Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*). 2.3 – 6ª parte – Ainda dois comentários finais (conclusão). Por Júlio Marques Mota.

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

 

pluto POR ARISTÓFANES

2.3 – 6ª parte – Ainda dois comentários finais (conclusão).

 

 

 

 

(conclusão)

O segundo comentário: uma história de agosto de 2017

São 8h 20 minutos. Saio de casa com a família. Vamos à praia. Estamos em Faro. Chegamos ao cais de embarque para uma das ilhas à nossa imediata disposição. O cais dá acesso a três viagens possíveis: ilha de Faro, ilha do Farol e ilha Deserta. A nossa ida habitualmente é para a ilha do Farol. O preço é de 5 euros por pessoa, em viagem de ida e volta.

Na tenda ao lado da que vende os bilhetes para a ilha do Farol temos um enxame de gente a querer vender-nos bilhetes para a Ilha da Deserta. Preço de ida e volta para uma viagem que leva o mesmo tempo que a vigem para a ilha do Farol: 10 euros por pessoa. Perguntam-me se quero bilhete. À laia de curiosidade pergunto o preço da viagem. São dez euros por pessoa. 10 euros? Questiono. Então a ilha Deserta é aqui mesmo ao lado da ilha do Farol. O tempo é o mesmo e o preço é o dobro! Como é que explicam isso, questiono. É simples, dizem-me. Compra um bilhete mais caro, porque está a comprar o direito à comodidade, a não ser importunado por ninguém. Tem mais que espaço suficiente à sua volta como espaço disponível, para poder estar à vontade. Ninguém o incomodará. O preço é mais caro, vai menos gente, há menos gente para o incomodar, e o barco é nosso, foi a resposta. É preciso ter lata, disse-lhes. Ou talvez ignorância, pensei eu depois para com os meus botões.

No fundo, estão por ali meia dúzia de estudantes universitários a massacrarem os turistas com folhetos a cores e ilustrados sobre a beleza da ilha Deserta e da liberdade de movimento que aí se usufrui. Uma ilha, um barco, um restaurante, e uns horários a forçarem a utilização do restaurante, do restaurante que é bem caro, acrescente-se. No fundo é isto que estava em jogo, para ganhos presentes e, quem sabe, para ganhos bem maiores no futuro. Meia dúzia de estudantes universitários a venderem a mentira, a subscreverem a aprovação por um executivo camarário que aprovou este tipo de concessão. Dizemos vender a mentira porque é na base de duas mentiras que pretendem convencer o zé pagante a pagar o dobro por uma viagem igual. A primeira mentira é simples: o argumento pressupõe que no Farol as pessoas estão como latas em sardinha, o que é mentira. Terei todo o espaço disponível para estender a minha toalha e para estar comodamente sem importunar ninguém, sem ser importunado por ninguém. O argumento destes precários de vida e de pensamento cai pois por terra. O segundo argumento é pior: é supor que as pessoas que tomam a atitude racional de irem para praia do Farol, são pessoas que se os bilhetes tivessem o mesmo custo iriam para a ilha Deserta e aí não seriam pessoas bem comportadas, seriam pessoas que importunariam os outros! Daí a diferença de preços, para estabelecer a diferença. Um absurdo, mas um absurdo que se inscreve na boa lógica neoliberal, uma vez que pressupõe então que a boa educação tem a ver com o dinheiro que se tem, e porque se o tem pode-se gastar, pagando o dobro por um serviço equivalente para marcar bem a diferença e não ser incomodado por gente que não tem o mesmo dinheiro, a mesma cultura.

Paga-se, pois, mais caro para não se ter tanta gente ao seu lado e ficar-se assim mais à vontade, não rodeado por gente sem meios económicos e sem cultura, é o que nos vendem com um sorriso nos lábios. Gente sem futuro de nada, a não ser a subserviência do instante e este não é futuro, é uma porcaria de presente, gente assim, ao preço de uns escassos euros por dia, a quererem defender e vender-me a concorrência selvagem e assente na mentira, gente jovem a ignorar que a sua precariedade de emprego, e os seus poucos euros por dia, tudo isto também está incluído, não tanto no preço da viagem mas nas margens de lucro de quem tem a seu cargo o benefício da exploração turística da ilha Deserta.

