Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte II – Compreender a alta finança. 1. Compreender a finança nº 1 – Separar os megabancos? (1ª parte), por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – Compreender a alta finança

Parte II texto 1 1

1. Compreender a finança – nº 1 – Separar os megabancos (1ª parte)

 

 

Por Finance Watch, 2014.

(1ª parte)

“A necessidade de uma reforma estrutural em profundidade não levanta dúvidas a ninguém. Porém, resta-lhe fazer corresponder a vontade política. Não há nenhum motivo de interesse geral para que os cidadãos e os contribuintes continuem a pagar para os bancos ditos “demasiado grandes para poderem falir”.

Thierry Philipponnat, Secretário Geral Finance WatchPages

ÍNDICE

PARTE 1: O b.a.-ba
Introdução
O que é um banco universal?
Porque motivo os bancos universais são um problema?
O sr. Jargão responde às vossas perguntas: O que é o efeito de alavancagem?
Como é que os governos se deram conta de que havia um problema?
A proposta legislativa da Comissão Europeia

PARTE 2: O debate e a posição de Finance Watch
Desmistificar as afirmações do lóbi bancário
A posição de Finance Watch resumida em alguns pontos
Panorama das iniciativas legislativas na Europa
Ligações úteis

 

PARTE 1: O b.a.-ba

 Introdução

A proposta legislativa da Comissão Europeia sobre a reforma do sector bancário foi finalmente publicada em janeiro de 2014. Cinco anos depois da crise financeira de 2008, a mais importante desde 1929, a maior parte dos analistas está de acordo em sublinhar o facto de que o sistema bancário europeu permanece dominado por um punhado de bancos universais ‘demasiado grandes para poderem falir” (too big to fail), bancos de dimensão tão grande que a sua falência poria imediatamente em perigo o sistema económico mundial.

Este conjunto de textos dá-vos uma visão geral não técnica sobre a separação bancária, explica a posição de Finance Watch sobre esta temática crucial, e tenta responder a uma pergunta fundamental: porque é que se devem separar os megabancos universais?

O que é um banco universal?

Os bancos universais combinam duas atividades sob um mesmo teto: por um lado, as atividades próprias de um banco comercial, e por outro lado aquelas atividades ligadas ao banco de investimento.

Durante as quatro últimas décadas, a paisagem bancária alterou-se profundamente na sequência das vagas de liberalização e de desregulamentação, permitindo a certos bancos universais crescerem imensamente e tornarem-se hoje megabancos que dominam o sector bancário na Europa.

Um banco comercial oferece os serviços que o vosso banco local vos fornece no dia-a-dia. São os bancos onde vai cada um de nós para depositar dinheiro ou para pedir um empréstimo para o consumo. É também o banco que gere os sistemas de pagamento necessários de levantamento de dinheiro nos caixas automáticos ou para as compras de bens e serviços.

As atividades dos bancos de investimento incluem a transação dos ativos financeiros [especulação] como os títulos e os derivados. Estes serviços podem ser úteis para as empresas desejosas de obterem fundos a fim de investir ou gerir o seu risco.

O problema é que uma grande parte das transações financeiras que passam hoje por estes megabancos dizem respeito apenas a empresas financeiras. Dito de outro modo, os cidadãos e a maior parte das pequenas e médias empresas não utilizam, ou muito pouco, estes serviços. Mesmo as empresas multinacionais (as “empresas não-financeiras” na gíria financeira) têm necessidade apenas de uma fração das transações efetuadas por estes megabancos. Com efeito menos de 10% dos títulos de crédito emitidos, menos de 10% dos derivados privados negociados fora de bolsa e menos de 5% das operações cambiais são utilizados por empresas da economia real. Estes serviços são, por conseguinte, principalmente necessários aos atores do sector financeiro…

Um banco universal combina atividades que são de natureza fundamentalmente diferentes: as de banco comercial que são fundadas sobre relações de empréstimo a longo prazo, enquanto o trading financeiro do banco de investimento implica uma perspetiva a curto prazo. Nos bancos universais, a cultura de curto prazo tende a influenciar a do longo prazo e deteriora, por conseguinte, as relações de confiança sobre as quais se apoiam os bancos comerciais.

