Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*). 2.3 – 5ª parte – Alguns comentários finais sobre a peça de Aristófanes. Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

 

pluto POR ARISTÓFANES

2.3 – 5ª parte – Alguns comentários finais sobre a peça de Aristófanes.

 

 

 

E assim um conjunto de escroques, de vigaristas, de ambiciosos, de ricos sem história, de vendidos como Hermes ou como o padre de Zeus, de novos-ricos sem história e sem cultura, de gente gananciosa, leva à entronização do rei Pluto, estabelecendo uma reconfiguração dos centros de poder que levou à confiscação da Democracia na base de que o dinheiro é agora a medida de todos os valores.

Como arma central da estratégia utilizada, uma pequena alteração do plano inicial que levou Pluto de novo à Acrópole: criaram-se duas novas deusas, sempre mal vestidas e de aspeto muito pobre como Pénia a que deram o nome de Dívida Privada, Dívida Pública que servem de apoio a uma Pénia renovada, chamada Pénia II mais conhecida por Troika. Não foi a posse de dinheiro que passou a ser coisa fácil como seria com Pluto imediatamente depois de ter recuperado a visão, foi sim o endividamento que passou a ser coisa fácil. Para comprar muito não era necessário ganhar muito, não era necessário dispor de muito dinheiro, bastava endividar-se muito e esta possibilidade de endividamento estava disponível a quase toda a gente.

Neste mundo ao contrário, os juros passaram a ser negativos, os aforradores de Pénia II passaram a ser obrigados a pagar aos bancos para lhes guardarem as suas magras poupanças. E as dívidas públicas e privadas assumiram então valores que claramente não são liquidáveis.

Neste mundo ao contrário, o Banco Central, o novo Pluto, o de agora, passou a mandar helicópteros carregados de dinheiro eletrónico para distribuir pelos bancos. Deste ponto de vista, o BCE é mais cego que o Pluto de Aristófanes, uma vez que este último favorecia gente boa e gente má, dado que não via, embora tendo a consciência que favorecia basicamente gente má porque a gente de princípios dificilmente a encontrava. O BCE é ainda mais cego que o Pluto de Aristófanes, porque o que faz, fá-lo por opção, e o que faz por opção é apoiar a alta finança, não hesitando em sacrificar os Estados soberanos, impondo-lhes como condição prévia a condicionalidade do que podemos chamar o programa da deusa Pénia II, entidade que em termos públicos é mais conhecida como a Troika.

Repare-se, que o BCE fornece milhões de milhões aos bancos, nunca aos consumidores, e isto ao mesmo tempo que se propaga, em extensão e em profundidade, uma situação de generalização de uma forte pobreza hoje. Ora, esta dimensão da pobreza é equivalente direta da mendicidade que a Pénia de outrora se recusava a gerar, mas que a Troika multiplica “generosamente“ por todos os países em extrema dificuldade. Mas a Pénia de agora, a dita Troika, não tem os mesmos escrúpulos da Pénia do tempo de Pluto. A de agora, está ao serviço de deuses bem mais determinados, bem mais sanguinários, bem mais frios. Exemplo disso, veja-se o caso aqui apresentado sobre a Grécia, exemplo disso, veja-se igualmente a inquirição de Lloyd Blankfein no Senado americano. Aqui, o programa da Troika é o de levar as condições de existência de todos os que trabalham por conta de outrem e na escala dos rendimentos médios para baixo até ao limite do insuportável, não se perdendo com questões de ordem moral quanto à mendicidade. Imperativo da nova deusa da Pobreza: captar rendimentos salariais, reduzir a despesa pública e aumentar os impostos de modo a fazer o pagamento das dívidas outrora privadas e que os estados passaram a tomar como públicas. Dispõe de auxiliares potentes, os criadores de números, os manipuladores de símbolos, entre os quais muitos economistas dispostos a esquecer tudo o que aprenderam para inventarem no papel um crescimento económico sustentado na pobreza, ou um crescimento sustentado pelas exportações quanto todos os concorrentes estão a fazer exatamente o mesmo: políticas deflacionistas. Ou então enganarem-se, e de uma tal dimensão, com os multiplicadores que nem um aprendiz de economia o poderia logicamente fazer num exame do primeiro ano de economia!

