UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (40)

carta-do-porto

O FAROL DAS TRÊS ORELHAS

Regresso a Lordelo e à Foz. Os meus passeios são assim, cada vez mais temáticos.
É desta vez que vou ao Parque da Pasteleira, digo de mim para mim. Quero fotografar aquele belo jardim.
Falo muito comigo, o que é um defeito enorme se estivermos acompanhados, mas que me acalma e distrai. Às vezes, as discussões são de tal modo violentas que dou por mim a falar alto, verbalizando o que me vai cá dentro. Uma vergonha, digamos!
Ia eu pela rua do Passeio Alegre, a caminho da ANJE (mais à frente explicarei o porquê desta minha ida até lá), admirando o rio e a obra, que em finais do século passado se fez nessa zona e em parte da rua de Sobreiras, quando me perdi nas minhas conversas.

Este arranjo urbanístico, (efectuado durante a Presidência do Dr Ricardo Fonseca – 1996/2008 – à frente da APDL) com base num projecto da APDL, suportado por estudos da FEP e do Prof. Veloso Gomes, modificou por completo a frente ribeirinha, do Jardim do Cálem até ao do Passeio Alegre (a autoria do jardim é da Arquitecta Marisa Lavrador, e os equipamentos construídos para restauração são da autoria do Arquitecto Teixeira de Sousa),

Não me lembrava bem do ano da inauguração desse arranjo, 1997/1998 (?), nem do da construção do abrigo dos pescadores, em plena Cantareira (2005 ?), da autoria do arquitecto Rui Mealha.
Realmente a minha memória já não é o que era.

Obras na rua das Sobreiras e na rua do Passeio Alegre (1997) foto internet

Obras na rua das Sobreiras e na rua do Passeio Alegre (1997)
foto internet

Cantareira + Jardim conquistado ao rio Douro

Cantareira + Jardim conquistado ao rio Douro

Ainda me lembro, no entanto, de como era a rua do Passeio Alegre.

Nada da largueza dos dias de hoje. Quase todo o espaço que agora é um lindíssimo local de lazer e balcão privilegiado para se observar o rio, a Cantareira e, lá ao longe, o mar, que está ajardinado e com dois restaurantes que se confundem com a paisagem, foi roubado ao rio, para protecção das gentes daquela zona, que, ciclicamente, viam as suas casas serem inundadas pelas águas salobras da foz do rio Douro. Em dias de tempestade, de marés vivas ou simplesmente por causa de uma qualquer má disposição do mar, este entrava rio dentro, galgava a margem, e só parava dentro das casas da beira rio, da rua do Passeio Alegre e da rua das Sobreiras. Os habitantes, cuidadosos, mas que pouco mais podiam fazer, tinham placas de madeira que se seguravam em calhas verticais, nas portas, para assim impedirem a entrada à maior parte da água e conseguirem minimizar os estragos que a intempérie provocava.
Em bom tempo se fez a obra que hoje vemos. Os maus tempos já lá vão e quase já ninguém se lembra de como era.
Antes de passar na rua do Passeio Alegre, tinha estado nos Pilotos, junto ao Marégrafo, a apreciar a beleza da paisagem, rio acima. Parado junto ao Farolim da Cantareira, coisa que já não fazia há bastantes anos, lembrei-me de olhar em direcção ao Farolim Medieval das Sobreiras. Não o consegui ver. Será que estaria a olhar para o sítio certo? Os prédios que entretanto se construíram na escarpa tê-lo-iam tapado?

Este é o Farolim da Cantareira, e lá em cima, junto às torres, deveria estar o das Sobreiras.  À direita, o Farolim de São Miguel o Anjo (em obras de restauro)

Este é o Farolim da Cantareira, e lá em cima, junto às torres, deveria estar o das Sobreiras.
À direita, o Farolim de São Miguel o Anjo (em obras de restauro)

Fui ter com os pescadores da Cantareira que se atarefavam com os seus trabalhos. Informaram-me que desde há cerca de oito anos que já lá não estava. Teria sido retirado por não ter uso. Curioso, fui tentar informar-me melhor, indo até ao local onde ele deveria estar mas já não estava.
Essa decisão provocou que não fosse ainda desta vez que eu acabasse por ir até ao Parque da Pasteleira.
Falemos então de uma coisita (coisita, porque um qualquer personagem eventualmente importante, um dia, entendeu que esse “monumento histórico” – um dos muitos que o Porto tem – poderia sair do seu sítio sem que alguém se importasse ou desse disso conta) que desapareceu do seu lugar, e apareceu, parte dele, a mais de uma légua de distância, perdida e desenquadrada, e por isso desinteressante e insignificante, e, para além disso, só possível de ver às quartas-feiras.
E essa coisita é Farolim das Sobreiras.

