UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (36)

CARTA DO PORTO

O PIRATA AZUL

“Pirata Azul” é nome de barco.
Ao vê-lo, há cerca de um mês, uma avalanche de memórias, atabalhoadas e difusas, assaltaram-me de supetão.
O “Pirata” estava ali, ancorado, mesmo à minha frente, e a seu lado, o “Independência”, outro dos barcos de que muito bem me lembro. Se bem que com menos saudade.
O “Pirata” ….!
Estava diferente … mais moderno. Quase o não reconhecia, ali parado, encostado ao cais de Gaia.
O “Pirata” …. ainda estava quase que em choque com as lembranças. Umas boas, outras menos boas, mas naquela altura só me quis lembrar, mesmo bem, das que interessam reter.

O PIRATA AZUL, como era antigamente Foto Internet

O PIRATA AZUL, como era antigamente
Foto Internet

Tive o primeiro contacto com o “Pirata” em Agosto de 1976. Foi na primeira vez que fui à Madeira passar férias. A minha namorada, da altura, era Madeirense, e a sua família tinha-me convidado a ir até lá. Depois de uns dias no Funchal, onde muito simpaticamente me obsequiaram com visitas e mais visitas à ilha, e me levaram a degustar as maçarocas, os bifes de atum, os filetes de espada e as espetadas, fomos (os pais e os irmãos da minha namorada, ela e eu, a empregada doméstica e a filha, e as malas com as mais diversas coisas), apanhar o barco, já que o resto das férias iriam ser passados no Porto Santo, na casa que lá tinham. E o barco, era o “Pirata”.
Nunca tinha andado de barco, a não ser de barco a remos, e numa ou noutra altura em lanchas pequenas. Sempre no mar do Porto, entre a praia de Gondarém, o Gilreu e o molhe, e uma vez ou duas, fui até Leixões. Era um novato, e estava empolgado com a viagem.
Tive uma sorte tremenda. Para o meu baptismo, o mar estava de azeite, e a travessa quase sem ondas. As três horas de viagem, fizeram-se num ápice, com alegria.
De repente, à minha frente, do meu lado esquerdo (fiquei nessa altura a saber que se dizia bombordo, ensinou-me o senhor que viria a ser meu sogro), uma língua de areia amarelo dourado que nunca mais na vida esqueci, e pela qual me apaixonei para todo o sempre.
A chegada ao cais foi feita na perfeição e pouco tempo depois já estava com os pés em terra.
A paixão por aquele Porto Santo, nasceu naqueles momentos.

Porto Santo, no cais da Vila Baleira, o PIRATA (à esquerda) e o Alizur Amarillo (barco igual ao Independência) A coluna (monumento) à direita, é o vulgarmente chamado Pau de Sabão Foto Internet

Porto Santo, no cais da Vila Baleira, o PIRATA (à esquerda) e o Alizur Amarillo (barco igual ao Independência)
A coluna (monumento) à direita, é o vulgarmente chamado Pau de Sabão
Foto Internet

Em poucos dias fiquei a conhecer as coisas que me marcaram para a vida: a melhor praia do mundo (a praia dourada) onde se andava e andava e andava numa extensão de quase nove quilómetros, o Pau de Sabão, as Palmeiras, a Baiana, o vinho do sr Remígeo, o restaurante Estrela do Norte, os frangos e as espetadas do Teodorico, uma só estrada de alcatrão que vinha do aeroporto passava na Casa da Luz e no centro da Vila Baleira e acabava a duzentos metros da Calheta, a existência de três únicos taxis e a quase inexistência de trânsito, o Pico Castelo, a Fonte da Areia, a Fontinha, as lambecas de banana ou de chocolate e baunilha, os pregos em bolo do caco do João do Cabeço, o parque de campismo ainda sem árvores e acabado de estrear, a água salobra e em muito pequena quantidade (ainda não existia a dessalinizadora), as festas do Espírito Santo e da Srª da Graça e a festa da Vila, em Agosto, os caracóis (aos milhares), as aranhas, os tabaibos, os dragoeiros, e num registo mais pessoal, as espetadas que o Coelho fazia, a varanda azul e o Jeep Willis do dr Mendes, a casa dos Verdelejos, o saudoso dr Jardim, o sr França e as suas mulheres, a casa de família ainda sem as estufas, a barraquinha onde jogávamos King e Crapô, os passeios de burro, a Maria José e a sua vida atribulada, a Elizabete ainda criança, e a Cristina (que por estes dias fez setenta e nove anos) que adoro e que foi e é mais do que família para mim e para os meus filhos.
O Porto Santo, de hoje, já pouco tem destas minhas memórias e saudades, mas continua a ser uma ilha de sonho.

E o “Pirata”, afinal era dele que eu queria falar.
Durante anos, até que foi substituído pelo “Independência” (1983), fiz nele duas viagens anuais. Nas viagens “a descer”, Porto Santo – Funchal, as coisas nunca me correram muito mal (sendo que em muitas delas, o mar era azeite), tendo por diversas vezes podido apreciar os voos dos peixes voadores (acontecimento que me encantava), mas “a subir”, tive algumas de andar de rastos. Quando as ondas atingem cinco ou seis metros na travessa, é uma viagem de morrer e de susto se for feita no “Pirata”. Na última vez que andei no “Pirata” (salvo erro em 1982, pouco antes de ele vir a ser substituído pelo “Independência”), e que me fez jurar que nunca mais andaria nele, toda a gente enjoou, com a excepção do meu filho e da tripulação. Eu, como muitos outros, saí de gatas no cais do Porto Santo, e horas depois, já em casa, ainda “lançava carga ao mar”. Nesse ano, regressei ao Funchal, de avião.

