Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte II – Compreender a alta finança. 1. Compreender a finança nº 1 – Separar os megabancos? (2ª parte), por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – Compreender a alta finança

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1. Compreender a finança – nº 1 – Separar os megabancos (2ª parte)

 

 

Por Finance Watch, 2014.

(2ª parte)

 

PARTE 1: O b.a.-ba

 (…)

 O “senhor Jargão” responde às perguntas dos leitores:

O que é um efeito de alavancagem?

Sem dúvida que já ouviram falar muito frequentemente do termo ‘efeito de alavancagem’ (leverage) em artigos ligados à finança e cada um de nós poderá ter-se perguntado o que que é isto quer dizer. É com efeito um mecanismo crucial que é necessário compreender bem dado que este mecanismo está no centro da lógica do sistema financeiro.

Este mecanismo refere-se à quantidade de dinheiro que um interveniente pode tomar de empréstimo em relação com o capital que possui. Imagine por exemplo que quer comprar uma casa e que já tem 20% do preço de compra na sua conta no banco. Por cada euro que possui, deve por conseguinte poder contrair um empréstimo de quatro euros e o seu efeito de alavancagem é por conseguinte de 1 a 4.

Coloquemo-nos agora no lugar de um banco. Cada um de nós obtém lucros emprestando dinheiro (ou comprando ativos financeiros, o que significa o mesmo). Se, por cada euro de que dispomos, como banco, podemos criar créditos (conceder empréstimos) no montante de 4, rapidamente se terá compreendido a utilidade desta alavancagem porque nos permite fazer, mais rapidamente, mais lucro para os nossos acionistas (os proprietários dos bancos). Quanto mais se utiliza este efeito, mais nós teremos dinheiro e mais podemos emprestar… Noutros termos, isto permite-nos não utilizar o nosso próprio capital mas sim capital que nós mesmos fomos levantar ao mercado interbancário.

O inconveniente deste mecanismo inteligente é de tornar os bancos frágeis na proporção do efeito de alavanca que utilizam! Antes da crise em 2008, era corrente para os bancos universais atingirem um efeito de alavancagem de 1 a 30, até mesmo mais! Um banco com um capital próprio de 1 podia por conseguinte, graças ao dinheiro emprestado, comprar ativos sobre os mercados financeiros por um valor 30 vezes maior.

O problema? Com um efeito de alavancagem de tal modo forte, é suficiente uma muito pequena baixa do valor dos vossos ativos para destruir todo o nosso capital de partida e criar uma situação de falência. Mais precisamente, uma simples baixa de 3,33% (1/30) sobre os nossos ativos implicaria imediatamente que o dinheiro que nós devemos (as nossas dívidas) fosse mais importante do que o valor dos ativos que possuímos. É ‘Game over‘ e declaramos falência!

Contudo, como o dissemos acima, os bancos universais não podem entrar em falência! Aproveitam-se do facto de que, contrariamente a outras empresas do mercado, os Estados tudo farão para os resgatar. Aí está porque o efeito de alavancagem é um fator chave para compreender o sistema financeiro arriscado no qual vivemos.

No entanto, poucas coisas se alteraram cinco anos depois da crise (para saber mais, veja a nossa campanha «Changer la Finance»): o custo das falências bancárias permanece mutualizado e, por conseguinte, pago pelo conjunto dos contribuintes, enquanto os lucros bancários são privatizados, ou seja, redistribuídos unicamente pelos acionistas e assalariados do banco. Nesta situação, é justo que ainda e sempre sejam os contribuintes a pagarem no caso de haver problema com estes megabancos?

 

Como é que os governos se deram conta de que havia um problema?

 

Uma lição chave que o mundo político pôde tirar da crise financeira de 2008 é que o aumento e a seguir a queda dos preços no mercado imobiliário americano tiveram consequências mais graves que as crises precedentes, principalmente devido à interação entre os bancos comerciais e os bancos de investimento (cliquem sobre a imagem para uma animação visual de 10 minutos (em inglês) que explica a crise americana ‘dita de subprimes’).

