Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte I – Grandes planos sobre uma União Europeia em decomposição. 2º Texto – Os Coletes Amarelos pedem respeito, o poder responde-lhes pelo insulto

Os Coletes Amarelos pedem respeito, o poder responde-lhes pelo insulto

(Entrevista a Christophe GuilluyDaoud Boughezala, Elisabeth Lévy e Gil Mihaely) (Dezembro de 2018)

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Christophe Guilluy

 

Christophe Guilluy tinha visto chegar os Coletes Amarelos. Com efeito, a “França periférica”, que o geógrafo conceptualizou e que ele mostra, no livro No Society, que é a parte esquecida da nova globalização e das políticas que a acompanharam, é também a que se ergueu, nas estradas e rotundas, contra a sua desclassificação. A infeliz globalização, a crise das classes médias, a reação populista: este espectro assombra todo o Ocidente.

Causeur. Desde o início do movimento “Coletes Amarelos”, o senhor pode ser visto por todo o lado. O senhor é uma espécie de profeta: inventou a França periférica antes que o aumento do gasóleo o fizesse aparecer nos ecrãs de radar. O que têm em comum todos estes franceses que usavam um Colete Amarelo?

Christophe Guilluy. Profeta, eu? Digamos apenas que há quinze anos que digo que há um elefante doente (a classe média) na loja de porcelana (o Ocidente) e haja quem me explique que não há lá nenhum elefante. Os “Coletes Amarelos” correspondem de facto à sociologia e à geografia da França periférica que tenho observado desde há já alguns anos. Operários, empregados, trabalhadores por conta própria, têm dificuldade em fazer face às suas despesas do seu dia-a-dia. Socialmente precárias, estas categorias modestas vivem nos territórios (cidades, pequenas e médias, zonas rurais) que criam menos empregos. Essas pessoas desclassificadas do sistema ilustram um movimento enraizado desde há muito tempo: o fim da classe média, da qual elas ainda eram a base.

Além de serem economicamente precários, os “Coletes Amarelos” representam a França dos perdedores culturais?

Absolutamente verdade. Do camponês historicamente de direita ao trabalhador historicamente de esquerda, os “Coletes Amarelos” todos eles verificam que o modelo globalizado já não os integra. Conduzem veículos a gasóleo porque lhes foi dito que o fizessem, mas são chamados poluidores pelas elites das grandes cidades. Enquanto o mundo das elites reafirma constantemente a sua identidade cultural (a cidade globalizada, o bio, a viver em conjunto…), os “coletes amarelos” não pretendem submeter-se ao modelo económico e cultural que os exclui.

Um líder populista poderá aparecer tão rapidamente quanto Macron apareceu.

O que o leva a pensar que a França das elites exclui os “Coletes Amarelos”?

Mais do que a exclusão dos mais modestos, foi sobretudo a secessão do mundo das elites, das gentes do topo, os d’en haut, que desempenhou um enorme papel. O fosso entre os d’en haut e os d’en bas” grande parte dos desfavorecidos pela repartição do rendimento, ou seja da parte baixa da escala de rendimentos, está a aumentar à medida que as elites ostracizam as pessoas. Macron pode ter feito o diagnóstico certo quando disse: “Eu não consegui reconciliar o povo francês com os seus dirigentes”, mas o seu campo político apressou-se a apelidar os “Coletes Amarelos” de racistas, antissemitas e homofóbicos. Isto não promove a reconciliação! No entanto, como maioritária porque constitui 60% da população, a França periférica é rejeitada pelo mundo dos de topo, por aqueles que já não se reconhecem no seu próprio povo. A importância do movimento e especialmente do apoio público (oito em cada dez franceses) revela o isolamento do mundo das elites, os d’en haut, e as representações sociais e territoriais totalmente erradas. Este divórcio levanta um verdadeiro problema democrático, porque as classes médias sempre foram o referente cultural da classe dominante.

Em defesa dos nossos líderes, está o senhor a admitir que a diversidade ideológica do movimento não facilita a tomada em consideração das suas exigências. Pagar menos impostos não é um projeto…?

