“A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936 |
Nota de editor:
Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. O texto que publicamos hoje ”Depois da queda de Marriner Eccles – “A.P. Giannini, Marriner Stoddard Eccles e a alteração do panorama da banca americana” (extracto, Capítulo IX, Fortes divergências de opinião: 1949-1951)” de Sandra Weldin, é o segundo da 5ª parte da série – “5. Da morte de Roosevelt à queda de Marriner Eccles com Truman”, que é composta de 3 textos..
Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.
É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”
5. Da morte de Roosevelt à queda de Marriner Eccles com Truman
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
25 m de leitura
5.2. Depois da queda de Marriner Eccles – “A.P. Giannini, Marriner Stoddard Eccles e a alteração do panorama da banca americana” (extracto)
Por Sandra J. Weldin
Dissertação de doutoramento, “A.P. GIANNINI, MARRINER STODDARD ECCLES, AND THE CHANGING LANDSCAPE OF AMERICAN BANKING”, Universidade do Texas Norte, Maio de 2000
Publicado por
(ver aqui)
Capítulo IX
Fortes divergências de opinião: 1949-1951 (pág. 198-217)
(…)
Uma vez afastado da presidência do Conselho de Administração, Eccles tornou-se mais franco e agressivo contra a administração, particularmente para com o Tesouro e o presidente. De 1948 a 1951 Eccles emitiu declarações públicas relativas à sua disputa com o Departamento do Tesouro e com a gestão da dívida pública por parte de Truman. A primeira recessão pós-guerra ocorreu em 1949, quando o Produto Nacional Bruto subiu ligeiramente, os preços desceram 2,4%, e o desemprego subiu para 5 por cento. Uma redução de impostos em 1948 e o aumento das despesas da Guerra Fria resultaram num défice orçamental de 3 mil milhões de dólares em 1949. Durante a primeira metade de 1950, o défice aumentou em 4,3 milhões de dólares, e a administração reagiu com alarme à medida que as despesas aumentavam durante a Guerra da Coreia [48].
No início da recessão em 1949, Eccles denunciou publicamente as políticas de Truman e Snyder, alegando que estas levaram a um excesso da oferta de dinheiro. Apontando para o triplicar da oferta de dinheiro entre 1940 e 1945, Eccles culpou-os do “financiamento de uma parte substancial do custo da guerra pela venda das obrigações do Governo aos bancos”. Reiterando as suas críticas anteriores, Eccles referiu-se a argumentos relativos aos elevados níveis de rendimento do pós-guerra, ao crédito fácil, e ao atraso dos bens de consumo para absorver o excesso de procura como causa da inflação. A eliminação precipitada do imposto sobre lucros excessivos e dos controlos salariais e de preços, e o aumento da procura de habitação, de bens de consumo e bens de capital, e a escassez de oferta mundial de alimentos, levaram rapidamente à inflação. Quanto aos gastos com a defesa, Eccles declarou-os contraproducentes e desnecessários [49].
Apareceram muitos artigos de jornal que esclareceram o público sobre os diferendos entre Eccles, Snyder, McCabe e Truman no que respeita à gestão da dívida pública e à política monetária. Exemplos selecionados de artigos do New York Times incluem “Eccles Denounces ‘Easy Money’ Policy” em 3 de Dezembro de 1949, e “McCabe in Conflict with Eccles Blast” em 4 de Dezembro de 1949; no Wall Street Journal artigos tais como “Will Business Boom then Slump in 1950?” e “Money Rulers Difference” em 5 de Dezembro de 1949.Em 20 de Julho de 1950, num artigo intitulado “Truman and Eccles” no Ogden Standard Examiner, Eccles solicitou novamente a suspensão do crédito fácil. Recomendou a restrição da compra a prestações, a instituição de impostos sobre os lucros excessivos, e o investimento não bancário de obrigações.