O mecanismo que gerou a crise pode ser explicado da maneira seguinte: os empréstimos hipotecários tomados pelos cidadãos junto dos seus bancos locais para investir na propriedade foram convertidos pelos bancos de investimento em ativos financeiros, vendidos seguidamente a outros bancos de investimento por toda a parte no mundo. Quando a bolha imobiliária estoirou nos Estados Unidos, os governos foram forçados não somente a salvar os bancos comerciais, mas também os bancos de investimento devido às suas atividades comerciais. Por conseguinte, esta crise testemunha muito claramente a interconexão entre estes dois tipos de bancos através das atividades especulativas (de trading): a insuficiência ou quebra de um banco pode provocar a falência de numerosos outros. Como se viu acima, esta interconexão foi alimentada em parte “pelo dinheiro barato” que estes bancos de investimento podem obter graças à garantia do Estado.

Não é isto o mundo ao contrário? Por um lado, os cidadãos pedem um empréstimo a fim de comprar uma casa e assegurarem um melhor futuro à sua família; por outro lado, são implicados inconscientemente numa operação especulativa orquestrada por megabancos que, não somente mergulham a economia real numa crise mundial, mas que além disso, forçam estes cidadãos a pagar as consequências dessa crise…

Com um ar de algo já visto …

Na vertigem do crash da bolsa de 1929, a maior crise financeira do século XX, o legislador americano adotou medidas para separar completamente os bancos comerciais dos bancos de investimento.

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Roosevelt – 1933

 

  • Em 1933, quatro anos após o rebentamento da Grande Crise, Franklin D. Roosevelt assina a lei sobre a reforma dos bancos (Banking Act). Esta lei é conhecida sob o nome de Glass-Steagall Act.

 

 

 

 

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Clinton- 1999

  • Em 1999, 66 anos depois e com o vento da mundialização em popa, Bill Clinton revoga estas disposições para permitir a criação de bancos universais. Menos de uma década depois, os Estados Unidos (e a economia mundial) são atingidos pela crise financeira mais grave desde 1929…

 

 

 

As instâncias de decisão política do mundo inteiro desde então emitiram propostas legislativas para separar estes dois tipos de bancos.

A proposta legislativa da Comissão Europeia

O tema da separação dos bancos está já na agenda da União Europeia desde há dois anos. Em outubro de 2012, um ‘Grupo de peritos de elevado nível’, designado pela Comissão europeia e dirigido pelo Governador do Banco da Finlândia Erkki Liikanen, publicou uma série de recomendações em prol de uma separação das atividades bancárias.

Designadamente, este grupo de peritos sublinha claramente a importância de reduzir a complexidade dos bancos, o que permitiria gerir mais facilmente a sua falência e, sobretudo, reduzir os riscos para os depositantes, para os clientes e para os contribuintes.

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Encontro entre Erkki Liikanen e os membros de Finance Watch

A proposta do Comissário Barnier

A proposta legislativa da Comissão Europeia, publicada em janeiro de 2014 por Michel Barnier (o Comissário cessante para o Mercado interno e os Serviços), é a sequência lógica e esperada do relatório Liikanen. Os objetivos da Comissão são tornar os bancos mais seguros e mais fáceis de gerir quando estão em dificuldade, promover uma concorrência mais equitativa entre os bancos, evitar uma má afetação dos recursos e reduzir os conflitos de interesses no seio dos bancos universais.

 “Os bons objetivos, um mecanismo que poderia constituir um progresso importante, na condição de dispor dos meios suficientes.”

Os objetivos da proposta da Comissão sobre a separação bancária são louváveis e ambiciosos. Propõem um mecanismo de separação que não é perfeito mas que constitui no entanto um grande passo na boa direção. O texto deve, contudo, ser melhorado: permanecem certos pontos de interrogação sobre como e sobre quem decide no caso de separação bancária. Em vez de uma regra simples e automática que torna a separação obrigatória, a proposta da Comissão permanece complexa e dá uma margem de operação importante aos supervisores nacionais.

A proposta da Comissão será retomada pelo Parlamento (e os novos Comissários) saído das eleições europeias após as férias de verão. Isso significa que o seu destino será decidido, na melhor das hipóteses, em 2015. Há, pois, um longo percurso a fazer antes de uma separação efetiva dos bancos na Europa. Um percurso que o lobby bancário encherá de obstáculos de todos os tipos…

(continua)

Texto original Comprendre la finance nº 1 – Séparer les mégabanques ? em http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/921-comprendre-la-finance-1?lang=fr

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