Fim do período natalício – O radicalismo esquecido de Jesus Cristo ou a farisaica União Europeia de hoje. Por Júlio Marques Mota

A Nave dos Loucos, de Hieronymus_Bosch

 

O radicalismo esquecido de Jesus Cristo ou a farisaica União Europeia de hoje

por Júlio Marques Mota

Coimbra, 7 de Janeiro de 2021

 

Há já alguns dias chamou-me a atenção um artigo do New York Times intitulado “O radicalismo esquecido de Jesus Cristo – os cristãos do século I não estavam preparados para a figura verdadeiramente inclusiva que ele era, e o que então era verdade ainda é verdade hoje”, publicado neste jornal em 24 de Dezembro.

A sua leitura fez-me lembrar, e com alguma intensidade, os tempos do menino pobre e crente que eu fui e fez-me lembrar com algum impacto psicológico sobre o velho não crente que hoje sou algumas das homilias que na altura ouvi, alguns sermões proferidos por padres que vinham de fora, o que acontecia em dias de festa. A sua leitura fez-me ter presente que o velho não crente que eu hoje sou, tal como o menino pobre que eu fui, estaria ainda hoje mais perto da mensagem de Cristo do que os arautos modernos das sociedades cristãs que moldam o presente e o futuro das nossas sociedades ditas de matriz cristã.

A leitura do artigo fez-me recordar o sentimento de raiva e de alegria que eu e outros meninos da mesma classe de muito baixos rendimentos sentimos quando numa dessas homilias se falou com um enorme calor humano, pela parte do pregador, da parábola do filho pródigo. Alguns de nós terão mesmo chorado! Riam-se hoje dessa magia, se quiserem, mas foi assim. Estamos a falar de um arco de tempo de perto de 70 anos e isto também nos diz alguma coisa sobre a importância do quadro de valores que se ganha nessas idades. Um quadro  estrutural que fica. Goste-se ou não, este é um grande serviço que a Igreja presta nas sociedades cristãs e que a sociedade civil quando e enquanto se afirma como laica não foi até hoje capaz de substituir. Preferem-se outras paróquias e destinadas às elites.

No fundo, isto é um pouco como a sociedade democrática portuguesa até hoje foi incapaz de se substituir à Mocidade Portuguesa do fascismo naquilo que esta poderia ter de muito bom. Exclua-se a ideologia, dizia Luís Represas numa entrevista à televisão portuguesa, mas renovem-se as suas outras funções, foi a sua mensagem. Fez-se o contrário, entregou-se ao apetite, à voragem pelo lucro, da descoordenada atividade privada a exploração do vazio criado pela incapacidade da sociedade civil em ter criado estruturas alternativas de formação cívica e cultural, de integração social para os mais jovens assim como da criação de atividades lúdicas destinadas à formação de base dos nossos filhos e netos enquanto crianças ou adolescentes. Passem num verão qualquer por um Instituto da Juventude e questionem-se, como eu já o fiz no caso da minha filha e das minhas netas.

O que me chamou a atenção no artigo foi sobretudo o seu subtítulo: os cristãos do século I não estavam preparados para a figura verdadeiramente inclusiva que ele era, e o que então era verdade ainda é verdade hoje.

Porquê? Porque senti nele uma enorme verdade, a de que a mensagem de Cristo custa a passar, Cristo era o defensor dos excluídos, dos marginalizados por responsabilidade própria ou dos outros, da sociedade. Para exemplo da incompreensão de hoje o autor toma como exemplo a resposta da sociedade civil nas sociedades de matriz cristã ao aparecimento do Virus HIV.  Escolhe um tema politicamente  neutro. Natural, o seu autor é um conservador, alguém que teve como uma das suas funções escrever os discursos políticos de vários presidentes republicanos, que não Trump. Como exemplo dessa incompreensão da mensagem de Cristo prefiro escolher três exemplos de agora, exatamente desta quadra festiva em que o artigo se insere: o comportamento da União Europeia face à crise, o comportamento da Pfizer, a empresa criadora da primeira vacina colocada no mercado contra o Covid 19, e o comportamento das Instituições Internacionais. No fundo, três exemplos que mostram como as nossas elites de agora desprezam, espezinham ou ignoram aqueles que são hoje o equivalente dos acompanhantes de Cristo de então.

 

1. PFizer e os países pobres

O governo rejeitou o acordo com a Pfizer porque esta “como garantia pediu os glaciares”.

Jorge Rachid, médico da saúde e conselheiro do governo da província de Buenos Aires, saudou [em 22 de dezembro passado] que o Ministro da Saúde González García tenha rejeitado as condições do laboratório Pfizer-Biontech para distribuir as vacinas na Argentina. “Elas são inaceitáveis, querem apertar-nos como se fôssemos uma colónia“, disse ele.

O laboratório Pfizer pediu em troca como garantias os glaciares e licenças de pesca em território argentino“, disse Jorge Rachid, o médico e conselheiro sanitário do governo da província de Buenos Aires.

Rachid saudou o facto do Ministro da Saúde, Ginés González García, ter rejeitado estas condições do laboratório da Pfizer-Biontech para distribuir as vacinas no nosso país.

