
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (3ª parte)
Por Michael Pettis
Publicado por
em 2 de fevereiro de 2017
7. Como é que os défices comerciais afetam o crescimento?
Pode ser mais útil, no entanto, falar de escassez de consumo, em vez de um excesso de poupança. Como eu explico num texto de 2014 (“Porque é que um excesso de poupança não pode aumentar a poupança”[7]), a restrição sobre o consumo só pode levar a um aumento da poupança, se ela também levar a um aumento do investimento (os dois são sempre iguais por definição). Mas porque o investimento já não é mais condicionado pelo capital, um excesso de poupança numa parte do mundo não leva a um maior investimento, nem no país nem no exterior. Nesse caso, deve conduzir a um desemprego mais elevado internamente ou no estrangeiro ou a uma carga de dívida mais elevada no estrangeiro, e qualquer dos casos leva à redução da poupança global por um montante equivalente (ou alguma combinação dos dois casos). Se o investimento não é condicionado pela poupança, um excesso da poupança não pode fazer com que as poupanças totais aumentem porque esse excedente não pode em si-mesmo fazer com que o investimento aumente [8].
Na verdade, o oposto pode acontecer — e a crise financeira global de 2008 a 2009 mostrou exatamente como. Ao reduzir a procura gerada pelo consumo das famílias e não a substituindo por procura gerada pelo investimento produtivo, o efeito líquido das condições que criam um excesso de poupança pode facilmente retardar a economia e até mesmo reduzir o investimento produtivo. Porque é que, afinal, um fabricante expandiria a sua capacidade produtiva ou um comerciante expandiria a sua rede de distribuição, se o comprador final está a comprar menos?
É por isso que eu disse anteriormente que o impacto que os desequilíbrios da balança comercial podem ter sobre a economia americano é muito mais fácil de entender do que poderíamos pensar à primeira vista. O modo como o défice comercial americano vai afetar o crescimento da economia americana, depende se as empresas americanas já estão aptas a investir tanto quanto eles desejam para expandir a produção ou se são incapazes de o fazer por causa da insuficiência da poupança. Se o investimento atual nos Estados Unidos está muito abaixo do investimento desejado, então, a transferência das poupanças do exterior para reduzir o fosso entre o investimento desejado e o efetivo é correspondido por um aumento proporcional do investimento; porque o investimento produtivo faz a economia crescer mais rapidamente do que de outra maneira ela o faria, uma parte do crescimento da produtividade pode ser para pagar aos investidores estrangeiros e a maioria dela pode ficar nos Estados Unidos. Nesse caso, um défice comercial americano é realmente um impulso para o crescimento económico, como foi assim durante grande parte do século XIX.
Mas se o investimento atual é praticamente igual ao investimento desejado, então a transferência do exterior não tem qualquer impacto sobre o investimento interno e, por isso, não pode levar a um aumento sustentável do crescimento. Na verdade, a longo prazo, vai reduzir o crescimento. Ou o desemprego deve aumentar e o crescimento deve ser lento a curto prazo, ou deve haver um aumento temporário do crescimento causado por um aumento da carga da dívida, para financiar ou um aumento insustentável no consumo ou um aumento insustentável em investimento de que ou se não tem necessidade ou é aplicado no setor improdutivo que a longo prazo será mais do que totalmente revertido.
