Em 1999, uma criança nasceu, de parto prematuro e com deformidades congénitas: o Euro 20 anos depois – alguns textos sobre a sua atribulada existência. Texto 2. A zona euro organiza estruturalmente a divergência de países


A zona euro organiza estruturalmente a divergência de países

(Patrick Artus, 28 de Março de 2018)

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A zona euro tem várias características que estruturalmente organizam a divergência das situações económicas dos países membros:

  1. o facto da política monetária ser comum significa, naturalmente, que os países com economias mais fracas do que a média da zona euro têm uma política monetária mais restritiva;
  2. a ausência de um orçamento federal e a necessidade de cada país equilibrar as suas finanças públicas implica que um país em dificuldade deve estabilizar a sua economia e, em última análise, reduzir os seus défices públicos sem receber assistência de outros países;
  3. as diferenças  entre competitividade e custos são muito mais suscetíveis de serem corrigidos pelo rigor salarial nos países em dificuldade do que por um crescimento salarial mais rápido nos países com elevada competitividade: o ajustamento da competitividade, tal como o ajustamento das finanças públicas, é assimétrico e é da exclusiva responsabilidade dos países em dificuldade;
  4. as especializações produtivas divergem, o que é normal numa União Monetária;
  5. o desaparecimento da mobilidade de capitais entre os países da zona euro  a partir de 2010 implica que os países com poupanças excedentárias deixem de financiar projetos de investimento em países com menor capital per capita, deixando assim de contribuir para a convergência do rendimento per capita.

Por conseguinte, a zona euro é hoje em dia uma “máquina” a produzir níveis de vida divergentes entre os Estados-membros.

Perguntamo-nos se a zona euro não é ela própria a organizar  a divergência das economias dos países membros. Desde a crise de 2008-2009, registou-se uma divergência nos rendimentos per capita entre os países da área do euro (Gráfico 1).

Pensamos que a zona euro organiza efetivamente a divergência das economias dos Estados-Membros, por cinco razões:

  1. o funcionamento normal da política monetária comum;
  2. a ausência de um orçamento federal;
  3. o processo assimétrico de correção das deficiências de competitividade – custos;
  4. a divergência normal de especializações produtivas;
  5. o desaparecimento da mobilidade de capitais entre os países da área do euro.

Primeira causa da divergência das economias da zona euro: a política monetária comum

Este fator de divergência é óbvio e inevitável: uma vez que a política monetária é comum, esta é economicamente estimulante em países que crescem acima da média da zona euro, é restritiva em países que crescem abaixo da média da zona euro, o que aumenta a divergência entre as diversas economias nacionais. Vimos que a política monetária, antes da crise, era estimulante em Espanha e restritiva na Alemanha; hoje, é estimulante em Espanha e na Alemanha, restritiva em Itália (gráficos 2 a/b/c).

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Segunda causa da divergência das economias da área do euro: a ausência de um orçamento federal

O orçamento federal (orçamento comum) é extremamente reduzido na zona euro. Isto significa que um país em dificuldade deve primeiro apoiar a sua economia e depois reduzir o seu défice público sem receber ajuda de outros países, o que obviamente agrava as suas dificuldades. Isto foi claramente observado durante a recessão e a crise na zona euro, entre 2008 e 2014, nos países periféricos da área do euro (gráficos 3 a/b/c).

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Terceira causa da divergência das economias da zona euro: a correção das diferenças na evolução da produtividade é assimétrica

Quando um país da zona euro tem uma competitividade de custos deteriorada, daí um défice externo, deve finalmente prosseguir uma política salarial restritiva, reduzir os seus custos salariais para restaurar a sua competitividade, o que inicialmente degrada ainda mais a sua economia.

Quando um país da zona euro tem uma elevada competitividade de custos e um excedente externo, os seus salários aceleram-se  pouco e assim pode manter a sua vantagem competitiva.

O ajustamento da competitividade dos custos é pois assimétrico: é essencialmente da responsabilidade dos países em dificuldade, o que agrava ainda mais as suas dificuldades e aumenta a heterogeneidade entre países.

Os exemplos incluem o acentuado ajustamento à baixa dos custos unitários do trabalho em Espanha e Portugal após a crise, a fraca aceleração dos custos unitários do trabalho na Alemanha (Gráfico 4a), apesar da boa situação económica da Alemanha (Gráfico 4b) e dos seus excedentes externos (Gráfico 4c).

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Quarta causa da divergência das economias da zona  euro: a divergência das especializações produtivas

 Como é normal numa União Monetária, os países podem facilmente explorar as suas vantagens comparativas, com o desaparecimento do risco cambial, o que leva à divergência de especializações produtivas. Os gráficos 5 a/b mostram, por exemplo, o importante exemplo da divergência dos pesos da indústria.

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Quinta causa da divergência das economias da zona  euro: o desaparecimento da mobilidade de capitais entre os países da área do euro

A crise da zona euro a partir de 2010 levou ao desaparecimento da mobilidade de capitais entre os países da área do euro. Os excedentes externos (excedentes de poupança) da Alemanha e dos Países Baixos deixaram de ser emprestados a outros países da zona euro e foram, por conseguinte, transformados em excedentes externos para o conjunto da zona  euro (Gráfico 6a).

Isto implica que os excedentes de poupança da Alemanha e dos Países Baixos deixaram de financiar o investimento em países da zona  euro com um rendimento per capita mais baixo (Gráfico 1 acima e Gráfico 6b), o que impede a convergência dos níveis  de vida.

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Resumo: causas inevitáveis de divergência numa União Monetária, causas ligadas ao contexto institucional da zona euro

A zona euro é, por conseguinte, uma “máquina” a fabricar a divergência dos Estados-Membros:

  1. através de mecanismos presentes em todas as Uniões Monetárias: o papel da política monetária comum, a divergência de especializações produtivas;
  2. através de mecanismos específicos da área do euro: ausência de um orçamento federal, correção assimétrica das diferenças na evolução da  competitividade pelos  custos, desaparecimento da mobilidade internacional dos capitais entre os países da zona euro.

O terceiro texto desta série será publicado amanhã, 22/02/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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