A Argentina ofereceu à Pfizer o Hospital Militar e a equipa científica do Dr. Fernando Polack, foram efetuados 6000 ensaios clínicos Pfizer no nosso país. A Pfizer pediu uma lei com garantias, com bens impenhoráveis como glaciares, e licenças de pesca“, disse o conselheiro do governo de Kicillof. E concluiu: “A Fase III da investigação dura entre três e cinco anos. Nós, como país, não nos podemos permitir que nos tratem como uma colónia”.

Pandemia em controlo

Sabíamos que o vírus não podia ser derrotado porque não tínhamos medicamentos ou vacinas, por isso, no início, decidimos fazer um planeamento estratégico para mitigar o impacto e isso permitiu-nos equipar os serviços porque realmente tínhamos herdado um sistema público de saúde devastado“, disse Rachid.

E salientou: “Hoje podemos dizer com orgulho que ao contrário de outros países, incluindo países do primeiro mundo, na Argentina cada pessoa que foi infetada pelo Covid-19 teve a sua assistência médico-farmacêutica, o sistema de saúde não entrou em colapso como previsto por muitos sectores“.

Por último, o Dr. Rachid disse que “a província de Buenos Aires se prepara desde há meses para a operação de vacinação, formou pessoal de saúde na Escola de Saúde Pública e está também a preparar uma mobilização em massa das Forças Armadas para que a vacina chegue a todos os cidadãos”.

Ele admitiu que “teremos certamente a segunda vaga de contágio, mas essa vaga deve encontrar-nos com parte da população de risco já coberta pela vacina”. E concluiu, com esperança: “Estamos perto de derrotar este facto dramático e difícil que tivemos de enfrentar, não é tempo de relaxar, depois de tanto esforço“.

 

2. União Europeia

Relatório elaborado em conformidade com o artigo 126(3) do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia

Diz-nos a Comissão Europeia em Maio de 2020

No seu Relatório sobre a Itália em 2020, a Comissão considerou que o país fez alguns progressos na abordagem das Recomendações Específicas para 2019, que podem ser consideradas como um fator atenuante adicional. Mais especificamente, a Itália fez progressos substanciais no combate à evasão fiscal, nomeadamente através do reforço da utilização obrigatória de pagamentos eletrónicos. A Itália fez alguns progressos para assegurar que as políticas ativas do mercado de trabalho e sociais sejam efetivamente integradas e cheguem aos grupos vulneráveis; concentrando-se na política económica relacionada com o investimento na investigação e inovação e na qualidade das infraestruturas; tornando a administração pública mais eficaz; promovendo a reestruturação dos balanços bancários; e melhorando o financiamento não bancário para empresas mais pequenas e inovadoras.

Por outro lado, a Itália fez progressos limitados no que diz respeito à transferência da tributação do trabalho, na redução das despesas fiscais e na reforma do sistema cadastral; no combate ao  trabalho não declarado; no apoio à  participação das mulheres no mercado de trabalho; na  melhoria dos resultados educacionais, incluindo através de investimento adequado e direcionado e no fomentar a requalificação; na redução da duração dos julgamentos civis através da aplicação e racionalização das regras processuais; e melhorando a eficácia da luta contra a corrupção através da reforma das regras processuais para reduzir a duração dos julgamentos penais. Além disso, a Itália não fez progressos na redução da percentagem das pensões de velhice na despesa pública para criar espaço para outras despesas sociais e de crescimento; e abordar as restrições à concorrência, nomeadamente através de uma nova lei anual da concorrência. (O sublinhado faz amargamente quase pensar que para estes teóricos a “preferência” do SARS-Cov2 é, no contexto, um bem para as contas nacionais, uma vez que “limpa” muitos reformados)

Neste país martirizado pela pandemia isto era escrito no quadro da primeira vaga face a uma Itália exausta, sem forças, a pedir ajuda a russos e chineses, e este texto traduz a forma como a Comissão Europeia encarava a situação em Itália.

Mas a Comissão Europeia é otimista e no mesmo documento, páginas a seguir, afirma:

A análise da sustentabilidade da dívida atualizada com a previsão da Primavera de 2020 da Comissão confirma que, não obstante os riscos, a posição da dívida italiana permanece sustentável a médio prazo, o que tem em conta fatores atenuantes importantes como o perfil da dívida pública e a posição externa. Em particular, enquanto a posição da dívida se deteriora em resultado da atual crise COVID-19, espera-se que o rácio da dívida na linha de base esteja numa trajetória sustentável (decrescente) a médio prazo (Gráfico 1) – (O sublinhado é nosso).

O cenário da linha a cheio refere-se a projeções feitas no relatório de Primavera.

Agora, no projeto de orçamento do governo italiano para 2021 pode-se ler e ver também aqui um enorme otimismo:

Veja a estimativa para a evolução do PIB em Itália sem e com plano de recuperação económica para a Europa dito Next Generation EU. A linha azul expressa a evolução estimada do PIB sem alteração da política económica seguida e a linha laranja expressa a evolução do PIB no novo contexto da política económica da União Europeia.

A linha laranja é a projeção que inclui já as linhas de resposta à crise recentemente criadas pela União Europeia, como o Plano de Recuperação e Resiliência da Comissão Europeia.