Deste comportamento assassino às ordens dos novos Plutos, Hermes e quejandos, veja-se o que se passou num domínio sob a alçada da sua gestão, a Grécia:

O centro médico solidário metropolitano de Ellinikón, perto de Atenas, foi distinguido pelo Parlamento Europeu com o Prémio “Premier Citoyen” e recusou, em outubro de 2015, receber o referido prémio. Porquê?

O Parlamento Europeu decidiu atribuir ao Centro Solidário de Ellinikón, o “Prémio do Cidadão europeu” para 2015, em reconhecimento da luta que efetuamos desde há quase 4 anos por uma sociedade mais justa para os desempregados e aqueles sem cobertura da Segurança Social, que foram abandonados pelo Estado grego durante a crise grega. Esta luta é pelos 3 milhões de pessoas na Grécia sem Segurança Social, sem emprego, e que estão na mais imensa pobreza, em resultado, precisamente, das políticas de austeridade impostas pelo Fundo monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e pela União europeia (UE).

A Europa para nós, como para a maior parte dos Gregos, é a nossa casa. Uma casa cheia de povos com compreensão mútua e solidários. Esta é a Europa em que acreditamos e que desejamos. Mas é com tristeza e pesar que nos deparamos com uma Europa perdida na engrenagem da burocracia e dos interesses dos bancos. Para nosso desespero vemos que a prioridade número um da Europa é a de encontrar milhares de milhões de euros para os bancos privados enquanto, ao mesmo tempo, exerce pressões de modo que a ser imposta a redução das despesas do sistema nacional de saúde na Grécia, que já vai em mais de 50% relativamente ao orçamento de 2009.

De acordo com os dados do Instituto Prolepsis, o empobrecimento massivo de uma grande parte do povo grego já conduziu a uma tragédia: 6 de cada 10 alunos em 64 escolas de Atenas encontram-se numa situação de urgente necessidade alimentar; 61% dos alunos das mesmas escolas, têm um familiar desempregado, enquanto para 17% das famílias, nenhum familiar tem emprego; 11% das crianças não têm cobertura da Segurança Social, e 7% de entre elas, viveram sem eletricidade durante uma semana durante o ano 2014, e para 3% das crianças, vivem sem eletricidade; 406 escolas em toda a Grécia receberam ajuda financeira em 2014 para alimentar 61.876 alunos; 1.053 escolas solicitaram este ano esta ajuda, a fim de beneficiar do programa “Alimentação”, e assim poderem alimentar os seus 152.397 alunos. Até hoje, apenas 15.520 alunos beneficiam deste programa; 42.727 questionários foram respondidos pelos pais em 23 distritos do país e deles decorre que 54% das famílias necessitam de ajuda alimentar, 21% de entre elas, simplesmente defrontam-se com a situação de fome. De acordo com um estudo do Serviço do Orçamento do Estado do Parlamento, 3,8 milhões de Gregos têm rendimentos próximos do limiar de pobreza (432 euros por mês e por pessoa) enquanto 2,5 milhões de Gregos vivem abaixo do limiar de pobreza (233 euros por mês e por pessoa, o que significa uma situação de extrema pobreza). Em suma, 58% da população grega, quer dizer, cerca de 6,3 milhões de pessoas vivem na proximidade ou abaixo do limiar de pobreza.

Esta Europa que nos quer atribuir este prémio, não parece demasiadamente preocupada com toda esta situação, nem com os milhares de mortes dos nossos concidadãos excluídos do sistema de proteção social, número este de falecimentos que brevemente poderão sofrer um efeito de bola de neve, uma vez que novos cortes orçamentais estão a caminho, em resultado do memorando III assinado pelo governo, que impõe reduções suplementares para o Sistema de Saúde de 933 milhões de euros.

Seria absolutamente hipócrita da nossa parte receber este prémio quando esta Europa fecha os olhos aos lactentes que sofrem de desnutrição, aos doentes de cancro sem proteção social que acabam por morrer, às histórias de famílias famintas, às pessoas que vivem sem comida, sem água, sem eletricidade, por mais um ano.

A palavra do nosso representante e co-fundador, o médico Yórgos Vichas, é clara: “os milhares de doentes não cobertos pela Segurança Social, os mortos e os vivos, estão no meio de nós, e olham-nos nos olhos. E o seu olhar, que se mantém sobre nós, não permite que aceitemos este prémio”.