É certo que há manifestantes de direita, esquerda, extrema-direita e extrema-esquerda que estruturam os seus discursos de forma bastante deficiente. Mas todos querem a mesma coisa: o trabalho e a preservação de quem são. A questão do respeito é fundamental, mas o poder responde com insultos!

Se o governo não os está a ouvir, será que os “Coletes Amarelos” podem constituir um Movimento 5 Estrelas, ao estilo francês?

Tudo é possível. Há tanta falta de oferta política que um líder populista poderia emergir tão rapidamente quanto Macron surgiu. A procura existe. No resto do mundo, os populistas conseguem adaptar a sua ideologia à procura. Há alguns anos, Salvini defendeu posições secessionistas, liberais e racistas, atacando os italianos do Sul. Hoje, como ministro, é aclamado em Nápoles, torna-se defensor do Estado, defende a unidade italiana e vota a favor de um orçamento quase de esquerda. Quanto a Trump, este é um membro da alta elite de Nova York que ouviu os pedidos da América periférica.

Estes dirigentes não dizem eles a si próprios que temos de reeducar as pessoas? Pelo contrário, são as exigências das bases que apontam o caminho a seguir. Assim, um Movimento 5 Estrelas poderia aparecer na França se procurasse responder aos anseios populares de regulação (económica, migratória).

Em todos os países ocidentais, a classe média está a explodir pela sua parte mais frágil

Este pano de fundo também afeta todo o Ocidente?

Sim. Em todos os países ocidentais, a classe média está a explodir pela parte de baixo. Este desenvolvimento começou nos anos 70 e 80 com a crise do mundo operário, com a reestruturação industrial, depois afetou os camponeses, os trabalhadores do sector terciário e, finalmente, as zonas rurais e as cidades de média dimensão.

Se juntarmos todas estas categorias, isso toca o coração da sociedade. Sobre as ruínas das classes médias, tal como existiam durante os Gloriosos Anos 30, as novas classes trabalhadoras – trabalhadores, empregados, camponeses, pequenos comerciantes – formam a grande maioria da população em todos os lugares.

É a sociologia do populismo?

Basicamente, sim. Agora que a classe média explodiu, duas grandes categorias sociais se chocam entre si, no contexto de um novo modelo económico de polarização do emprego. Por um lado, as categorias superiores – 20 a 25% da população – que têm empregos altamente qualificados e integrados, estão concentradas nas áreas metropolitanas. Por outro lado, uma grande massa de trabalhadores precários, cujos salários não acompanham a evolução dos rendimentos dos primeiros, vive em áreas periféricas. Mesmo numa região rica como a Baviera, o eleitorado da AfD tem uma sociologia e uma geografia bastante populares, espalhadas por pequenas cidades, cidades médias e zonas rurais.

O senhor usa categorias socioeconómicas, mas os seus críticos acusam-no de defender a “França Branca”…

A classe média não é absolutamente uma categoria étnica. No meu último livro, critico a etnicidade do conceito que, ao contrário do que acreditamos, veio da intelligentsia de esquerda. Nos últimos anos, assistiu-se a um deslizar semântico: quando algumas pessoas falam de subúrbios ou de política urbana, referem-se a populações de imigração recente, e quando falam de “classe média”, significam “brancos”. Isso é um erro.

A classe média é o produto de uma integração económica e cultural que funcionou tanto para as Antilhas como para as primeiras vagas de imigração magrebina que abraçaram os seus valores, independentemente de sua origem ou religião. Será necessário recordar que os departamentos e territórios ultramarinos franceses fazem parte da França periférica? Nestes territórios, as exigências de regulação (económica e migratória) provêm das mesmas categorias. Esta dinâmica está agora quebrada porque o modelo ocidental já não integra estas categorias, nem económica, nem social nem culturalmente. Mesmo em partes prósperas do mundo como a Escandinávia, as pessoas de menos posses estão culturalmente fragilizadas. Esta explosão das classes médias está a provocar uma crise nos valores culturais que elas tinham e, portanto, nos sistemas de assimilação.

