DO PENSAMENTO OFICIAL A ALGUMAS LINHAS DE FRATURA, SOBRE A GUERRA DA UCRÂNIA – UMA SÉRIE DE TEXTOS – IV – MATT DUSS, CHRISTOPHER HITCHENS E AS MENTIRAS DA “ESQUERDA” PRÓ-IMPERIALISTA, por ERIC LONDON

 

Matt Duss, Christopher Hitchens and the lies of the pro-imperialist “left”, por Eric London

World Socialist Web Site, 2 de Junho de 2022

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

Revisão por João Machado

No período que antecedeu a invasão do Iraque em 2003, tiveram lugar manifestações de massas envolvendo dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo. Uma parte da “esquerda” da classe média participou nestas manifestações, que reuniram uma vasta camada da população, incluindo muitos jovens e trabalhadores, em oposição a uma guerra que duraria quase duas décadas e mataria mais de 1 milhão de pessoas. Na altura, indivíduos e tendências políticas associadas a grupos como o Partido Verde e os Socialistas Democratas da América (DSA) participaram nas manifestações e apresentaram-se como antiguerra.

Vinte anos mais tarde, grupos como o DSA e os Verdes não só apoiam a guerra imperialista como, em alguns casos, os seus representantes políticos estão a liderá-la. Os quatro membros eleitos do Congresso da DSA votaram unanimemente a favor dos 40 mil milhões de dólares de gastos militares da administração Biden para combater a Rússia na Ucrânia. O Partido Verde alemão faz parte do governo de coligação que leva a cabo o rearmamento do imperialismo alemão. Grupos Pabloite e Morenoite como a Liga Socialista Internacional exortam as potências imperialistas a enviar mais armas para as milícias neonazis ucranianas.

Um artigo de 1 de Junho de Matt Duss em The New Republic intitulado “Why Ukraine Matters for the Left” é um marco no desmascaramento da essência política pró-imperialista  da pseudo-esquerda americana.

Duss é um dos principais conselheiros de política externa de Bernie Sanders que tipifica a camada social que se tornou agora uma das principais bases eleitorais da guerra da administração Biden contra a Rússia. De acordo com um perfil em The Nation Matt  Duss “envolveu-se pela primeira vez na política através do ativismo anti-globalização e da campanha presidencial de 2000 de Ralph Nader”. Um artigo de Fevereiro de 2020 de Foreign Policy observou que “a música, não a política externa, foi uma das maiores paixões de Matt Duss – até que os ataques de 11 de Setembro galvanizaram nele um sentimento de querer fazer mais sobre a política dos EUA e a política em relação ao Médio Oriente”. Fez uma carreira como crítico da guerra no Iraque, dizendo ao The Nation: “Senti-me exatamente desconfortável com o envio de tropas da América para todo o mundo”.

É significativo, portanto, que Duss tenha escrito um artigo denunciando os opositores de esquerda  à guerra imperialista e adotando o argumento usado por Christopher Hitchens no seu artigo de Dezembro de 2001 atacando os opositores de esquerda da “Guerra ao Terror” dos EUA.

Tony Blair e  Christopher Hitchens [Photo by Andrew Rusk CC BY 4.0]

Duss diz que Hitchens estava errado ao apoiar as guerras no Afeganistão e no Iraque, mas Duss declara então:

“Há, no entanto, uma frase de Hitchens em que tenho pensado muito ultimamente ao considerar a resposta da administração Biden à guerra da Rússia contra a Ucrânia e o debate no seio dos EUA sobre o assunto. Todas as objeções da esquerda, escreveu Hitchens, “resumem-se a isto”: Nada nos fará lutar contra um mal se essa luta nos obrigar a ir para o mesmo canto que o nosso próprio governo”.

Na altura da sua publicação, o artigo de Hitchens, “Estranho numa terra estranha: A consternação de um homem honrado da esquerda”, atraiu uma atenção significativa e gerou uma onda de repulsa pela prostração mais que evidente de Hitchens  perante a histeria guerreira promovida pela administração Bush.

