Selecção, tradução e nota introdutária por Júlio Marques Mota
Alemanha: o regresso da arrogância?
A Europa não tem um problema grego, tem um problema alemão
Régis de Castelnau, Allemagne: le retour de l’hubris? L’Europe n’a pas de problème grec, elle a un problème allemand
Revista Causeur.fr, 13 de Julho de 2015
“A crise grega” constitui um formidável revelador. Os acontecimentos destes últimos dias com efeito permitiram a cada um de nós de atirar fora a máscara, e mostrar quem somos e onde nos situamos. Cruel lição das coisas, que viu os pequenos marqueses comportarem-se como pequenos marqueses, os supletivos confundidos a subirem de quatro em quatro os degraus do ridículo, os impostores inquietos a fazerem subir o ódio e o desprezo. Menções especiais aos que no nosso país têm as alavancas do poder, deixando aparecer o seu medo e a sua necessidade de submissão, o único meio para eles de o conjurarem. Aos esquerdistas (de salão ou não) que uma vez mais fizeram mentir Lenine demonstrando que não havia doença infantil, mas somente exaltação pequeno-burguesa. Produzindo um fanatismo generoso com o sangue dos outros, mas que se desmaia ao primeiro regresso do real. Aos derrotistas também, que em geral são sinceros e lúcidos, mas que rapidamente ficam desencorajados. Disse aqui o efeito que teria produzido sobre mim este mesmo momento. A emoção do referendo grego como uma espécie “de Bir Hakeim”, primeira etapa sobre um caminho que será longo e difícil. E que reactivou esta pequena doença que se pensava curada. A que nos empurra e leva a escolher o campo do povo. Mas eis que uma outra doença acaba agora mesmo de despertar. Ouço já os escárnios sobre o seu carácter genético…. Talvez, mas o que está certo é que o que se passou na Europa nestes últimos dias vem demonstrar que temos, agora, um novo “problema alemão”
Sei que as acusações “de germanofobia” e outros “pontos Godwin” vão obviamente chover por parte dos que se congratulam de terem uma Europa segundo a direcção alemã e destes para quem a submissão é uma segunda natureza da sua existência.
Mas, a partir de agora, está excluído cedermos a esta chantagem. Porque é necessário neste momento deixarmo-nos de palavras e olhar as coisas frente a frente. Os países e os povos têm culturas e uma história. O que permite sem caricatura, delimitar certas características. A Alemanha é um grande país e um grande povo. Mas que mostrou na história uma surpreendente facilidade de passar de um elevado nível de civilização à mais total irracionalidade que a conduziu ao pior. Não se regressará em detalhe sobre o que se passou desde 1870, mas recordaremos aqui alguns episódios esclarecedores. O lugar da declaração do império em 1871 na Galeria dos gelos em Versailles não tinha nenhuma outra função que não fosse a força simbólica de uma humilhação total para a França. O primeiro verdadeiro e grande genocídio sistemático do século XX o foi o do Hereros na Namíbia. As exacções contra os civis após a violação da neutralidade belga em Agosto de 1914 foram tais que, quando foram contadas em França e na Grã-Bretanha, foram consideradas, devido à sua violência, como exacerbações de propaganda política! Não falemos da Segunda guerra mundial. Vamos aqui apenas lembrar que, exactamente, que a divisão da Grécia depois da sua invasão em 1941 provocou a morte de 100.000 civis pela fome durante o primeiro inverno de ocupação, 300.000 em toda a guerra.
O síndrome do cerco ao centro da Europa, junto ao sentimento que a Alemanha, tão evidentemente superior, não tinha o que merecia, alimentou a agressividade guerreira e a ausência de princípios. Os povos europeus aprenderam-no por experiência própria, ou seja às suas próprias custas. Depois da Segunda guerra mundial, a Alemanha escapou em parte às consequências da pavorosa catástrofe que ela própria tinha desencadeado. Nenhum plano Morgenthau, nenhuma desmontagem exaustiva e crítica do nazismo, deu-se uma invenção de mitos que permite considerar como diferente o povo alemão e os nazis. A Wehrmacht teria sido correcta ao contrário dos SS, enquanto que ao nível da criminalidade que estas instituições exerceram eram iguais. As investigações históricas recentes permitiram estabelecer que o povo alemão, ao mesmo tempo que sabia de tudo, tinha seguido Adolf Hitler cegamente, e até ao último dia. E mesmo assim, isto não impediu que tenha sido apresentado como sendo ele próprio vítima de Hitler. Mas porque não? Era a guerra fria, e constata-se que a dicotomia nazi/povo alemão empregada pelos vencedores, era a mesma dos dois lados da cortina de ferro. E seguidamente para evitar o regresso da guerra, era necessário refazer a Europa e ter com ela a Alemanha. O que foi feito, mas cometendo dois erros. De diagnóstico em primeiro lugar, considerando que o factor das guerras na Europa era a existência das nações, que era necessário por conseguinte fazê-las desaparecer. De método, em segundo lugar, privilegiando uma construção meramente económica que faz o impasse sobre o plano da política.