O início da Guerra da Coreia exacerbou a controvérsia entre Eccles e a Administração. Embora Eccles acreditasse que a política orçamental era a principal ferramenta para controlar a inflação em tempo de guerra, apelou a controlos adicionais por parte da Reserva Federal para travar a expansão do crédito e a inflação [50]. A luta incessante de Eccles pelo controlo da política monetária pontuou quase todos os discursos públicos. Eccles acreditava que “não havia justificação para a insistência do Tesouro em que o Sistema da Reserva Federal aderisse a uma política de compra de títulos do governo à vontade dos titulares e a preços fixos” [51]. A Reserva Federal apoiou títulos do Tesouro à taxa de 2½ por cento, uma política que o Conselho considerou inflacionista. A Reserva queria ser libertada dessa responsabilidade ou, no mínimo, que a taxa de juro fosse aumentada [52].
Inevitavelmente, a luta para controlar a inflação durante a Guerra da Coreia colocou a Reserva Federal e o Tesouro um contra o outro. Ao falar perante a Câmara de Comércio de Nova Iorque sobre a mobilização financeira para a Guerra da Coreia, Snyder anunciou que para evitar níveis de tributação mais elevados, a taxa de 2 ½ por cento a longo prazo sobre os títulos do Tesouro continuaria em vigor. Em oposição direta à pedra angular da política da Reserva Federal, Snyder argumentou que:
Notarão que não incluí a utilização de aumentos fracionários nas taxas de juro dos títulos do Tesouro como uma das medidas de controlo efetivo da inflação. O Tesouro está convencido de que não há provas tangíveis de que uma política de racionamento de crédito através de pequenos aumentos das taxas de juro dos fundos emprestados ao Governo tenha um efeito real ou genuíno na redução do volume de empréstimos privados e no retardamento das pressões inflacionistas. A ilusão de que alterações fracionárias nas taxas de juro podem ser eficazes no combate à inflação deve ser dissipada das nossas mentes [53].
Snyder não só denegriu o papel da política monetária, como também deu a entender que a sua política era uma política aprovada pela Reserva Federal, pelo presidente, e pelo Tesouro. Snyder concluiu o seu discurso com uma declaração de que:
“… a taxa de 2 ½ por cento a longo prazo é justa e equitativa para o investidor, e que a estabilidade do mercado é essencial e o Departamento do Tesouro, na sequência de uma conferência conjunta com o Presidente Truman e o Presidente McCabe e o Conselho da Reserva Federal, conclui que o reembolso e as novas emissões monetárias irão ser financiadas dentro do padrão dessa taxa.” [54]
O Conselho da Reserva Federal e o mercado de investimento reagiram com choque. A declaração de Snyder implicava que o secretário do Tesouro ditava a política orçamental e monetária. Os jornais criticaram o desplante de Snyder. Edward Collins do New York Times protestou: “O facto de Snyder ser, como de costume, completamente infundado e inflacionista, foi ofuscado pela dimensão histórica desta impertinência” [55]. Em 24 de Janeiro, o The Washington Post relatou que “Snyder Implica a Ajuda de Truman na Luta contra McCabe sobre a Política”. O repórter, J.A. Livingston, observou que a decisão de Snyder “não foi uma decisão que tomaria, talvez, se ele fosse um economista” [56].
Embora o Presidente McCabe não tenha feito declarações públicas, Allen Sproul, presidente da Reserva Federal de Nova Iorque e vice-presidente do Comité Federal de Mercado Aberto, falou criticamente sobre a declaração de Snyder de apoio à taxa de juro de longo prazo de 2½ durante um discurso perante a New York State Banking Association. As posições de Sproul colocaram-no no topo da cadeia de comando da Reserva Federal, atrás apenas de McCabe, e a sua opinião foi muito valorizada. [57]
Com o fim do seu mandato de governador próximo e sabendo que McCabe não podia falar sem pôr em risco a sua presidência, Eccles falou com honestidade e clareza. O Senador Robert Taft, o membro do Comité Misto do Relatório Económico, convidou Eccles a falar a 25 de Janeiro de 1951. Eccles explicou porque é que o Sistema de Reserva considerou a declaração de Snyder perturbadora, tanto em substância como pelas suas implicações. [58]
Numa acção sem precedentes, um Presidente da República ordenou ao Conselho de Governadores e ao Comité Federal do Mercado Aberto que se deslocassem à Casa Branca no dia 31 de Janeiro para discutir os ataques à declaração de Snyder. O Presidente Woodrow Wilson, o “pai da Reserva Federal”, nunca teve uma relação estreita com a Reserva. Wilson observou que “no preciso momento em que eu deveria arranjar relações estreitas com o Conselho de Administração, nesse momento eu seria acusado de tentar exercer pressão política”. Truman, contudo, não sentiu um tal constrangimento [59].