E, entretanto, o que poderia haver de serviço público como o que é feito com o barco que nos leva ao Farol, esse reduziu-se a ZERO. E questiono-me: como foi possível entregar a exploração turística desta ilha a gente deste calibre. Viro-lhes as costas e tomamos o barco para a ilha do Farol.

Chegou-se ao cais de desembarque, percorreram-se os cerca de 1500 metros até chegar ao bar da praia. Aí, descemos as escadas do bar para a praia e seguimos à esquerda, pelo passadiço de madeira feito para todos aqueles que alugam as palhotas tipo Caraíbas. Chega-se à ultima palhota, o passadiço acaba e os “pobres” podem queimar os pés por essa areia fora. Abre-se então o chapéu-de-sol, cerca de 3 metros para lá do limite da última palhota. E a manhã passada entre a areia, o sol e o mar, entre passeios à babuje das águas que nos vêm lavar os pés, ou enfiado nas águas transparentes a fingir que se sabe nadar, a manhã passou-se. Regressámos à hora habitual, com as rotinas já criadas: 12h 40min para apanhar o barco de regresso, às 13h e 10min.

Um dia normal. Não foi, porém, normal o fim da manhã quando regressámos.

Ao regressar, voltamos pelo mesmo passadiço. A meio assisto a uma discussão entre um casal de gente entre os 30 e os quarenta, ingleses ou alemães, mas pareceram-me alemães, mostram-se fortemente zangados com o pessoal do bar que os servia e que explorava o aluguer das palhotas. Isto é um roubo, é o que se ouvia em bom inglês, com um outro termo que não entendi e que me pareceu ser alemão ou uma língua nórdica. Na Grécia, pelo mesmo serviço pagamos metade e com bebida incluída. Com bebida incluída, repetiam, com o indicador virado para o empregado. E porque é que isto há-de ser diferente do preço na Grécia berravam. E o empregado, humildemente, responde que é a tabela fixada. É pública, retorquiu. Este funcionário poderia ter retorquido ao contrário e perguntar: e porque é que na Grécia não é igual ao preço daqui? Ou melhor ainda: porque não se deveria aplicar o preço que se aplica no país deles, nas poucas praias que terão e, de resto, de muito menor qualidade? O inglês do empregado não dava para isto. Foi pena.

Que concorrência é esta então? É a mesma concorrência selvagem do preço dos barcos à saída de Faro, com a diferença que agora nos referimos a países e não a operadores turísticos privados, onde a importância de um preço específico de um produto vale quase zero em termos de opção de país de destino. Garantidamente ninguém vai passar férias à Grécia porque o preço do aluguer de palhotas é metade do da ilha do Farol! Poderia ainda perguntar ao respetivo casal: quem é que lhes atribui o direito de serem tão mal educados? Etc,etc…

No fundo, o exemplo fala-nos de uma classe média europeia que apertada por cima, pelos Pluto de agora, quer apertar os de baixo para procurar perder menos qualidade de vida. E dão-lhe a justificação: se não vivem melhor é porque as gentes do Sul financiadas pelas gentes do Norte vivem acima das suas possibilidades. Uns contra os outros e os novos Plutos vão-se afirmando com cada vez mais poder.

A Grécia hoje assim, amanhã, Portugal, depois a Espanha e por fim a França, se, entretanto, a Itália não fizer rebentar tudo isto! No fundo, o exemplo diz-nos que a ideia que continua a ser difundida é a de que a financeirização, com tudo o que implica, ainda não foi suficientemente profunda. É preciso continuar a desenvolvê-la e, depois, haverá uma nova crise, na sequência da qual Portugal poderá vir a ser como a Grécia. É aliás nesse sentido que se desencadeiam pressões para permitir o aumento da alavancagem da banca, para se permitir o aumento da titularização. Seguir-se-á uma crise de endividamento clássica, por investimentos privados sem rei nem roque, ou por endividamento das famílias para aguentar aqueles investimentos e depois… a ruptura.

