Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.
Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes
Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium
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Nota de editor:
Com este texto encerra-se a parte II “A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir“ da presente série.
Dada a sua extensão editamos o texto em cinco partes, hoje a quarta.
FT
16 min de leitura
Texto 26 – Sobre a forma como estudei e como ensinei outrora face às Neurociências da Cognição de agora (4/5) (*)
Um texto autobiográfico
Coimbra, em Maio de 2026
(*) O presente texto teve a revisão da ferramenta de IA, Claude Sonnet 4.6. Depois, este texto foi revisto pelo Manuel Ramalhete a quem devo o detalhe de duas notas nele colocadas e a quem agradeço a revisão cuidada do mesmo.
(continuação)
Anexo — O testemunho do médico
Um amigo meu de muito longa data, médico e hoje na situação de aposentado, habitualmente comenta comigo muitos dos meus textos. E nestes estão já alguns dos textos mais recentes sobre ensino. Falámos dos métodos de estudo e face ao que me relatou pedi-lhe que colocasse a sua experiência em texto. Neste relato, tudo o que se disse sobre fricção do conhecimento é aqui bem exemplificado [10]. Aqui temos então o relato da sua experiência como estudante:
“Vou apenas referir algumas coisas de que te falei da minha experiência pessoal. 1.º — Como tinha de memorizar dezenas de listas de nomes para a cadeira de Anatomia, decidi aplicar algumas regras que tinha aprendido nas velhas Seleções do Readers Digest. Assim, criei quadros que colava nas paredes do quarto e obrigava-me a todos os dias lê-las sem a preocupação de as decorar. Todas as semanas voltava a escrever os quadros. À segunda ou terceira vez já os escrevia de cor. 2.º — Nesse contexto, tirei a carta de condução nas férias (em Angola) e tinha pouco tempo para as aulas de condução e muito menos para aprender o Código. Só na véspera do exame li o Código mas, para meu espanto, quando era interrogado sobre as regras de trânsito, eu limitava-me a ler pois as páginas do Código apareciam-me com toda a clareza na memória. Tive de explicar ao examinador porque me estava a rir: achava graça estar a ler e não a responder. Achou curioso e até fez outras perguntas para confirmar esta memória fotográfica. Atribuí esta capacidade que ainda se manteve muitos anos, ao facto de ter treinado o meu cérebro a fixar as listas de centenas de vasos, músculos, nervos. 3.º — Quando voltei a estudar após um interregno de cerca de 2 anos, tornei-me um bom aluno (nunca tinha sido) usando uma técnica que se resume assim: fazia questão de ir a todas as aulas, tirava apontamentos usando algumas técnicas de estenografia e, ao fim do dia, depois das aulas, escrevia a aula toda no caderno. Fazia questão de não me deitar enquanto não acabasse. Tinha sempre as melhores notas nos pontos. 4.º — Quando tinha um problema, estava num dilema, sem saber como resolver, resolvi, ainda antes de vir para a Universidade, escrever toda a situação expondo as dúvidas, analisando os prós e os contras. Parece incrível, mas, feito isto, tornava-se clara a situação e a solução surgia naturalmente. Usei durante toda a vida esta técnica que me foi muito útil para resolver muitas questões que me surgiam, sobretudo no âmbito do associativismo, no sindicato e até nas funções administrativas que desempenhei. Muitos anos mais tarde, encontrei nos muitos escritos de Mao Tse Tung uma citação em que se enquadrava esta minha experiência. Dizia mais ou menos assim: ‘Se tiveres um problema e não souberes como o resolver, faz a sua história completa. Encontrarás a solução.’ Curioso… 5.º — Ainda sobre este processo de memórias, recordo das velhas Seleções do Readers esta regra (cito de cor): se queres memorizar por muito tempo qualquer coisa, fixa-a. Passado uma hora volta a recordar e a memorizar como a queres recordar. E, não te esqueças, no dia seguinte 12 a 24 horas depois, volta a recordar e a fixar. Terás memória para mais de um ano. Desculpa Júlio o atraso na resposta e a extensão deste texto mas, não consegui ser mais sucinto e também não sabia o que verdadeiramente te interessava. Faz dele o que entenderes.” Fim de citação.