Não viramos as costas à Europa, nem aos povos europeus que connosco têm sido solidários de uma forma impressionante. Sentimo-nos compelidos a virar as costas às instituições e aos seus políticos, que tratam as pessoas como se fossem números de dossiers de contabilidade, nomeadamente o Parlamento Europeu. Esta maneira de ver e de agir é uma vergonha para a civilização europeia e tem de parar imediatamente. Quando isso acontecer ficaremos muito contentes por receber este prémio“. (ver aqui)

“Salvo que para os médicos e para os voluntários do Centro Solidário de Ellinikón, o dia de amanhã … é já a morte conjugada no presente.”

 

Neste mundo ao contrário injetam-se diariamente milhões de euros ou dólares no mercado de capitais ao mesmo tempo que se impõe austeridade pública em termos das necessidades do presente e dos investimentos do futuro das respetivas populações. O exemplo citado não deixa dúvidas a ninguém. Que se encerrem centros clínicos por não haver recursos locais, que se coloque gente em fase terminal a morrer nas ruas, que se encerre na Grécia o único centro terapêutico destinado ao tratamento de crianças com cancro que existe no país, nada disso tem importância, e até porque nesta ótica reduz-se o número dos mendigos que podem sair caros aos senhores do dinheiro, de acordo com a Troika.

E, entretanto, a finança exige mais meios para aumentar os níveis de endividamento permitidos, e este é o tema da série de textos que iremos editar. Para o conseguirem vão musculando os sucessivos governos que controlam as instituições internacionais, ao mesmo tempo que vão reforçando os mecanismos de austeridade, sob o comando de uma nova trindade: a deusa da dívida privada, a deusa da dívida pública e a deusa da pobreza, a Troika.

Para se ter uma ideia do novo quadro de valores imputáveis aos novos Pluto vejamos declarações de três deles:

1. Lloyd Blankfein

Quando o entrevistador perguntou a Blankfein se as compensações remuneratórias para o pessoal devem ser limitadas, este respondeu? “É possível fazer muito dinheiro… ter muita ambição… muito sucesso? Como guardião dos interesses dos acionistas e, a propósito, no sentido de contribuírem para se alcançarem os objetivos da sociedade, eu gostaria de continuar a fazer o que estão a fazer. Não quero pôr um limite nas suas ambições. É difícil para mim defender um limite nas suas remunerações“.

2. A posição de Charles Munger

Charles Munger, vice-presidente da Berkshire Hathaway Inc., bilionário defendeu o resgate das empresas financeiras dos EUA em 2008 e disse aos estudantes que as pessoas em apuros económicos devem pura e simplesmente “encolher a barriga e viver.” “Agradeçam a Deus” pelos resgates dos bancos, disse Munger, num debate na Universidade de Michigan, no dia 14 de setembro, de acordo com um vídeo colocado na Internet. “Agora, se você falar sobre resgates para alguém mais, há então aqui um momento para se começar a resgatar todos os indivíduos em vez de lhes dizer para eles se adaptarem, e isto significa a morte da cultura.”

3. A posição de Tom Perkins relatada por The Telegraph

Um bilionário capitalista de risco do Sillicon Valley tem sido condenado por conduta “medonha e vergonhosa”, em comentários feitos nos quais comparou a crítica aos ricos da América à perseguição dos judeus na Alemanha nazi na década de 1930.

Tom Perkins, 66 anos, escreveu uma carta para o Wall Street Journal, que foi publicado, em que comparou o movimento Occupy ao Kristallnacht, o infame pogrom de 9-10 novembro de 1938.

Na sua carta, intitulada “Progressiva Kristallnacht está a chegar?” o senhor Perkins disse: “escrevendo a partir do epicentro do pensamento progressista, San Francisco, eu chamaria a atenção para os paralelos entre a Alemanha fascista e nazi na sua guerra sobre os seus ‘um por cento’, ou seja os judeus, à guerra progressista desencadeada sobre os 1 por cento” dos americanos mais ricos, hoje.

Do Movimento Occupy para a diabolização dos ricos incrustada virtualmente em cada palavra de nosso jornal local, San Francisco Chronicle, eu tenho o sentimento de que o aumento do ódio aos um por cento está a ser bem sucedido“.

 

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

 

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