Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica – 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização(*). 2.2. Síntese da peça (“Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes). Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

pluto POR ARISTÓFANES

2.2 Síntese da peça (“Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes)

 

 

 

 

No seu sentido inicial, o deus Pluto designava a riqueza abundante. Na teogonia de Hesíodo [2] (em atividade entre 750 e 650 a.c.), aparece sob este nome uma divindade gerada por Déméter, (deusa que assegura a fertilidade do solo) que gera Pluto, depois desta divindade se ter unido com um herói “num campo três vezes lavrado”. Há aí a ideia que a riqueza vem do trabalho da terra, ideia que se reencontrará na fábula de Ésopo, o lavrador e as suas crianças (Fábula 83) onde um trabalho duro da terra conduzia à prosperidade. Pluto é a personificação da riqueza, inicialmente ligada à agricultura mas que, depois, passou a estar ligada à posse de bens, mudança esta que não é acidental, pois a riqueza deriva agora da sorte.

Hesíodo acrescenta que Pluto “traz a felicidade de uma riqueza abundante a todo aquele que por acaso lhe cai entre as mãos”: esta ideia de que a riqueza está ligada ao acaso é depois reforçada por lendas ulteriores que fazem de Pluto uma divindade que personaliza a riqueza e que é cego, levando assim a que esta divindade distribua riqueza a uns e a outros, sem que nunca saiba a quem é que a esta a dar, se a vigaristas, se a ricos, ou se a pessoas pobres e de bem. No fundo, passa-se a ser considerado rico não pelo seu trabalho, ideia inicial da representação de Pluto na mitologia grega, mas sim por uma questão de sorte, a de se cair ou não nas mãos de Pluto. Reencontra-se esta mesma ideia nas representações da Fortuna que, com os olhos vendados, derrama a sua cornucópia ao acaso.

O enredo da peça de Aristófanes, Pluto, o deus da maçaroca, baseia-se na ideia de que o deus Pluto, por ser cego, dá a riqueza tanto aos bons como aos maus, ao sabor do acaso e então, se se conseguir que este venha a ganhar a visão outrora destruída, talvez se consiga que ele passe a dar a riqueza apenas às pessoas de bem e que precisam.

Seguindo a sugestão dada pelo oráculo de Delfos, o ateniense Chrémyle Toussaille acompanha o deus Pluto e promete-lhe que o vai tentar curar da sua cegueira na condição de que este vá para a sua casa. Primeiro, com medo de Zeus, Pluto recusa, mas depois acaba por ceder aos argumentos de Toussaille. Mas o ateniense Toussaille tem bom coração e não quer ser apenas ele a tornar-se rico sob a proteção de Pluto: envia o seu escravo Carion procurar os seus vizinhos e amigos para que estes venham e partilhem com ele os favores do deus do dinheiro, Pluto. Eles aceitam e são eles que constituem o coro da peça.

A alegoria mostra a importância da crise que atingia Atenas nessa época. Os honestos trabalhadores estavam a ficar cada vez mais pobres, enquanto os políticos, os intriguistas e os traficantes monopolizavam todas as riquezas. De acordo com o provérbio, a riqueza era cega e não recompensava a virtude, e aqui encaixava então a ideia de que Pluto era cego.

Decide-se como substrato da história da peça que, para voltar a recuperar a visão, é necessário que Pluto vá pernoitar uma noite no templo de Esculape, o deus dos médicos e dos pacientes. Toussaille e um seu amigo partem pois para o levarem para o templo de Esculape para aí ser tratado, mas entretanto uma mulher tenta impedi-los de prosseguirem o seu caminho. É a deusa que personifica a Pobreza ou a Austeridade. Esta tenta impedi-los de levarem a cabo a sua intenção de restituírem a visão a Pluto e procura provar-lhes que se estes avançam com o seu objetivo, e assim se tornarem todos ricos, então não haverá nem mais artistas, nem mais artesões, nem mais empregados, uma vez que as riquezas, neste contexto, passarão a ser inúteis e, portanto, cada um será forçado a trabalhar se quiser viver; é a riqueza que permite aos ricos todos os prazeres da vida, forçando o trabalhador, pelas suas necessidades, a trabalhar para ganhar a sua vida. Se estes deixarem de trabalhar por terem dinheiro para o que for preciso, a riqueza é um conceito inútil, sem sentido. Mas deixa de haver tudo o que for preciso, a menos que cada um o faça.