 

Porque motivo os bancos universais constituem um problema?

Parte II texto 1 2

Em primeiro lugar, um banco universal não pode falir! O Estado protege-o uma vez que gere serviços necessários para o bom funcionamento da economia no dia-a-dia, como os depósitos, o crédito e os sistemas de pagamento. Imaginemos, por um instante, que não pode retirar o seu dinheiro de um caixa automático ou que não pode pagar as compras numa qualquer loja. É muito simplesmente inconcebível que estes serviços sejam interrompidos, nem que fosse um só dia porque, à escala de um país, isso poria graves problemas para o sistema económico como um todo.

Por esta razão, os governos são obrigados a intervir para salvar os bancos universais quando as outras vias já falharam. E o problema reside no facto de que estes bancos universais são salvos pelo governo ainda que sejam sobretudo as suas atividades de especulativas que os fazem desmoronar!

Em segundo lugar, desenvolvem atividades de transação financeira muito arriscadas.  Estes bancos beneficiam de um “refinanciamento vantajoso” (pelo Estado) dado que este último deve apoiar, como acabámos de o ver, as suas operações como bancos comerciais. Graças à garantia do Estado, estes megabancos podem, por conseguinte, emprestar dinheiro a outros bancos com uma taxa de juro mais baixa, sendo o risco claramente menos elevado para os seus credores! E como estes megabancos contraem empréstimos de enormes somas de dinheiro para funcionar, beneficiam de uma vantagem considerável que, finalmente, perturba completamente a concorrência no sector bancário.

E que o que fazem eles com este ‘dinheiro barato’? Por um efeito de alavanca financeira (ver texto abaixo sobre a gíria bancária), desenvolvem atividades muito arriscadas a coberto da garantia do Estado. A especulação nos mercados de produtos derivados (como por exemplo sobre as matérias primas alimentares) é um exemplo de atividade muito rentável mas igualmente de alto risco.

Não estão assim falseadas as regras do jogo? Os bancos universais podem não somente obter fundos a melhores taxas de juro, mas igualmente especular como bem entendem, ao mesmo tempo que estão seguros que receberão o apoio do Estado no caso de perigo.

Em terceiro lugar, são os contribuintes que devem pagar quando ocorre uma falência bancária. A maneira como estes megabancos estão estruturados torna-os demasiado grandes, demasiado importantes, demasiado complexos e demasiado interconectados para poderem falir. O resgate do sistema bancário na sequência da crise de 2008 teve um custo enorme para o contribuinte! No total, os Estados europeus gastaram não menos de 400 mil milhões de euros de ajuda pública; e este montante atinge 1.600 mil milhões de euros se incluirmos as garantias e a liquidez urgentemente fornecida pelos mesmos Estados aos bancos. Isto equivale a 12% do conjunto do PIB da UE, ou seja 12% do valor dos bens e serviços produzidos em 2012 na União Europeia.

Além do mais, esta enorme quantidade de dinheiro não tem em conta os efeitos secundários da crise financeira sobre a economia real e a sociedade, tais como uma longa recessão e um forte aumento do desemprego (afetando sobretudo os jovens). A reforma das estruturas bancárias é, portanto, uma condição necessária para evitar que os cidadãos europeus tenham de voltar a pôr a mão na carteira no caso de nova crise financeira.

Não esquecer! Há apenas um muito pequeno número de megabancos. O esquema abaixo mostra que somente um punhado destes controla o conjunto da paisagem bancária da União Europeia. Hoje, na Europa, o sector é dominado por 15 megabancos que, só eles, representam 43% do mercado. Beneficiando de uma garantia implícita do Estado, estes bancos tornam mais difícil a entrada de novos bancos no sector, reduzindo a diversidade e falseando assim a concorrência.

Parte II texto 1 3

(continua)

Texto original Comprendre la finance nº 1 – Séparer les mégabanques ? em http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/921-comprendre-la-finance-1?lang=fr

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: