Entre a força assassina de um Golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um David (a Grécia de Syriza)… – Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em 1871-73  (parte 4). Por Michael Pettis

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Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em 1871-73  (parte 4).

Por Michael Pettis, 4 de fevereiro de 2015  pettis_color_medium

Seleção e tradução por Júlio Marques Mota

Reedição revista do artigo publicado na Viagem dos Argonautas em 26 de fevereiro de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/02/26/entre-a-forca-assassina-de-um-golias-a-alemanha-e-a-rectidao-moral-de-um-david-a-grecia-de-syriza-syriza-e-a-indemnizacao-da-guerra-da-franca-com-a-prussia-em-1871-73-por-micha-3/

(continuação)

Parte 4 – O desafio do Syriza

É útil lembrar esta história quando nos confrontamos com as consequências das recentes eleições da Grécia. A vitória de Syriza na Grécia relançou os insultos e reavivou as questões de ordem moral que tem caracterizado grande parte da discussão sobre a não sustentabilidade do peso da dívida nos países ditos periféricos da Europa. Pessoalmente considero que é bastante claro e óbvio para quase todos, que a Grécia simplesmente não pode pagar as suas obrigações externas e, de uma forma ou de outra, terá que receber um substancial perdão da sua dívida. Não há sequer muito fingimento sobre esta questão neste momento. Ainda esta manhã o consultor financeiro Mish Shedlock, enviou-me (como uma piada? como um sinal de desespero?) o jornal alemão Zeit com a entrevista de Yanis Varoufakis intitulada “Eu sou o ministro das Finanças de um país falido”.

Mesmo se a questão do quem é a “culpa”, da Grécia ou da Alemanha, fosse uma questão importante, a resposta não mudaria a dinâmica da dívida. Seria necessário fazer o equivalente às brutais políticas de austeridade de Ceausescu na Roménia, que foram impostas durante os anos de 1980 para o país pagar totalmente a sua dívida externa, para resolver o peso da dívida grega sem uma depreciação, sem uma redução, do seu montante. Tendo em conta que as políticas de Ceausescu levaram directamente à Revolução de 1989, que culminou com as mortes tanto de Ceausescu como da sua esposa que foram executados por um pelotão de fuzilamento, não é com certeza surpreendente a relutância de Atenas em imitar a Roménia na década de 1980.

Mas dizer simplesmente que a Grécia não pode pagar, isso não é o fim da história. À medida que a Europa se move em direção a uma política mais racional sobre a dívida da Grécia, eu lembraria aqui três coisas importantes que não devem ser esquecidas:

  1. Há um enorme custo económico, para não mencionar o social e talvez mesmo o político, se houver qualquer atraso ou demora na solução do problema. Preocupa-me o assustadoramente o baixo nível de sofisticação entre os decisores políticos e os economistas que os aconselham quando se trata de compreender a dinâmica das contas nacionais e dos saldos orçamentais e da reestruturação da dívida. O excesso de dívida da Grécia impõe um aumento crescente dos custos para resolver as dificuldades financeiras e impõe igualmente distorções cada vez mais profundas na estrutura institucional da economia grega ao longo do tempo, e quanto mais tempo demorar a resolver, maior será o custo económico, social e político a pagar.

Acho que a maioria dos analistas entende que os custos vão subir durante o processo de reestruturação. Não estou seguro que eles compreendam, no entanto, que os atrasos irão impor custos ainda mais pesados durante os muitos anos de ajustamentos posteriores. Há mesmo muito má vontade e muitas recriminações entre as várias partes. Eu desconfio que alguns daqueles que se opõem ao Syriza estão provavelmente revoltados com o pensamento de que uma rápida resolução da crise grega iria fortalecer fortemente os créditos de Syriza, mas eles precisam sobretudo de perceber que ao estarem a querer arrastar o processo de reestruturação estão a impor muito maiores custos a longo prazo sobre a população grega do que o que eles pensam.

O meu amigo Hans Humes, da Greylock Capital, esteve envolvido em mais reestruturações de dívida soberana do que eu me consigo lembrar, e ele disse-me uma vez com um enorme desgosto e um grande cansaço que, embora seja geralmente muito fácil adivinhar desde os primeiros dias qual será o resultado final das negociações, serão necessários ainda meses ou mesmo anos de querelas e de disputas amargas antes de concluir o processo. Não podemos esquecer, porém, que cada mês de atraso será muito mais caro para a Grécia e para o seu povo do que poderíamos supor inicialmente.