Ainda no mesmo documento oficial pode-se ler:

Uma Análise Sustentável da Dívida (DSA) prolongada até 2031 foi também realizada à luz do cenário político de 2012-2026. Esta análise é normalmente realizada a partir do saldo primário do último ano da previsão trienal (neste caso 2023). A partir do saldo, o saldo primário estrutural (ou seja, líquido de medidas temporárias e componente cíclica) é calculado e projetado ao longo de um horizonte de dez anos, assumindo que 1) a economia segue a trajetória de crescimento potencial; 2) o deflator converge para a taxa de inflação alvo do BCE e 3) os custos de financiamento da dívida seguem uma evolução consistente com os rendimentos a prazo calculados pelos níveis recentes do mercado.

Na variante modificada da DSA aqui resumida assume-se, em vez disso, que o saldo primário segue a trajetória do cenário político até 2026 e depois permanece ao nível em termos estruturais nos cinco anos seguintes. Com base nesta hipótese, aplicando o resto da metodologia DSA, obtém-se a trajetória do rácio dívida/PIB representada na figura 1.5.1. O rácio de endividamento decresce constantemente e cai abaixo do nível registado em 2019 até 2031.

 

 

Reabsorver um aumento do rácio dívida/PIB tal como é esperado para este ano (mais de 23 pontos) ao longo de uma década seria um grande resultado. Contudo, poder-se-ia argumentar que, a fim de contrariar as finanças públicas de outros riscos que possam surgir nos próximos anos, seria conveniente planear um ajustamento mais rápido, tendo também em conta o facto de que a regra de redução da dívida não seria plenamente cumprida durante o período de previsão. Dado que as regras orçamentais europeias serão reconsideradas quando a emergência pandémica tiver sido superada, é evidente que se a recuperação da economia nos próximos anos exceder as expectativas, então seria possível considerar um caminho de melhoria ainda maior no equilíbrio das contas públicas, o que poderia, sob a mesma condição. Aceleraria o declínio dos rácios de dívida pública em relação ao PIB. (Pag 14 e 15 do documento)

Face a este projeto de Orçamento a União Europeia em Novembro de 2020 afirma:

O Projecto de Plano Orçamental indica que o rácio da dívida pública em relação ao PIB aumentará de 134,7% em 2019 para 158% em 2020 e diminuirá para 155,6% em 2021, abaixo da projeção da Comissão de 159,5% em 2021 [NT. ou seja, de acordo com as estimativas da Comissão, uma diferença de cerca de 25 pontos].

Tal como em outros países, o governo deu garantias públicas para sustentar a atividade económica e os sectores particularmente atingidos pela pandemia. Caso estas garantias sejam acionadas, tal refletir-se-á na dívida pública e nos défices no futuro. O Projeto de Plano Orçamental inclui também projeções económicas a médio prazo que mostram que o rácio da dívida em relação ao PIB diminuirá para abaixo do seu nível de 2019 até 2031, com base na estratégia orçamental do governo e em pressupostos específicos sobre a evolução macroeconómica e a utilização esperada de recursos da Próxima Geração da UE.

A Comissão é de opinião que o Projecto de Plano Orçamental da Itália está globalmente de acordo com a recomendação adotada pelo Conselho em 20 de Julho de 2020. A maioria das medidas estabelecidas no Projeto de Plano Orçamental da Itália estão a apoiar a atividade económica num contexto de considerável incerteza. No entanto, algumas medidas não parecem ser temporárias ou combinadas por medidas de compensação. Dado o nível da dívida governamental italiana e os elevados desafios de sustentabilidade a médio prazo antes do surto da pandemia de Covid-19, é importante para a Itália assegurar que, ao tomar medidas orçamentais de apoio, a sustentabilidade fiscal a médio prazo seja preservada. A Itália é convidada a rever regularmente a utilização, eficácia e adequação das medidas de apoio e a estar pronta a adaptá-las conforme necessário à evolução das circunstâncias.

Face aos documentos em questão e aos truques de magia que nele estão presentes vejamos pela mão de Munchau, um dos mais importantes analistas sobre as políticas europeias e sub-diretor do Financial Times, o significado de tudo isto. E vale a pena lê-lo com atenção e rever os parágrafos acima depois.

Diz-nos Munchau:

Para dar alguns números, o parecer da Comissão Europeia sobre o projeto de documento orçamental da Itália, publicado na semana passada, prevê que o rácio dívida/PIB se estabilizará um pouco abaixo dos 160% do PIB em 2021, um aumento de 25 pontos percentuais em relação ao final de 2019. A previsão orçamental da Itália é um pouco mais otimista, prevendo que a dívida cairá para os níveis de 2019 até 2031. Na realidade, trata-se de um ritmo sustentado de redução da dívida, em cerca de 2,5 pontos percentuais por ano, mas não será suficiente para cumprir o limite da dívida.

O Pacto Fiscal estipula que a dívida superior a 60% do PIB deve ser reduzida para esse nível ao longo de 20 anos. Começando com um rácio de dívida em relação ao PIB de 160%, isto significa uma redução da dívida de 5% por ano durante 20 anos. Isso é o dobro do ritmo previsto pelo governo italiano, durante o dobro do tempo. É muito provável que seja impraticável. O crescimento nominal do PIB italiano não excede 3% desde há mais de 10 anos, pelo que uma redução de 5 pontos percentuais da dívida anual exige que o governo tenha um excedente orçamental de 2% do PIB com uma economia a crescer ao mesmo ritmo que em qualquer ano desde a crise financeira global, quando se verificaram défices superiores a 2% do PIB. Qualquer via de redução da dívida do governo italiano para a próxima década, mesmo a mais suave, exigiria que o governo mantivesse um excedente orçamental nominal.

