Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte II – Imagens soltas de uma União Europeia em decomposição a partir de alguns dos seus Estados membros. 8º Texto – Alemanha: Um texto final, um texto de síntese. Parte I

Regimes Monetários Internacionais e o Modelo Alemão

(Fritz W. Scharpf, 18 de Fevereiro de 2018)

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Resumo

O fim do regime de Bretton Woods e a queda da Cortina de Ferro aprofundaram a orientação à exportação do modelo da economia alemã. No entanto, só após a entrada na União Monetária é que o aumento das exportações se transformou num persistente saldo entre as exportações e as importações, que se tornou um problema para as outras economias da zona euro. Este texto de discussão mostra porque é que o atual regime assimétrico do euro não será capaz de impor a sua transformação estrutural com base no modelo alemão.

Nem os governos alemães serão capazes de responder às exigências que aproximem os resultados económicos da economia alemã da média dos resultados económicos da zona euro. Em vez disso, é mais provável que as atuais iniciativas de partilha de riscos financeiros e fiscais transformem a União Monetária numa união de transferência.


1 Introdução: Do doente ao campeão do emprego e ao país hegemónico da zona euro

2 1949–1969: A Alemanha Ocidental sob o regime de Bretton Woods

         -O modelo original: Moderação salarial e restrições monetárias

         -Beneficiando da assimetria do regime de Bretton Woods.

         Conclusão.

3 1969-1989: Luta contra as taxas de câmbio voláteis

-A coordenação monetarista e os custos económicos das políticas de moeda forte

         -As taxas de câmbio flutuantes e a coordenação cambial

         -A produção diversificada e de qualidade

         -Como o Estado-Providência está a limitar o crescimento da economia de serviços

         – O modelo alemão no final dos anos 80

4 O modelo alemão na década de 1990: A unificação e a ascensão do capitalismo global

-Os custos da unificação

         -A queda da Cortina de Ferro: Um grande impulso para as indústrias alemãs de exportação

         – Relações laborais sob tensão

         – Restrição salarial: Um efeito do poder sindical ou fraqueza de união?

         – O modelo alemão no final dos anos 90

5 O modelo alemão: Desafiado e depois recompensado pela união monetária

– A crise do euro na Alemanha e as reformas do Estado social, 1999-2008

         – Reformas estruturais da Agenda 2010

         – A reviravolta na evolução do emprego

         – O modelo alemão na zona euro

6 Divergência da UEM ignorada e convergência imposta

– Da crise do euro a um regime euro assimétrico

         – A lógica económica da convergência assimétrica imposta

7 Convergência elusiva

– Ajustamento, mas não convergência

         – O modelo alemão – demasiado desviante para ser imitado

         – Regras simétricas para a Alemanha?

8 O modelo alemão num impasse

         – Persistência económica e imobilismo político

         – Opções europeias

         – Na tendência para uma união de transferência?


  1. Introdução: Do doente ao campeão do emprego e ao país hegemónico da zona euro

Quando a Alemanha aderiu à União Monetária em 1999 com uma taxa de câmbio ligeiramente sobrevalorizada e com um défice da balança de transações correntes, a economia estava apenas a recuperar da sua recessão pós-unificação e o desemprego começava a diminuir ligeiramente desde o seu pico de 1997. Além disso, como habitualmente, a taxa de inflação era a mais baixa da zona do euro. Nos anos seguintes, porém, o PIB per capita continuou a diminuir até 2003 e o desemprego aumentou para o valor de pico do pós-guerra de 11,3% em 2005 (OCDE 2017a; 2017b). Nos primeiros anos da União Monetária, portanto, a Alemanha era vista como o “país doente da zona euro”[1].

No entanto, em 2007, o desemprego estava a diminuir. Este dificilmente subiu novamente, mesmo na crise financeira e económica mundial de 2008-2009 e, desde então, o declínio continuou para níveis tão baixos quanto os que a Alemanha Ocidental tinha tido no final da década de 1980 (OCDE 2017b). Mais notável ainda, as taxas de emprego — que tradicionalmente oscilam abaixo da média da OCDE em torno de 65% da população em idade ativa — subiram desde então para mais de 74%, igualando ou ultrapassando os níveis de antigos campeões do emprego, como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Holanda ou a Dinamarca (OCDE 2017c). Ao mesmo tempo, os excedentes da balança corrente e as exportações de capital levaram a um aumento acentuado da posição de investimento internacional líquida (PIIL) e a grandes excedentes nos saldos do sistema Target-2 da União Monetária Europeia. Tudo isto também se reflete no poder de negociação da Alemanha nas relações entre credores e devedores no ECOFIN e nas cimeiras europeias.

Não há dúvida de que o regime mal concebido da União Monetária tem sido uma causa tanto do declínio como da recuperação da economia alemã ao longo dos últimos 15 anos, aproximadamente. No entanto, é igualmente claro que o impacto deste regime monetário foi condicionado pela heterogeneidade das economias da zona euro. Por conseguinte, os resultados específicos não podem ser explicados sem referência às estruturas económicas e políticas existentes e aos legados e práticas políticas que estão atualmente a moldar e a limitar as respostas nacionais interdependentes ao regime monetário comum. No caso da Alemanha, as estruturas e práticas atuais são o resultado da sua co-evolução com uma sucessão de regimes monetários internacionais do pós-guerra.

O texto beneficiou muito das minhas frequentes discussões havidas ao longo da sua elaboração com Martin Höpner e dos comentários de Marina Hübner. Agradeço também a Ann-Christin Klein pela extensa pesquisa de dados e pela apresentação das figuras e tabelas.


Notas:

[1] The Economist, June 3, 1999: http://www.economist.com/node/209559 ; Dustmann et al. (2014).


A segunda parte deste texto desta série será publicada amanhã, 13/10/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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