  1. Pelo que li, muita da atenção dada à reestruturação visa determinar um fluxo de caixa para o serviço da dívida que seja aceitável e viável para a Grécia. Há uma crença errada de que esta é a única variável “real” que importa e que o resto é cosmética. Eu não concordo. A estrutura da dívida nominal da Grécia não vai apenas afetar os fluxos de caixa do serviço da dívida, mas também irá determinar o comportamento futuro dos agentes económicos.

Há pelo menos duas importantes funções da estrutura de responsabilidades de uma entidade económica. Uma delas é a de determinar como é que os lucros operacionais ou o crescimento económico é distribuído entre as várias partes interessadas, ou, dito de outra forma, é a de determinar as estruturas de incentivos económicos. A outra é a de determinar a maneira como os choques externos são absorvidos. É por isso que o processo de reestruturação é tão importante e pode determinar o crescimento económico subsequente. O valor nominal e a estrutura da dívida pendente são importantes, e por mais razões que não as de cosmética. Eles determinam em grande medida como é que os produtores, os trabalhadores, os políticos, os aforradores e os credores, alteram o seu comportamento de forma a, ou a retomar acentuadamente a via do crescimento ou a sangrar lentamente como resultado da purga. Os incentivos devem ser corretamente estabelecidos ou, por outras palavras, de maneira que seja no melhor interesse das partes interessadas em conjunto para maximizar o valor (este ponto bastante óbvio quase nunca é implementado porque os economistas têm dificuldade em conceptualizar e modelizar a presença de comportamento reflexivo em sistemas dinâmicos). Em vez de deixarem os economistas exercitarem a aritmética da reestruturação com base em estimativas lineares de cashflows futuros altamente incertas, cujos valores são igualmente afetados pela forma como os pagamentos da dívida são indexados a esses fluxos de caixa, a Grécia e os seus credores podem querer deixar livres um par de opções técnicas sobre as fórmulas de pagamento e permitir-lhes então calcular como é que a volatilidade afeta o valor desses pagamentos e qual o impacto que isso pode ter sobre os incentivos e o comportamento económico.

  1. Na verdade, a reestruturação global deve ser projetada de modo a que os interesses da Grécia, o dos produtores que criam o PIB grego, e o dos credores, estejam corretamente estabelecidos. Até à data, as reestruturações de dívida soberana quase nunca incluíram os instrumentos que refletem os instrumentos em reestruturações de dívida das empresas que conduzem a esse respeito de interesses, principalmente porque esses instrumentos ainda não foram “inventados”. Entre outras coisas, a comissão de negociação pode querer tirar o pó dos warrants sobre a evolução do PIB que foram incluídos na última reestruturação da dívida da Argentina.

Se a reestruturação for bem concebida, dentro de um ano pós reestruturação penso que se poderia facilmente ver o crescimento grego surpreender-nos com o seu vigor. Fiquei satisfeito ao ver que o novo ministro das Finanças da Grécia defende o mesmo ponto de vista. Um artigo no Financial Times de segunda-feira começa com a afirmação de que “O novo governo radical da Grécia revelou propostas na segunda-feira para acabar com o confronto com os seus credores, trocando dívida por novos títulos ligados ao crescimento, à execução de um excedente orçamental permanente e especificando objetivos no combate à fraude e à evasão fiscal praticada pelos mais ricos”. O Financial Times de hoje tem um artigo de Martin Wolf, que menciona os benefícios de “uma ligação entre as obrigações de dívida e o crescimento económico”. Em The Volatility Machine gasto vários capítulos a explicar como criar estruturas de passivo que minimizem choques externos, harmonizem os interesses dos credores e dos cidadãos, e melhorem a qualidade dos pagamentos aos credores, e mostro igualmente porque é que isto leva a uma reestruturação muito mais bem sucedida para todas as partes interessadas. Mas isto é apenas teoria básica de finanças. O ministro Yanis Varoufakis deve realmente assumir a liderança na conceção de uma forma inteiramente nova de reestruturação da dívida soberana, e não apenas para a Grécia, mas para muitos países, na Europa e noutros lugares, que em breve irão entrar em incumprimento.