E será então um novo Pluto, um novo Mario Draghi, bem mais feroz que o de agora, uma nova Pénia, a que chamaremos NOVA TROIKA, com que se dará cabo do que resta de décadas de civilização, de conquistas sociais e políticas alcançadas e por muita gente repartidas através do Estado Providência. O Estado Providência se é já uma sombra, será então pura e simplesmente riscado do mapa. O país será amordaçado e a nova Troika, que será então criada, tomará as rédeas da governação, o leme do barco que é cada país sujeito às suas regras de austeridade. Sinais disso já se vislumbram no horizonte: a Altice [multinacional holandesa de telecomunicações, media e entretenimento, que adquiriu a Portugal Telecom, atualmente sua subsidiária] mostra-o já à evidência no que diz respeito ao mercado de trabalho. Virá o tempo, de acordo com uma velha diretiva da UE, em que a semana de trabalho sem direito a quaisquer compensações de horas extraordinárias atingirá as 60 horas. A isto a UE oferece uma compensação: os contratos só serão válidos se assinados pelos sindicatos!

De resto, seria uma situação não inédita. Já aconteceu com a Troika I e com Passos Coelho, o seu alto funcionário nomeado para Portugal e a quem tentaram depois dar o leme deste nosso barco que é Portugal. Mas não resultou apesar de todas as manipulações, apesar de todos os truques utilizados. E dessa incapacidade em entregarem o leme a Passos Coelho nasceu a geringonça! Uma geringonça que é tão frágil em termos de força no seu dia-a-dia face aos múltiplos ataques e contrariedades de que é vítima, mas que é tão forte em termos simbólicos que assusta as gentes da Troika. Porque é fraca em termos de poder político, porque é forte em termos simbólicos, entendem os Plutos de agora que deve ser abatida. Não se pouparão a esforços para o conseguir.

Olho para o Farol, estamos na ilha do Farol, símbolo do que nos fomos para o mundo. Relembro a discussão entre os dois nórdicos e o empregado, humilde. Sinto uma leve dor nos ouvidos e a frase ressoa, gritante, sibilina, porque é que os preços não hão-de ser iguais aos da Grécia. Um obstáculo: a geringonça não caiu e espero que não venha a cair tão depressa. Se a deixarmos cair, abrir-se-á o caminho para o que aquele casal naquele fim de manhã pretendia, que Portugal venha a ser igual à Grécia, mas nunca o inverso. Neste caso, se nos descuidarmos, ou melhor, se não a defendermos, alguém da nova Toika usurpará o fraco poder da geringonça, usurpará o leme agora nas mãos seguras de António Costa e reproduzir-se-á aqui ou algures a situação descrita por Kafka no seu conto O homem do leme.

Neste conto, há alguém que usurpa o leme ao atual timoneiro de um barco em viagem, o agride de mil e uma formas e quando este apela à tripulação que está na messe a comer, esta acorre de imediato ao convés do navio, ouve o usurpador do leme gritar em voz de comando “não me incomodem” e depois regressa de imediato à messe, onde continua a comer, após ter saudado respeitosamente o agredido, o que leva este a interrogar-se: “que género de gente é esta? Será que alguma vez pensam, ou será que vagueiam apenas pela terra, sem direção, sem sentido?”.

A mesma pergunta que o personagem de Kafka levanta poderá ser feita se deitarmos ou deixarmos, com a nossa inatividade política, deitar abaixo a geringonça porque assim a responsabilidade de cairmos no absurdo kafkiano é então de todos nós.

Mas não acredito que consigam que desçamos tão baixo no plano económico e social, no plano da Democracia real. Não acredito…

 

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

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