A leitura desta nota foi para mim muito comovente e aqui, neste relato, reencontramos as duas estudantes africanas, a Ana Maria Abrunhosa, a Michaela, uma estudante romena em Erasmus, o Duarte Figueira e tantos outros e, obviamente, encontro-me também eu neste relato, mas mais importante que isso, encontramos nesta nota do meu amigo médico também os pesos pesados das neurociências da cognição actuais.
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Anexo – A propósito de um encontro acidental, a propósito da crise na Europa, a propósito da crise em Portugal, a propósito da apresentação de um texto sobre uma nova bolha a rebentar em breve: algumas reflexões
Nota de editor
Este é o resumo de um texto publicado em 2015 (que por sua vez teve origem num texto do mesmo autor de Junho de 2014), em 8, 9 e 10 de Maio (ver aqui, aqui e aqui). Júlio Mota demonstra que a teoria económica valida aquilo que o encontro acidental já indicava no terreno: a persistência de uma crise social profunda mascarada por uma aparente estabilidade financeira, situação que se mantém hoje em 2026. Como diz acima Júlio Mota, “Hoje, em 2026, escrevo esta nota no contexto da série Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise, porque ao ler os textos selecionados para a série senti que esta história mais parece uma antecipação da própria série — com bem mais do que uma década de antecipação”.
FT
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Dizem-nos que a crise já passou, ali mesmo ao virar da esquina. Bravo então. Mas um problema aqui me surge, preciso de ir ao oftalmologista, porque ao virar da esquina, desta e de todas as esquinas, a crise passada, ultrapassada, a descer da escada por onde tinha escalado, é que eu não vejo. Mais ainda, o que vejo são, do ponto de vista humano, os graves e adicionais sinais da crise que começam já a ser visíveis agora. Mais simples ainda, os sinais da crise vão-se acumulando em crescendo até que isto há-de rebentar em qualquer lado e assim mesmo, a começar exactamente ao virar de uma qualquer das esquinas onde os políticos começarem a ser abatidos. E estas são as mesmas esquinas a que os mentirosos dos nossos políticos se referem agora. Veremos se estou enganado ou não e o tempo o dirá.
Um pequeno exemplo desse crescendo de sinais de que as pessoas não aguentam. Há duas semanas atrás, fechei o meu dossier Piketty. Um texto de mais de 900 páginas sobre as contradições ditas fundamentais do sistema capitalista e afinal a obra de Piketty não nos poderá fornecer o que muitos dizem que fornece, a saber, uma teoria geral do capitalismo, unificando teoria do crescimento e repartição, como o pretende o prémio Nobel, Paul Krugman. Fecho o livro que acabei de ler. Saio do café a pensar que temos obrigatoriamente de voltar aos clássicos, aos antagonismos de classes e deixar Piketty quase que de lado. Saio do café de livro lido, passo pelo PINGO DOCE, faço as compras da casa e depois, de sacos nas duas mãos, dirijo-me a pé para o local onde escrevo estes meus textos, a minha casa. No caminho paro para descansar os braços e tomo um café na Pastelaria Vénus. Uma senhora, na casa dos 55-60 anos, dirige-se a mim e pergunta-me: desculpe, posso fazer-lhe uma pergunta?
Pode. Claro que pode.
Desculpe-me com esta minha pergunta: o senhor é professor?
Sou. Há, não, não sou, já fui. Sabe, foi uma farda que vesti quase durante 40 anos. Ainda não me habituei a reconhecer que já a despi. Ou talvez não, se calhar entrou-me pela alma adentro mesmo que com essa roupagem já tirada do meu corpo. Desculpe este meu desabafo de “velho” professor. Mas porquê a sua pergunta?
