ALEMANHA: O REGRESSO DA ARROGÂNCIA? A EUROPA NÃO TEM UM PROBLEMA GREGO, TEM UM PROBLEMA ALEMÃO – por RÉGIS DE CASTELNAU

europe_pol_1993Selecção, tradução e nota introdutária por Júlio Marques Mota

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Alemanha: o  regresso da arrogância?

A Europa não tem um problema grego, tem um problema alemão

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Régis de Castelnau, Allemagne: le retour de l’hubris? L’Europe n’a pas de problème grec, elle a un problème allemand

Revista Causeur.fr, 13 de Julho de 2015

 

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“A crise grega” constitui um formidável revelador. Os acontecimentos destes últimos dias com efeito permitiram a cada um de nós de atirar  fora  a máscara, e mostrar quem  somos e onde nos situamos. Cruel lição das coisas, que viu os pequenos marqueses comportarem-se  como  pequenos marqueses, os supletivos confundidos a subirem de  quatro em  quatro os  degraus do ridículo, os impostores inquietos a fazerem subir o  ódio e o desprezo. Menções especiais aos  que no nosso país têm as  alavancas do poder, deixando aparecer o seu medo e a sua necessidade de submissão, o único meio para eles de o conjurarem.  Aos esquerdistas (de salão ou não) que uma vez mais fizeram  mentir Lenine demonstrando que não havia doença infantil, mas somente  exaltação pequeno-burguesa. Produzindo um fanatismo generoso com o sangue dos outros, mas que se desmaia ao primeiro regresso do real. Aos derrotistas também, que em geral são  sinceros e  lúcidos, mas que rapidamente ficam desencorajados. Disse aqui o efeito que teria  produzido sobre mim este  mesmo momento. A emoção do referendo grego como uma espécie “de Bir Hakeim”, primeira etapa sobre um caminho que será longo e difícil. E que  reactivou esta pequena doença que se pensava curada. A  que nos empurra e leva a  escolher o campo do povo. Mas eis que uma outra doença  acaba agora mesmo de despertar. Ouço já os escárnios sobre o seu carácter genético…. Talvez, mas o que está certo é  que  o que se passou na Europa nestes últimos dias vem demonstrar que  temos, agora,  um novo “problema alemão”

Sei que as acusações “de germanofobia” e outros “pontos Godwin” vão obviamente chover por parte dos que se congratulam de terem uma Europa segundo a direcção  alemã e destes para quem  a submissão  é uma segunda natureza da sua existência.

Mas, a partir de agora,  está  excluído cedermos a esta  chantagem. Porque é necessário neste momento deixarmo-nos de palavras e olhar as coisas frente a frente.  Os países e os povos têm culturas e uma história. O que   permite sem caricatura, delimitar certas características. A Alemanha é um grande país e um grande povo. Mas que mostrou na história uma surpreendente facilidade de  passar de um elevado nível de civilização à  mais total irracionalidade  que a conduziu ao pior. Não se regressará  em  detalhe sobre o que se passou desde 1870, mas recordaremos  aqui alguns episódios esclarecedores. O lugar da declaração do império em 1871 na Galeria dos gelos em Versailles não tinha nenhuma outra função  que não fosse  a força simbólica de uma humilhação total para a França. O  primeiro  verdadeiro e  grande genocídio sistemático do século XX o  foi o do Hereros na Namíbia. As exacções contra os civis após a violação da neutralidade belga em Agosto de 1914  foram tais que, quando foram contadas   em  França e na Grã-Bretanha,  foram consideradas, devido à sua violência, como exacerbações de propaganda política! Não falemos  da Segunda guerra mundial. Vamos aqui apenas lembrar que, exactamente,  que a divisão da Grécia depois  da sua  invasão em 1941 provocou a morte de 100.000 civis pela fome durante o primeiro inverno de ocupação, 300.000 em toda a guerra.

O  síndrome do cerco ao centro da Europa, junto  ao sentimento que a Alemanha, tão evidentemente superior, não tinha o que merecia, alimentou a agressividade guerreira  e a  ausência de princípios. Os povos europeus aprenderam-no por experiência própria, ou seja às suas próprias custas. Depois da Segunda guerra mundial, a Alemanha escapou em parte às consequências da pavorosa catástrofe que ela própria tinha desencadeado. Nenhum  plano Morgenthau, nenhuma desmontagem exaustiva e crítica do nazismo,  deu-se  uma invenção de mitos que permite  considerar como diferente  o povo alemão e os nazis. A  Wehrmacht teria sido correcta ao  contrário dos SS, enquanto que ao nível da criminalidade que estas instituições  exerceram eram iguais.  As investigações históricas recentes permitiram estabelecer que o povo alemão, ao mesmo tempo que sabia de tudo, tinha seguido Adolf Hitler cegamente, e até ao último dia. E mesmo assim, isto não impediu que tenha sido apresentado como sendo ele próprio vítima  de  Hitler. Mas porque não? Era a guerra fria, e constata-se que a dicotomia nazi/povo alemão empregada pelos vencedores, era a mesma dos dois lados da cortina de ferro. E seguidamente para evitar o regresso da guerra, era necessário refazer a Europa e ter com ela  a Alemanha. O que  foi feito, mas cometendo dois erros. De diagnóstico em primeiro lugar, considerando que o factor  das guerras na Europa era a existência das nações, que era necessário por conseguinte fazê-las desaparecer. De método, em segundo lugar, privilegiando uma construção meramente económica que faz o   impasse sobre o plano da política.

