Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte II – Imagens soltas de uma União Europeia em decomposição a partir de alguns dos seus Estados membros. 1º Texto – Itália: Notas sobre a Itália

Nota 1 – Orçamento : a Itália deve desobedecer à Europa, se ela quer manter os seus compromissos  eleitorais

(Henri Temple, Revista Causeur,  3 Setembro de 2018)

 

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O ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, Agosto 2018

O orçamento da Itália para 2019 estará em breve disponível. Se o seu novo governo quiser cumprir as suas promessas eleitorais, não poderá então  cumprir os requisitos económicos da União Europeia….


A fábrica de gás de Bruxelas (FGB, especialmente para não ser confundida com a Europa) sofre as consequências da manipulação genética que tem vindo a ser gradualmente injetada sem o consentimento das nações da Europa. Podem resumir-se em duas ideias: a abertura total, descontrolada e irresponsável das fronteiras (para mercadorias, capitais, serviços, pessoas); a submissão às finanças e às  regras orçamentais estúpidas e cancerígenas. Entre estas últimas, podemos citar:

> A proibição feita  “ao Banco Central Europeu e aos bancos centrais dos Estados-Membros […] de concederem descobertos ou qualquer outro tipo de crédito […] às administrações centrais, autoridades regionais ou locais, outras autoridades públicas, outros organismos ou empresas públicas dos Estados-Membros; é igualmente proibida a aquisição direta pelo Banco Central Europeu ou pelos bancos centrais nacionais dos seus instrumentos de dívida ” (artigo 123 do Tratado Europeu; ex-104 Maastricht).

> A regra dos 3% do défice público em relação ao PIB, que tem sido utilizada para justificar todas as reformas orçamentais e sociais (particularmente em França) durante décadas. Maquinaria para arruinar nações e enriquecer financiadores privados.

Faça o que  não pode fazer

No entanto, receoso de ter sido conduzido pelos seus antecessores governos para um impasse próximo do da Grécia há dez anos, o novo Governo italiano declarou que, entre a política de interesse geral, o interesse humano e o senso comum prometidos aos seus eleitores e as restrições impostas pela FGB, não hesitaria. Mesmo que o Ministro das Finanças, Giovanni Tria, muito liberal e pró-europeu, provavelmente a preparar a sua demissão, assegure a Bruxelas que Roma não tenciona ultrapassar os 3%.

No período que se segue às férias de Verão, prepara-se, por toda a Europa, os orçamentos de 2019: quais serão as decisões do novo Governo italiano? O Comissário Europeu para os Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, exortou Roma a fazer um “grande esforço” para o orçamento de 2019, insistindo na ideia de que era “do interesse da Itália controlar a sua dívida pública”, que representa 132% do PIB, o nível mais elevado da zona euro depois da Grécia. Os lobbies financeiros, não controlados por ninguém, reagiram negativamente: gostariam de cortar à nascença a tentativa italiana de se rebelar contra a sua tutela. As taxas de juro estão no seu nível mais elevado em quatro anos, aumentando o custo do reembolso dos empréstimos do Estado italiano. Porque o sistema está assim concebido desta forma para dominar os Estados mais frágeis… Estamos ao mais alto nível de aberração económica.

A bomba italiana

Os dirigentes dos dois partidos do governo, Matteo Salvini e Luigi Di Maio, ambos Vice-Presidentes do Conselho de Ministros, confirmaram que queriam imediatamente pôr em prática  os seus compromissos eleitorais: o “imposto fixo” (um imposto reduzido para 15% e 20%) para o primeiro; um rendimento de cidadania de €780 para o segundo. Isto torna impossível continuar sujeito aos ditames da FGB. Ou o governo faz o que diz e a zona euro explode, antes que a UE faça o mesmo; ou não faz e a Itália pode explodir, na rua. Seguida pela FGB que não poderia resistir.