8. A avaliação das políticas económicas
Podemos estender esta mesma análise de forma mais geral para outras políticas para além da política comercial — por exemplo, às políticas de redistribuição do rendimento. Se o investimento atual nos Estados Unidos está muito abaixo do investimento desejado, as políticas que visam reprimir o consumo e aumentar a poupança para aumentar o investimento, são suscetíveis de funcionar. Estas políticas, que normalmente são concebidas efetivamente para transferir rendimentos dos pobres para os ricos, reduzem inicialmente o consumo, mas o consequente impacto negativo na procura é contrabalançado pelo aumento do investimento, e este tem por seu lado um impacto positivo na procura. Com este último efeito que faz a economia crescer mais rapidamente do que de outra maneira o faria, então, por fim teríamos que os pobres beneficiariam também do ambiente de prosperidade crescente assim criada: e pronto, eis a teoria trickle-down [9]. Acontece que George Bush estava errado quando ele rejeitou a teoria trickle-down como uma teoria económica voodoo [segundo a qual se poderia aumentar as receitas fiscais através da redução dos impostos aos ricos]. Esta pode fazer sentido, mas somente sob a condição bem específica de que qualquer supressão do consumo liberta capacidade de produção para produzir bens e serviços que vão alimentar um investimento mais elevado.
Por outro lado, se o investimento atual nos Estados Unidos é grosso modo igual ao investimento desejado, o mecanismo trickle-down não funciona. Nesse caso, a transferência de rendimento dos pobres para os ricos irá suprimir inicialmente o consumo, assim como no caso anterior, mas agora o menor consumo deixa de ter como contraponto automaticamente um investimento mais elevado, e assim a procura total simplesmente diminui. Quando isso acontece, ambos, a poupança e o consumo, caem, como cai igualmente o PIB e sobe o desemprego.
Mas há uma torção adicional, como indico no último parágrafo do anterior ponto 7. Os níveis de investimento desejado dependem das expectativas de lucro, que dependem da procura esperada. Se as políticas que transferem rendimento dos pobres para os ricos, e que assim estão a suprimir o consumo, não desencadearem poupanças para níveis de investimento atual mais elevados, estas políticas de redistribuição podem facilmente causar em vez disso, uma redução nos níveis de investimento desejado, de modo que, paradoxalmente, o investimento realmente acaba por vir a cair. O que é aqui importante, afinal, é para quê manter os níveis de investimento, se os clientes finais, os consumidores domésticos, com estas políticas deixam de poder consumir tudo o que é produzido?
A China enfrenta hoje este mesmo paradoxo: enquanto o investimento total continua a crescer muito rapidamente, este aumento é impulsionado pelo setor estatal. Depois de muitos anos de rápida expansão, o setor privado, cujas decisões de investimento são impulsionadas quase totalmente por considerações económicas e expectativas de lucro, ao contrário das do Estado, tem estado a desinvestir. Isto sugere que os níveis de investimento desejado na China estão a descer, enquanto o investimento atual continua a aumentar. O modelo dir-nos-ia que, em vez de aplicar políticas de distribuição de rendimento que forçam a taxa de poupança, Pequim deve redistribuir os rendimentos do setor estatal a favor das famílias, de modo a forçar que haja o consumo. Não é por acaso que embora esta mudança se tenha mostrado politicamente muito difícil de alcançar, isto é exatamente o que Pequim tem vindo a tentar fazer desde pelo menos 2007.
A Alemanha pode proporcionar um exemplo ainda mais adequado para os decisores políticos norte-americanos quanto a este paradoxo. As reformas do mercado de trabalho de Hartz de 2003-2005 tiveram como impacto um aumento de impostos sobre os trabalhadores e um corte nos impostos das empresas, redistribuindo, efetivamente, o rendimento de trabalhadores de altamente consumidores, sob a forma de um declínio no crescimento salarial, para as empresas não consumidoras e isto sob a forma de maiores lucros. As poupanças mais elevadas, porém, não se traduziram em investimento mais elevado. Na verdade, o investimento interno na Alemanha atualmente declinou, talvez porque o crescimento mais fraco do consumo tenha reduzido os níveis de investimento desejado.