Relutante em assistir, Eccles pediu que o Conselho ouvisse o presidente sem interrupção e que apenas o Presidente McCabe fosse autorizado a falar [60]. Herbert Stein descreveu a reunião da Casa Branca como “um dos dias mais importantes da história da Reserva Federal” [61]. Começando a sua declaração com um relatório sobre os assuntos externos, Truman tentou estimular a sua audiência com a questão da ameaça do comunismo. Truman afirmou que uma forma de combater o comunismo era “manter a confiança no crédito do governo e nos títulos do governo”. Truman, apoiando-se na experiência passada, embora desapropriada, recordou que quando regressou da Primeira Guerra Mundial, recebeu apenas 80 dólares por um título de liberdade de 100 dólares. Embora os títulos do governo flutuassem de acordo com a oferta e a procura, Truman não soube avaliar esta discriminação [62]. Até John Snyder considerou errada a análise de Truman. Snyder recordou :
O Presidente, infelizmente …. Penso que ele não compreendeu claramente a diferença entre títulos de poupança e obrigações de dívida pública. Hoje, os títulos de poupança [da Segunda Guerra Mundial] têm de ser pagos ao par. Eu dizia-lhe: “O senhor fala de títulos de dívida pública, não de títulos de poupança, enquanto ele dizia que não ia deixar os títulos de poupança caírem para 85 como os Liberty Bonds. [63]
Truman discutiu o orçamento atual, orientado para as despesas da defesa, e deu uma cópia do orçamento a cada membro. Elogiou a Reserva Federal pelo seu “bom trabalho na manutenção da estrutura financeira do país”. Ninguém se referiu ao recente desacordo entre a Reserva Federal e John Snyder. Repetidamente, o presidente referiu-se à necessidade de manter a confiança pública no mercado obrigacionista como um meio de combater o comunismo, e finalmente o Governador McCabe lembrou ao Presidente que “o apoio ao mercado obrigacionista do Governo era algo como uma atividade extracurricular para o Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC)”. McCabe sugeriu que o FOMC tivesse consultas com o Tesouro para um acordo sobre o apoio às obrigações de dívida pública e, se tal se revelasse improdutivo, então o Governador McCabe gostaria de falar com o Presidente. O Presidente Truman concordou. [64]
Quando o Governador McCabe perguntou quem iria fazer a declaração pública relativa à reunião, Truman respondeu que o faria pela manhã, mas não se opôs a que a Reserva Federal também emitisse um comunicado. [65]
O economista Herbert Stein descreveu o encontro da seguinte forma:
A reunião foi uma obra-prima de mal-entendido deliberado. Nenhuma das partes disse o que realmente queria dizer, no entanto cada uma compreendeu o que queriam dizer, mas preferiu responder como se não o tivessem compreendido e assim deixava-se a outra parte livre para interpretar a resposta como desejasse. O Presidente formulou o seu pedido de apoio numa linguagem suficientemente geral para permitir ao Governador McCabe responder como se ele pensasse que o Presidente apenas queria garantias de que a Reserva Federal não permitiria um desastre financeiro. McCabe deu a sua garantia, mas numa linguagem tão indefinida que permitisse ao Presidente interpretar a sua resposta como um compromisso de apoio à política do Tesouro. [66]
A Reserva Federal apercebeu-se da ambiguidade da reunião. Imediatamente após a sessão, os seus membros discutiram a troca de opiniões e determinaram que dela não resultara nenhum compromisso. O grupo concordou em escrever um memorando sobre os trabalhos. Uma moção de apoio ao mercado obrigacionista aos níveis atuais foi derrotada por uma votação de oito a quatro. Além disso, concordaram que se o mercado obrigacionista caísse, não o apoiariam [67]. O presidente lançou um ataque preventivo no dia seguinte. Uma informação à imprensa indicava que o Conselho da Reserva Federal tinha prometido o seu apoio para manter a estabilidade dos títulos do governo [68]. Truman enviou uma carta a McCabe confirmando também o acordo [69]. Quando McCabe recebeu a carta, escreveu prontamente a Truman e pediu-lhe para anular a declaração, mas era demasiado tarde.