Haverá muita gente que parece odiar ou temer o Syriza e essa gente fará muito poucos esforços para tentar abordar os problemas da Grécia com a imaginação suficiente para dar a uma ou a outra parte o que ela precisa, mas, na verdade, actuar em boa cooperação, com imaginação e compreensão intuitiva da forma como as estruturas das contas (públicas) alteram a criação do valor global, uma reestruturação da dívida grega poderia claramente deixar ambos os lados em muito melhor situação do que qualquer um dos lados poderia antes imaginar. É claro que se a reestruturação for bem feita isso importa muito mais e o seu impacto vai muito mais para além do seu impacto sobre a economia grega. Enquanto toda a gente provavelmente concorda que a Grécia simplesmente não pode prosseguir sem o perdão da dívida, menos amplamente aceite, mas não menos óbvio na minha opinião, é admitir que há uma série de outros países europeus que também precisam de perdão da dívida, para poderem crescer. Porque eu nasci e cresci em Espanha, e a minha mãe francesa fundou e dirigiu uma empresa em que foi bem sucedida, que a minha família e eu próprio ainda mantemos, estou confiante em que conheço suficientemente bem o país para dizer que, mesmo com o facto de algumas reformas impressionantes terem sido implementadas sob Mariano Rajoy, a Espanha é, no entanto, um desses países. Suspeito que muitos outros países, incluindo Portugal, Itália, e talvez até mesmo a França também o são.

No entanto, sei também que as perspetivas sobre a dívida espanhola são um tema extremamente sensível e emocional e que vou ser firmemente criticado por dizê-lo. O Financial Times de hoje tem um artigo muito preocupante explicando porque é que Madrid quer ser visto entre os que defendem a linha dura na oposição a um tratamento racional para com a Grécia:

Quando se trata de ajudar a Grécia, não haverá nada que se possa chamar de solidariedade dos países do Sul ou de patrocínio periférico“.

Isto é o inverso do que deveria ser feito. Num artigo publicado em Política Exterior em janeiro de 2012, eu realmente propus, embora sem muita esperança, que a Espanha assumisse a liderança e organizasse os países devedores para negociar um acordo sustentável, mas com o seu medo de PODEMOS, o equivalente espanhol de Syriza, e a sua determinação em ser um dos países “virtuosos”, parece-me que Madrid se está, muito provavelmente, a movimentar economicamente na direção errada. Em última análise, amarrando-se ainda mais fortemente aos interesses dos seus credores, Rajoy e seus associados estão apenas a fazer tudo para que a campanha eleitoral do PODEMOS seja mais brilhante.

Visto ser assim, e por razões que podem ter a ver com a história recente, Francisco Franco, e as cicatrizes psicológicas que este deixou entre as pessoas da minha geração, qualquer discussão em Espanha é suscetível de ser subordinada a considerações não-económicas, especialmente as irritantes denúncias de virtude moral e de torpeza moral. Estas considerações não económicas são aqui irrelevantes, ainda que, na verdade, algumas delas são muito importantes e até mesmo admiráveis. Mas devem ser compreendidas dentro de um contexto mais neutro.

Tanto quanto posso afirmar, há pelo menos quatro razões importantes pelas quais os opositores do perdão da dívida, e não apenas na Alemanha mas também em Espanha, consideram que a exigência para o perdão da dívida seria um desastre a longo prazo para a Espanha:

  1. O futuro económico da Espanha depende da sua permanência como um membro da Europa com boa reputação. A exigência do perdão da dívida (sem falar já de uma renegociação da união monetária) poderia causar uma crise financeira e relegar a Espanha para o estatuto de um país atrasado.
  2. Se a Espanha falha em honrar os seus compromissos de dívida isto seria considerado sempre numa perspetiva não confiável e congelaria os investimentos externos e os fluxos comerciais no futuro.
  3. Mais importante, isso seria moralmente errado. O povo alemão forneceu à Espanha recursos reais, duramente ganhos, que os espanhóis utilizaram muito mal. Não é justo ou não é honroso que a Espanha venha assim punir o povo alemão pela sua generosidade para com a Espanha.
  4. A Espanha fez efetivamente uma escolha e escolheu gastar o dinheiro desenfreadamente sobre frivolidades de consumo e investir em projetos sem valor. Chegou a este caos só por causa das políticas económicas muito pobres e corruptas postas em ação por Madrid. Tivessem os espanhóis atuado como os alemães e abstido de um consumo excessivo – o resultado de um defeituoso traço de carácter nacional – e não teriam sofrido ataques especulativos sobre a bolsa nem uma bolha sobre o imobiliário, não teriam desperdiçado o investimento e, acima de tudo, não teriam tido um boom de consumo insustentável e um colapso na poupança. É lamentável que os espanhóis comuns devam sofrer pela venalidade dos seus dirigentes mas, em última análise, eles são os responsáveis.

Estes quatro argumentos, que são os mesmos argumentos apresentados nos outros países europeus altamente endividados, foram apresentados não apenas pelos alemães caricaturalmente gananciosos, mas também, mais importante ainda, pelas pessoas locais indignadas. Estas, realmente acreditam que o seu país se comportou estupidamente e que deve pagar o preço e é difícil não respeitar a sua sinceridade.

(continua)

Texto original em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/58983 Logo Michael pettis

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