A divisão entre a elite e o povo está a aumentar. Nunca na história estes dois mundos foram tão estranhos um ao outro.


Como é que a crise da classe média afeta a integração dos imigrantes?

Se as classes médias, a base popular do mundo das gentes das elites, já não são os referentes culturais destas últimas, que constantemente os descreve como deploráveis, as gentes das classes médias já não podem ser mecanicamente aquelas a quem os imigrantes se querem assemelhar. Ontem, um imigrante que desembarcava assimilava-se mecanicamente e queria parecer-se com um francês médio, um francês comum. Similarmente, o modo de vida americano, o american way of life, era assumido pelos trabalhadores americanos a quem os imigrantes se queriam assemelhar. Uma vez que que as comunidades modestas estão fragilizadas e se sentem como perdedoras, elas perdem a sua capacidade de atratividade. É um choque psicológico gigantesco. A cereja no bolo foi que a intelligentsia vomitou estas pessoas, como Hillary Clinton que chamou aos eleitores do Trump de “deploráveis”. Ninguém se quer parecer com uma pessoa deplorável!

Não são apenas as classes trabalhadoras que não se sentem politicamente representadas. Entre os eleitores dos chamados partidos “populistas” estão os perdedores culturais que se dão muito bem economicamente, mas que se sentem culturalmente despojados.

As dinâmicas populistas atuam sobre duas forças ao mesmo tempo: a insegurança social e cultural. A insegurança cultural sem insegurança económica e social alimenta o eleitorado de Fillon, que logicamente votou Macron na segunda volta: não tem interesse em inverter o modelo de que beneficia.

Como vimos com a eleição de Trump, nenhum voto populista emerge sem a conjunção da questão da identidade e da fragilidade social. Por conseguinte, é inútil perguntar se alguma destas componentes está em jogo. Estão as duas. É por isso que os debates sobre a alegada influência de Eric Zemmour são estúpidos. Zemmour expressa um movimento real na sociedade, o que explica que com 11 milhões de eleitores para Marine Le Pen, a Frente Nacional bateu o seu recorde absoluto de votação na segunda volta em 2017. Apesar de tudo, a redistribuição permanece muito forte e o número de pessoas protegidas é elevado. Emmanuel Macron não só foi eleito pelo mundo das elites, das gentes d’en haut. Foi também amplamente apoiada pelos protegidos, ou seja, pelos reformados – especialmente os reformados de classe média – e pelos funcionários públicos. Este é o paradoxo francês: o que resta do Estado-Providência protege o mundo dos de cima.

Não é o único: Macron, em quem votaram, não poupa funcionários públicos e aposentados…

Isso explica o seu colapso nas sondagens. Dito isto, o nível das pensões continua a ser relativamente correto e não leva os reformados franceses a virar a página, mesmo aqueles que acreditam que existem problemas com a imigração. Mas isso pode mudar nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com o Estado social enfraquecido desde os anos 80, os reformados não têm medo de derrubar o sistema. Eles votaram no Brexit porque não têm nada a perder. Se amanhã o Governo enfraquecer os reformados franceses, estes deixarão de apoiar eternamente o sistema. Ao desmantelarmos todas as redes de apoio social, como se está a querer fazer com a redistribuição a favor dos reformados, estamos a assumir riscos muito grandes para o futuro das operações.

O desfazer das conquistas sociais não é um pouco exagerado?

Não, não é. E não é coincidência que o governo tenha recuado na CSG. A mediana da pensão de reforma em França é de cerca de 1.000, 1.100 euros por mês! Abaixo de 1.000 euros por mês, começa a ficar tudo muito complicado. A maioria dos reformados provém das categorias da classe trabalhadora. E eles são os únicos, no seio destas, que não caíram, na sua maioria, na abstenção ou no voto populista. No dia em que eles também mudarem, o choque será comparável ao Brexit. Veja também a velocidade com que os populistas ganharam na Itália.