Sabe, vejo-o na Vénus a ler, a sublinhar os livros, vejo-o empenhado a viver o que está a ler, vejo-o empenhado em registar o que lhe agradou ou desagradou quando escreve nas margens dos livros. Sinto-o agarrado à vida, gostava de ser eu assim, desabafou com um ar triste.
Apanhado de surpresa, convido a senhora a avançarmos uns metros para a esplanada do café Bolero, vinte metros mais à frente. Sentamo-nos. Olho-a, mulher bem vestida, mulher que já soube o que era viver bem, de rosto ainda a mostrar traços de uma grande elegância que já foi, mas que as suas marcas na cara aí registou. Quando escreve nas margens dos livros, sinto-o agarrado á vida, lembro-me do que me acabou de dizer. Ponho-lhe a minha mão sobre o braço, cuidadosa, carinhosamente. Digo-lhe então; mas o que a faz não ter âncora na vida? Não será que precisa de um qualquer outro apoio, clínico que seja?
Do que me diz, fico a saber que o marido o tempo já levou, para a eternidade ou para outras companhias mais alegres, para outros corpos mais apelativos, não fiquei a saber mais nada. Nem era relevante. Tem dois filhos, tem dois netos. Dos dois filhos, e deles vai sabendo pelo telefone, um em Angola outro dele no norte, para os lados de Trás-os-Montes, um emigrado, outro emigrante no próprio país, para um local nunca até aí pensado, depois de encerrada em Coimbra a empresa em que trabalhava. Por falência, pela crise. Tem dois netos que ouve igualmente pelo telefone. E quanto ao resto? Do resto, fico igualmente a saber, passa a vida a pensar nos problemas reais ou imaginários que os filhos e os netos têm ou que ela imagina que podem vir a ter. De noras não me falou. Possivelmente famílias outrora funcionais, mas famílias agora rasgadas, destroçadas. A crise verdadeiramente instalada em tudo o que lhe diz respeito.
Ouço-a dizer-me: precisava de ser como o senhor, que nos transmite a ideia de estar bem empenhado em lutar contra as misérias do mundo. Uma boa âncora, portanto. Gostava de ser assim, de ter coisas na vida a que me agarrar e que me fixem um sentido que os tempos de agora me levaram.
Um discurso de bom recorte. De novo, olho-a nos olhos e uma tristeza infinita parece saltar-lhe da menina dos olhos, parece espalhar-se por cima da mesa, parece ocupar os silêncios curtos que se vão criando à medida que cada um de nós pensa no que vai dizer ao outro, a seguir. E remato, parece-me que anda por aí uma certa depressão a cavalgar. Tem que tratar disso. Precisa de apoio, acho.
Sabe, ando a ser acompanhada nos HUC pela doutora X.
Pois bem, fale com ela, fale-lhe na nossa conversa, peça-lhe sugestões de leitura. Ela conhece-a, eu não, ela poderá indicar-lhe que livros pode ler. Depois, faça o seguinte: leia um livro, pegue num caderno de notas, tipo A4, faça o resumo do livro. A seguir, escreva o que pensa do livro, do que gostou e porquê, do que não gostou e porque razões. Escreva numa letra legível. Meta depois o seu texto num envelope, feche-o, coloque-lhe a data em que o escreve. Guarde esse envelope, todos os envelopes que assim fizer. Dois anos depois, volte ao que escreveu, envelope a envelope, pense no que a sua dor de então lhe ditou a escrever. Far-lhe-á bem, disso estou seguro.
Para amenizar a situação falo-lhe de Stuart Mill, um expoente da cultura britânica no século XIX, falo-lhe da sua autobiografia, da forma como ele venceu a sua depressão, lendo, escrevendo, depois discutindo sobre o que lia, sobre o que escrevia. Falo-lhe dos meus esforços estipulando livros de leitura obrigatória nas disciplinas por onde passei, ditos livros de leitura complementar porque obras de cultural geral para quem queria ser economista. Falo-lhe de uma amiga minha que sobreviveu à morte macabra do filho único, ainda muito novo a formar-.se em Direito, escrevendo, guardando na gaveta o que escrevia, tratando por essa via as suas dores, como que a bisturi, e que hoje está bem, bem firmada e com um editor que lhe vai publicando o que escreve e que não se considera arrependido dessa opção de editar esta “jovem” escritora, futuro nome, talvez, na literatura portuguesa.