A carta de Truman assim como uma declaração de Snyder indicando a concordância da Reserva Federal apareceu na imprensa a 1 de Fevereiro [70]. Alfred Friendly do Washington Post e Felix Belair, Jr., do New York Times, perguntaram a Eccles porque é que a Reserva Federal capitulou perante o Tesouro. Eccles respondeu que essa interpretação era incorreta. Ele transmitiu-lhes os detalhes da reunião. No dia seguinte, ambos os repórteres imprimiram colunas que refletiam a opinião de Eccles sobre a reunião. Eccles preparou um memorando da reunião indicando que Truman falou apenas em termos gerais sobre o mercado de títulos do Estado e a necessidade de confiança do público no mercado de obrigações. A 4 de Fevereiro, na primeira página da edição de domingo do New York Times, o título de Belair foi “Truman é contestado pelo Conselho da Reserva”. Quando questionado sobre a carta de Truman a McCabe, Eccles respondeu:
“Estou surpreendido. A única resposta que posso dar é dar-vos uma cópia do registo do que se passou na reunião da Casa Branca, conforme acordado por outros membros do Comité Federal de Mercado Aberto e do qual eliminei apenas certas referências que tratam da situação internacional e militar.” [71]
Depois de reconhecer que a responsabilidade pela divulgação da informação era exclusivamente sua e não refletia o Conselho, Eccles forneceu o texto do memorando do Conselho da Reserva [72]. No mesmo dia em que a emissão de rádio de Drew Pearson revelou a animosidade de Truman para com Eccles, Pearson observou que o Senador Fulbright sugeriu que Eccles liderasse a Corporação Financeira para a Reconstrução, e a resposta de Truman foi “que tanto Fullbright como Eccles podiam ir dar uma volta e deixarem de o aborrecer” [73].
Como Eccles afirmou no dia seguinte, “a gordura estava ao lume”, vinham aí problemas [74]. O Washington Times Herald relatou que “é provável que o Presidente tenha decidido um golpe político desonesto, convocando os governadores do Conselho Federal, ouvindo o que tinham a dizer e anunciando publicamente que lhe tinham prometido apoio e unidade em tempo de emergência”. A 12 de Fevereiro, Walter Lippman do New York Herald Tribune observou que a discussão entre o Tesouro e a Reserva Federal “só pode ser confusa e atormentada se o Presidente Truman deixa que ela se torne distorcida e se transforme numa querela política”. O New York Times apresentou o relato mais controverso. A coluna de Robert Allen, “Truman dispõe-se a despedir Eccles”, declarou que quando o presidente assistiu a um jantar com os líderes democratas do Congresso, observou que tencionava livrar-se de Eccles. Também foi notado o facto de que o mandato de Eccles não expirava até 1958, mas que o presidente tinha o poder de o destituir em qualquer momento [75].
Compreendendo que os títulos de dívida pública competiam com bancos e associações de poupança e crédito, o Boston Traveler relatou que:
O Presidente Truman ficará na história se não mesmo na ignomínia financeira por esta decisão. Ele é o primeiro Presidente a interferir nos assuntos da Reserva Federal e em como cumprir a sua obrigação legal de controlar a moeda e o crédito no interesse nacional. E, na nossa sincera convicção, ele escolheu um vencedor desastroso [76].
O apoio à posição da Reserva Federal veio também do Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Sete economistas, incluindo Milton Friedman, acreditavam que :
“A insistência do Tesouro em levar para o período pós-guerra e para o período de defesa o mesmo padrão de taxas de juro artificialmente baixo e fixo que era inevitável durante as condições da Segunda Guerra Mundial, é, evidentemente, muito infeliz. [77]
O conselho do comité foi que “deveria ser dada autoridade ao conselho para aumentar substancialmente as reservas primárias de todos os bancos [e que] as taxas de juro de curto prazo deveriam ser flexibilizadas” [78].