O diário Corriere della Sera receia “o julgamento da agência de rating Moody’s, antes do final de Outubro, após o “veredicto da agência Fitch” que, embora mantendo o rating da dívida em BBB na noite de sexta-feira, 31 de Agosto, se declarou pessimista quanto à evolução futura, baixando a sua   “perspetiva” de “estável” para “negativa”. Como resultado, no mercado secundário onde os títulos são negociados, as taxas continuam a subir. Os bancos italianos, já frágeis devido à sua exposição à dívida soberana, estão de novo em perigo.

Itália primeiro?

Os únicos elementos que vão numa direção “optimista” são a poderosa indústria italiana (o segundo maior fabricante da Europa) que este governo pretende defender a todo o custo, nomeadamente negociando diretamente com Donald Trump sobre questões comerciais e abandonando sub-repticiamente as sanções contra a Rússia. Mas também o encerramento da porta à imigração forçada, cujo custo público ou indireto é objecto de estimativas muito contraditórias mas elevadas.

Finalmente, vale a pena citar  a dúvida expressa por La Stampa, para quem “as eleições europeias estão iminentes, nem a Liga nem o M5S teriam qualquer interesse em apresentar-se perante o eleitorado com um spread descontrolado” [diferença entre as taxas de empréstimo alemãs e italianas].

No entanto, mesmo que os reformados italianos pobres, os jovens desempregados, as mulheres assustadas pelos costumes de certos migrantes, os homens jovens e sem uma cultura de respeito pelas mulheres nas nossas sociedades, sejam sugestionáveis  à ideia do “spread”… Em todo o caso, se a crise europeia latente eclodir, será provavelmente antes do final do ano, quando o orçamento for votado. Assim, as eleições europeias…..



Nota 2 – Itália : o  « orçamento do povo » contra o orçamento da Europa. O governo italiano não tem em conta os constrangimentos da União

(Henri Temple, Revista Causeur,  29 Setembro de 2018)

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O ministro do desenvolvimento económico  Luigi Di Maio  celebra o anúncio do orçamento italiano para  2019 na varanda do Palácio  

A Itália está a desafiar a Europa. O anúncio da integração no orçamento italiano de duas medidas sociais para 2019 torna-o incompatível com os objetivos estabelecidos pela União Europeia.


Aqueles que tinham previsto que a Itália se poria de joelhos à ordem da Comissão pagarão o que lhes compete. Giuseppe Conte, Luigi Di Maio e Matteo Salvini torceram o braço do Ministro da Economia Giovanni Tria, que fixou em 1,6% a fasquia para que o défice orçamental não fosse violado. Será nominalmente de 2,4% e tudo indica que será muito mais. Saberemos na Primavera, pouco antes das eleições europeias… Porque Giovanni Tria, pessoalmente visado em editoriais e tweets inflamados, cedeu e anunciou na quarta-feira que duas medidas sociais – o “rendimento da cidadania” e a possibilidade de se poder passar à siatuação de reforma mais cedo – seriam tidas em conta no orçamento de 2019, de acordo com as exigências dos partidos da coligação governamental que as  levaram a cabo no seu programa. Até agora, a coligação que todos disseram estar condenada ao fracasso está a funcionar e, na verdade, a funcionar bem: não tem qualquer interesse político em dividir-se e desencadear um qualquer fracasso na sua agenda governamental.

E se a Europa estiver errada?

Pierre Moscovici está muito incomodado.  Ao mesmo tempo, o Comissário Europeu para os Assuntos Económicos tem de declarar que houve uma violação das regras orçamentais obrigatórias (mas ineptas), e não quer  ser aquele que tornaria a Comissão ainda mais odiada pelos italianos, ou mesmo aquele que faria explodir o barril de pólvora.  Na sexta-feira, 28 de setembro, ele pediu ao governo italiano mais uma vez para reduzir a sua dívida pública “explosiva” (a palavra infeliz é sua), reafirmando que o orçamento para 2019 estaria “fora da caixa” das regras comuns. Rapidamente acrescentou, a frio : « não  temos qualquer interesse numa crise entre a Itália e a Comissão. “EDepois,  correu o risco de teorizar para o que parece não tem nenhum dote : “Levar a cabo a retoma da economia quando se tem uma dívida muito alta, acaba por se  voltar  contra aqueles que a fazem”. Numa altura  em que os analistas económicos  descobrem com atraso os surpreendentes (para os ignorantes) resultados económicos da administração Trump….