Assim, logo que as regras orçamentais forem restabelecidas, a Itália ver-se-á em situação de incumprimento dadas as suas limitações de dívida e sujeita a um procedimento de défice excessivo, exigindo um ajustamento estrutural de talvez 4 pontos percentuais do PIB. Mesmo que isto fosse possível, muito provavelmente reduziria o crescimento e afastaria ainda mais o objetivo da dívida. Sem as compras de obrigações do BCE, que o banco central não poderia justificar com a pandemia então sob controlo, os rendimentos das obrigações italianas poderiam aumentar novamente, exacerbando o serviço da dívida e tornando mais difícil para o governo italiano cumprir os seus objetivos de redução da dívida.” (citado em Voci dall’estero, em 30/11/2020, Eurointelligence – Dobbiamo parlare del debito dell’Italia, aqui). Fim de citação

Tudo dito quanto à distância enorme, enormíssima, que separa os nossos dirigentes europeus da mensagem de Cristo, eles que são os homens do leme do nosso presente e do nosso futuro, eles que entendem que os países em dificuldade em vez de ajudados devem ser penalizados pelo pecado de serem (considerados) despesistas. Basta ler as sucessivas declarações de um dos arautos da austeridade, Jens Weidmann, Presidente do Bundesbank e antigo conselheiro de Angela Merkel (ver aqui).

Tudo isto, este jogo da mentira a fazer-se passar pela verdade, deixando degradar as situações económicas e sociais enquanto se empurram com a barriga os problemas até que nos expludam pela frente, me faz lembrar um texto de Boccaccio em Decamaron que passo a sintetizar:

No início do século XIV havia em Paris dois homens de negócios que eram amigos. Um era judeu, Abraham, e o outro cristão, Giannotto. O cristão estava sempre a tentar fazer com que o seu amigo judeu se convertesse e o judeu sempre disse que não sairia da religião em que nasceu. Mas, um dia, depois de isto ter acontecido durante anos, o judeu disse ao cristão – Giannotto, uma vez que te agradaria que eu me tornasse cristão e estou disposto a fazê-lo, irei primeiro a Roma e lá verei aquele a quem tu chamas o vigário de Deus na terra, e considerarei as suas maneiras e os seus costumes, e de forma semelhante verei os seus irmãos cardeais; e se eles me parecerem de tal forma que eu possa, entre as tuas palavras e o que vir em Roma, compreender que a tua religião é melhor do que a minha, como te comprometeste a provar-me, farei o que disse; mas se não for assim, continuarei judeu como sou.

Gianotto ficou horrorizado – ele sabia que no momento em que o judeu visse a corrupção, licenciosidade e venalidade do clero romano, qualquer hipótese da sua conversão tinha desaparecido. Mas não conseguiu detê-lo e o judeu foi para Roma. Quando regressou, o seu amigo perguntou-lhe o que ele tinha visto, que lhe pareceu o santo padre, os cardeais e os outros cortesãos. E o judeu respondeu-lhe prontamente:

“Parecem-me estar errados, que Deus os amaldiçoe a todos; e digo-vos que, se bem sei compreender, não me pareceu ver em nenhum clérigo nenhuma santidade, nenhuma devoção, nenhuma boa obra ou exemplo de vida ou de alguma outra coisa, antes vi luxúria, ganância e gula, fraude, inveja e soberba, e coisas semelhantes e piores, se pior pode haver; vi tais coisas que aquilo mais me pareceu uma forja de operações demoníacas do que divinas. E, na minha opinião, com todo o cuidado e engenho e com toda a arte, parece-me que o vosso pastor [o Santo Padre], e depois todos os outros, estão a tentar reduzir a religião cristã a nada e expulsá-la do mundo, quando deveriam ser o seu fundamento e apoio. E porque vejo que aquilo por que se esforçam não acontece, mas antes que a vossa religião aumenta e se torna mais lúcida e clara, parece-me discernir justamente que o Espírito Santo é o seu fundamento e apoio [da vossa religião], mais verdadeiro e mais santo do que qualquer outro; por isso, por mais obstinado e inamovível que tenha sido ao vosso conselho e não quisesse tornar-me cristão, digo-vos agora com toda a franqueza que por nada deixarei de me tornar cristão. Portanto, vamos à igreja, e lá, de acordo com os costumes da vossa santa fé, eu serei baptizado”. E passou a chamar-se Giovanni!

(traduzido a partir da versão espanhola em Free Editorial, ver aqui)

Metaforicamente podemos tomar a exposição de Boccacio como uma representação simplificada do mundo de hoje, substituindo Gianottos, por Bruxelas, os cortesãos de Roma pelas diferentes instituições da UE e pelos seus poderosíssimos lobies, alguns deles subterrâneos, os Giovannis pelos Estados membros sempre obedientes e a querem ser seduzidos pelos centros de decisão europeus. Enfim, a Europa é isto mesmo, há uma consciência não assumida, tendo por base um misto de maldade e de incompetência, de que as coisas vão muito mal mas quer-se cada vez mais gente a defender e a partilhar o mesmo sistema como sendo o sistema certo, os Gianottos de Boccacio, ou Bruxelas no nosso caso sobre a UEM. Do mesmo modo, quer-se cada vez mais gente falsamente convencida que vai tudo bem e que adere ao sistema por interesse próprio, porque o sistema não rebenta e mais vale a pena aproveitar os benefícios que dele se podem tirar, os Giovannis de Bocaccio ou os países da UEM isoladamente tomados, enquanto o sistema, a UEM, ou a corte de Roma na obra de Boccaccio, vai apodrecendo e a viver um falso bem estar contrariamente ao crescente mal-estar de cada vez mais gente excluída, marginalizada e lançada na pobreza (em Boccacio, o falso cristianismo em contraponto da linha da mensagem de Jesus acima referida).