Hoje, o “Pirata”, tal como o “Independência”, navega no rio Douro, gozando uma reforma dourada e muito bem merecida. Está remodelado e muito mais moderno e funcional. Terá perdido a “mística” que o acompanhava, mas ganhou imenso em todos os restantes itens que importam para o objectivo que lhe traçaram.

O PIRATA AZUL, já remodelado e com as cores da BARCADOURO Foto Internet

O PIRATA AZUL, já remodelado e com as cores da BARCADOURO
Foto Internet

A Barcadouro, talvez a segunda maior empresa a proporcionar viagens no rio Douro, e uma das mais antigas, fez um excelente trabalho na modernização destes barcos (o Independência está com a proa muito mais bonita), pelo que está de parabéns, que se duplicam se pensarmos que permitiram que estas duas belas embarcações continuem a deliciar-nos com as suas viagens, agora em subidas e descidas no rio Douro, desde o Porto à Régua e até Espanha. São viagens de sonho, a preços acessíveis, que não convém perder.
Dentro de pouco tempo irei fazer uma dessas viagens, no “Pirata Azul”, claro, para matar as minhas saudades e revisitar o Douro.
A cidade do Porto, e o Douro, estão de parabéns por terem estes excelentes barcos ao seu serviço.

O Catamarã INDEPENDÊNCIA remodelado e com as cores da BARCADOURO

O Catamarã INDEPENDÊNCIA remodelado e com as cores da BARCADOURO

ALMOÇOS NO PORTO

Há duas semanas atrás falei nesta minha crónica, na TASCA DO BAIRRO, e que iria em breve conhecer o irmão, o PETISCOS DO BAIRRO. Assim foi!
Escolhi o almoço e um pequeno grupo de amigos para o fazer.
O Petiscos do Bairro, tem sensivelmente a mesma qualidade da Tasca, no que se refere à comida, tem um espaço maior, e lugares para fumadores (o que sendo o ideal para muitos, é para mim, uma menos valia), e a decoração, se bem que um tudo nada escura, é muito acolhedora. Os almoços, durante a semana, são, como na Tasca, a preços reduzidos (6 e 7.5 € a refeição) e bem servidos, e nos jantares os preços são comedidos. Como na sua irmã, a sopa, de cenoura, estava muito bem confeccionada, o vinho, maduro tinto, era excelente, e nas sobremesas, destaco desta vez a Mousse de Chocolate, que estava divinal.
O restaurante está um pouco escondido do público de passagem. Na rua de S. Bartolomeu (o restaurante fica a meio, no nº 20), passa pouca gente, ou quase ninguém, pelo que só lá vai quem conhece o local. E merece ser conhecido. Tem alguma facilidade de estacionamento, e, por enquanto, a afluência não é demasiada, podendo-se almoçar com alguma calma.
Vale a pena conhecer!

Petiscos-do-Bairro-710x

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

7 comments

  1. Caro José Magalhães

    Quem estiver virado para a proa de uma embarcação, o lado que fica à sua esquerda é Bombordo e não Estibordo.

    Um abraço..

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  2. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (36) | joanvergall

  3. Meu Caro José,

    Antes de mais, felicitar-te pelas tuas belas cartas do Porto – o que tenho feito em mensagens privadas e agora deixo aqui exarado urbi et orbi… O teu Porto não podia encontrar melhor cantor das suas muitas belezas. Melhor dizendo, «o nosso Porto», porque Portugal é dos portugueses (será ainda?). As cidades, vilas,aldeias, não são apenas dos que lá nascem, mas de todos os que as amarem como suas E assim, diria, o nosso Porto Santo é lindo. Nosso, pois então – durante uma boa dúzia de anos foi onde passei férias com minha mulher. Tem, como dizes, a melhor praia de Portugal. O problema é, como se diz na canção açoriana sobre as moças bonitas – «é como a fruta madura/na quinta do padre cura/todos a querem comer…».A nossa praia dourada é, durante o Verão, invadida por milhares de turistas e as infraestruras, embora muito aumentadas, revelam-se insuficientes. Pelo menos para manter a quietude que era uma mais-valia da velha Vila Baleira. Uma pequena correcção – as melhores espetadas do mundo,, comem-se no Teodorico e não no TioDoRico. Ou será que o nome mudou?

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    • Meu caríssimo amigo Carlos,

      Começo por te agradecer as simpáticas palavras.
      O nosso Porto merece todo o esforço que eu faça para lhe tecer loas.
      Quanto ao nosso Porto Santo (que saudades eu tenho da Ilha Dourada), o que dizes é infelizmente verdade, e o Teodorico, já não existe, que se ainda por lá estivesse, se calhar seria já do TioDoRico.
      Sobre se Portugal ainda é dos portugueses, bem que eu gostaria que a resposta fosse afirmativa, mas, parece-me que só o é de alguns, poucos, e de muitas instituições estrangeiras (sinais dos tempos?)

      Um abraço

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  4. Artigo que se move entre um passado e a modernidade com satisfação ,o que nem toda a gente é capaz de sentir este vai vem se consternação -Maria

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  5. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (44) | A Viagem dos Argonautas

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