A maioria dos artigos noticiosos defendia a posição da Reserva Federal, embora ocasionalmente surgissem artigos de apoio a Snyder e a Truman. Quando entrevistado pelo San Francisco Bulletin a 9 de Fevereiro de 1951, L.M. Giannini advertiu “que um momento de emergência nacional não é altura para abanar o barco. É lamentável, em tal período, ter uma grande controvérsia académica no que diz respeito ao financiamento da dívida nacional” [79].
O Presidente McCabe, consternado com os acontecimentos durante a primeira semana de Fevereiro, convocou uma reunião do FOMC para discutir os recentes comunicados de imprensa. A reunião centrou-se na forma de lidar com o presidente e com Snyder. A divulgação do memorando da Reserva Federal feita por Eccles sobre a reunião da Casa Branca recebeu ampla atenção por parte da comissão. Com excepção de James Vardaman, Jr., um nomeado por Truman, nenhum dos membros criticou Eccles pela divulgação do memorando da Reserva Federal. Allen Sproul elogiou Eccles pelas suas ações porque elas geraram respeito por parte da comunidade financeira e do público. A maioria da comissão percebeu que a relação entre o FOMC e o secretário do Tesouro e o Presidente Truman tinha de ser formalizada por carta para compensar a barragem da imprensa e para aliviar o presidente de uma situação embaraçosa. O comité redigiu duas cartas, uma para cada uma destas personalidades citadas [80].
Eccles fez uma declaração ao comité sublinhando a importância de uma ação agressiva por parte do Conselho e do FOMC. Assumiu a culpa pela situação atual, mas não apresentou desculpas, pois acreditava ter cumprido as suas responsabilidades públicas ao divulgar um documento confidencial. Recordou à comissão que esta tinha “uma responsabilidade pública que é tão importante para o cumprimento das suas obrigações para tentar travar a inflação como é o facto de realizarmos um programa de defesa”. Eccles salientou que o apoio da Reserva aos títulos do Tesouro não se devia ao cumprimento do dever mas a um esforço para “satisfazer as exigências ou pedidos do Tesouro”. E continuou.” … estamos a dar ao público a impressão de que capitulámos ao ponto de não fazermos nada para resolver este problema. O público de hoje está confuso. Eles pensam que isto não passa de uma disputa de poder entre o Tesouro e a Reserva Federal”. Depois de descrever as responsabilidades da Reserva Federal, Eccles observou que “se o presidente quer dar-nos uma diretiva, isso não significa a nossa capitulação. Se o Congresso não gostar do que estamos a fazer, então eles podem alterar as regras. Mas até o fazerem, nós temos a responsabilidade e a autoridade ” [81].
O projeto da carta do FOMC ao presidente tentava uma reconciliação, procurando desanuviar a situação. A carta iniciava-se com: “V.ª Exª, como Presidente dos Estados Unidos, e nós, como membros do Comité Federal de Mercado Aberto, fomos involuntariamente levados a uma posição falsa perante o povo americano… Atraiçoaríamos o nosso dever para com o país, bem como para consigo, se não fizéssemos tudo o que esteja ao nosso alcance para esclarecer os mal-entendidos”. Após uma discussão geral sobre a inflação, a carta continuava:
A inflação de hoje não se deve ao financiamento do défice por parte do Governo. Deve-se ao aumento das despesas civis em grande parte financiadas direta ou indiretamente através da venda de títulos do Governo à Reserva Federal… Em tempos de inflação como estes, a nossa compra de títulos do Governo não proporciona confiança. Mina a confiança… Senhor Presidente, não nos pediu na nossa recente reunião que nos comprometêssemos a prosseguir nesta via perigosa… De acordo com as nossas garantias para consigo, procuraremos elaborar com o Secretário do Tesouro o mais rapidamente possível um programa que seja praticável, exequível e adequado à luz da emergência da defesa, que salvaguarde e mantenha a confiança pública nos valores das obrigações do Tesouro em circulação, e que ao mesmo tempo proteja o poder de compra do dólar. [82]
Eccles continuou a divulgar a verdadeira causa do problema entre o Tesouro e a Reserva Federal para dissipar o rumor de que a rixa se devia apenas a um confronto de personalidades. Falando perante o Comité Consultivo Federal, Eccles criticou abertamente o comité e a Associação Americana de Banqueiros por não apoiarem a posição da Reserva Federal. Culpou a posição da Associação Americana de Banqueiros por ter conferido ao Secretário do Tesouro uma atitude de independência face do Sistema da Reserva que lhe conferia poderes para emitir uma declaração pública indicando o apoio à fixação de taxas no mercado de títulos sem a aprovação do Conselho de Administração ou do FOMC [83].
