Texto 3. A UE responde ao coronavírus: o já visto, outra vez? Por Vivien A Schmidt

Espuma dos dias Coronavirus Colapso Sistemas Saúde

 

Um conjunto de 4 textos que põem em evidência o contraste entre visões esclarecedoras sobre as causas das dificuldades de resposta sanitária a esta crise do coronavírus, quer sejam de direita conservadora inglesa, de que se pode discordar mas que tem nível, (Ambrose Pritchard), quer sejam de esquerda (Júlio Marques Mota, Vivien Schmidt), e uma abordagem da crise pandémica à moda da direita portuguesa mais reacionária (aqui representada por Camilo Lourenço). São os seguintes:

Texto 1. As análises de Camilo Lourenço – uma visão crítica. Por Júlio Marques Mota

Texto 2. Camilo Lourenço e o Serviço Nacional de Saúde. Por Júlio Marques Mota

Texto 3. A EU responde ao coronavírus: o já visto, outra vez?. Por Vivien Schmidt

Texto 4. O sistema bancário mundial não pode resistir a um longo bloqueio económico. Por Ambrose Evans-Pritchard

 

FT

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Texto 3. A UE responde ao coronavírus: o já visto, outra vez?

Vivien Schmidt Por Vivien A Schmidt

Publicado por social europe em 23 de março de 2020 (The EU responds to the coronavirus: déjà vu all over again?, ver aqui)

 

A União Europeia tem de manifestar uma verdadeira solidariedade em resposta à crise do coronavírus. Armar bagunça não vai servir.

 

O Banco Central Europeu recusa grandes ações. Os dirigentes  europeus, por seu lado, vergam-se. Temem o contágio uns dos outros. As medidas da Comissão Europeia são terrivelmente inadequadas. Não, não estou a falar da crise da zona euro. Estou a falar do que tem sido a resposta da UE à crise do coronavírus.

No início da crise da zona euro em 2010, país após país caiu no contágio do mercado. Para evitar a falência e a expulsão da zona monetária, os países “em risco” sofreram duros programas de austeridade, que cortaram os orçamentos da saúde e da educação, bem como as proteções do emprego e da segurança social.

Não admira que os serviços de saúde italianos estejam hoje a lutar para fazer face à crise do coronavírus. Os médicos têm de decidir quem vive (os jovens) e quem morre (os idosos), enquanto as empresas enfrentam a falência e os trabalhadores correm o risco de penúria. As desastrosas políticas económicas relacionadas com a crise da zona euro deixaram a Itália a braços com dificuldades para poder responder.

Mas este não é apenas um problema italiano. Em toda a Europa, a falta de investimento em infra-estruturas, educação, formação e saúde desde a crise da zona euro deixou todos os países vulneráveis, incluindo os países ricos “credores” do Norte da Europa e, naturalmente, o Reino Unido.

 

Medidas essenciais

Desta vez, porém, é de uma forma diferente. Todos os Estados-Membros estão a pôr de lado as regras orçamentais para enfrentar a crise.

A chanceler alemã, Angela Merkel, não hesitou em anunciar o lançamento do maior estímulo de sempre, com assistência ilimitada de liquidez às empresas alemãs, salário e garantias de emprego aos trabalhadores. O presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu milhares de milhões para apoiar a economia, com um “mecanismo excecional e massivo de desemprego parcial”, permitindo às empresas adiar o pagamento dos impostos de Março sem justificação ou penalização. A Itália já pôs em prática um vasto leque de medidas semelhantes para evitar o encerramento de empresas, para prever licenças parentais e subsídios para a guarda de crianças para os trabalhadores do sector da saúde, e muito mais. Todas elas são medidas essenciais.

Mas onde está a UE? A Comissão está a fazer um pouquinho, anunciando um fundo de investimento de 25 mil milhões de euros para o coronavírus e dizendo que utilizará toda a “flexibilidade” disponível, pondo de lado as regras em matéria de auxílios estatais. No Conselho Europeu, os Estados-Membros não fizeram quase nada, não tendo ainda acordado numa resposta coordenada, uma vez que fecham as suas fronteiras umas após outras – recusando mesmo a exportação de artigos médicos de emergência para outros Estados-Membros em situação de necessidade desesperada.

O BCE fez ainda menos, tendo-se recusado a reduzir as taxas de juro (ao contrário da Reserva Federal dos EUA e do Banco de Inglaterra) ou a intervir no sentido de reduzir o hiato das taxas de juro da dívida publica de obrigações entre a Alemanha e a Itália. Até ao dia 18 de Março, ou seja, à reviravolta, com o lançamento de um programa massivo de compra de obrigações.

Solidariedade real

Todas as instituições da UE precisam de agir em concertação e de fazer mais, em prol de uma verdadeira solidariedade em toda a Europa. A União corre o risco de recessão, ou pior, enquanto países individuais, como a Itália, correm o risco de falência. O Conselho Europeu precisa de chegar a acordo sobre os grandes fundos de assistência, coordenados pela Comissão Europeia, para complementar o que os diferentes países têm prometido gastar para apoiar as suas economias e os seus cidadãos neste momento de necessidade.

De onde virá o dinheiro? Está na altura de mobilizar o BCE para fornecer “dinheiro de helicóptero” às famílias em toda a zona euro e de emitir “obrigações cor-de-laranja” para cobrir as atuais despesas nacionais relacionadas com a saúde. Isto vem juntar-se às “obrigações verdes” recentemente discutidas (embora ainda sejam um sonho quimérico) para as alterações climáticas.

Sem uma resposta sólida a nível da UE para acompanhar as medidas nacionais, a União corre o risco de coxear mais uma vez. No entanto, a bagunça não é uma opção – especialmente porque a devastação económica e sanitária provavelmente poderá ser acompanhada de uma cólera política ainda maior do que anteriormente.

E depois o quê?

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A autora: Vivien A Schmidt [1949 -], doutorada pela Universidade de Chicago, é professora de Relações Internacionais e Ciência Política na Pardee School da Universidade de Boston. Foi professora na Universidade de Massachusetts Boston, professora visitante na Universidade LUISS Guido Carli em Roma, no Sciences Po em Paris, na Universidade de Massachusetts Amherst, no Instituto de Estudos Avançados em Viena, no Instituto Universitário Europeu em Florença, no Instituto Max Planck em Colónia, na Universidade de Paris e em Lille, e é bolseira visitante no Nuffield College, na Universidade de Oxford e na Universidade de Harvard, onde é afiliada do Centro de Estudos Europeus. Dirigiu a European Union Studies Association (Associação de Estudos da União Europeia) nos Estados Unidos. Foi directora fundadora do Center for the Study of Europe na Pardee School of Global Studies da Universidade de Boston. O seu próximo livro intitula-se Europe’s Crisis of Legitimacy: Governing by Rules and Ruling by Numbers in the Eurozone.

 

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