Está a dizer que, para a França, é apenas uma questão de tempo?

Gostemos ou não, o movimento está lá e basta esperar. Em todo o Ocidente, há uma procura muito forte por regulação: económica, social, migratória. Para toda a resposta a esta exigência popular o que se tem tido é chamar-lhe fascista – estou bem consciente disso. O resultado desta estratégia de diversão é que a fratura entre a elite e as classes superiores por um lado, e o povo, por outro, continua a aumentar. Nunca na história estes dois mundos foram tão estranhos um ao outro.

É necessário ser-se espantosamente muito bom para se conseguir tirar Guéret ou Vierzon do impasse.


Quem são estas elites?

Este mundo dos de topo não tem a ver apenas com o 1% ou os hiper-ricos, mas com categorias superiores e uma tecnoestrutura – os enarcas ( os diplomados pela ENA -Ecole de l’Administration Publique- mas também os tecnocratas territoriais do Institut national des études territoriales ( INET). Todos os seus membros têm as mesmas origens e partilham exatamente a mesma visão de sociedade. Por outro lado, quando viajo por França, encontro-me com funcionários eleitos da esquerda ou da direita que partilham o meu diagnóstico. E que lamentam ver que, no topo do seu partido, domina o modelo globalizado estruturado em torno das metrópoles.

No topo do Estado, Emmanuel Macron criou um grande Ministério da Coesão Territorial liderado por Jacqueline Gourault. Isso não é prova de que o seu discurso está a começar a entrar em infusão?

Claro que sim. Quando o pensamento está realmente desfasado da realidade, as tentativas de negação e de diabolização já não funcionam. No entanto, com toda a vontade política do mundo, sem o apoio da tecnoestrutura, nenhuma mudança é possível. A mesma questão se coloca nos territórios: como iniciar diferentes políticas com a mesma tecnoestrutura? Não importa quem é o prefeito de Paris ou Bordeaux, essas cidades criam riqueza através do livre jogo do mercado. É necessário ser-se espantosamente muito bom para se conseguir tirar Guéret ou Vierzon do impasse.

Como é Guéret ou Vierzon podem estar ligados à economia global? Existem iniciativas locais bem-sucedidas?

Muitas. Atualmente, a França periférica está a ser tratada com subsídios. Nós redistribuímos um pouco, muito, apaixonadamente, para que as pessoas possam encher os seus carrinhos de compras no supermercado. Estamos a chegar ao fim deste modelo, em parte porque o governo e as famílias estão sobre endividadas. Mas quando os eleitos locais e as empresas privadas se reúnem em torno de uma mesa para promover um projeto económico, ele tem sucesso. Estou a pensar, por exemplo, no relançamento das facas Laguiole em Aveyron.

Certo, mas uma vez que as indústrias de alta tecnologia exigem investimentos muito elevados, não se estará a condenar certos territórios a uma produção industrial à antiga?

Como demonstra o exemplo de Laguiole, a organização territorial já não pode ser pensada apenas através de uma vontade imposta de cima para baixo pelos poderes públicos. É de baixo para cima que devemos pensar nestes territórios. Em departamentos rurais como Nièvre, os funcionários eleitos exigem competência económica para iniciar projetos. Os presidentes dos conselhos departamentais conhecem perfeitamente o seu território, as empresas que funcionam e a razão do seu sucesso, a cidade onde há pobres e desempregados. São flexíveis, inventivos, pragmáticos e têm à sua disposição funcionários departamentais da área local. Mas os altos funcionários que formam a administração regional ou estatal estão a tentar retirar-lhes cada vez mais competências económicas. Embora maioritária, a França dos territórios não existe politicamente. As autoridades eleitas locais são marginalizadas dentro dos seus partidos, ao contrário das autoridades eleitas nas grandes cidades. Por conseguinte, tudo deve começar com um reequilíbrio democrático.

O terceiro texto desta série será publicado amanhã, 13/05/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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