Despeço-me desejo-lhe felicidades. Agradece-me com muita delicadeza o carinho com ela tido. Curioso, até nesta despedida.
Nisto, uma “gaffe” monumental da minha parte. Podia-me ter oferecido para ser o leitor de um dos tais envelopes, mais tarde. Não o fiz, por delicadeza, mas aqui reconheço, por uma delicadeza tipicamente burguesa. Se a reencontrar corrigirei a minha posição, claro está.
Uma mulher cuja dor as estatísticas não registam, cuja vida se reduz a farrapos, que a quer refazer e assim desses fragmentos quer fazer um vestido bonito, ou seja, uma outra vida, uma mulher que pela vida dos filhos e dos netos teme, vidas que a crise estragou e de que delas muito pouco até agora se registou.
Uma mulher invisível da crise, e invisíveis há pois muitos e muitas cujas reacções amanhã ninguém sabe quais serão. O pior ainda está para vir, avisava a Cruz Vermelha, a referir-se a todas as sequelas que iriam aparecer e a adicionar-se aos estragos já feitos e não tratados, não reparados. Esta mulher, a sua história, fazem parte do exército de invisíveis para serem abatidos pelo sistema. Será que estes invisíveis o vão consentir? Será que nós, todos nós, o vamos permitir? Ou será que todos em conjunto faremos as coisas eclodir para esse massacre impedir?
Deixo a senhora, cujo nome não sei e vou para casa. Pensando com os meus botões, de repente, relembro-me de um texto da Cruz Vermelha Internacional onde se dizia:
“Quando as pessoas pedem ajuda, é muitas vezes como um último recurso. Elas estão a pedir comida ou medicamentos ou dinheiro para pagar os serviços públicos ou o aluguer de casa para não serem despejadas das suas casas. Milhões são afectadas pela pior crise desde há seis décadas; uma crise que tem visto as pessoas estarem a perder os seus empregos e as casas, e isto quando elas nunca tenham imaginado que alguma vez uma tal situação lhes poderia acontecer; uma crise que fez com que os pobres fiquem ainda mais pobres. ‘Crise’ era suposto significar dificuldades temporárias, um solavanco na estrada da vida e que iria, em breve, passar. Quem teria imaginado que isso duraria tanto tempo e que iria afectar tantas pessoas e em tão grande profundidade? Actualmente existem mais de 18 milhões de pessoas que receberam ajuda alimentar financiada pela UE, 43 milhões que não recebem o suficiente para comer todos os dias e 120 milhões em risco de pobreza no conjunto dos países abrangidos pelo Eurostat. E enquanto isso, ainda esperamos que a crise vá acabar em breve, quando para muitos a crise apenas começou. Ou está ainda prestes a começar.” Dito ainda de uma outra maneira, ainda no mesmo relatório diz-se que “o pior está ainda para vir”.
Por confronto a esta mulher cujo nome continuo a ignorar, perdida na vida e à procura da mesma, relembro a minha marechala que encontrei um dia pelas ruas de Faro à procura do caminho para ir apanhar a camioneta para Albufeira e sobre a qual escrevi uma crónica de Faro sobre as Marias do mundo, sobre uma emigrante russa de há muitos anos que queria saber onde apanhar a camioneta para ir para Albufeira. Mas esta Maria, queimada pela vida desde há muitos anos, queimada pelos sistemas em que acreditou e que ruíram, mandou depois os seus netos e a filha para a Rússia, para aí conquistarem o direito a um futuro por uma formação condigna, técnica, obtida nas escolas e nas Universidades onde se ensina, esta Maria fazia-se ressaltar pela força de vida que dela emanava, enquanto esta mulher, aqui em Coimbra, é a dor e a impotência em movimento lento como resultado de uma crise que os netos lhe levou, é a curvatura na linha de ombros que com isso a marcou. Relembro a minha marechala de blusa branca, bordada, muito direita, a fazer-me lembrar a minha mãe, na aldeia de Fratel a vender queijos ao domingo, de cestos de queijos à cabeça e de blusa relativamente semelhante, relembro-a também na força quase que bruta que mostrava perante a adversidade. Relembro o que então escrevi:
“Fixei-me na segurança daquela mulher, a Marechala. Fico-me com a certeza de que ninguém lhe fará mal, na boleia que pode ser pedida ou que lhe pode ser oferecida, fico-me com a certeza de que ninguém será mesmo capaz de lhe fazer mal, mesmo que queira, tal é a vida, tal é a força que se respira nos seus movimentos, nas suas palavras.