Abordando diretamente a inépcia do Conselho, Eccles apontou a sua falta de apoio quando o Conselho de Reserva procurou legislação para travar a oferta de moeda e considerou que “obtivemos uma oposição constante do Comité [Consultivo Federal]… [84] Encerrou o seu discurso com: “Nunca vi nenhum momento em que a falência deste Comité Consultivo Federal ou da Associação Americana de Banqueiros fosse tão evidente como hoje” [85].
No mesmo dia da sua visita ao Comité Consultivo Federal, Eccles falou para o Conselho [da Reserva Federal].
Talvez eu deva pedir desculpa ao grupo. (Virando-se para o Presidente McCabe) – quando esteve fora, Tom, fiz uma declaração. Há muito tempo que estou tão preocupado com isto, acho que talvez tenha dito algumas coisas que não devia ter dito ou num tom muito mais forte do que devia. É preciso ter um “Advogado do Diabo”. Pareço certamente ter escolhido o difícil papel de ser isso mesmo. Possivelmente não o devia ter feito hoje. Espero que não considerem, que nenhum de vós o tome como um assunto pessoal. Trata-se de uma questão estritamente objectiva [86].
Eccles e Sproul trabalharam assiduamente num plano de reconciliação com o Tesouro, que, ao mesmo tempo, afirmasse a capacidade da Reserva Federal se libertar da responsabilidade de apoiar as obrigações do Tesouro. Elaboraram um programa pelo qual a Reserva Federal só apoiaria o mercado de taxas fixas até um máximo de 500 milhões de dólares de obrigações a 2 ½ por cento [87]. A posição da Reserva recebeu apoio do Senador Paul Douglas do Illinois. Esta proposta, apresentada a 7 de Fevereiro, recebeu o reconhecimento de Truman a 25 de Fevereiro, quando convidou vários funcionários da administração e o Presidente McCabe a investigar as relações entre o Tesouro e a Reserva Federal.
Embora o presidente tenha mencionado a conveniência de manter as taxas de juro atuais, o economista Herbert Stein percebeu isto como “tudo isto era marginal para o resultado porque a proposta básica já tinha sido decidida ” [88].
Thomas McCabe demitiu-se do Conselho de Administração no mesmo dia. A sua carta a Truman indicava que apesar de ter previsto que o seu papel na Reserva Federal durasse um ano, permaneceu três anos devido às tarefas em mãos. McCabe descreveu o seu dilema:
Senti que o Presidente do Conselho dos Governadores tinha um papel especial e duplo. Como membro do Conselho de Governadores, deve cumprir sempre com toda a integridade as suas responsabilidades ao abrigo da Lei da Reserva Federal. Como Presidente do Conselho de Governadores, deve esforçar-se conscienciosamente por harmonizar interna e externamente as políticas do Conselho de Governadores com as do Presidente e da Administração. Ao longo dos anos desde que me honrou com a nomeação, exerci toda a minha energia para cumprir estes dois objetivos. Em nenhum momento isso tem sido fácil. [89]
John Snyder recordou que Truman acreditava que a nomeação de McCabe era um erro. Truman, enquanto discutia a destituição de Eccles e referindo-se à nomeação de McCabe, admitiu que “de qualquer modo, também fiz um erro igual”. Snyder observou que “assim que o manto lhe caiu em cima [McCabe], ele apenas se envaideceu e inchou, inchou até fazer saltar os seus botões…”. Oh não, ele não tinha uma ideia sobre como lidar com o trabalho”. Quando Truman informou McCabe de que queria que ele renunciasse à presidência, McCabe fê-lo prontamente [90].
A escolha de Snyder para um novo presidente foi William McChesney Martin, Secretário Assistente do Tesouro e um companheiro do Missouri. Martin, antes da sua designação formal como presidente, supostamente terá negociado o acordo de 1951 entre o Tesouro e o Federal Reserve, enquanto Snyder esteve ausente por duas semanas devido a uma operação à vista [91].