A única razão pela qual a combinação de um nível de consumo mais baixo e de um menor investimento fez diminuir a pressão sobre o PIB alemão e o emprego alemão [Nota de tradutor- fez reduzir as pressões deflacionistas na Alemanha sobre o PIB e sobre o emprego] é porque as regras da União Monetária Europeia eliminaram os mecanismos de ajustamento tanto na Alemanha como nos seus parceiros, e assim efetivamente forçou aproximadamente quase toda a poupança alemã e o gap de produção (Nota de tradutor- excedente de produção face à redução do consumo) a ser exportado e utilizado pelas zonas da Europa que tinham uma história de inflação mais elevada. Com as taxas de juros a convergirem por toda a Europa muito mais rapidamente do que a inflação, deixando as taxas de juro reais elevadas nos países de baixa inflação, como a Alemanha, e taxas reais baixas ou mesmo negativas nos países de alta inflação, as poupanças alemãs deslocaram-se para estes últimos e, com ela, os produtos manufaturados alemães, também. Isto forçou os seus parceiros comerciais europeus a terem como resultado aumento no desemprego, embora eles tenham sido capazes de evitar o desemprego através de uma dívida crescente e isto ao longo de vários anos até 2009, após o qual os níveis de dívida atingiram os seus limites e o desemprego na Europa claramente disparou.
Este modelo simples, mas poderoso, proporciona um teste elegante para o impacto das políticas relacionadas com o comércio internacional. Se o investimento atual está muito abaixo do investimento desejado, devemos aplaudir os fluxos de capital estrangeiro e os défices comerciais que os acompanham, assim como devemos aplaudir os cortes de impostos para os ricos, que basicamente fazem a mesma coisa, isto é, aumentar o investimento efetivo e levando a aproximar-se do investimento desejado. Se o investimento efetivo for igual ou mesmo exceder o investimento desejado, devemos tentar reduzir os fluxos de capitais externos e os défices comerciais que os acompanham, tal como devemos propor políticas que redistribuam o rendimento a favor dos rendimentos mais baixos. No caso dos Estados Unidos, acima de tudo, Washington devia iniciar políticas que levem o investimento desejado a aumentar, de modo que a economia americana possa tirar proveito das poupanças estrangeiras muito baratas e reconstruir massivamente as infraestruturas fisicamente muito degradadas. Reconstruir as infraestruturas dos EUA teria o efeito de reduzir substancialmente a carga da dívida do país, mesmo que o montante total do investimento fosse financiado pela dívida pública. (consulte o apêndice 4 para uma discussão das limitações dos modelos lógicos baseados em identidades contabilísticas estáticas.)
O modelo também nos permite testar a coerência entre as várias iniciativas de política económica. A administração Trump, por exemplo, não quer apenas forçar uma contração no défice comercial, mas também propôs políticas destinadas a aumentar o investimento americano, em parte, tornando o investimento mais rentável (corte de impostos para as empresas e reconstrução das infraestruturas americanos) e, em parte, aumentando a poupança (corte de impostos sobre os muito ricos). Contudo, há inconsistências entre estes objetivos. Como já demonstrei, as políticas de intervenção comercial podem conduzir a um crescimento mais elevado, a um menor desemprego e a um encargo de dívida menor, mas apenas se assumirmos que o investimento desejado está amplamente alinhado com o investimento efetivo. Se o investimento desejado for muito maior, então uma contração no défice comercial não pode ocorrer sem uma contração no investimento líquido estrangeiro, o que só aumentaria a diferença entre o investimento desejado e o real, reduzindo os níveis de investimento real.
Por outro lado, o corte de impostos sobre os muito ricos só pode aumentar a poupança se aumentar o investimento, e para que isso aconteça, o investimento desejado deve ser substancialmente maior do que o investimento efetivamente realizado. Se estes dois tipos de investimento estiverem grosso modo em linha, os Estados Unidos correm o risco de sofrer, em vez disso, as mesmas consequências que a Alemanha e a China sofreram, com uma redução em ambos os tipos de investimento, isto é, no investimento desejado e no efetivo. As duas políticas, por outras palavras, são inconsistentes. Eles só podem ser consistentes se Washington também desencadear um programa de construção de infraestruturas, uma iniciativa política coerente com qualquer uma das outras duas, numa escala verdadeiramente heroica – que, como um aparte, eu suspeito que seria uma estratégia inteligente em qualquer circunstância dado que as necessidades americanas em infraestruturas são tão grandes que os aumentos consequentes da produtividade iriam servir plenamente para liquidar a dívida que lhes estaria associada muito antes de a produtividade estacionar e deixar de acrescentar valor à economia.
