UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (328)

NO TEMPO EM QUE AINDA SE SAÍA À RUA

 

 

No tempo em que ainda se podia sair à rua, ninguém sabia o quanto isso era bom. Só apreciamos o que nos falta.

As tarefas mais enfadonhas são hoje tão desejadas como o pão para a boca de um faminto.

Levantar cedo para ir trabalhar ou para procurar emprego, ou para ir comprar a comida que escasseia, ou para estar numa bicha de uma qualquer Repartição do Estado ou dos Correios, ou ainda, passear o cão que já não tenho, levar os sacos do lixo até ao contentor, encher o depósito do carro ou lavá-lo para não parecer feio, ou ir levar as compras à avó ou fazer recados à mãe, são hoje tarefas que qualquer um anseia ter de fazer. Sair com a mulher e o filho para espairecer, nem que seja por um bocadinho, e encontrar alguém, e parar para conversar, são atitudes que se sabe não se poder fazer.

Vivemos com os gritos constantes de toda a gente, “fique em casa”. Em todas as estações de televisão se ouve “só pode sair em caso de extrema necessidade, fique em casa”. Os carros da polícia e os drones têm passado em algumas zonas da cidade com os altifalantes gritando, “fique em casa”. As ruas estão desertas, os jardins sem pessoas, e eu não devo percorrê-los. Devo manter-me em casa, para o bem de todos.

 

 

É um sufoco que parece necessário, este constante ordenar de normas de comportamento, uma vez que ainda há gente que nada acata.

Luto para que o vírus do medo com que nos fustigam me não ataque. Pelo menos que o não faça com muita força. E, com mais ou menos dificuldade lá vou conseguindo os meus intentos. Todo o cuidado é pouco, e esse, tenho-o constantemente.

Duas vezes por semana deixo o meu filho ir comprar algumas coisas ao supermercado. Vai armado com luvas e máscara, e, quando chega, obrigo-o a deixar a roupa e os sapatos fora de casa, a desinfectar as embalagens que traz, a tomar banho. E sujeito-o a um interrogatório … levaste a mão à cara (?), estiveste muito próximo de alguém (?), tiveste cuidado (?) …

Se for eu quem me aventure a sair, para ir à padaria comprar pão, ou cebolas ou manteiga ou queijo na mercearia da esquina, ou para ir à farmácia aqui quase ao lado de casa, volto com o terror estampado no pensamento, que não no rosto por respeito aos meus, “terei ficado infectado?”. E lá se irão passar pelo menos mais quinze dias com o Credo na boca, medindo cada respiração, cada espirro, cada tossiqueira, cada testa mais quente, cada centímetro a menos na minha distância ao meu filho ou à minha mulher.

E quem tem de sair para trabalhar, nos transportes, nos supermercados, nas fábricas, nos hospitais, quase todos para cuidar de nós, para que nada nos falte? Como aguentarão a pressão?

E com o tempo todo que agora temos, os que estão confinados a casa sem trabalho específico para fazer, que fazemos? Não podemos parar. Não podemos deixar de viver.

Pelo meu lado, tento ler, pesquisar, escrever, tratar de fotografias. Enfim, fazer qualquer coisa que me dê prazer. Cada vez gosto mais de mim. Gosto da minha companhia e prezo a solidão. Gosto dos meus sentimentos e das minhas emoções, e acima de tudo, de rir de mim mesmo. Cada vez aprecio mais a companhia da minha mulher e a do meu filho mais novo. Os outros filhos, e os netos, estão longe, à distância de uma mensagem ou de um telefonema. Fazem-me falta, como sempre fizeram, mas não posso parar por via disso. Aos poucos as horas do dia começam a parecer mais pequenas. As notícias na televisão começam a ficar reduzidas à expressão que é a delas, e passaram a ter a importância que lhes é devida. Não quero perder mais tempo parando e olhando para trás. Ao longo dos anos que já conto, perdi muito tempo a perder tempo. Agora, o tempo que me parecia parado, já anda. A semana volta a parecer mais curta. Olho o futuro como ele é. Tão-somente, o dia de amanhã.

Quero para mim e para os meus, e para todos os meus concidadãos, enfim, que possamos sair deste confinamento, desta calamidade, sem medos. Sem medo de nos reaproximarmos, sem medo de quem por nós passa ou se aproxima, ou de quem para nós fala. Mas vai ser uma outra luta, dura, que a seu tempo vai ter de ser travada. Oxalá a vençamos com alguma facilidade.

 

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About José Fernando Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

2 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (328) | joanvergall

  2. Olá , estou acompanhando este site e estou adorando seus artigos são muito bons mesmo parabéns.
    Vida cap

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