Mas a Maria, a da Rússia, a emigrante a residir em Albufeira ignora a crise ocidental, os mecanismos que a produzem e que tudo arrasam e hoje não sei se terá emprego, em Albufeira ou algures, se não lhe terão cortado nas remunerações, se o dinheiro a enviar passou a não ser suficiente para formar os seus netos, jovens do futuro, se tudo se lhe tornou ou não ainda mais precário.”
De novo assaltam-me as lembranças. E relembro o relatório já citado da Cruz Vermelha onde se afirma:
“Levará décadas a aparecerem à superfície, a tornarem-se visíveis, as consequências a longo prazo desta crise. Este relatório mostra que os problemas provocados serão sentidos durante décadas mesmo se a economia mudar de rumo para melhor num futuro próximo.”
Pois bem, esta mulher que gostaria de ser como eu, foi o que disse, e cujo nome não conheço faz parte já desses efeitos invisíveis, não registados em nenhuma das estatísticas de Eurostat. Esperemos que se levante como o fez a nossa marechala citada. Esperemos, mas a capacidade anímica não é claramente a mesma.
Largos meses passados depois de ter publicado uma crónica sobre este encontro [n.ed. em Junho 2014], eis que me cruzo com esta mulher de 55-60 anos de ar elegante a ir para o Pingo Doce, quando eu tinha acabado de vir de lá. Cruzo-me com ela, olho-a, olha-me, sinto que a conheço e pergunto: desculpa, não foi consigo que em tempos falei sobre livros a ler? Um sorriso enorme se lhe estampou no rosto que pareceu mesmo iluminado pela luz de um muito bom fotógrafo em pleno dia e a resposta dela foi curta: foi sim senhor.
Não quer vir até à pastelaria Vénus beber um café, perguntei.
Sim, aceito, ouço-a dizer.
Chegámos à Vénus, fomos para o meu local habitual, uma mesa ao fundo da segunda sala, junto ao vidro para a rua. Pediu um café e eu pedi um café e uma garrafa de água sem gás e fresca. O nosso pedido foi prontamente satisfeito. Propôs-se pagar. Recusei, dizendo-lhe que era minha convidada, pois que a ideia era minha. Uma pequena discussão à volta de quem pagaria e ganhei eu. Paguei.
Retomei o assunto onde meses antes o tinha deixado, sobre as leituras dos livros. Pede-me para repetir a sugestão e aproveito para desenvolver melhor o meu ponto de vista. E este era muito simples. Sugeri-lhe ainda que por cada livro que lesse, que procurasse então na sua vida pessoal e na das suas amigas, algumas relações, comparações ou oposições, às histórias que teria, por hipótese, lido. Depois que escrevesse tudo isso. Mais tarde que revesse tudo isso, como lhe tinha indicado, que reflectisse em tudo. E acrescentei o que para era fundamental: se quiser, posso ser para um ou dois livros um seu leitor, leitor do que escreve, do que relaciona, do que critica, do que pensa, enfim.
