Sobre os nossos dirigentes internacionais: da falta de ética à incapacidade de compreender a realidade económica. 1 – Fumos negros sobre os nossos olhos, fumos tóxicos sobre as nossas ideias (2ª parte-conclusão). Por Júlio Marques Mota

Imagem série

Fotografia de Leonel Brás. Tirada junto à IP3, 24 horas depois do fogo ser considerado extinto.

 

1. Fumos negros sobre os nossos olhos, fumos tóxicos sobre as nossas ideias. Imagens da crise europeia. (2ª parte-conclusão)

Por Júlio Marques Mota

fumos toxicos sobre ideias

 

2ª Parte (conclusão) – Fumos tóxicos sobre as nossas ideias

 

 

 

Mas sente-se no ar que há ventos em remoinho na União Europeia e Instituições quanto à situação de sociedades em clara regressão, com bombas sociais a serem criadas já em diversos lados, Brexit, Áustria, Escócia, Irlanda, Catalunha, Itália etc. Há um certo medo no ar, sentem-se pelos títulos de textos que vão aparecendo, pelas conferências que se vão organizando. É preciso não culpabilizar o presente, é preciso mascarar o futuro, diremos nós que é atualmente esse o objetivo das grandes Instituições e dos seus satélites think tanks [3], e daí os novos termos que se começam a ouvir como o de renovar na urgência o pensamento económico, claramente com o objetivo de deixar tudo na mesma. Na linha das boas maneiras de O Leopardo de Lampedusa e de Luchino Visconti.

Falando de conferências duas delas devo aqui sublinhar:

A primeira, em Frankfurt, em 25 e 26 de setembro de 2017. designada Segunda Conferência Anual de Investigação do BCE (Second ECB Annual Research Conference). Nesta conferência e na sua sessão de abertura interveio Vitor Constâncio a falar de Desenvolvimento de modelos para a análise da política nos bancos centrais (Developing models for policy analysis in central banques).

Nesta conferência foram múltiplos os temas e entre muitas outras coisas falou-se de Exit from non-standard monetary policy numa sessão onde esteve a neoliberal Benoît Cœuré ou ainda um verdadeiro Leopardo da política económica, Olivier Blanchard, antigo economista-chefe do FMI e o responsável teórico pela política de austeridade imposta a muitos países, entre os quais Portugal. É dele a invenção política de que os multiplicadores da despesa pública seriam menores que um, cerca de 0,5, e isto para países em dificuldade. Mas isto, estes multiplicadores, tirando-lhes o verniz significam o seguinte: a austeridade é a única via possível. Não há alternativa. E os seus custos são muito leves, uma vez que os multiplicadores são muito baixos! Mais tarde, face ao falhanço total das políticas impostas, Blanchard pede desculpa por se ter “enganado” mas não deixando de afirmar: “Os efeitos a curto prazo da política orçamental sobre a atividade económica são apenas um dos muitos fatores que precisam de ser considerados na determinação do ritmo adequado de consolidação orçamental para qualquer país”. Dito de outra forma mais direta: pode pois tudo ficar na mesma. E ficou tudo na mesma.

A segunda conferência, decorreu em Washington no Peterson Instituto for Internacional Económicas (PIIE), em 12 e 13 de outubro de 2017 sob o tema Repensar a Política macroeconómica.

Aqui reencontramos alguns dos conferencistas da primeira conferência: Olivier Blanchard, Benoît Cœuré, Mario Draghi e não Constâncio. Depois não faltam governadores ou ex-governadores de bancos centrais, Haldane, economista chefe no Banco de Inglaterra, Ben S. Bernanke, ex-governador do FED, Marco Buti, Direção-Geral dos Assuntos Económicos e Financeiros.

Parece que se trata de caixeiros-viajantes muito bem pagos que na sua bagagem têm apenas ideias para vender, para nos convencer, ideias que nada mais são que o prolongamento das políticas anteriormente seguidas.