Chrémyle Toussaille não quer aceitar a argumentação da deusa Pobreza ou Austeridade: confundindo a mendicidade com a pobreza, Toussaille faz um quadro espantoso sobre o que é uma situação de extrema miséria. Em vão, a Pobreza tenta fazê-lo distinguir entre uma e outra como sendo realidades diferentes, mas sem o conseguir. É ainda em vão que lhe quer fazer entender que ela sabe, melhor que Pluto, como tornar os homens mais fortes quer de corpo quer de espírito, mas com todas estas belas razões não consegue convencer Toussaille. A deusa é aqui rejeitada, e Toussaille mantém o projeto de levar Pluto ao templo de Eusculape para tentar que Pluto recupere a visão. Na parte final da discussão a deusa Pobreza, ao ir-se embora, diz-lhes que ainda um dia se hão-de lembrar bem dela.

Uma vez curado, e já no final da peça, Pluto irá deixar de dar a riqueza aos ricos e aos bandidos, eles protestam, obviamente, mas aprestam-se, todos, ricos e pobres, a conduzi-lo para a Acrópole.

As últimas cenas são bem curiosas. Há uma mulher idosa, que lamenta a infidelidade de um jovem que amava, e a quem ela bem pagava os seus amores mas que a largou porque ela, vítima da intensa exploração feita pelo jovem como contrapartida dos seus amores, deixou de ter dinheiro para o financiar e vem assim pedir apoio a Pluto. Há Hermes, o deus dos ladrões e mensageiro de Zeus, que não encontra nada que ganhar nos seus vários negócios e que com fome vem querer viver com Toussaille. E isto por uma razão bem simples: agora vive-se bem melhor na casa de Toussaille, abrigada por Pluto, do que no céu, afirmando Hermes que a sua pátria está onde quer que ele ache que pode levar uma vida feliz. Finalmente, o sumo-sacerdote de Zeus, morrendo de fome, pede também para ser abrigado numa casa rica. Deixou de haver ofertas a Zeus! Em suma, o reino de Zeus em queda porque os pobres ou já não são pobres ou esperam em breve deixarem de o ser, enquanto que os que rodeavam os deuses e eram os seus ajudantes ou mensageiros, os seus auxiliares na lógica do poder, rodeavam-nos não pelos valores que diziam defender mas pelo poder em sentido lato que o posto conferia e, por isso, como não há mais oferendas aos deuses, abandonavam-nos, mudando de amo, ou seja, do deus a quem servir!

Há depois todos os amigos de Toussaille desejosos de serem ricos com o apoio de Pluto e que na peça constituem o coro.

Carion, o escravo de Toussaille, convida mesmo que se substitua o culto de Zeus pelo de Pluto. Todos se preparam, pois, para levar o Deus da riqueza e do dinheiro para o lugar que ocupou no passado, por detrás do Templo da deusa Atenas, na Acrópole. É aí que ele fica para sempre encarregado de vigiar o tesouro da deusa Atenas.

No fundo, como diz Toussaille, amo do escravo Carion: a entronização de Pluto significa colocar ou ver o mundo às avessas.

É uma análise sobre os mecanismos que levam à submissão da sociedade e da democracia de Atenas ao poder e à ilusão do poder do dinheiro e da riqueza, num momento de grande dificuldade e de penúria em Atenas, porque esta cidade estava em guerra com a de Esparta, e isso constitui o tema central de que nos fala esta peça.

 

Notas

[2] Nota de tradutor. Segundo Wikipédia Teogonia (em grego: Θεογονία [theos, deus + gonia, nascimento] – THEOGONIA, na transliteração), também conhecido por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico em 1022 versos hexâmetros escrito por Hesíodo no século VIII a.C., no qual o narrador é o próprio poeta

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

 

 

 

 

 

 

 

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