Senti que uma certa cumplicidade se tinha instalado naquela mesa do café entre duas pessoas, eu, um homem já bem na curva da terceira idade, e ela, alguém que nem estava a começava a dar os seus primeiros passos nesta mesma curva. Riu-se da minha proposta, um riso de alegria, de cumplicidade e de ternura igualmente e o carinho projectado naquela cara era tanto que a minha companhia mais parecia uma adolescente tímida como tudo, meio engasgada, meio atrapalhada, a dizer-me, Oh, não, sentia-me envergonhada. Tanta vergonha como se me estivesse a despir na primeira noite de casamento. Um outro despir é certo, mas seria sempre um despir. Senti a mão dela na minha e ouço-a dizer-me: desculpe, mas não imagina como lhe fico agradecida pela sua disponibilidade.
Nada disto me tinha passado pela cabeça, disse. Deixei a mão dela passear-se sobre a minha e pediu-me, com uma voz que mais parecia vir do fundo da alma: pode-me repetir a sequência de leitura e de escrita?
Tem papel, tem caneta, perguntei.
Tenho.
Pega numa esferográfica de boa marca, uma Cross penso, e numa agenda-bloco de notas.
Começo a dizer-lhe a sequência do que lhe tinha dito, vejo-a escrever muito devagar, vejo-a forçar a pressão dos dedos na parte inferior da esferográfica, como se esta lhe estivesse a fugir, vejo-lhe, de repente, a caneta ficar suspensa no ar. Olho-a, os músculos da sua face tensos, um olhar de querer ver o mundo, de o agarrar, de nele se embrulhar, mas ao mesmo tempo com uma enorme vontade de fugir daquilo tudo, daquela escrita que não se escrevia, daquelas letras que se não liam. Assustada, como que paralisada por um raio que destrói tudo à sua frente, assustada então, vejo-lhe os olhos espantados, mas de quem quer calar a dor que lhe vai na alma, de quem quer bloquear as lágrimas que dos olhos lhe querem saltar.
Bolas, pensei eu, ao ouvir o que ouvia, ao ver o que nunca imaginaria. Senti-me eu próprio de músculos tensos a pensar que história é esta, talvez até a sentir-me gozado, por um mundo de escrita falado com quem parece não saber escrever. Senti-me como fulminado pelo significado do que via, senti-me igualmente de olhos esbugalhados, senti-me cheio de raiva fortemente contida e disse para mim mesmo: calma, tem calma, há por aqui um engano qualquer. Não, não pode ser, não pode ser que não saiba ler, que não saiba escrever. Não falaria como fala, se assim fosse. Está em pânico, mas porquê? Ainda penso, está em pânico por medo, por medo de rasgar o seu passado, colocando-o à luz do que é hoje, medo de rasgar a sua intimidade e das pessoas mais próximas, medo de se poder expor a alguém que não conhece, medo de que a esferográfica toque o papel. Vejo-lhe esse medo na forma como os dedos apertam a parte de baixo da Cross, como a mão se recusa a descer ao papel e fica a tremer no ar, a tremer muito. Que sensação terrível, meu Deus, é o que sinto.
Desculpe, não consigo escrever, a pensar talvez no que eu poderia estar a sentir, diz-me ela, interrompendo as minhas congeminações à volta do que estava a ver, com as suas palavras a recusarem-se em poderem ser ouvidas por ninguém, nem por mim que ternamente lhe queria beber os ténues sons que dos seus lábios saiam, tão baixos eram os sons por ela pronunciados.
Tenho razão no que estava a pensar, digo a mim mesmo. Fico menos tenso, o olhar meio perdido a olhar para ela, mas sem a ver, e a seguir ponho a minha mão em cima da dela, fazendo-lhe uma festa lentamente. Sinto que ficamos ambos mais calmos. Assumo a minha postura normal de quem queria perceber alguém que estava à minha frente e extremamente fragilizada. Tinha que ter cuidado se queria ser útil. A mão que não está sobre a dela, estendo-lha e digo: dê-me a caneta e a agenda, por favor. Recebo a agenda e a caneta. Procuro um espaço para escrever e enquanto o faço vou observando a caligrafia no que está escrito. Uma letra de forma regular, bem feita, notando-se aqui e ali uma nervura nas letras, uns cortes na fluidez das letras, como se paragens a meio das palavras tivesse havido por hesitações sentidas. Sabe pensar, sabe escrever, sabe ler, afinal. E escrevi devagar, muito devagar, a sequência do que ela deveria fazer, numa letra da quarta classe completamente legível. E li-lha devagar, com alguma insegurança, pois pisava agora um terreno que desconhecia totalmente.