Repensar a política económica ressoa como um pedido de desculpa porque a política económica seguida não resultou. E porque não resultou, é preciso repensá-la, como se no horizonte dos conhecimentos científicos, a ciência económica seja feita apenas pelo neoliberalismo, como se não houvesse outras ferramentas, outros modelos de política económica que poderiam ser seguidos não apenas na sua aplicação mas como grelhas de leitura para as questões de base que estiveram na origem da crise. E sem isto não é possível delinear políticas que efetivamente nos façam sair da crise a menos que seja por milagre. Bom, mas nestes acredite quem quiser.

Entre estas duas conferências, a 12 de outubro, Paul Krugman, um moderado keynesiano, publica um artigo intitulado “The Schlock Of The New” [A tralha das novas ideias] cujo tema é exatamente o mesmo: a necessidade ou não de novas, mas brilhantes ideias em economia. Um texto curioso até face ao texto de Vitor Constâncio (que citamos mais adiante).

Vejamos uma síntese do que ele, Paul Krugman, nos diz:

“Quando a crise financeira rebentou, houve muitos apelos a novas ideias económicas-até mesmo um Instituto para o novo pensamento económico. A história implícita, muito bem tomado como certa, foi que a crise provou a inadequação da ortodoxia económica e que havia necessidade de novos conceitos fundamentais. Muito obviamente, também, os defensores dos apelos para um novo pensamento económico tinham uma espécie de uma versão de script de Hollywood de como se iria fazer: os inovadores ousariam propor ideias radicais com que enfrentariam a resistência dos velhos mentores mas acabariam por vencer através de sua capacidade superior em prever eventos.

O que realmente aconteceu foi muito diferente. Verdade, ninguém viu a crise chegar. Mas isso não foi porque a ortodoxia não tivesse espaço para tal coisa-pelo contrário, os pânicos e as corridas aos bancos são um tema antigo, discutido em todos os livros de Princípios de Economia. A razão pela qual ninguém viu a crise aparecer foi uma falha empírica – poucas pessoas se deram conta de que a ascensão do sistema bancário sombra tinha dado cabo das proteções dos bancos numa época da depressão.

O ponto era que somente o mais obscuro dos ideólogos do livre-mercado reagiu com perplexidade total. O resto de nós nós bateu com a mão na testa e disse: “Bolas, como fui estúpido! Que estupidez a minha! Bolas!”

E no após-crise, a macroeconomia sobretudo estandardizada funcionou muito bem. Tanto a política orçamental como a política monetária fizeram o que era suposto fazerem (ou, no caso do dinheiro, não fizeram o que não era suposto fazer) no limite com as taxas de juro a tender para zero. Muito espaço para o aperfeiçoamento, muitas oportunidades para usar a mãe de todas as experiências naturais para o trabalho empírico, mas nenhum enorme requisito para um novo pensamento radical.

No entanto, houve uma proliferação de novos conceitos radicais: a política orçamental contracionista é na verdade expansionista, a política monetária expansiva é realmente deflacionária, coisas terríveis acontecem ao crescimento quando a dívida passa para além dos 90% do PIB. Estas ideias assumiram imediatamente uma enorme importância política – não interessando os “botas-de-elástico” do establishment económico, os políticos do establishment saltaram para a oportunidade de aplicarem estas novas ideias.

E o que é que as ideias que eles agarraram têm em comum? Todas elas tinham, implicitamente ou explicitamente, implicações ideológicas conservadoras, quer os autores o pretendessem ou não. (estou seguro de que Reinhart-Rogoff não operaram a partir de uma agenda política. Mas não estou tão certo quanto a outros). E todas essas ideias provaram, bastante rapidamente, que estavam erradíssimas.

Assim, o novo pensamento económico desde a crise provou, na sua maior parte, que consistia em ideias más que servem uma agenda política conservadora. Não é exatamente o roteiro que nos foi prometido, não é isso?