O senador liberal democrata Paul Douglas, do Illinois, ex-professor de economia da Universidade de Chicago, apoiou publicamente Martin para a posição no Federal Reserve. Em 22 de Fevereiro de 1951, Douglas discutiu a questão dos preços dos títulos a taxa de rendimento fixa na Câmara do Senado. Ele enfaticamente lembrou à Câmara que a questão não era específica sobre as taxas de juros, mas “se o Sistema da Reserva Federal restringiria a oferta de crédito na sua fonte” [92].
Quando o Tesouro e a Reserva Federal revelaram o acordo, Douglas e outros senadores apresentaram uma resolução para permitir que a Reserva Federal rejeitasse o mercado de títulos. Achando a declaração presidencial e do Tesouro ambígua, Douglas queria esclarecimentos. O anúncio conjunto do Tesouro – Reserva Federal em 3 de março de 1951, declarou meramente que:
O Tesouro e o Sistema da Reserva Federal chegaram a um acordo total com relação à gestão da dívida e às políticas monetárias a serem praticadas na promoção do propósito comum de assegurar o financiamento bem-sucedido das necessidades do Governo e, ao mesmo tempo, minimizar a monetização da dívida pública [93].
O significado total do acordo ficou evidente três dias após o anúncio. A Reserva comprou $ 500 milhões em títulos e, assim, rapidamente cumpriu a sua responsabilidade. Quando o Tesouro solicitou apoio continuado ao mercado de títulos, o Conselho recusou educadamente. Agora liberto da obrigação de taxas de rentabilidade fixas, a Reserva Federal poderia executar o controle da política monetária [94].
Liberto do seu papel de não apoiar as políticas orçamental e monetária de Truman e sabendo que ele próprio renunciaria em breve ao cargo no Conselho de Governadores, Eccles fez um discurso de abertura em 4 de Junho na Faculdade de Agricultura Estadual em Utah que provocou a rutura final nas suas relações com Truman. Eccles utilizou o seu discurso público como um veículo para expor os seus pontos de vista sobre a Coreia, Indochina, Irão e China. Ele afirmou que os Estados Unidos “apoiavam governos reacionários que careciam da confiança e do apoio do povo”. Denunciando a política americana de comprar países que cortejassem o comunismo, Eccles sugeriu que os recursos deveriam ser alocados para combater os problemas subjacentes de superpopulação e da revolução económica. Os $ 60 milhões de dólares previstos para os gastos na defesa da Coreia seriam mais bem gastos ajudando a Coreia subdesenvolvida a sustentar a sua economia. Num curto discurso, Eccles arrasou a Doutrina Truman e as suas políticas da Guerra Fria [95].
Com a vitória final de Eccles para o Conselho de Administração terminada, apresentou a sua demissão em 20 de Junho de 1951, para se tornar efetiva em 15 de Julho de 1951. Eccles recordou ao presidente que, embora inicialmente tivesse previsto uma curta estadia no Capitólio, tinha servido dezassete anos por causa da guerra e das suas consequências, mas acreditava que era agora altura de voltar aos seus assuntos pessoais e privados [96]. A resposta superficial de Truman foi uma “expressão proforma de boa sorte e adeus, sem uma palavra sequer de agradecimento pelos serviços prestados à nação” [97]. Segundo Sidney Hyman, biógrafo de Eccles, muitos jornais elogiaram o serviço de Eccles e funcionários de Washington honraram-no com uma festa de despedida no maior salão de baile do Capitólio [98].
(…)
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Notas
[48] John W. Snyder, “The Treasury and Economic Policy,” in Economics and the Truman Administration, ed. Walter Heller (Lawrence: The Regents Press of Kansas, 1981), 28.
[49] “Business Downturn: Is It Here?: An Interview with Marriner S. Eccles,” U.S. News and World Report, 7 January 1949, 34-35.
[50] Discurso do Marriner S. Eccles, Membro do Conselho de Governadores do Sistema da Reserva Federal, no Banquete do dia 17. Congresso Bienal da Liga Cooperativa dos EUA, Sherman Hotel, Chicago, Illinois, 12 de Outubro de 1950, Eccles Papers.
[51] Eccles, Beckoning Frontiers, 481.