Nesta tipologia introduzam-se agora os partidos logicamente com poder inferior ao do próprio governo nacional, a que chamaremos Marcellos. A cadeia de poder é assim uma estrutura vertical estando no topo a UEM, os cortesãos e os Giannottos, no meio temos os governos nacionais, os Giovannis e na base com menos poder temos depois os Marcellos. A UEM leva a que os Giovannis por força de múltiplas circunstâncias aceitem livremente as suas imposições. Os Giovannis assumem um papel equivalente face aos Marcellos, levando-os a aceitarem livremente as suas opções e estas são as que lhe foram impostas pelos Giannottos e já livremente aceites por estes últimos. Os Governos assumem assim face aos partidos, face aos Marcellos, um papel de Gianotto mais fraco e também por força de múltiplas circunstâncias levam a que os Marcellos “aceitem livremente” as opções que lhes são impostas. A sedução para estes aceitarem livremente as imposições passa por múltiplos instrumentos que vão desde o interesse pessoal dos elementos chave dos partidos, desde a ideia de superior interesse do Estado, a contrapartidas futuras em termos de cargos no espaço nacional e não só. Um exemplo deste tipo de relações vemo-las à evidência na atual situação italiana. O Governo diz-se e desdiz-se, contradiz-se sucessivamente entre o que diz internamente e o que faz externamente nos corredores de Bruxelas. Entretanto vai-se sempre aprovando o que os tecnocratas de Bruxelas lhes vão colocando à frente para “aceitarem livremente”. Veja-se o que se passou no mês de Novembro e de Dezembro quanto à votação do MEE no Parlamento italiano e vejam-se as oscilações, por exemplo, do Movimento 5S quanto a essa votação que passaram de grandes opositores à aprovação da reforma MEE a serem um dos suportes chaves para a sua aprovação. Com o novo MEE estarão abertas as portas a um quadro legislativo austeritário para ser aplicado depois de passada a crise sanitária.

O exemplo mais direto deste duplo papel é-nos dado hoje pela Itália pressionada a votar a reforma do MEE que foi aprovada nas duas Câmaras, a dos Deputados e a do Senado, importando-nos aqui referir a inversão de caminho seguida agora pelo M5S, exatamente como um “Marcelo” levado a votar ao contrário do que sempre defendeu.”

Vejamos alguns excertos da imprensa italiana e começando por um pequeno resumo da intervenção de Matteo Renzi que quer voltar a ser um Giovanni face a Bruxelas.

Intervenção de Matteo Renzi

Os dezoito senadores de Viva Itália desejam-lhe felicidades em Bruxelas – dirigindo-se ao Primeiro-Ministro Conte – a reforma MEE está a ir na direção certa. Agora, porém, sejamos realistas: a Itália tem agora oportunidades que nunca teve no passado. A Itália pode ditar a linha da presidência do G20. Os duzentos mil milhões de euros são um feito, mas também uma grande responsabilidade: não trocaremos o nosso sim à proposta de governação por uma posição adicional no poder. Não estamos a pedir que um dos nossos se sente na sala de controlo [do dinheiro vindo de Bruxelas]. A 22 de Julho pedimos uma coisa: face aos 200 mil milhões para gastar ou o parlamento faz um verdadeiro debate, ou perdemos a dignidade das instituições. E referindo-se ao programa de Recuperação e Resiliência, acrescentou: “Não é bom que às 2 da manhã tenhamos uma mudança quanto à gestão da aplicação do programa, uma proposta com gestores em vez de ministros: colegas do PD, estávamos no mesmo partido quando um de nós assinou um recurso para o Tribunal contra aqueles que não queriam que discutíssemos a aplicação do programa. Depois foi Salvini, agora é a mesma coisa”.

Depois, levantando o tom de voz afirmou:

Estamos prontos a discutir mas não a utilizar a questão da gestão da aplicação do programa como veículo para o que lemos nos jornais, incluindo os serviços. Se existe uma regra que coloca a governação com os serviços, votamos não”. E o ataque final entre os aplausos do centro-direita, incluindo de Matteo Salvini: “Se os seus colaboradores telefonarem aos jornais para dizer que queremos um posto político adicional, uma cadeira extra, saiba que se precisar de alguns lugares mais temos lá três, dois de ministro e um de subsecretário, as nossas cadeiras estão à sua disposição [Teresa Bellanova (ministro da ’Agricultura), Elena Bonetti (Família), Ivan Scalfarotto (Subsecretário para os Assuntos Externos]”. Fim de citação

Matteo Renzi está a referir-se à estrutura futura encarregada de gerir os fundos europeus, uma task force com três vertentes, com Giuseppe Conte, Roberto Gualtieri (Ministro das Finanças-PD) e Stefano Patuanelli-M5S (Desenvolvimento Económico) no papel de diretores. E depois uma super task force de trabalho de 300 pessoas. Isto é o que transparece do Palazzo Chigi onde está em curso a reunião de emergência do governo para decidir e moldar a estrutura que irá efetivamente sustentar as linhas de investimento e progresso dos projetos de reconstrução financiados pelo Fundo de Recuperação, fundos europeus, um pouco em termos de “empréstimos”, um pouco em termos “de liquidez imediata“ não reembolsável.

