Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica. Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise – 1. Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã – uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia (17ª parte – Anexo parte 2). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

 

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise

 Parte IV texto 1 1

1. Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã – uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia (17ª parte – Anexo parte 2)

Por Finance Watch, em 15 de dezembro de 2014

Autor: Frédéric Hache. Editor: Greg Ford

 

(17ª parte – Anexo parte 2)

ANEXO: Sobre o papel central das garantias e do financiamento de títulos

(…)

2. Benefícios

Desde logo, o financiamento de títulos proporciona uma série de benefícios à indústria financeira: “os empréstimos de títulos formam uma parte crescente do rendimento dos investidores institucionais, bancos de custódia e os principais braços de corretagem dos bancos de investimento” [284] uma vez que o empréstimo de títulos que eles detêm ou pelos quais são responsáveis proporcionam um rendimento adicional. Também proporcionam uma fonte de financiamento mais barata às empresas que estão altamente alavancadas e para as quais os financiamentos inseguros são caros, refletindo a natureza de risco do seu negócio. Neste sentido, o empréstimo de títulos também permite às empresas assumir uma alavancagem adicional a custo barato.

Igualmente permite que fundos como os fundos de cobertura de riscos (hedge funds) se envolvam em vendas a descoberto, que é a venda de títulos que esses fundos não querem deter – mas que podem obter de empréstimo antes da sua liquidação – na expetativa de que o seu preço diminua. Isto contribui para a liquidez do mercado e reduz o custo das transações.

Em segundo lugar, o financiamento de títulos também beneficia os investidores e entidades emissoras de algum modo. “Na medida em que apoia o crédito, é também importante para a economia real (ainda que a quantificação da sua importância económica seja complexa). Por exemplo, um fundo de pensões adepto dos empréstimos de títulos possa argumentar com os rendimentos que proporcionam aos seus pensionistas na economia real” [285].

Na medida em que sejam transmitidos para os investidores (o que é obrigatório segundo a diretiva 2009/65/CE UCITS-Undertaking for the colletive investment in transferable securities, mas não segundo a diretiva 2011/61/UE AIFM-Alternative Investment Fund Managers), os rendimentos provenientes dos empréstimos de títulos aumentarão os rendimentos dos investidores. Contudo, numa série de casos os investidores institucionais guardam uma larga porção ou todo o rendimento para si mesmos, apesar do facto de os empréstimos de títulos criarem um risco adicional para os investidores no caso de o devedor falhar a devolução da garantia. Foi igualmente suscitada a questão de se os empréstimos de títulos contrariam o dever fiduciário dos investidores institucionais, que exige que eles otimizem o valor das participações dos seus clientes: como os empréstimos de títulos torna mais fácil aos que vendem a descoberto apostarem contra os títulos detidos pelos seus clientes, isso pode criar uma pressão à baixa no preço dos títulos e potencialmente diminuir o retorno dos investimentos. Uma vez que se renuncia aos direitos de voto quando as ações são emprestadas, os empréstimos de títulos limitam também a capacidade dos fundos em lutarem em prol do valor acionista.

No que diz respeito às entidades emissoras, dado que o financiamento de títulos contribui para o reforço dos mercados de capitais, os seus benefícios “incluirão provavelmente a melhoria da liquidez do mercado, uma resolução mais eficiente, preços de transação mais rigorosos e talvez uma redução do custo do capital” [286].

Além disso, “as vantagens de eficiência de um sistema financeiro assente em garantias incluem a sua capacidade de adaptação e uma menor necessidade dos empréstimos assentes no relacionamento de proximidade que são mais caros” [287]. Por outras palavras, estando os empréstimos de curto prazo com garantia plenamente garantidos pelos colaterais, há uma menor necessidade de avaliar o risco da contraparte incumprir com o empréstimo, que é uma atividade cara. Claro que o outro lado da moeda é que quando os mercados entram em dificuldade, os credores estão menos confiantes quanto à capacidade das suas contrapartes reembolsarem os empréstimos e, deste modo, exigem mais garantias, introduzindo pró-ciclicidade como veremos mais adiante. Por conseguinte, embora sendo verdadeiro que os empréstimos tradicionais envolvendo a avaliação de risco da contraparte poderão ser mais caros, poderá todavia ser um custo que vale a pena pagar.

Mais em geral, dado que as garantias líquidas e seguras constituem a principal forma de fundos dos gestores de ativos e instituições financeiras, são agora consideradas um lubrificante indispensável para as transações financeiras e “o sangue vital da economia moderna” [288]. Argumenta-se, frequentemente, que a nossa economia globalizada tem grandes necessidades de liquidez, o que apenas pode ser satisfeito por um sistema financeiro assente em garantias. Embora o omnipresente papel das garantias seja inegável, é importante relembrar que ele é uma consequência de um aumento da banca sombra (paralela) e fenómeno bastante recente segundo os padrões históricos, e não um facto intangível. Similarmente, enquanto a predominância de garantias tem implicações para a política monetária, o papel das garantias devia tornar-se menos central, o que reduziria a sua importância para os bancos centrais.

Em resumo, o financiamento de empréstimos apresenta benefícios incontestáveis, na sua maior parte para a indústria financeira e mais globalmente para os investidores e entidades emissoras, embora quanto a estes últimos os benefícios sejam mais difíceis de quantificar. Porém, dado que não é claro que o crescimento do financiamento de empréstimos tenha uma contribuição significativa para a economia real resulta que também não é claro que a redução desta atividade pudesse ter um impacto adverso no financiamento da economia real.

(continua)

Finance Watch, A missed opportunity to revive “boring” finance? A position paper on the long term financing initiative,  good securitisation and securities financing. Texto disponível em: http://www.finance-watch.org/press/press-releases/995fwposition-paper-on-ltf-securitisation-and-securities-financing

Notas

[284] Faulkner, M., An Introduction to Securities Lending, Spitalfields Advisors, Fourth Edition 2007

[285] Singh 2013

[286] Faulkner 2007

[287] Credit Suisse, Wilmot, J. et al., Market focus: when collateral is king, 2012

[288]  Ibid.

 

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