Enviado por Domenico Mario Nuti. Tradução e introdução de Júlio Marques Mota.
Parte II
(continuação)
O memorandum Merkel
The Economist, 11 de Agosto de 2012
ANGELA MERKEL, chanceler alemã — e também, de facto, a patroa da zona euro — sempre insistiu que ela quer preservar a zona euro na sua forma actual. Mas como a crise do euro se intensifica e como a factura possível à conta de Alemanha continua a aumentar, seria imprudente não considerar um plano B para a Alemanha. Elaborado no maior segredo por alguns funcionários de confiança da Chanceler somente para os olhos da Chanceler isto é o que o memorando expressa ao estabelecer um plano de contingência.
PARA: Angela Merkel
De:???
Assunto: Plano B
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O IMPASSE ATUAL
I. desde que começou a crise do euro há cerca de dois anos a Chanceler disse que a Alemanha defenderia a moeda única, com base na sua convicção, partilhada pelos empresários e pela classe política, sendo também a sua convicção de que a sua sobrevivência seria do nosso interesse nacional. Para o efeito Alemanha comprometeu-se com grandes quantidades de dinheiro público, tanto nas nossas contribuições para os vários fundos de resgate e também através de riscos assumidos pelo Banco Central Europeu (BCE) e partilhados pelo o Bundesbank. Ao mesmo tempo a Chanceler tentou minimizar a factura a pagar pelos contribuintes alemães, insistindo que os Estados membros sujeitos a planos de resgate pusessem em execução programas rigorosos de uma grande austeridade e, em sentido mais amplo, por resistir aos sucessivos apelos para a mutualização da dívida — código para a Alemanha subscrever a dívida da zona euro — ao mesmo tempo, e por exigir ao mesmo tempo maior controle central sobre todos os orçamentos nacionais.
II. sem rodeios, o plano assim concebido não está a funcionar. A Grécia é uma zona de desastre. A Irlanda e Portugal estão a fazer algum progresso (foi encorajador que a Irlanda tenha sido capaz de levantar algum dinheiro nos mercados em Julho), mas eles ainda têm um longo caminho a percorrer e poderiam facilmente ser batidos e serem colocados fora do sistema, dos mercados . Pior, a Espanha parece que está na verdade a precisar de um verdadeiro resgate completo ao invés de um resgate parcial para os seus bancos como a Chanceler pensava que seria suficiente. E a doença espanhola está a infectar a Itália, minando todo o bom trabalho que Mario Monti tem feito desde que os italianos ganharam juízo e se livraram de Silvio Berlusconi, como a Chanceler andava a querer insistentemente mas nos bastidores. Enquanto isso, François Hollande não está a fazer o suficiente para que a França esteja em forma e está a jogar o habitual jogo francês de pedir à Alemanha que faça mais pela Europa enquanto está a resistir às suas tentativas de centralizar o controle a nível europeu. Mario Draghi, o Presidente do BCE, tem acalmado as coisas por agora mas o seu plano poderia facilmente transformar-se numa surpresa bem desagradável.
III. A posição é perigosamente instável. Se a fuga de capitais das economias periféricas está a ganhar ritmo esta fuga poderia provocar uma corrida ao sistema bancário como um todo. Isso colocaria o BCE — e assim, indirectamente, o Bundesbank e a Alemanha — prisioneiros dos depósitos no valor de milhões de milhões de euros. A política interna é já fortemente detestada em vários países, nomeadamente na Grécia. Isso está a envenenar a nossa posição no sul da Europa, onde a nossa ajuda está cada vez mais a ser vista como uma nova forma de tutela alemã. A situação agrava-se na Alemanha, também, onde a capacidade de acção da Chanceler está a ficar cada vez mais limitada pela reacção pública contra os resgates e contra a pertença ao próprio euro. Se assim se pode falar, a reacção negativa na Finlândia e nos Países Baixos é ainda mais violenta.
A situação para o PLANO B
IV. Daí a necessidade de considerar uma estratégia alternativa. O objectivo deste plano de contingência não é a dissolução completa da zona euro com os seus 17 países. Isso poderia ser contra o interesse nacional alemão, destruindo-se também o respeito duramente alcançado e que conseguimos a partir da Segunda Guerra Mundial, através da integração Europeia. E isso desnecessariamente iria prejudicar a nossa economia por trazer de volta o risco das variações cambiais competitivas sobretudo nas relações comerciais com países como a Áustria e a Holanda, que se adaptaram perfeitamente ao euro. O Plano B pretende salvar o euro por cirurgia, fazendo sair os Estados que não conseguem lidar com a situação em vez de se manterem apegados à vã esperança de que eles poderão recuperar a sua saúde económica estando dentro da zona do euro.
V. Nós propomos pois duas opções. Primeira, a que se pode ser forçado pela via que se tem seguido e que tem sido imposta pela Chanceler: uma saída da Grécia a surgir depois de brutais falhanços por desleixo ou má vontade em cumprir as suas obrigações no âmbito dos vários acordos de resgate . Temos tomado como um dado que os membros eleitos no Bundestag não vão sancionar mais um euro que seja para um novo resgate de Atenas. Se isto forçar os gregos a saírem da zona euro, que assim seja. Em segundo lugar, consideramos também uma saída alargada a outros países que falharam o teste do euro. Pensamos que esta saída alargada deve incluir todos os Estados que já foram resgatados, ou estão a solicitá-lo porque esses países partilham com a Grécia uma perda fundamental da competitividade e uma enorme vulnerabilidade à fuga de capitais para o estrangeiro. Isso significa que eles não podem ser curados dentro de um espaço de tempo razoável, enquanto permanecerem dentro da zona euro.
VI. Ao avaliar as duas opções tomámos como base uma análise de custo-benefício. Nesta análise, entrámos em linha de conta, quando era caso disso, dos precedentes históricos e da situação jurídica (estamos bem cientes da sua preocupação de que a Alemanha deve sempre ser vista como cumpridora da lei). Analisámos também mesmo que de forma breve alguns dos problemas práticos envolvidos numa saída da zona euro. Naturalmente, tivemos em conta as restrições políticas que a Chanceler enfrenta internamente e entre os seus colegas dirigentes europeus. Cuidado, é a sua palavra de ordem, e assim nós colocámos em destaque os riscos de coisas que poderão aparecer como erros se for adoptado o plano B.