Há, de facto, dezenas de artigos tendo como tema : “E se Trump tivesse razão ?” É claro que não é fácil para aqueles que se tranquilizam debitando manuais  escolares sobre economia ou as colunas dos semanários  do pensamento dominante. No entanto, nenhum país pode escapar impune se não defender as suas indústrias, as suas explorações agrícolas e os seus trabalhadores. O que Friedrich List chama “o princípio nacional da economia política” e a “teoria das forças produtivas”. Toda a gente fala de Ricardo (que era um especulador), e ninguém faala de List (que foi seu contemporâneo) que implementou com sucesso verdadeiras políticas económicas e industriais  (nos Estados Unidos, depois na Alemanha).

A questão agora é: e se o Conte tinha razão ?



Nota 3 – Bruxelas e Moody’s unem forças contra a Itália.  O “orçamento popular” incomoda a Comissão e a agências de notação de risco

(Henri Temple, Revista Causeur,  25 de outubro de 2018)

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Luigi Di Maio, Giuseppe Conte e Matteo Salvini, os três homens fortes do governo italiano, Roma, outubro de 2018

A Comissão Europeia e a Moody’s reagiram nos últimos dias contra as opções orçamentais da Itália. Em claro desrespeito por toda a soberania popular…

O catoblépa é um  animal lendário tão estúpido que tem fama de comer os seus pés. Tanto o mundo financeiro como o sistema de Bruxelas parecem fazer parte desta curiosa espécie animal: com alguns dias de intervalo, a agência Moody’s baixou  a notação da dívida soberana italiana e a Comissão Europeia rejeitou o orçamento de Roma.

“Os projectos do governo [italiano] não constituem uma agenda de reformas coerentes”

Na sexta-feira passada, a Moody’s baixou o rating soberano da Itália (rating da dívida de longo prazo emitida pelo governo italiano) de Baa2 para Baa3 (um nível acima da categoria “especulativa”, “podre ” ou “não investimento “). A agência de notaação de risco económico (uma empresa com fins lucrativos) relata que está a  perceber  uma deterioração nas perspectivas de défice e a paragem das “reformas estruturais”. É certo que modera a sua avaliação, anexando-lhe uma “perspectiva estável”, o que exclui, a curto prazo (em teoria, seis meses), o risco de uma nova deterioração. Mas o que acontecerá daqui a dois meses quando o orçamento for votado, provavelmente como está ?

Moody’s explicou que estava preocupado com uma possível estabilização, não com uma verdadeira  redução da dívida pública nos próximos anos. “O índice da dívida pública italiana deve se estabilizar em torno dos atuais 130% do PIB nos próximos anos, em vez de diminuir como pensava a agência Moody’s”, disse a agência, acrescentando que a dívida pública é ainda mais problemática dadas as baixas perspectivas de crescimento económico: “As medidas fiscais e económicas propostas pelo governo não constituem uma agenda de reformas coerentes que resolva os  problemas de crescimento decepcionantes. A Moody’s acrescenta que, também no curto prazo, “o estímulo  orçamental  trará ao crescimento um dinamismo mais limitado do que as estimativas do governo”. A Moody’s explica a sua decisão por “uma acentuada deterioração da solidez orçamental da Itália, com  objectivos de défice orçamental para os próximos anos superiores ao anteriormente esperado” e pelas  “consequências adversas para o crescimento a médio prazo da interrupção dos projectos estruturais de reformas económicas e orçamentais”. A Moody’s acredita que o crescimento da economia italiana (terceira maior economia  da zona euro) “deverá receber apenas um impulso temporário graças a esta política orçamental  expansionista antes de cair para uma taxa anual de cerca de 1%…”. E que “mesmo a curto prazo, o apoio orçamental proporcionará um apoio ao crescimento mais limitado do que o previsto pelo governo”.