Charles de Gaulle, François Mitterrand e Margaret Thatcher não eram germanofóbicos. Mas eram desconfiados. Pertencendo os dois primeiros “à geração das catástrofes” tinham alguma razão em sê-lo. Então, quando Helmut Kohl quis a reunificação imediata após da queda do muro de Berlim, François Mitterrand que era oposto à reunificação, imaginou um método para “encostar ” a Alemanha à Europa. Seria a moeda única. Terrível engano da história, este temor da Alemanha conduziu europeus pusilânimes a aceitar que o euro fosse  um marco alargado. Instrumento da construção de uma potência económica, mas também de uma potência política, o que lhe permitiu, “cortando na carne e ao vivo  sobre os seus próprios  parceiros” a  criação de uma União Europeia a  vinte e oito, que é pois  completamente dominada pela Alemanha. Não se entrará aqui nos detalhes da satelização dos países do Leste. Antigo “espaço vital” doravante fornecedores de mão de obra a  baixos salários. Da brutalidade que sofrem os países do Sul, o  que permite, entre outras  consequências dramáticas, drenar para a Alemanha uma juventude já formada à custa  dos seus países de origem.

Mas o pior, como acaba de o demonstrar   a violência do episódio grego, é o regresso da hubris, da arrogância extrema. O regresso da embriaguez do poder, da irracionalidade. O projecto europeu, a que as nossas elites ligam como à pupila dos seus olhos cegos  acaba de praticar um golpe terrível. E uma mecânica, cujos efeitos  ninguém sabe no que poderão vir a dar, acaba de ser desencadeada. Tornados  sonâmbulos, os nossos líderes redescobrem o espírito de Munique. Tentam colmatar e acalmar  “Wolfgang Schäuble é um verdadeiro cavalheiro, não é “ como teria dito Chamberlain (1).

E a França, de que um dos papéis seria  precisamente o de conter as tendências  da potência alemã, resigna-se à submissão. E como a Inglaterra, que partilhou este fardo  duas vezes connosco, faz como  quando  Churchill ameaçou Charles de Gaulle: “entre o continente e o mar alto, escolheremos sempre o mar alto”. Nós ficámos, eles partiram.

Desde Théophraste (ainda um Grego!) passando por La Bruyère, sabemos que existem  “caracteres” na comédia humana. Os cientistas falam às vezes de invariantes antropológicas. Contrariamente ao que parecem  sempre acreditar certos Alemães e os seus amigos (2), elas  têm uma base cultural e não genética. Acabámos de ver uma bela demonstração com a atitude da sociedade francesa face ao que se acaba de  passar.

Voltemos às horas sombrias  na Europa, encontram-se por aqui e por vezes algumas pérolas úteis. Charles de Gaulle, demonstrando uma vez mais o  escritor  que ele era, pronunciou  um discurso no Cairo a  18 de Junho de 1941. Em quatro frases, aí escrevia a história da capitulação de 1940, da estranha derrota, que foi menos uma catástrofe militar que um desmoronamento das elites.

“No  dia 17 de Junho de 1940 desaparecia em  Bordéus o último governo regular da França. A equipa mista do derrotismo e da traição agarrava-se ao poder   num  pronunciamento de pânico. Uma clique de políticos tarados, de especuladores sem honra, de funcionários oportunistas   e de maus generais escoicinhavam-se na usurpação   ao mesmo tempo que na servidão. Um velho de oitenta e quatro anos, triste invólucro de uma glória passada, era içado sobre o baluarte da derrota para endossar a capitulação e enganar o povo estupefacto. ”

Daí que nos reapareça  Jacques Delors como alguns já o tem tentado fazer….  Então como assim,  uma clique  de políticos tarados, de especuladores sem honra, de funcionários oportunistas? Não se terá a crueldade de propor nomes.

*Photo: Geert Vanden Wijngaert/AP/SIPA. AP21755807_000003.

  1. Não se trata aqui de comparar Wolfgang Schaüble a Hitler, mas sim de lembrar que com a Alemanha, a política  de redução de tensões não funciona.

  1. A representação segundo a qual os Gregos modernos são os descendentes de Péricles ou de Socrates e não uma mistura de Eslavos, de Bizantinos e de Albaneses, foi para a Europa erigida em credo. É por isso que se aceitaram   os Gregos empobrecidos no barco europeu em 1980. Podem-se  ver diariamente   as consequências. [Curioso texto.  Frase publicada em Die Welt, diário alemão  muito sério. O texto  de Die Welt foi publicado em A Viagem dos Argonautas…..]

Régis de Castelnau, revista Causeur.fr,  Allemagne : le retour de l’hubris? L’Europe n’a pas de problème grec, elle a un problème allemand. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/allemagne-grece-merkel-schauble-33805.html

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