Quanto ao Movimento 5S dizem-nos os jornais:

O longo jogo sobre o MEE chegou esta manhã à Assembleia da República Italiana, palácio de Montecitorio. E após o discurso do Primeiro Ministro, a Câmara aprovou (314 sim, 239 contra e 9 abstenções) a resolução sobre a reforma do tratado MEE. A favor votaram também os deputados do Movimento 5 Estrelas, mas 13 votaram “não” à resolução maioritária, devendo ainda sublinhar-se que dez deputados daquele Movimento não participaram na votação. O apoio do Movimento 5S à reforma do MEE provocou os protestos dos parlamentares do Fratelli d’Italia: após a aprovação do texto da maioria, exibiram na Câmara t-shirts com as palavras “M5S = MEE”.

No final, em comparação com os 56 parlamentares M5S que tinham assinado uma carta contrária à reforma do MEE, a dissidência no M5S acabou. Para dizer não na Câmara houve 13 e outros 10 não votaram a resolução da maioria. A mediação durou mais de quatro dias de ligação via zoom e evitou que o vermelho-amarelo se afundasse na Câmara e no Senado. Mas agora outra fase está a abrir-se no Movimento 5 Estrelas. No Palazzo Madama (Senado) faltavam 11 votos do Movimento 5 Estrelas. Dois contra, quatro ausentes entre os quais Orietta Vanin e Elio Lannutti que criticaram a reforma enquanto os que não participaram na votação foram 5 elementos. Agora é tempo de ajustar as contas. Porque aqueles que votaram contra arriscam realmente a expulsão. Tendo tido um comportamento, segundo os líderes do M5S, “politicamente inqualificável “. Um assunto diferente para aqueles que se abstiveram. Mas em todo o caso, acabarão por ficar nos refletores” Fim de citações.

O sistema político em vigor no quadro da UEM só admite os políticos que aceitam por “livre vontade” as imposições feitas a nível superior, seja-se Marcellos, seja-se Giovannis, seja-se mesmo os Gianottos face aos cortesãos. Quando assim não é, a guerra é declara e a saída por vontade própria ou alheia é o caminho a seguir. Os deputados do M5S provam isso mesmo.

Porém, há um caso bem mais emblemático, a destituição de Jeremy Corbyn membro do Parlamento Britânico, ele que foi o Secretário-geral do Labour e que constituía a estrela polar da maioria da esquerda europeia a quem agora está interdito votar como membro do Labour! Destituído no fundo porque não defendeu o modelo em vigor na UEM, exatamente isso, e que encurralado pela direita europeísta do Labour, defensores do Remain, e por um Boris Johnson que soube canalizar a seu proveito alguns dos seus pontos programáticos chave, foi incapaz de desarmar as múltiplas ratoeiras que esta direita europeísta do Labour lhe montou. E assim é substituído no Labour por Keir Starmer, o atual líder do Labour e secundado por David Evans, secretário geral do Labour para quem “A democracia representativa deve, tanto quanto possível, ser abolida no Partido Trabalhista“. Um processo de destituição kafkiano a ilustrar o que tenho estado a afirmar e não muito diferente dos processos estalinianos praticados noutras latitudes e noutras eras. Mais desconfortante ainda quando se sabe que esse processo é montando a partir de Keir Kramer, um especialista em direitos humanos!!!!

Roma no tempo de Boccacio, Bruxelas nos tempos de hoje, centros de poder onde a ética está colocada no caixote do lixo, Roma onde reinava um puro e devasso anticristianismo, Bruxelas onde reina agora um anticristianismo equivalente senão mesmo muito mais violento, são pois dois exemplos do que temos vindo a afirmar.

Em síntese, tudo isto nos diz que aquilo a que se assiste em Itália hoje, e por toda a Europa, acrescente-se, deve levar a que todos aqueles que no fundo suportam os custos da degradação moral e política aprendam a fazer frente aos cortesãos, aos Giannottos, aos Giovannis e aos Marcellos submissos do nosso tempo, se quisermos recuperar de forma séria a mensagem de Cristo. Exemplos dessa frente que é necessário ampliar encontramo-los agora descritos no jornal Fatto Quotidiano de 10 de Dezembro de 2020 pós votação do MEE nas duas Câmaras italianas:

Maria Lapia, deputada eleita na Sardenha e na sua primeira legislatura, a 25 de Novembro foi suspensa do Movimento 5 Estrelas juntamente com a sua colega Andrea Colletti por votar contra a reforma da redução dos deputados. Ontem esteve entre os primeiros deputados a anunciar a sua discordância em relação à resolução maioritária sobre a reforma do MEE. Porque, explicou ela hoje, “como muitas outras coisas, não pertencia ao nosso programa: sempre lutámos pelo oposto. Daí o meu voto ontem contra a resolução que contém a proposta de reforma do MEE. Um voto de responsabilidade para com os eleitores. Um voto de coerência. A mesma consistência que a partir deste momento me levará a escolher deixar o Movimento 5 Estrelas por respeito por todos aqueles que se sentem traídos e pela minha dignidade”. E continuou: “O nosso programa eleitoral, que teria colocado uma lápide numa forma de fazer política agora obsoleta e que tinha no início a extraordinária capacidade de aproximar os cidadãos da gestão dos assuntos públicos, era muito claro. Entre os pontos de referência estava o desmantelamento do MEE, um compromisso que, como tantos outros, foi completamente desconsiderado. Agora que o pacto com os eleitores foi mais uma vez traído, já não posso permanecer num Movimento que trata como carta rasgada o compromisso solene assumido ao assinar um programa eleitoral”.