No artigo, Hitchens, que tinha sido um destacado crítico cultural de esquerda, argumentou que o 11 de Setembro significava que “a esquerda” devia esquecer as suas críticas ao imperialismo dos EUA e apoiar a Guerra contra o Terror. Como o World Socialist Web Site escreveu na altura, “os recentes comentários de Hitchens sobre o ataque ao World Trade Center de 11 de Setembro indicam que ele passou irrevogavelmente para a extrema direita. A sua identidade política permanente e definitiva, que foi sempre a essencial, solidificou-se agora”.

O artigo de Duss adota a essência do argumento de Hitchens e lança um ataque contra os  elementos “da esquerda” que se opõem ou mesmo só expressam hesitação sobre as provocações imprudentes da administração Biden contra a Rússia na Ucrânia.

Matt  Duss ataca dois grupos. Ele define o seu alvo principal como aqueles que se envolvem em “perniciosa agitprop autoritária”, justificando as ações do “império russo”. Este grupo inclui não só apoiantes abertos do reacionário governo Putin, mas também aqueles que se opõem à invasão russa (tal como o WSWS) e que questionam a veracidade das reivindicações imperialistas dos EUA sobre as atrocidades russas. Duss chama a tais grupos e indivíduos “vigaristas e provocadores de atrocidades”. O  objetivo destes esquerdistas, diz ele, é “dividir a esquerda” fazendo da oposição à guerra imperialista uma questão fundamental de princípio político. Exorta o que chama a esquerda “genuína antiguerra” a colocar esses opositores da guerra para além do muro, e a “não perder tempo” com eles.

O segundo alvo de Duss são secções dos membros dos Socialistas Democratas da América que apoiaram a guerra contra a Rússia com uma belicosidade insuficiente. “Solidariedade” com os militares ucranianos, escreve ele, “tem sido difícil de encontrar em algumas das declarações dos Socialistas Democráticos da América”.

O facto de todo o grupo do  DSA no Congresso ter apoiado a guerra não é suficiente. Duss ataca o DSA por publicar declarações que também incluem  críticas à expansão da NATO na Europa Oriental.

Ele escreve: “É necessário fazer perguntas difíceis, especialmente agora, sobre os objetivos e interesses que a NATO  realmente serve. Mas também precisamos de fazer perguntas difíceis sobre como funciona a nossa luta contra o militarismo, juntamente com o nosso compromisso para com os colegas de todo o mundo que exigem mais do que um simples apelo para parar a guerra” (ênfase acrescentada). Duss não explica como é que uma luta “contra o militarismo” é compatível com o envio de armas do poder imperialista dominante mundial para a Ucrânia, nem diz como  é que armar as milícias neonazis no exército ucraniano é um ato de “solidariedade” socialista. Para que um movimento antiguerra seja “genuíno”, conclui Duss, ele deve apoiar a guerra imperialista.

Tal como Hitchens, Duss argumenta que “a esquerda” deve suprimir as suas críticas ao imperialismo americano e apoiar os seus objetivos de guerra. Apesar de todas as suas falhas, escreve Duss, apoiar o imperialismo americano é a única forma de defender os “valores da justiça social, segurança e igualdade humana, e democracia”.

“A nossa classe política advoga a violência militar com uma regularidade e facilidade psicopática”, escreve Duss. “Não devemos, contudo, deixar que todo este absurdo nos cegue para os casos em que a prestação de ajuda militar pode fazer avançar uma ordem global mais justa e humanitária. A assistência à defesa da Ucrânia contra a invasão russa é uma tal instância”.

O artigo está estruturado com uma série de vários  “mas” e  de “contudos “

“As intermináveis intervenções militares dos últimos 20 anos geraram um duro ceticismo” face à guerra imperialista, escreve Duss, “Mas devemos também reconhecer que a administração Biden não é a administração Bush”. Sim, a administração Biden “falhou em defender princípios progressistas”, diz Duss, “mas a Ucrânia é uma área em que penso que a administração está, na maior parte das vezes, a tomar uma posição correta”. Os EUA têm estado envolvidos numa série permanente de guerras, reconhece Duss. “Tenho esse sentimento”. Mas penso que  devemos interrogarmo-nos sobre esta realidade”.

