Ano de 2019, ano de eleições europeias. Parte I – Grandes planos sobre uma União Europeia em decomposição. 3º Texto – A Europa, peça central no declínio do Ocidente – O afogamento do Ocidente na finança

O afogamento do Ocidente na  finança

(Jean Claude Werrebrouck, 1 de Abril de 2019)

jcw

Jean Claude Werrebrouck

O vídeo abaixo parece-nos ser um bom ponto de entrada para abordar a questão da sonolência do Ocidente no primeiro terço do século 21.

Convidamos o leitor a visionar o filme abaixo indicado  uma ou duas vezes e retornar a este texto para discutir as correções que consideramos necessárias e as questões adicionais com ele  relacionadas.

A ideia de comparar as taxas de mercado com o que Wicksell chamou de taxa de juro natural é interessante. É verdade que esta última taxa corresponde aproximadamente à rendibilidade da economia real. Esta taxa, frequentemente incluída em certas publicações do Banco de França, foi fixada pelo seu autor no pressuposto de um mercado de bens e serviços equilibrado e, por conseguinte, de igualdade entre a poupança e o  investimentos . Dada a considerável elasticidade do sistema financeiro atual, esta  é agora definida como a taxa que não implica nem um aumento nem uma diminuição da inflação. Mais simples e normalmente, é geralmente aceite que a taxa  de juro natural é a taxa marginal de rendibilidade do capital

Compreende-se facilmente  que a decisão de investir é uma simples comparação entre as taxas observadas no mercado bancário e o retorno sobre o capital na economia real. Se numa determinada área, a taxa de juro é inferior ao retorno do capital, é compreensível investir com o efeito de uma economia em crescimento… sujeita, naturalmente, à disponibilidade de fatores de produção. Se o rendimento do capital  for agora igual à taxa de juro, não há incentivo ao investimento e, portanto, há uma tendência à estagnação, tendo em conta o risco de investimento. Daí – a priori – o interesse de debater no vídeo a “inversão da curva das taxas de juro”, com a regularidade historicamente observada de  que com  cada inversão surge uma recessão económica. E, de facto, o rendimento das obrigações dos EUA caiu recentemente abaixo ou igual às taxas a 3 meses, enquanto a Alemanha emite títulos a 10 anos a uma taxa negativa e, finalmente, o stock global de títulos soberanos a taxas negat6ivas  está a aproximar-se dos 100 mil milhões  de dólares… ou quase metade do PIB dos EUA.

Mas não podemos concordar com o raciocínio do autor porque há obviamente uma confusão: a taxa longa mencionada (mercado financeiro) não tem nada a ver com o retorno sobre o capital (economia real) e a reversão da curva de juros só interessa ao mundo financeiro. No entanto, o autor do vídeo dá-se a esta confusão. Logicamente, à escala do Ocidente, uma entidade essencialmente reduzida à OCDE, sendo o fosso entre as taxas bancárias e o retorno do capital elevado, o investimento deveria ser considerável e o crescimento elevado, o que não é o caso. Especialmente no que diz respeito à zona euro.

Esta anomalia poderia, a priori, explicar-se pela baixa rentabilidade do sistema bancário, que, enquanto criador de dinheiro livre, é também vítima de taxas de mercado reduzidas, o que provoca uma doença no sector da poupança. Esta baixa rentabilidade é também reforçada pela  regulamentação de  Basileia 3, em que se  exige   que o sistema bancário detenha mais reservas de liquidez e obrigações sem risco (dívida pública de baixo rendimento). Esta mesma regulamentação exige um aumento significativo dos capitais próprios (7,5% do balanço em 2005 contra 9,5% em 2018). No entanto, uma explicação pela  baixa rendibilidade não é muito convincente e o indicador de baixa rendibilidade, que é a muito baixa capitalização bolsista do sistema bancário, deve-se principalmente à manutenção de ativos podres, em especial em Itália, Espanha e, naturalmente, na Alemanha, no caso do Deutsche Bank. Sabemos também que este valor  muito baixo das ações impede os bancos europeus de se recapitalizarem: o custo do capital é demasiado elevado. Mas esta fraqueza não é de modo algum convincente porque o fantástico desenvolvimento do sistema bancário paralelo foi uma forma de escapar ao espaço regulamentado, beneficiando ao mesmo tempo da criação monetária dos bancos aos quais o chamado sistema bancário paralelo continua ligado. Por outras palavras, o chamado “sistema bancário  sombra” veio corrigir as dificuldades do sistema bancário e a baixa das  taxas de juro é  amplamente compensada, ou mesmo utilizada para atividades especulativas distantes do investimento. Globalmente, por conseguinte, a anomalia do baixo investimento na economia real, em especial na área do euro, não é criada   por eventuais dificuldades financeiras.