Bruxelas pensa em Bruxelas

A Itália é classificada como BBB pelas outras duas empresas internacionais americanas, a Standard & Poor’s (S&P) e a Fitch Ratings. A S&P, cujas perspectivas são estáveis, deverá emitir a sua decisão sobre uma possível mudança em 26 de outubro. Fitch, por outro lado, baixou a  sua perspectiva de classificação para “negativo” em 31 de agosto. Outro grigri financeiro acarinhado, o spread entre as ações italianas e alemãs atingiu o seu nível mais alto em quase seis anos na sexta-feira, em mais de 338 pontos base.

Os responsáveis financeiros – e Bruxelas – falam constantemente do conceito de “reforma estrutural”. Para eles, estas são apenas as medidas orçamentais para aumentar os impostos e reduzir as despesas, incluindo o investimento público e as prestações sociais. Por conseguinte, confundem, voluntariamente ou não, a estrutura do orçamento e a estrutura  de uma economia.

Os italianos, por outro lado, escolheram uma política de recuperação global que, ao aumentar a produção e o consumo, aumenta a base tributária e deve tender mecanicamente para um orçamento equilibrado. O projecto de orçamento italiano para 2019 prevê um défice de 2,4% do produto interno bruto, longe dos 0,8% prometidos pelo governo anterior. Este projecto de orçamento inclui a introdução de um “rendimento de cidadania” para os desfavorecidos, uma redução de impostos, uma amnistia fiscal parcial para aqueles que repatriam e uma idade de passagem à  reforma mais baixa. É, de facto, uma reforma estrutural, mas económica e social, inteligente, humana e respeitadora dos compromissos eleitorais.

O Rio Moody’s volta sempre ao seu leito

Bruxelas solicitou “esclarecimentos” sobre uma “derrapagem sem precedentes na história do Pacto de Estabilidade e Crescimento”. A Comissão denuncia o “incumprimento grave” das regras europeias, o que a poderia levar a rejeitar este orçamento, uma decisão grave que nunca tinha acontecido antes. E depois ?

A opinião pública tem de resistir ao medo de assuntos que supostamente são demasiado complexos, mas que são muito fáceis de compreender, uma vez que se livrem da propaganda mediática, do pseudo-técnico blá blá blá blá, e as suas explicações.

Por fim, recordaremos, entre outras coisas, alguns elementos edificantes da história financeira: em 1931, a Moody’s esteve na origem da crise grega e, indiretamente, da chegada do general Metaxas ao poder cinco anos depois. A agência de notação de risco decidiu baixar a notação da Grécia. O resultado: taxas de juro mais elevadas, saídas de capitais e incumprimento do Estado, uma vez que a Liga das Nações recusou a sua ajuda financeira. Tam como recentemente, o povo grego não foi poupado: falências bancárias, motins e, finalmente, golpe de Estado. Melhor ainda, os bancos italianos estavam entre os mais atingidos pelo incumprimento  grego e Mussolini dai tirou o seu pretexto: o exército italiano invadiu a Grécia. Os  dirigentes  da Moody’s juraram, mas um pouco tarde, que  não os apanhariam mais  e prometeram não avaliar mais os Estados. Sabemos o que aconteceu em 2007… As “agências” foram mais uma vez acusadas de inflar a bolha e depois rebentá-la. No início de agosto de 2016, a Moody’s até fez um julgamento (!) sobre os programas de Donald Trump e Hillary Clinton:

“Enquanto o programa dos democratas criaria empregos, o de seus rivais levaria à destruição em massa e ao enfraquecimento da economia americana. »

A economia é feita para os humanos.

Sem comentários? Sim, três:

– uma boa economia real é boa para a finança; uma finança mal orientada é má para a economia.

– a economia é feita para pessoas e nações: os italianos vão lembrar-nos disso; e a finança especulativa que faz bolhas e ataca nações terá de ser pela força da lei colocada no seu  lugar.

– Bruxelas está encostada à parede. O que fará o povo italiano, com 55% unidos atrás dos seus dirigentes ? O que acontecerá em Espanha quando o orçamento do governo Sanchez, um governo minoritário, utópico e desacreditado, for votado?


O segundo texto desta série será publicado amanhã, 14/11/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota

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