Depois de pensar nisso, não é muito difícil ver como isso aconteceu. Em primeiro lugar, a macroeconomia convencional funcionou muito bem, portanto seriam necessárias inovações realmente, realmente brilhantes, para se fazer uma grande e convincente rutura com essa macroeconomia convencional. E inovações realmente, realmente brilhantes não aparecem com facilidade. Em vez disso, as ruturas com o conhecimento convencional vieram principalmente de pessoas que, longe de ultrapassarem esse conhecimento, simplesmente nunca o conseguiram entender, desde logo.

E, enquanto há pessoas destas na esquerda e na direita, há uma enorme assimetria em riqueza e em influência entre os dois lados. As opiniões confusas à esquerda obtêm alguns seguidores, provocam uma ida e volta em alguns blogs e geram alguns tweets desagradáveis. As opiniões confusas à direita são encaminhadas diretamente para as declarações políticas da Comissão Europeia e da direção do Partido Republicano.” (ver aqui)

Este é um texto que se sucede temporalmente ao discurso de Vitor Constâncio na primeira conferência, a de Frankfurt, e que antecede já uma crítica de fundo à ideia de Repensar a Política macroeconómica que foi o tema da segunda conferência. Podemos dizer que é até uma resposta delicadamente escrita por Krugman, ou não fosse um moderado.

Vejamos agora o que nos diz Constâncio:

“(…) Estamos particularmente interessados em mantermo-nos a par de novos desenvolvimentos na fronteira de investigação, porque eles estão no topo dos novos desafios para compreender o comportamento da economia, que é vital para conceber as políticas apropriadas. Nas palavras de Christiano, a grande recessão foi um terramoto de Macroeconomia [1] ao qual o campo da economia e da sociedade ainda se está a ajustar. Christiano destaca principalmente três aspetos: a necessidade de recuperar a visão keynesiana que os choques da procura e o paradoxo da poupança podem ser importantes para o desempenho da economia, a noção de que a economia não é rápida a autocorrigir-se e exige políticas de intervenção públicas e, finalmente, que o sector financeiro pode endogenamente gerar desequilíbrios com consequências significativas para a economia real. Retrospetivamente, é surpreendente como esses pontos foram negligenciados pelo pensamento económico dominante durante tanto tempo. Muitos outros aspetos podem ser utilmente adicionados a essa lista.

Em primeiro lugar, as políticas de estabilização são cruciais e que não só o crescimento conta à medida que flutuações significativas deixam atrás de si perdas permanentes. Relacionada com isto, está a noção de que os choques de procura podem afetar o lado da oferta através de efeitos de histerese no fornecimento de mão-de-obra e o stock de capital através de desaceleração do investimento. A distinção entre curto e longo prazo é necessária para a teorização e o ensino, mas muitas vezes não é útil para os modelos de análise de políticas.

Em segundo lugar, a heterogeneidade dos agentes, em particular dos consumidores, é importante para compreender o comportamento agregado, tendo em conta o endividamento, as restrições de crédito e a composição do rendimento e da riqueza.

Terceiro, a economia comportamental também lançou dúvidas sobre o paradigma de expectativas racionais como uma hipótese demasiado exigente quanto aos poderes cognitivos dos agentes económicos, especialmente para os horizontes longos. Neste contexto, a suposição míope explorada por Gabaix (2017) [2] é um desenvolvimento bem-vindo.

Em quarto lugar, a heterogeneidade dos agentes relaciona-se com a questão da distribuição que tinha sido negligenciada, mas que, com a utilização de agentes heterogéneos dos novos modelos neokeynesianos (Hank), ajudaram a trazer à tona como exemplificado pela recente contribuição de Ahn et al. (2017) na NBER-Conferência anual de macroeconomia. [3] em que se mostra como o efeito de reação é significativo e como os modelos com a heterogeneidade realista das famílias se adapta empiricamente melhor à dinâmica de consumo.

