Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte II – Imagens soltas de uma União Europeia em decomposição a partir de alguns dos seus Estados membros. 7º Texto – Alemanha. A noite em que a Alemanha perdeu o controle – Parte VI

Alemanha. A noite em que a Alemanha perdeu o controle

(Georg Blume e outros, 16 de Agosto de 2016)

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Uma selfie com a chanceler alemã  © Sean Gallup/Getty Images

 

O que acontece a seguir


Na noite de 6 de Setembro, após um fim-de-semana histórico, o Ministério do Interior austríaco anuncia que cerca de 15 000 pessoas atravessaram a fronteira húngara para a Áustria. As autoridades dizem que a maioria continuou para a Alemanha e que apenas 90 refugiados pediram asilo na Áustria.

O que inicialmente foi concebido como ajuda de emergência para alguns, em vez disso, tornou-se um acontecimento de massas.

Só a Munique, chegam diariamente vários milhares de refugiados. No fim-de-semana seguinte, uma semana após a decisão de Merkel, cerca de 20.000 recém-chegados seriam contados na Estação Central de Munique. Em resposta, o governo federal passa várias horas a considerar o encerramento  da fronteira, com a Polícia Federal a ir ao ponto  de preparar a ordem de implantação necessária. Este poderia muito bem ter sido o último momento possível para recolocar a “tampa” de Seehofer na garrafa. Ninguém sabe, no entanto, por quanto tempo a Polícia Federal teria conseguido manter o encerramento da fronteira. Em última análise, eles não são postos à prova porque Merkel decide não o fazer, deixando a fronteira aberta. Os controles, no entanto, são introduzidos.

Nas semanas seguintes, dezenas de milhares de pessoas entram na Alemanha, na sua maioria sem controlo e sem registo. O Estado perde, de facto, o controlo. Precisamente aquilo que o Governo alemão exigia constantemente da Hungria – o registo ordenado de todos os imigrantes – agora também se desmoronou aqui na Alemanha. Foi apenas em Dezembro, como a Chancelaria admite hoje, que o Estado recuperou o controlo da situação.

O partido populista de direita alemão AfD, que tinha estado no seu leito de morte política no Verão, encontraria um enorme apoio. Além disso, a desconfiança de muitos alemães em relação às instituições aumentaria e os números das sondagens de Merkel cairiam. Na noite de Ano Novo, mulheres em várias cidades alemãs são assediadas sexualmente por imigrantes e requerentes de asilo, e em Ansbach e Würzburg, refugiados cometem dois ataques motivados pelo islamismo no verão de 2016.

Ao mesmo tempo, um número sem precedentes de pessoas em todo o país dá uma ajuda. Dezenas de milhares de voluntários envolvem-se neste apoio, ajudando na distribuição de donativos e alimentos. Eles oferecem aulas de alemão – e inúmeras famílias acolhem refugiados, oferecendo-lhes alojamento  privado.

No dia 15 de setembro, Viktor Orbán anunciará o fecho  da fronteira sul do seu país. No início de novembro, a Suécia reintroduz os controlos fronteiriços em resposta à crise dos refugiados, porque o “número recorde” de refugiados que chegam representa uma “ameaça à ordem pública”. No final de janeiro de 2016, a Áustria decide um “limite máximo” para o número de refugiados que o país aceitará todos os anos, o que equivale a pôr termo à sua política de acolhimento. A 9 de maio de 2016, o chanceler austríaco Werner Faymann anuncia a sua demissão.

Será que Merkel cometeu um erro ao permitir que os refugiados na Hungria viessem para a Alemanha?

Se perguntarmos aos funcionários, gestores e políticos que estiveram envolvidos nesse fim-de-semana nas ruas, nas estações de comboio e nas equipas de ação, a resposta é quase sempre “não”.

Olhando para trás, o prefeito de Munique, Reiter, por exemplo, diz: “Considerando as imagens da estação do comboio de Budapeste, eu teria decidido naquele momento exatamente como a chanceler Merkel fez. Ainda acredito que ela tomou a decisão certa com base nas circunstâncias da época. Também não acredito que nenhuma das mensagens de Merkel ou das suas selfies amigáveis tenha inicialmente encorajado muitos refugiados a virem. Não consigo imaginar isso”.

Entretanto, Christian Kern, que desempenhou um papel decisivo na crise como diretor da companhia  ferroviária nacional austríaca ÖBB e que desde então se tornou chanceler da Áustria, disse à ZEIT numa entrevista: “Aconteceu tudo muito espontaneamente – não havia nada sobre o assunto que estivesse precisamente planeado. Tivemos de decidir em poucos minutos: Agora vamos fornecer autocarros e comboios especiais. Havia dois elementos para a decisão: Por um lado, o ato humanitário. Por outro lado, tínhamos preocupações extremamente pragmáticas: De qualquer forma, as pessoas teriam entrado pelos carris do caminho de ferro”.

Mesmo assim, não há dúvida de que foram cometidos erros. Mas quase toda gente  com quem  falar fala-lhe de um  erro diferente.

O erro de Merkel, diz um dos principais políticos alemães, foi o seu foco constante numa solução europeia comum para a questão dos refugiados, porque já tinha ficado claro, muito antes da decisão da Hungria, que os seus homólogos europeus não estavam interessados em se associarem nesta crise dos refugiados.

O nosso erro”, diz um diplomata húngaro de alto nível, “não foi termos construído a vedação”. O nosso erro foi termos demorado tanto tempo a iniciar a construção”.

Um membro do gabinete de Merkel diz que o erro de Orbán não foi ter construído uma vedação. O erro de Orbán foi ter feito uma coisa tão grande. “Há também vedações noutras partes da Europa – em Espanha, entre a Bulgária e a Turquia, entre a Grécia e a Turquia. Estas vedações não incomodam ninguém”

O relato conduzido por ZEIT e ZEIT ONLINE mostra que a decisão histórica tomada por Merkel não foi baseada em nenhum  impulso humanitário espontâneo, afeto emocional ou sentido de autoexaltação moral. Merkel teve que tomar a decisão sob pressão considerável, em apenas três horas, depois que Viktor Orbán conseguiu criar uma situação para a qual praticamente não havia alternativa.

É possível que os historiadores estabeleçam um dia que esta situação dramática só se tornou possível porque a comunicação se tinha quebrado na União Europeia, porque Bruxelas, Berlim e Budapeste estavam todos a culparem-se uns aos outros em vez de mostrarem solidariedade, porque todos insistiam que estavam certos mesmo quando a ordem pública estava em colapso.

No entanto, uma coisa pode ser dita com um grau razoável de certeza: se os refugiados não tivessem decidido, na manhã de 4 de Setembro, começar a marchar a pé da estação de Keleti, em Budapeste, até Viena, a história europeia teria sido diferente nesse fim-de-semana.


O próximo texto desta série será publicado amanhã, 11/10/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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