Fabio Berardini, eleito em Abruzzo, esteve ontem entre os seis deputados que falaram na Câmara para anunciar a votação em dissidência: “Hoje, infelizmente, o que passamos a ter são as ruínas de um movimento que começou com as melhores intenções, mas que destruiu qualquer contacto com o mundo real graças à ausência de uma organização mínima no terreno”, escreveu hoje no Facebook. “Ontem o golpe de misericórdia foi consumido: depois de ter escrito a preto e branco no programa eleitoral ‘Desmantelamento do MEE’, é aprovada agora uma reforma (um termo aqui pejorativo) desta instituição. É óbvio que os líderes do M5s deixaram cair completamente as suas calças para manterem os seus lugares. Nós, 13 deputados que votámos de forma consistente com o nosso programa eleitoral, fomos ameaçados de expulsão e marginalizados. O clima – queixa-se Berardini – tornou-se tão tóxico que já não me reconheço nesta força política.” Fim de citação

Mas se mudarmos de campo de análise, se nos deslocarmos das instituições regionais como a UEM para as instituições mais globais como o FMI e o Banco Mundial encontramos talvez não o sentido de maldade que vemos desenhar-se para a Europa pós-Covid mas a incompetência ou a indiferença face aos problemas com que se debatem os países menos desenvolvidos atualmente. Aos problemas graves, gravíssimos, que existiam nestes mesmos países antes da crise Covid 19 vieram ainda juntar-se as imensas situações dramáticas resultantes da própria crise Covid e resultantes também dos mecanismos da finança especulativa internacional que os bloqueia ainda mais do que estariam sem os ataques desta.

 

3. Instituições globais e crise Covid

Tudo isto mostra que os nossos dirigentes na economia global estão eles também de costas viradas para a mensagem de Cristo. E a demonstrá-lo vejamos o que nos diz Harold James sobre o tema Covid e globalização:

PRINCETON – O COVID-19 está a alargar dramaticamente uma divisão global que era evidente muito antes da atual crise. Apenas alguns países conseguiram cobrir os custos da pandemia e do confinamento com grandes medidas fiscais, devido ao apoio dos bancos centrais que estão a comprar grandes quantidades de dívida pública. A maioria dos outros países está a enfrentar custos de empréstimos crescentes e, portanto, não se podem permitir uma resposta orçamental robusta. De facto, as atuais condições de empréstimo dividiram o mundo em os que têm e os que não têm – ou melhor, nós e eles. Se esta divisão persistir, pode descarrilar por completo a globalização.

Os países ricos podem esperar um longo período de taxas de juro excecionalmente baixas, mesmo que a dívida pública tenha disparado a um ritmo inigualável em tempo de paz. Cada vez mais, o dinheiro do banco central está a ser considerado não tanto um passivo, mas sim como uma variedade de equidade que constitui a participação dos cidadãos num determinado esforço nacional. Uma tal abordagem geraria uma nova visão do que a própria cidadania implica, e de como o dinheiro pode manter uma comunidade unida.

Mas essa opção não está disponível para os que não têm. Por exemplo, quando a Turquia tentou responder à COVID-19 com uma inundação de crédito barato, a sua moeda entrou em colapso, forçando-a a inverter este caminho com a subida das taxas de juro. Depois de tentar tornar o acesso ao crédito barato central na sua doutrina política, o Presidente Recep Tayyip Erdoğan teve de recuar a fim de restaurar a credibilidade.

Do mesmo modo, a África do Sul está a enfrentar uma descida de classificação que limitará drasticamente a sua margem de manobra orçamental. A Argentina, que emitiu uma obrigação de cem anos ainda em 2017, entrou em situação de incumprimento. E os mercados emergentes como um todo emitiram mais dívida, embora numa escala não muito próxima da do mundo desenvolvido.

Para os países pobres, as restrições orçamentais a uma resposta eficaz à atual crise são ainda mais óbvias, e apontam para a necessidade de um programa internacional para suspender o serviço da dívida. Como os custos dos empréstimos são tão elevados na contabilidade orçamental destes países, eles gastaram apenas 2% do PIB a responder à COVID-19, em comparação com os 15-20% dos países ricos. Não só os países mais pobres têm poucas probabilidades de obter uma ampla oferta de vacinas COVID-19 em breve, como também não conseguem obter o equivalente financeiro das mesmas.