9. Implicações do comércio internacional
Antes de encerrar este texto, pode ser útil para alguns leitores clarificar aqui algumas questões comerciais específicas. Tem havido uma grande quantidade de debates sobre a política de impostos fronteiriços e sobre as tarifas em geral. Como tem sido amplamente notado, a diferença entre impostos e tarifas é principalmente porque a primeira atua como uma intervenção cambial, tornando as exportações mais baratas e as importações mais caras, enquanto a última torna as importações mais caras. Eu vou considerar todas as três políticas simplesmente como intervenção, com o pressuposto de que estas políticas atuam, efetivamente, no sentido de elevar o custo da produção estrangeira em relação à produção nacional americana.
Devo sublinhar, antes de começar, o meu agnosticismo completo em relação às virtudes ou aos vícios da intervenção comercial. Pessoalmente rejeito como sendo totalmente incompreensíveis as opiniões daqueles para quem a proteção é inevitavelmente uma estratégia positiva, e uma estratégia que irá resolver muitos ou a maioria dos problemas da economia americana. Eu também rejeito como igualmente incompreensíveis os pontos de vista daqueles para quem qualquer intervenção comercial é necessária e evidentemente prejudicial para a economia americana. Eu penso que ambas as linhas de análise são incompreensíveis porque com o mínimo de reflexão, e baseado em todo o conhecimento da história económica, elas estão obviamente erradas. Como muitos outros debates na economia em que cada lado é tratado como ideológico ou como uma posição de fé, de facto, o protecionismo pode ser positivo ou negativo para uma economia, dependendo isso das específicas circunstâncias subjacentes.
(continua)
Texto disponível em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/67867
Notas
[7] N.E. Editado na presente série sob o número 4, em 27 e 28 de setembro, vd. https://aviagemdosargonautas.net/2018/09/27/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-4-porque-e-que-um-excesso-de-poupanca-nao-aumenta-a-poupanca-1a-parte-por-michael-pettis/ e seguinte.
[8] Para aqueles que estão interessados, publiquei um outro texto escrito naquele ano, “How Trade Can Reinforce Income Inequality,” em que discuto a mesma questão sob o ângulo de comércio internacional. N.E. Publicado na presente série sob o número 5 “Como é que o comércio internacional pode reforçar a desigualdade de rendimento”, vd https://aviagemdosargonautas.net/2018/09/29/a-critica-demolidora-de-michael-pettis-a-teoria-e-a-politica-economica-neoliberal-5-como-e-que-o-comercio-internacional-pode-reforcar-a-desigualdade-de-rendimento-por-michael-pettis/
[9] Nota de Tradutor. Trickle-down literalmente significa efeito de gotejamento, ou seja, estar a gotejar, gota a gota, até o copo transbordar. É uma expressão que surge na sequência do aforismo enunciado por Alan Blinder, segundo o qual “uma maré que cresce levanta todos os barcos”. No caso em questão, os neoliberais dirão que em situação de crise e de falta de meios para investir, se deve tirar aos pobres para dar aos ricos, um Robin Hood ao contrário, (a política que a Troika impôs em Portugal) para estes poderem investir, pois é preciso aumentar a poupança para financiar o investimento necessário para assim se aumentar o PIB. No final, dizem-nos, todos ficarão a beneficiar e isto pelos simples mecanismos de mercado, logo sem Estado, não sendo por isso preciso preocuparmo-nos com a distribuição/redistribuição do rendimento, porque, depois, todos acabarão por ficar melhor. Daí o ditado dos conservadores: “Não nos preocupemos com os pobres, porque, para cada rico a mais, há um pobre a menos”.