E prossegue: o governo dos EUA tem-se empenhado numa “hipocrisia” incessante e os “Estados Unidos  e os seus aliados têm minado a ordem que eles próprios construíram… Mas impedir os países poderosos de invadir e obliterar os mais fracos deveria ser um princípio central de qualquer ordem desse tipo, e a hipocrisia passada não deveria servir de desculpa para não dizer isso claramente, e agir de acordo com isso”. E “sim, é louco ver apelos à responsabilização pelas atrocidades de Putin por parte das mesmas pessoas que apoiaram, defenderam e continuam a opor-se a qualquer responsabilização significativa” pela guerra no Iraque, “mas sugerir que a impunidade de Bush é uma razão para não responsabilizar Putin é pedir aos ucranianos que se juntem aos iraquianos para pagar a conta da nossa corrupção”.

Duss não consegue explicar como é que o imperialismo americano, a escorrer sangue de décadas de guerra permanente por pilhagem, em que levou a cabo crimes de guerra horríveis com impunidade, é capaz de fazer avançar os “valores da justiça social, segurança humana e igualdade, e democracia”, especialmente quando as suas tropas de choque na Ucrânia são constituídas por forças fascistas que idolatram os nazis e o Holocausto. Para Duss, é como se as ações do imperialismo americano nos últimos 30 anos (quanto mais nos últimos 125 anos) não tivessem qualquer relação com o carácter essencial das guerras dos EUA e nenhuma ligação com os seus objetivos na Ucrânia.

A alegação de Duss de que a guerra dos EUA contra a Rússia na Ucrânia é a favor da “justiça social” e da “igualdade” é propaganda de guerra mentirosa. Todas as guerras imperialistas que os EUA alguma vez travaram foram justificadas pela afirmação de que são travadas em prol da “democracia” e da “liberdade”. Afinal, a administração Bush justificou a invasão criminosa do Iraque com os mesmos fundamentos com que Duss procura agora justificar o apoio da “esquerda” a uma guerra que apresenta o risco de catástrofe nuclear.

O aval de Duss ao grito pró-guerra de Christopher Hitchens é um marco na transformação da direita não só de um indivíduo, mas também da camada pseudo-socialista abastada em nome de quem  ele fala.

O ser social determina a consciência social, e ao longo das últimas duas décadas, o crescimento da desigualdade social e a financeirização da economia mundial conduziram a classe média-alta abastada para a direita política. A camada social da qual grupos como os Verdes, os membros de  DSA e de outras tendências pró-guerra e pseudoesquerda obtêm  apoio tem um interesse financeiro próprio no sucesso do imperialismo americano.

Nestes  últimos  20 anos desde que a administração Bush lançou a Guerra ao Terror, a percentagem da riqueza nacional possuída pelos 9% seguintes  (ou seja, dentro do mesmo decil, os 10% de maior rendimento e riqueza,  os 9% seguintes são aqueles que não pertencem ao percentil dos 1%)  aumentou de 34,8% para 38,6%. Esta parte  da população possui um total de 53,3 milhões de milhões de riqueza   contra 14,7 milhões de milhões  de dólares em 2000. Um indivíduo no percentil 10 mais rico em rendimentos tem  agora 12,5 vezes mais do que um indivíduo no percentil 90, contra 10,6 vezes em 2000. A riqueza e o rendimento dos 10 por cento mais ricos estão mais estreitamente interligados com a saúde dos mercados bolsistas do que nunca. Os 10% mais ricos possuem agora 89 por cento de todas as ações, contra 77 por cento em 2000.

Não é de admirar que os indivíduos e as tendências políticas enraizadas nesta camada social advoguem que se dê  uma oportunidade à guerra imperialista.


Para ler este artigo no original clique em:

Matt Duss, Christopher Hitchens and the lies of the pro-imperialist “left” – World Socialist Web Site (wsws.org)


Clicar também em:

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DO PENSAMENTO OFICIAL A ALGUMAS LINHAS DE FRATURA, SOBRE A GUERRA DA UCRÂNIA – UMA SÉRIE DE TEXTOS – III – REFLEXÕES EM TORNO DE UM FALSO DISCURSO DE ESQUERDA SOBRE A UCRÂNIA ESCRITO POR MATT DUSS, UM CONSELHEIRO DE BERNIE SANDERS – por JÚLIO MARQUES MOTA

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