Para tentar entender a anomalia, devemos considerar que o espaço entre as taxas bancárias e as taxas marginais de retorno sobre o capital está ocupado por investimento real, especulação ou por  uma combinação equilibrada dos dois tipos de aplicação. Hoje, o investimento real é baixo e é substituído pela especulação, a chamada “hipertrofia financeira”, uma hipertrofia que pode ser vista no crescente peso das finanças no PIB (quase o dobro nos EUA entre 1980 e 2006). No entanto, as finanças e a economia real não estão necessariamente em oposição, e é claro que a globalização e o fim das taxas de câmbio fixas exigem maior segurança para a economia real através da emergência das finanças. Quando uma empresa industrial deixa um mercado nacional para se expandir para um espaço global, a questão o valor das divisas  torna-se uma grande preocupação. Quanto mais longas forem as cadeias de valor, mais riscos, nomeadamente os riscos cambiais, devem ser cobertos por produtos financeiros cada vez mais sofisticados, que dão origem a mercados cuja liquidez é procurada através da dimensão e da presença de um grande número de intervenientes financeiros. Em contrapartida, a segurança cada vez mais procurada é dispendiosa e os produtos financeiros captam o valor acrescentado de uma economia real ligada aos riscos da globalização. Deve haver, portanto, uma combinação ótima de “economia real” e de finanças, uma combinação que, em teoria, deveria ser a que maximiza o crescimento económico. Para além do problema dos bancos, ter uma taxa de juro muito baixa não é, portanto, a priori, uma dificuldade para as finanças, que veem nesta taxa uma matéria-prima barata para o seu trabalho de assegurar a economia real globalizada… uma segurança fornecida ao menor custo… para a referida economia real.

Se o investimento nesta economia é pois tão baixo, é também provavelmente porque o retorno marginal do capital está a tornar-se inferior ao dos investimentos financeiros. Daí a deriva do private equity, o endividamento massivo para recompras massivas de ações (US$ 1 milhão de  milhões para empresas americanas em 2018), daí a transformação da profissão de banqueiro em comerciante, longe da avaliação do retorno de um investimento por parte de PMEs industriais, etc.

Esta hipótese de diminuição da rendibilidade marginal do capital refere-se também à hipótese de ineficácia de políticas monetárias complacentes avançada por muitos economistas: o crescimento não provém de facilidades monetárias e faz parte, antes de mais, de um potencial constituído pelos recursos disponíveis, incluindo, entre outros, os das competências dos trabalhadores. Por outras palavras, demasiadas poupanças reais ou fictícias não resolvem a questão do investimento insuficiente.

De facto, a globalização iniciada pelo Ocidente levará a dificuldades de crescimento em todos os correspondentes países, em benefício dos países emergentes. A concorrência dos baixos salários destes últimos está a impulsionar uma forte moderação salarial nos países ocidentais, uma moderação agravada por uma combinação de outros fatores: redução do papel dos sindicatos, aumento da intensidade do capital e emergência massiva de empresas com elevada inovação e rendas monopolistas que beneficiam do princípio do “winer takes all” (novas tecnologias).

Como resultado, a evolução dos  salários reais já não acompanha a evolução da produtividade per capita. Numa base 100 em 1995 para a OCDE, a produtividade per capita sobe para 138 em 2018, enquanto os salários reais sobem para apenas 118. Os preços das importações contidos pelo efeito da globalização e a baixa massa salarial (descida de 2,5% do PIB na OCDE entre 2000 e 2018) conduzem a uma inflação muito baixa. Em contrapartida, isto justifica uma política monetária expansionista e, por conseguinte, taxas de juro baixas dos bancos centrais, que geram oportunidades de endividamento mais arriscadas. Assim, a dívida das famílias da OCDE passa  de 60% do PIB em 1990 para 70% em 2008, aumentando para 80% em 2018, apesar de a massa salarial ter diminuído 2,5 pontos percentuais ao mesmo tempo. A limitação da procura global que lhe corresponderá não justifica um forte investimento na economia real, daí uma taxa de autofinanciamento anormalmente elevada: o rácio cash flow/ investimento passa a ser superior a 100%, quando em 2000 era apenas de 75%.

O dinheiro disponível torna-se considerável e muito mal utilizado: a dívida substitui os salários, não se transforma facilmente em investimentos e, portanto, é aplicado naquilo que é parcialmente improdutivo: finanças e especulação. A tendência para aproximar a taxa natural de Wicksell da taxa bancária faz parte do jogo dos atores. As dívidas públicas e privadas estão a aumentar e estão cada vez menos em sintonia com o investimento público e privado real.

E quando o Ocidente fica atolado num mar de liquidez para: salvar os seus bancos, acelerar fusões e aquisições sem investimentos e, portanto, sem crescimento além da reavaliação de ativos, para permitir recompras ilimitadas de ações, etc.; a China, equipada com um Estado forte, transforma as suas economias em investimentos reais, que amanhã abanarão os restos do que foi a glória do Ocidente.

 


A segunda parte deste tema será publicada amanhã, 15/05/2019, 22h


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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