UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (329)

 

O RELÓGIO DE PÉ ALTO

 

Jérémie Girod, Porto, é o nome que no mostrador branco esmaltado sempre me habituei a ver.

No pêndulo, o velho lembra-me o meu avô materno, o cão sempre pensei que era o “Berlim” do meu tio-avô Serafim, da Feira do Cô, e o bébé, era eu, claro.

 

Do relógio de pé alto, com caixa castanha “chocolate preto”, quase me não lembro de o ver em casa do meu avô. A ideia que tenho dele, nessa casa, é tão esfumada que pode ser uma invenção involuntária. Mas lembro-me muito bem dele em casa dos meus pais (antes da minha mãe ter mudado de andar, no mesmo prédio). No mesmo lugar onde hoje ainda está (regressou há dez anos), só que a casa é agora a minha.

Da sua ancestralidade, pouco sei. Pela voz da minha mãe, lembro-me de ouvir que sempre esteve na casa dos pais dela. E antes, de onde viera? Quando terá sido feito? De qualquer forma deverá ter bem mais de cem anos já que era um relógio comum nos séculos XVIII e XIX.

Vivi anos e anos a ouvir o som calmo e compassado do seu tic-tac grosso, e do bater das horas e das meias horas, sempre dadas duas vezes, num tim, tim, tim, que à custa de tanto o ouvir deixou de ser irritante, para passar, nas muitas noites de total insónia, a ser uma companhia insubstituível e desejável.

Quando entro na sala onde está e esteve durante quase toda a minha vida, e o olho com mais atenção, vejo o meu pai sentado à mesa, mesmo ao lado dele. Vejo-o sempre, com o seu meio sorriso e o olhar meigo e arrebatador. Já não lhe ouço a voz que hoje confundo com o tic-tac compassado. Quando lhe dou corda e o acerto, desvia-se cerca de um minuto por semana, vejo-me no lugar da minha mãe e trato-o ainda com mais desvelo. E por vezes uma saudade avassaladora cresce em mim.

Nunca lhe dei um nome. Nunca pensei nisso. Mas hoje bem que seria mais uma particularidade que eu lhe dava de entre as que, esta máquina que sempre me acompanhou, me demonstrou possuir. Agora que penso nisso, tento imaginar-lhe um nome, mas está a tornar-se impossível. Nenhum me parece devidamente adequado.

Fez agora sete anos, o velho relógio começou, durante três meses e quase todos os dias, a parar nas seis horas e doze ou treze minutos, inexplicavelmente. Quase sempre durante a noite. Parou pela última vez a esta hora no dia 12 de Junho, e com raras excepções poucas mais vezes parou. Cada situação, cada paragem que se repetia por mais de três ou quatro vezes, acontecia sempre a horas iguais e nunca uma série tinha alguma coisa a ver com a anterior ou a seguinte. De qualquer forma parecia querer dizer-me alguma coisa.

Dei por mim, a dada altura, a considerá-lo um ser racional que tentava comunicar comigo. Mas, felizmente, essa ideia passou-me, e eu descansei e deixei de pensar em visitar um especialista …

Para a minha irmã, a lembrança da casa dos nossos pais não faz sentido sem a omnipresença do relógio de pé alto.

Também para os meus filhos e sobrinhos o relógio tem e teve importância.

Por exemplo, para a minha filha, nas suas lembranças moram sabores; havia sempre croquetes nos almoços, e a casa dos avós sabia ao tic-tac do relógio, que ecoava no silêncio.

Para o meu filho mais novo, que só o conheceu no andar para onde a minha mãe se mudou nos últimos anos de vida, e agora em minha casa, é com a recordação do relógio, e começando pelo lugar onde ele se encontrava, junto à grande janela da sala, que consegue reconstruir as lembranças da casa que já não existe há mais de dez anos; a sala, os quartos, a cozinha e o pátio generoso com um canteiro a todo o comprimento e a roseira Santa Teresinha e os jarros e a buganvília, tudo com a marca indelével da avó.

Para todos, o relógio era uma parte importante nos almoços semanais, primeiro às Quartas-feiras, depois aos Sábados. Os primos, cinco rapazes e uma rapariga, e a avó, ansiavam por aqueles almoços que a todos marcou de uma maneira excepcionalmente saudável. O acto de dar corda ao relógio e do acertar das horas, por parte da avó, e também do ruído característico que ele fazia antes de tocar as badaladas do meio-dia, são lembranças que lhes ficaram marcadas, como me confidenciou o meu sobrinho mais velho.

Este relógio passou por muito, viveu muito, viu muito. Viu amor, carinho, sofrimento, alegria, morte, nascimentos, doenças, tristezas, fome, sacrifício, abastança, de tudo um pouco. Viu nascer a minha mãe e o meu tio, as minhas primas e o meu primo, os meus filhos, os meus sobrinhos e os meus netos. Viu morrer a minha avó e o meu avô maternos e o meu pai e a minha mãe, e soube da morte da minha irmã mais velha, da minha tia e do meu tio. Terá eventualmente vivido as angústias da peste bubónica no Porto e do cerco sanitário à cidade, a desgraça da Grande Guerra e as epidemias do tifo, da gripe pneumónica e da varíola de 1918, passou as atribulações da Depressão de 1929, sentiu a fome da segunda Guerra Mundial, viveu as crises pandémicas da tuberculose, da difteria e da tosse convulsa, sofreu com a cólera, gripe asiática, sida, SARS, gripe A, e vive agora a pandemia do Covid-19 e as dificuldades do confinamento, assistiu às dificuldades da Guerra do Ultramar e rejubilou com a Revolução de Abril. Viu, primeiro a minha mãe e depois o meu tio namorarem, casarem, e terem filhos e netos. Viu doenças e curas, empregos e falta deles, alegrias e desilusões, mais casamentos e alguns divórcios, sempre calmo e sereno, com o seu trabalhar compassado e calmante e o seu toque mais estridente se bem que também apaziguador.

Este relógio tem Alma, vive comigo, faz parte de mim.

 

Infante D. Henrique – Jardim do Infante

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9 Comments

  1. Olá Zé Magalhães. Há tempos uma pessoa amiga disse-me: Possa, pareces um velho (o que é que sou com 74 anos de idade?) sempre a contar coisas antigas. Mas são estas memórias que nos enchem a alma, que nos amaciam o coração, que nos fazem existir. Bem-haja, Zé por falar no seu relógio de pé-alto. Um forte abraço e conte-nos mais coisas.

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