Senti-me com essa escrita transportado para outro tempo, para o tempo da infância, o tempo das cumplicidades íntimas, o tempo das aprendizagens da timidez e das incapacidades nossas e dos outros, o tempo das cumplicidades de adolescentes sem maldade. Quando acabei de escrever na agenda que ela, em princípio, irá muitas vezes ler, ouço-a dizer-me lenta, muito lentamente, dando a cada palavra a espessura da dor que a sustentava e o tom da esperança que a alimentava: hei-de conseguir escrever e quando o conseguir quero que seja o meu primeiro leitor. Aceita?
Não se encherá então de vergonha, questiono eu, alegre que nem uma criança da escola primária, como quem ganhei uma disputa com um seu colega mais velho, nem que fosse ao jogo do pião ou do pincho
Sorriu-se, levantou-se e pergunta se fico. Fico, foi a minha resposta. Inesperadamente agarrou-me nas duas mãos, curva-se um pouco e diz-me, com uma ternura que nunca mais hei-de esquecer: até um dia destes. Hei-de vir procurá-lo aqui. Do fundo da minha alma, obrigado por tudo.
Sai. Vejo-a sair da Vénus, agora uma mulher bem direita, peito para a frente como não a tinha visto até ali. Direita, a lembrar a minha marechala acima citada, nas ruas de Faro de blusa branca vestida, a lembrar a minha mãe aos Domingos de blusa de xita às cores vestida e de cesta à cabeça pelas ruas de Fratel a vender queijos, vejo-a agora a levantar-se e assumir um passo seguro, de certeza com a certeza muito íntima de que voltará a ser capaz de escrever, de que irá escrever, com a certeza de que voltará a ter âncora na vida, com a certeza de que matará o vazio que até ali a consumia. E com a certeza de que voltaria alegremente a sorrir, a sorrir para o marido, se este ainda está vivo, para os filhos para os netos, para todos nós.
Estranha história dir-me-ão. Poderá ser estranha, mas foi a pura verdade do que não inventei. Porém, por falarmos em coisas estranhas, não será mais estranho que a primeira versão deste texto tenha sido redigida em Junho de 2014 e que tudo o que aí se diz sobre a crise possa ser assumido como uma citação de ontem, final de Abril de 2015? A crise já passou? A crise já pertence à história e história são as águas passadas, diz-nos ainda agora, em 2015, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy.
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Vejo a minha amiga sair do café-pastelaria Vénus, direita como tudo, de ombros alinhados com as costas e já não caídos para a frente, sinto-a nessa postura a pensar, talvez, que a sua crise existencial há-de vencer. Assim o espero, assim o desejo, mas não se pode ignorar que a crise a ultrapassa e que vai ser na sua luta diária por alcançar a qualidade de vida que a crise lhe roubou, um verdadeiro travão. Mas fico com a ideia que a alimenta uma certeza: a de que há-de vencer.
E é tudo, sobre este encontro acidental.
Júlio Marques Mota, em Maio de 2015
Textos de referência
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- Cruz Vermelha Internacional, Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa, publicado em A viagem dos Argonautas
- Júlio Marques Mota, Pequena Crónica sobre Faro-nº4, A Crise na vida das “Marias” do Mundo, publicado em A viagem dos argonautas.
(continua)
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Nota
[10] Por fricção do conhecimento ou do saber diremos, neste contexto, que em termos individuais esta representa o esforço desenvolvido para ultrapassar as dificuldades encontradas na sua aquisição de conhecimentos próprias do grau académico que se quer obter.