[52] Nota: Quando o Tesouro emite uma obrigação de longo prazo a 2½ por cento, os bancos comerciais podem comprá-las. Se a reserva exigida for de 20 por cento, o banco comercial pode emprestar 80 por cento da obrigação a uma taxa de juro superior à que pagou ao Tesouro, mas deve depositar 20 por cento do empréstimo à Reserva Federal. Se a Reserva Federal não fosse obrigada a apoiar as obrigações a longo prazo, então os bancos não poderiam utilizá-las como garantia para gerar fundos emprestáveis, aumentar a oferta de dinheiro, e causar inflação. Se a taxa de juro dos títulos fosse aumentada, os bancos comerciais estariam mais relutantes em comprá-los, e os investidores não-bancários, mais ainda. Os investidores não bancários deteriam os títulos por mais tempo e a taxa de inflação diminuiria. O Tesouro quer naturalmente aumentar os seus empréstimos, mas a uma taxa de juro baixa para pagar a dívida pública, enquanto que a Reserva Federal quer controlar a oferta de dinheiro durante a inflação com taxas de juro mais altas do que o Tesouro quer impor. Ver David C. Colander, Economics, 3d ed. (Boston: Irwin McGraw-Hill, 1998), 215-220.
[53] Congressional Record, 82nd. Cong, 1st sess., 1951, 97, pt. 11:36.
[54] Ibid.
[55] New York Times, 22 January 1951.
[56] Washington Post, 24 January 1951.
[57] Eccles, Beckoning Frontiers, 484-485.
[58] Hyman, Marriner S. Eccles, 343.
[59] Eccles, Beckoning Frontiers, 486.
[60] Ibid.
[61] Herbert F. Stein, The Fiscal Revolution in America, (Chicago: The University of Chicago Press, 1969), 271.
[62] Ibid., 272.
[63] John W. Snyder, “Interviews with Associates of Truman,” interview by H. Millman, Truman Papers, 8 October 1954.
[64] Eccles, Beckoning Frontiers, 487-489.
[65] Ibid., 490.
[66] Stein, The Fiscal Revolution, 272.
[67] FOMC Minutes, 1951, 39-41, as quoted in Stein, The Fiscal Revolution, 273.
[68] FOMC Minutes, 1951, 273, Ibid.
[69] Ibid., 273-274.
[70] Washington Post, 1 February 1951; New York Times, 1 February 1951.
[71] Washington Times Herald, 2 February 1951; New York Herald Tribune, 12, February 1951; New York Times, 4 February 1951.
[72] Eccles, Beckoning Frontiers, 496-497.
[73] Drew Pearson Broadcast, 4 February 1951, Eccles Papers.
[74] Eccles, Beckoning Frontiers, 496.
[75] Washington Times Herald, 5 February 1951; New York Times Herald, 12 February 1951; New York Times, 13 February, 1951.
[76] Boston Traveler, 3 February, 1951.
[77] Friedman to Truman, 1 February 1951, Eccles Papers.
[78] Ibid.
[79] San Francisco Bulletin, 9 February 1951.
[80] Preliminary Draft of the FOMC Minutes, 6- 8 February, 1951, Eccles Papers.
[81] Ibid., 17
[82] Ibid., 24-26.
[83] Statement by Mr. Eccles at Federal Advisory Council Meeting, 20 February 1951, 1, Eccles Papers.
[84] Ibid., 3.
[85] Ibid., 9.
[86] Minutes of the Federal Reserve Board, 20 February 1951, Eccles Papers.
[87] Hyman, Marriner S. Eccles, 351.
[88] Stein, The Fiscal Revolution, 276.
[89] McCabe to Truman, 26 February 1951, Truman Papers.
[90] Interviews with Associates of Truman, Comments by the Honorable John W. Snyder, 8 October, 1954, Truman Papers.
[91] United States Government Securities, (17 March 1951): 2.
[92] Ibid., (3 March 1951):1.
[93] New York Times, 4 March 1951.
[94] Hyman, Marriner S. Eccles, 351.
[95] Ibid., 356.
[96] Eccles to Truman, 20 June 1951, Eccles papers.
[97] Hyman, Marriner Eccles, 357.
[98] Ibid., 358.