Foto (internet) do Farolim das Três Orelhas, como era antes do o destruirem. Por trás do farolim, vê-se o muro de alvenaria de granito

Foto (internet) do Farolim das Três Orelhas, como era antes do o destruirem. Por trás do farolim, vê-se o muro de alvenaria de granito

O Farolim das Sobreiras ficava, até 2006, na freguesia de Lordelo do Ouro, no local onde hoje se situa a ANJE (Associação Nacional dos Jovens Empresários), num edifício chamado Casa do Farol (muito embora ele lá não esteja). Também conhecido por Farol Medieval, Farol dos Três Bicos ou Farol das Três Orelhas, era um farol que se localizava na encosta das Sobreiras, sobranceiro ao mar e ao rio Douro, e que se supõe que tenha sido construído no século XVIII. Era o farolim posterior do enfiamento da entrada da Barra do Rio Douro. Estava implantado a uma altitude de trinta e três metros e o seu alcance luminoso era de nove milhas náuticas. Tinha seis metros de altura e encontrava-se a cerca de 550 metros do Farolim da Cantareira. As designações de Farol das Três Orelhas ou Farol dos Três Bicos deve-se à configuração da primitiva marca que lhe estava por detrás, um muro de alvenaria de granito, rematado por três ameias. Em 2006, por ter sido extinta a sua luz, por desnecessária, devido à nova configuração da entrada da barra do Douro, após a construção dos novos molhes Norte e Sul, a coluna e lanterna foram transferidas para o recinto exterior do Farol de Leça (vá-se lá saber porquê), onde se encontram em exposição (só é permitida a visita às quartas-feiras no começo da tarde das 14h às 17h). Essa exposição, contudo, não permite saber, a quem o visitar, qual a sua origem, para que servia ou quando foi a sua construção. Não existe uma única placa informativa que nos dê qualquer informação, seja ela qual for. O Farolim está ali, como poderia estar no seu lugar de origem, ou noutro qualquer local, sem se saber o porquê ou para quê, abandonado e votado ao esquecimento histórico. Bem que poderia voltar ao seu lugar de sempre, já que há por lá espaço de sobra para a sua exposição.

FAROLIM DAS SOBREIRAS, junto ao Farol da Boa Nova (Leça da Palmeira), sem qualquer indicação do seu nome ou da sua origem

FAROLIM DAS SOBREIRAS, junto ao Farol da Boa Nova (Leça da Palmeira), sem qualquer indicação do seu nome ou da sua origem

Farolim das Sobreiras, esquecido e sem nome, em Leça da Palmeira

Farolim das Sobreiras, esquecido e sem nome, em Leça da Palmeira

Mas as desventuras do Farolim começaram antes de 2006. Em 1993, e por causa da construção do edifício sede da ANJE, e com a autorização da Direcção-Geral da Marinha, que apenas obrigou a manter rigorosamente a orientação pré-existente de entrada da Barra do Douro e o ângulo vertical formado pelos farolins da Cantareira e das Sobreiras, deslocaram-no cerca de 15 metros. Tal não teria muita importância se, nessa altura, não tivessem destruído a torre de alvenaria que estava por trás (que originara o nome de três bicos ou três orelhas), substituindo-a por uma parede de betão apoiada numa estrutura de metal (modernices de algum iluminado). Esse muro estava desligado do chão e foi pintado com cinco barras, duas brancas e três vermelhas. As pedras da torre, antigas, de quase trezentos anos, teriam sido desmontadas e guardadas numa pilha, num qualquer terreno do centro da cidade, e após algum tempo, desapareceram misteriosamente. Quem sabe, não estarão, agora, a fazer parte de alguma, ou algumas, casas de férias de importantes e abonados cidadãos da nossa praça. O que é verdade é que ninguém sabe de nada, não ouviram seja o que for, e quem poderia saber não está disponível, ou sequer presente, de momento, seja lá qual for o momento que escolhamos.

Era aqui, neste espaço cimentado, onde ainda se notam os sítios dos apoios, que o Farolim estava colocado. Bem que poderia voltar para o seu lugar!

Era aqui, neste espaço cimentado, onde ainda se notam os sítios dos apoios, que o Farolim estava colocado. Bem que poderia voltar para o seu lugar!

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Em meados do século vinte, este local, Pasteleira, onde sobressaía o farolim, que se estendia até onde, hoje, é a Parque da Pasteleira, e mais para Norte onde ficavam os pinhais da Foz, era um descampado. Nele, no verão, as pessoas do Porto (ainda hoje os mais velhos habitantes de Lordelo e da Foz, dizem que “vão ao Porto” quando se deslocam ao centro da cidade) e outras de fora da cidade, sem posses para alugar casas de veraneio, faziam campismo, selvagem, claro, como hoje se diz, já que por lá não existia qualquer parque de campismo. Estavam próximas da praia e do rio, e tinham uma “vista” deslumbrante. Depois, aos poucos, os bairros, as torres, e mais tarde as casas de gente fina e mais rica, tomaram conta do local, acabando com a pacatez que lhe estava associada.

Como atrás referi, e porque a conversa já vai longa, as palavras e os pensamentos são como as cerejas, ainda não é desta vez que falo do Parque da Pasteleira.
Para a próxima, talvez.

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

5 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (40) | joanvergall

  2. U m recordar cheio de afecto -obrigada pela partilha -Maria

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  3. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (84) | A Viagem dos Argonautas

  4. Maria Macedo

    Ainda bem que alguém conhece a sua cidade… sendo o José um homem de iniciativas. zeloso e amante do Porto, porque não liderar o desafio “Trazer o Farolim de Sobreiras de volta a casa…” Quem sabe…

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    • Na verdade, Maria Macedo, fiz já uma tentativa, muito ténue, nesse sentido, mas não tive qualquer resposta das pessoas contactadas. O interesse em que isso possa acontecer, parece ser nulo.
      Muito obrigado pela sua lembrança.

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