Quinto, a assunção de um estado estacionário único é agora desafiado pela consideração de vários equilíbrios, particularmente alguns sem pleno emprego como é visto no trabalho de Farmer e colaboradores [4]. A ideia de abandonar a noção de um apriorístico equilíbrio teórico a favor da pura interação de agentes heterogéneos com regras de comportamento em ABMs (modelos baseados em agentes) é mais controversa.

Um ponto final refere-se à questão de se a política monetária convencional é tão poderosa como é retratada em modelos DSGE de referência através das equações de Euler. A recuperação prolongada parece dar lugar à velha visão de que a eficácia da política monetária é assimétrica e mais fraca em recessões. Justifica-se repensar um papel mais ativo para a política orçamental, na sequência dos recentes trabalhos de Auerbach e Gorodnichenko (2017) [5]. Uma reconsideração da eficácia de ambas as políticas macro tornou-se ainda mais necessária, tendo em conta os dois problemas importantes com que os bancos centrais estão confrontados: em primeiro lugar, a baixa inflação persistente associada com as curvas de Phillips de menor declive que prejudicam a política de transmissão e, em segundo lugar, a necessidade de instrumentos de política para lidar com a próxima recessão, mesmo que esta venha a ser leve.

Os vários pontos que acabei de enumerar são alguns dos aspetos pertinentes da revisão em curso da macroeconomia e justifica o ponto recentemente explicitado por Blanchard de que precisamos de diferentes tipos de modelos para entender, prever e analisar a economia e as políticas necessárias para abordar as suas deficiências. Nesse espírito, concentrarei as minhas restantes observações sobre alguns desenvolvimentos em curso na especificação dos modelos macroeconómicos no BCE. (…)” (ver aqui)

Ao ler os argumentos de Vítor Constâncio, um homem de grande saber e de grande cultura geral, fico espantado. Pelos vistos os modelos de que se serviam eram modelos feitos de nada, uma vez que a falta das hipóteses acima nos diria que era um modelo que pretende mudar o mundo mas que excluía o mundo das suas hipóteses. Ora, qualquer aluno do tempo em que Vítor Constâncio era professor no ISEG, há mais de 30 anos, que lesse um bom texto de Princípios de Economia, mesmo que editado nos anos 40 ou 50, sabia da necessidade de que qualquer modelo de macroeconomia sério tinha de incluir as hipóteses agora citadas, quanto mais agora. Inimaginável. E, de resto, para dizer o que diz, porque é que tem necessidade de citar L. Christiano, e o seu trabalho “The Great Recession: a macroeconomics earthquake”? Sinceramente, não entendo. Não esqueçamos que Vítor Constâncio foi secretário-geral do PS e um ilustre professor universitário para não precisar de abrigos intelectuais de qualquer tipo, muito menos deste e para dizer o que diz!

Na conferência de Washington, Haldane apresenta alguns gráficos em que se colocam vários países em dois graves momentos da sua história, o da Grande Depressão (1929) e o da Grande Recessão (2007—) em que 1929 e 2007 são os anos de referência ou de partida, e é mostrada a evolução do PIB relativamente ao valor de partida, em 1929 e 2007. Calcula a seguir o crescimento de tendência a partir de 2007, que nos indicaria o crescimento do PIB que teoricamente existiria se não tivesse rebentado a crise e se fosse extrapolada a evolução do rendimento a partir de anos anteriores a 2007. Traça assim uma linha teórica obtida por extrapolação do crescimento havido entre 1998 e 2007, representado pela linha a ponteado. E apresenta-nos também a evolução efetiva do crescimento pós 1929 e pós 2007.