Numa altura em que já existem preocupações crescentes sobre o futuro da democracia, a ausência de uma ligação segura entre os cidadãos e o bem-estar do seu país é preocupante. De facto, a crescente divisão global atual parece uma reformulação do que se viveu com o padrão de ouro do final do século XIX, que permite que apenas alguns países centrais – Grã-Bretanha, França, Alemanha, Japão e Estados Unidos – contraiam empréstimos baratos. E porque a capacidade de pedir emprestado era em grande parte sinónimo da capacidade de adquirir armas e poder militar, o padrão de ouro reforçou a pretensão de um país ao domínio internacional, levando assim o projeto imperialista a avançar.

Então, como agora, aqueles que se encontravam na periferia do sistema viveram uma incerteza persistente, custos mais elevados e maiores vulnerabilidades do que qualquer uma das potências dominantes. Enquanto os maiores e mais ambiciosos destes países marginalizados tentaram aderir ao núcleo, os seus esforços foram constantemente ameaçados por ataques especulativos e pelo pânico do mercado.

O mundo atual, financeiramente bifurcado, apresenta a sua própria ameaça inerente à estabilidade, uma vez que os ataques especulativos e desvalorizações conduzem a mais incumprimentos soberanos sobre a dívida denominada em moedas estrangeiras. Os habitantes destes países marginalizados sofrerão grandes descidas no seu nível de vida. E embora essa miséria possa beneficiar inicialmente os consumidores dos países ricos, uma vaga de importações a baixo preço representaria simultaneamente uma ameaça para os empregos de produção interna, criando pressão política para medidas protecionistas.

Uma solução óbvia seria a emissão de uma moeda internacional capaz de oferecer aos países em dificuldades o mesmo tipo de apoio que decorre das operações dos bancos centrais nas economias desenvolvidas. Na década de 1960, o Fundo Monetário Internacional criou os Direitos de Saque Especiais (DSE) para fazer face a uma perceção de falta de liquidez global. Esta inovação foi construída com base em ideias anteriores que tinham sido difundidas durante a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente a proposta de John Maynard Keynes para uma moeda internacional sintética (o “bancor”)”.

(…)

“Na era do COVID-19, a experiência do euro parece [o sublinhado é nosso] ter dado os seus frutos. A Grécia e a Itália, outrora no centro de uma longa crise da dívida, podem agora pedir emprestado mais barato do que os EUA. Há dez anos, muitos comentadores sugeriram que a Itália teria ficado melhor se tivesse seguido um regime monetário como o da Argentina, o que permite uma desvalorização. É seguro presumir que atualmente ninguém o faria.

Mas a Europa só muito lentamente reconhece que elementos são necessários para tornar a sua união monetária viável a longo prazo. Há uma clara necessidade de mais mutualização orçamental e mais seguros, mas o processo continua a ser controverso.

Se uma experiência semelhante poderia ser montada a nível global é uma questão em aberto. Mas é tempo de começar a pensar num mecanismo monetário capaz de manter unidas não só as comunidades nacionais mas toda a economia global.” Fim de citação.

 

Sendo certo que falamos de matérias que não se discutem seguramente em nenhuma licenciatura e em qualquer Faculdade de Economia deste país, e face a tudo o que se constata ou que se espera vir a constatar, porque agora a ignorância é a mãe de todas as grandes decisões de politica macroeconómica, resta-nos, para terminar esta nossa análise relembrar dois excertos do texto do autor conservador sobre o radicalismo de Cristo:

  1. “A pergunta mais sensata que aqueles de nós que são cristãos poderiam fazer a si-mesmos não é porque é que somos muito mais humanos e esclarecidos do que então a generalidade de todos os outros; é antes perguntarmo-nos quem são os párias modernos e se os estamos ou não a maltratar”.
  1. “Cada geração de cristãos precisa de refletir sobre como o seu exemplo se aplica aos tempos em que vive. Precisamos da nossa sensibilidade para nos alinharmos mais com a sua mensagem.”

Seja-se cristão ou não, se concordamos com Lefebvre de que ninguém deve ignorar a mensagem de Cristo nos seus múltiplos ângulos de análise, então a nossa obrigação é sobretudo descortinar e defender quem são os párias, os excluídos, os marginalizados da sociedade de hoje, sociedade onde reina um princípio fundamental: o lucro, a ganância, a corrupção, onde se está perante uma outra Roma que não a de Boccacio mas igualmente muito perigosa porque com muito poder como desde a crise de 2010 se tem visto. Este é também o papel que a comunidade cristã deveria assumir como sendo o seu, o de serem porta-estandarte da mensagem de Cristo.

Eis pois a reflexão a que me levou a leitura do artigo O radicalismo esquecido de Jesus Cristo assinado pelo conservador Peter Wehner.

 

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Referências:

  1. Peter Wehner, O radicalismo esquecido de Jesus Cristo, New York Times (ver aqui).
  2. A Viagem dos Argonautas, Argentina – Incrível: O governo rejeitou o acordo com a Pfizer porque esta empresa “pediu os glaciares como garantia” (ver aqui)
  3. Diversos documentos da EU
  4. Projeto de Orçamento do governo italiano
  5. Wolfgang Münchau, EuroIntelligence, 27 Novembro de 2020, citado em Voci dall’estero, em 30/11/2020, Eurointelligence – Dobbiamo parlare del debito dell’Italia, aqui)
  6. Boccaccio, Decameron. Disponível em acesso livre na internet.
  7. Harold James, The Financial Equivalent of a Vaccine, 1 de Dezembro de 2020, publicado em Project Syndicate (ver aqui) e republicado em GonzaloRaffoInfonews (ver aqui)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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