suas exportações se tornassem ainda menos competitivas. Em segundo lugar, durante o boom pré-crise, os investidores emprestaram a estes países com pouca consideração pelas suas perspetivas de crescimento a longo prazo. Quando a crise rebentou, os investidores perceberam – demasiado tarde – que não havia rede de segurança: os bancos centrais nacionais já não podiam comprar as obrigações emitidas pelos Estados.

Só havia um caminho a seguir: um dramático programa keynesiano de investimento para aumentar a produtividade nos países do Sul da Europa, combinado com compromissos assumidos por todos os países da zona euro para garantir as dívidas uns dos outros.

Esta foi, e continua a ser, a única forma de resolver definitivamente a crise. Mas fez-se exatamente o inverso: a austeridade foi imposta ao Sul da Europa e o Banco Central Europeu deu apenas passos tímidos no sentido de um programa de compra de obrigações.

A crise da zona euro é, no fundo, uma crise política. O principal obstáculo à sua resolução é a recusa da Alemanha e dos seus aliados do norte da Europa em apoiar uma política macroeconómica inflacionista – maior despesa pública e reduções fiscais – em toda a UE.

À primeira vista, isto parece perfeitamente razoável. Porque razão haveriam os alemães sensatos e diligentes de pagar pelo esbanjamento da periferia da Europa? Os espanhóis, os portugueses, os gregos e os italianos têm simplesmente de aceitar padrões de vida permanentemente mais baixos. A austeridade forçada é o único caminho a seguir.

No entanto, este argumento é míope. Gregos e italianos, segundo dados oficiais, trabalham mais tempo do que os seus homólogos alemães. Longe de promover o bem coletivo da zona euro, o Estado alemão utilizou a sua posição hegemónica para fins profundamente irresponsáveis.

A falha fatal do modelo de capitalismo renano  é que ele é dependente da procura de  outros lugares, principalmente na China. E a desaceleração da segunda maior economia do mundo já está a afetar  a Alemanha, onde o PIB diminuiu 0,2% no terceiro trimestre do ano passado.

Em 2019, a zona do euro poderá voltar à recessão. Outra crise pode finalmente levar os líderes europeus a agir. Ou talvez a sua obstinada complacência continue. No momento, esta última parece muito mais provável, e a zona do euro está ainda a viver a crédito dos tempos futuros.


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 20/03/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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