Relembremos que até 1933 as políticas de resposta à crise, Brunning na Alemanha, Hoover nos Estados Unidos e o mesmo se passando em França, sobretudo com Laval, foram semelhantes às que têm sido impostas por Schauble, Lagarde e Trichet-Draghi. Depois veio Roosevelt, em março de 1933. Vejam bem os gráficos, comparem os ritmos de crescimento pós 33 com os correspondentes anos na crise de agora, ou seja, a partir do quarto ano. Sublinhe-se a queda nos Estados Unidos no oitavo ano, ano em que Morgenthau convenceu Roosevelt a largar as políticas de expansão e entrar numa fase de consolidação.

Com ele (Roosevelt) não foram utilizados modelos de nada, com ele havia uma verdadeira vontade política de servir o país e estabeleceu-se uma verdadeira política de expansão, sem demagogias. Sugiro até que leiam alguns dos textos que a partir do site Franklin Roosevelt foram por nós traduzidos e publicados em A Viagem dos Argonautas [4].

texto 1 parte 2 1

texto 1 parte 2 2

texto 1 parte 2 3

texto 1 parte 2 4

O Banco Central de Espanha em artigo analítico no seu Boletim económico 3/2017 “El impacto de la política monetaria no convencional sobre las finanzas públicas de la UEM“, da autoria de Pablo Burriel, Francisco Martí e Javier J. Pérez, noticiava:

” (…) Em particular, desde o início da nova fase expansiva da política monetária não convencional, em junho de 2014, até ao final de 2016, as taxas de emissão de dívida de prazos a cinco e dez anos reduziram-se em uns 110 e 120 pontos base (PB), respetivamente, nos casos da Alemanha, França e Itália, cerca de 150 e 160 PB para a Espanha, e algo mais de 120 e 140 PB para a Bélgica.

texto 1 parte 2 5

texto 1 parte 2 6

A redução das taxas de emissão de dívida pública em todos os prazos traduziu-se numa queda nas taxas médias implícitas da dívida ao longo dos últimos anos. Assim, a taxa média implícita do stock da dívida pública da UEM, em termos agregados, diminuiu entre 2014 e 2016 em algo mais de 15%, com taxas superiores a 17% em Espanha. Dado que na maioria dos países a dívida pública foi reduzida apenas marginalmente ou continuou a aumentar naqueles anos, a queda observada na proporção da carga de juros das administrações públicas sobre o PIB na UEM, no período de referência, foi principalmente devido à redução das taxas de emissão (ver quadro 1). Em concreto, a proporção de juros da dívida pública no PIB do agregado da área do euro foi reduzida em 0,5 pontos percentuais (PP) entre 2014 e 2016, dos quais 0,4 PP podem ser atribuídos à diminuição das taxas implícitas e 0,1 PP à descida do rácio da dívida relativamente ao PIB.”

Relativamente a esta dinâmica diz-nos o jornalista Xavier Vidal-Folch em El País de 21 de setembro de 2017:

É pois claro que Berlim não carrega a cruz da União Monetária mas é sim um convidado de luxo no seu festim

Face a todo este conjunto de gráficos, face às declarações de Constâncio, de Blanchard e tantos outros, sinto-me completamente de acordo com a posição manifestada por um economista italiano, quanto ao tema Repensar a Política Económica, e que aqui reproduzo:

Mas o que é que eles querem repensar? À luz dos factos, o modelo trivial “keynesiano” que eu aprendi com muitos de vocês forneceria um guia mais seguro do que o dos modelos “sofisticados” (DSGE), e de tal maneira que agora até mesmo o BCE substancialmente o admitiu num discurso de Vitor Constâncio, onde a abordagem DSGE é mandada para o caixote do lixo da história.

Estamos a lidar com pessoas que culpabilizam a ciência económica por um fracasso que não é científico, mas ético. Quando Blanchard assinou o programa de ajustamento para a Grécia, que com base na hipótese de um multiplicador keynesiano de 0,5, a literatura científica indicava que o valor médio para o multiplicador seria em torno de 1,5. Mas Blanchard francês tinha que, numa instituição dirigida por uma francesa, defender os interesses do maior credor da Grécia: a França. Então, onde está a surpresa? O que havia aqui para aprender?