Charles de Gaulle, François Mitterrand e Margaret Thatcher não eram germanofóbicos. Mas eram desconfiados. Pertencendo os dois primeiros “à geração das catástrofes” tinham alguma razão em sê-lo. Então, quando Helmut Kohl quis a reunificação imediata após da queda do muro de Berlim, François Mitterrand que era oposto à reunificação, imaginou um método para “encostar ” a Alemanha à Europa. Seria a moeda única. Terrível engano da história, este temor da Alemanha conduziu europeus pusilânimes a aceitar que o euro fosse um marco alargado. Instrumento da construção de uma potência económica, mas também de uma potência política, o que lhe permitiu, “cortando na carne e ao vivo sobre os seus próprios parceiros” a criação de uma União Europeia a vinte e oito, que é pois completamente dominada pela Alemanha. Não se entrará aqui nos detalhes da satelização dos países do Leste. Antigo “espaço vital” doravante fornecedores de mão de obra a baixos salários. Da brutalidade que sofrem os países do Sul, o que permite, entre outras consequências dramáticas, drenar para a Alemanha uma juventude já formada à custa dos seus países de origem.
Mas o pior, como acaba de o demonstrar a violência do episódio grego, é o regresso da hubris, da arrogância extrema. O regresso da embriaguez do poder, da irracionalidade. O projecto europeu, a que as nossas elites ligam como à pupila dos seus olhos cegos acaba de praticar um golpe terrível. E uma mecânica, cujos efeitos ninguém sabe no que poderão vir a dar, acaba de ser desencadeada. Tornados sonâmbulos, os nossos líderes redescobrem o espírito de Munique. Tentam colmatar e acalmar “Wolfgang Schäuble é um verdadeiro cavalheiro, não é “ como teria dito Chamberlain (1).
E a França, de que um dos papéis seria precisamente o de conter as tendências da potência alemã, resigna-se à submissão. E como a Inglaterra, que partilhou este fardo duas vezes connosco, faz como quando Churchill ameaçou Charles de Gaulle: “entre o continente e o mar alto, escolheremos sempre o mar alto”. Nós ficámos, eles partiram.
Desde Théophraste (ainda um Grego!) passando por La Bruyère, sabemos que existem “caracteres” na comédia humana. Os cientistas falam às vezes de invariantes antropológicas. Contrariamente ao que parecem sempre acreditar certos Alemães e os seus amigos (2), elas têm uma base cultural e não genética. Acabámos de ver uma bela demonstração com a atitude da sociedade francesa face ao que se acaba de passar.
Voltemos às horas sombrias na Europa, encontram-se por aqui e por vezes algumas pérolas úteis. Charles de Gaulle, demonstrando uma vez mais o escritor que ele era, pronunciou um discurso no Cairo a 18 de Junho de 1941. Em quatro frases, aí escrevia a história da capitulação de 1940, da estranha derrota, que foi menos uma catástrofe militar que um desmoronamento das elites.
“No dia 17 de Junho de 1940 desaparecia em Bordéus o último governo regular da França. A equipa mista do derrotismo e da traição agarrava-se ao poder num pronunciamento de pânico. Uma clique de políticos tarados, de especuladores sem honra, de funcionários oportunistas e de maus generais escoicinhavam-se na usurpação ao mesmo tempo que na servidão. Um velho de oitenta e quatro anos, triste invólucro de uma glória passada, era içado sobre o baluarte da derrota para endossar a capitulação e enganar o povo estupefacto. ”
Daí que nos reapareça Jacques Delors como alguns já o tem tentado fazer…. Então como assim, uma clique de políticos tarados, de especuladores sem honra, de funcionários oportunistas? Não se terá a crueldade de propor nomes.
*Photo: Geert Vanden Wijngaert/AP/SIPA. AP21755807_000003.
-
Não se trata aqui de comparar Wolfgang Schaüble a Hitler, mas sim de lembrar que com a Alemanha, a política de redução de tensões não funciona.
-
A representação segundo a qual os Gregos modernos são os descendentes de Péricles ou de Socrates e não uma mistura de Eslavos, de Bizantinos e de Albaneses, foi para a Europa erigida em credo. É por isso que se aceitaram os Gregos empobrecidos no barco europeu em 1980. Podem-se ver diariamente as consequências. [Curioso texto. Frase publicada em Die Welt, diário alemão muito sério. O texto de Die Welt foi publicado em A Viagem dos Argonautas…..]
Régis de Castelnau, revista Causeur.fr, Allemagne : le retour de l’hubris? L’Europe n’a pas de problème grec, elle a un problème allemand. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/allemagne-grece-merkel-schauble-33805.html