Agora estes senhores querem desresponsabilizar-se ao dizerem que aprenderam alguma coisa com a crise: eles são o “que-temos-aprendido-da-crise-Boy”, a versão eticamente nojenta e politicamente correta dos Chicago Boys. Não havia nada de importante para aprender e isto não é nenhuma surpresa. Bem fez Pau Davidson ao esclarecê-lo no seu último livro de que nos devemos sempre lembrar.

É tudo sobretudo uma questão de ética, acredito. E por isso editaremos oito textos ligados à temática do que foi aqui dito, ligados também à questão da falta de verdade da maioria dos economistas que sustentam a prática da União Europeia ou da sua incapacidade em compreender a realidade económica: vêem-na com lentes altamente desfocadas e embaciadas, daí o título abaixo.

Sobre os nossos dirigentes internacionais: da falta de ética à incapacidade de compreender a realidade económica

  1. Fumos negros sobre os nossos olhos, fumos tóxicos sobre as nossas ideias. Imagens da crise europeia. Júlio Marques Mota
  2. O FMI e o multiplicador da Grécia, Alberto Bagnai
  3. Os salários e a questão não resolvida do euro, Alberto Bagnai
  4. O euro e o princípio da autoridade, Roberto Perotti
  5. O sistema financeiro é uma fraude absoluta, Paul Hellyer
  6. Crescimento: Boom ou Bolha, Jean- Luc Gréau
  7. A franqueza dos banqueiros centrais não existe: quando é que se ouviu os mandarins falar claramente sobre a política monetária radical? James Grant
  8. Um texto sobre o último relatório do FMI
  9. Desigualdade: a politica fiscal pode fazer a diferença. Uma análise sobre o último relatório do FMI

 

Coimbra, 27 de Outubro de 2017.

Notas

[3] Um exemplo do que acabamos de afirmar encontramo-lo agora num blog do FMI, de Vitor Gaspar e de Mercedes Garcia-Escribano, a propósito do último relatório do FMI, Fiscal Monitor, Tackling Inequality, de Outubro de 2017, onde estes autores escrevem o seguinte:

“Progressive income taxes. Personal income tax progressivity has declined steeply in the 1980s and 1990s, and has remained broadly stable since then. The average top income tax rate for OECD member countries fell from 62 percent in 1981 to 35 percent in 2015. In addition, tax systems are less progressive than indicated by the statutory rates, because wealthy individuals have more access to tax relief. Importantly, we find that some advanced economies can increase progressivity without hampering growth, as long as progressivity is not excessive.”

Recuso-me a traduzir isto! Neste excerto, Vitor Gaspar defende agora exatamente o contrário do que fez enquanto ministro em Portugal. É preciso não ter vergonha nenhuma.

Citação reproduzida de: Inequality: Fiscal Policy Can Make the Difference, disponível em: https://blogs.imf.org/2017/10/11/inequality-fiscal-policy-can-make-the-difference/

[4] Citemos alguns dos textos:

1. Tempo para um novo New Deal, por MARSHALL AUERBACK. Marshall Auerback faz parte do grupo de economistas que anima o Institute Roosevelt (endereço  http://www.rooseveltinstitute.org/).

Disponível em: https://aviagemdosargonautas.net/2013/11/04/tempo-para-um-novo-new-deal-por-marshall-auerback/

2. Franklin Delano Roosevelt: Do Orçamento Equilibrado ao Keynesianismo. Disponível em: https://aviagemdosargonautas.net/2013/07/31/franklin-delano-roosevelt-do-orcamento-equilibrado-ao-keynesianismo/

3. A Comunicação de Franklin Roosevelt em Pittsburgh em 1936. Disponível em https://aviagemdosargonautas.net/2013/06/21/a-comunicacao-de-franklin-roosevelt-em-pittsburgh-em-1936-seleccao-e-traducao-de-julio-marques-mota/

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: