MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – Nota explicativa sobre a presente série (1ª parte). Por Júlio Marques Mota

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciamos hoje uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação, tal como exposto na presente nota explicativa de Júlio Marques Mota.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

Dada a extensão da nota explicativa, publicamo-la em duas partes. Hoje será a 1ª parte.


40 m de leitura

 

Nota explicativa sobre a presente série Marriner Eccles, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também (1ª parte)

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 26 de Janeiro de 2022

 

Esta é uma nota explicativa em torno das dificuldades encontradas na elaboração da série de textos intitulada Marriner Eccles, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também.

Uma série dedicada a Joaquim Feio e a Michael Pettis.

Vamos editar uma série de textos sobre Marriner Eccles, uma série que me levou mais de 12 meses a criar – a primeira versão desta nota explicativa data de Dezembro de 2020 – e que, ainda recentemente, como explico no final desta nota, houve que reajustar. Um longo e difícil trabalho como se poderá imaginar para me ter ocupado durante tanto tempo.

Fui professor toda uma vida e se calhar nunca deixei de o ser mesmo depois de deixar de exercer a profissão. Fazer uma série deste tipo foi como se estivesse a fazer um programa de uma disciplina de macroeconomia para alunos de Mestrado ou mesmo, quem sabe, para alunos de doutoramento. No entanto, não deixemos de sublinhar que esta afirmação possa parecer abusiva uma vez que nem o grau de mestre eu possuo quanto mais o de doutoramento, para me imaginar a fazer uma disciplina num curso para futuros doutorados. O seu a seu dono dir-se-á, e, seguramente, poderá ter razão quem assim pense. Mas uma coisa é certa, um dos trabalhos de referência utilizados nesta série é exatamente uma tese de doutoramento de elevada qualidade tendo como base Marriner Eccles. E pude constatar que teses desta qualidade, em torno das ideias de Marriner Eccles e da sua importância, há várias.

Poderíamos acrescentar que possivelmente criar esta série daria mesmo mais trabalho do que fazer um programa de uma disciplina de matéria do nosso conhecimento e por uma razão bem simples: a facilidade para fazer um plano de uma disciplina depende da formação geral do docente e uma boa licenciatura, o que agora já não há, seria uma boa base de partida. Mas aqui o ponto de partida, sobre Marriner Eccles, era particamente nulo.

O meu ponto de partida foi uma informação de um colega meu, o Joaquim Feio, que me sugeriu a sua leitura e isto por volta dos anos 90, numa altura em que as minhas preocupações de natureza científica eram outras. Vivíamos um tempo em que falávamos uns com os outros sobre os nossos projetos científicos, literários, sobre os problemas pedagógicos com que nos defrontávamos, etc. mas quando me lembro dessa altura, situações destas parecem-me já do tempo de quando as galinhas falavam, tal é a distância que separa as relações que existem agora das de então. Tempos depois de ter estalado a crise dita crise da dívida pública, por volta de 2012, o Joaquim Feio voltou a referir-me a oportunidade de ler Marriner Eccles. Procurei na Internet e encontrei apenas o texto da gravação da audição de Marriner Eccles no Congresso, em 1933. O texto estava em formato OCR ( Optical Character Recognition) difícil de transpor para Word e desisti.

Depois, trabalhei muito em termos de blog sobre textos de Michael Pettis, tendo-se mesmo feito uma longa série só sobre textos deste autor, série essa intitulada A crítica demolidora de Michael Pettis ao pensamento económico dominante [nota de editor: esta série foi publicada entre 09/09/2018 (ver aqui) e 07/11/2018 (ver aqui)]. Um dia, andando eu à volta da questão, talvez por ter um computador mais potente ou por me mexer melhor em termos de informática, apanho o famoso texto de Marriner Eccles com a sua intervenção no Congresso em 1933 e, parágrafo a parágrafo, consegui passá-lo para o processador de texto Word, lê-lo e traduzi-lo. Fiquei pasmado com o que lia e fiquei possivelmente tão pasmado quanto pasmados terão ficados os senadores que o ouviram no Capitólio dizer coisas como as seguintes:

  1. “Porque foi que durante a guerra, quando não havia depressão, não insistimos em equilibrar o Orçamento através de uma tributação suficiente dos nossos rendimentos excedentários, em vez de utilizarmos o crédito do Governo no montante de 27 mil milhões de dólares? Porque não ouvimos falar da necessidade de equilibrar o Orçamento Federal para manter o crédito do Governo quando tínhamos um défice de $9 mil milhões em 1918 e de $13 mil milhões em 1919? Porque razão não havia desemprego nessa altura e uma quantidade de dinheiro insuficiente como meio de troca? Como foi que com menos mil milhões de ouro do que temos agora não estávamos preocupados com o nosso sistema de padrão ouro?”
  2. “Será necessário conservar o crédito do Governo ao ponto de proporcionar uma existência de fome a milhões do nosso povo, numa terra de superabundância? Será a procura universal da poupança pela parte do Governo consistente neste momento? Será a atual falta de confiança devida a um Orçamento desequilibrado?

O que interessa ao público e aos homens de negócios deste país é um renascimento do emprego e do poder de compra. Isto restauraria automaticamente a confiança e aumentaria os lucros até um ponto em que o Orçamento seria automaticamente equilibrado da mesma forma que o orçamento individual, empresarial, estatal e municipal seria equilibrado.”

  1. “Vemos agora, após quase quatro anos de depressão, que o capital privado não entrará em obras públicas ou projetos autosustentáveis, exceto através do governo, e que se deixarmos o nosso “indivíduo robusto” seguir o seu próprio interesse nestas condições, ele faz precisamente a coisa errada. Cada empresa para a sua própria proteção liberta-se dos homens, reduz a sua folha de pagamentos, reduz as suas encomendas de matérias-primas, adia a construção de novas fábricas e paga os empréstimos bancários, acrescentando ao excedente de fundos inutilizáveis. Cada coisa que faz para reduzir o fluxo de dinheiro torna a situação pior para o negócio como um todo.”
  2. “O Governo Federal, bem como os líderes da finança e do mundo empresarial produtivo deste país, deveriam regressar a este programa com o mesmo entusiasmo e zelo patriótico que foi desenvolvido durante a guerra. Toda a psicologia pública deve ser mudada através da propaganda da imprensa. Todas as cidades, condados e Estados da União devem ser instados, como um dever patriótico, a recorrer ao crédito do Governo para construir os projetos que normalmente exigiriam durante os próximos cinco anos, pondo assim os homens a trabalhar em vez de lhes oferecer caridade.
  3. “Devemos escolher entre aceitar bens estrangeiros suficientes para pagar as dívidas externas devidas ao nosso país, ou cancelar as dívidas. Isto não é um problema moral, mas um problema matemático. Os devedores estrangeiros, sem dúvida, teriam todo o prazer em pagar as suas dívidas a este país se nós lhes permitirmos fazê-lo, reduzindo a nossa tarifa e aceitando os bens que têm para nos vender.

Ninguém seria tão beneficiado pela anulação destas dívidas estrangeiras devidas ao nosso governo como a agricultura e a mão-de-obra americanas. Uma parte relativamente pequena da nossa população compensaria esta perda para o Tesouro através do pagamento do imposto sobre o rendimento e do imposto sucessório que se tornaria produtivo com o relançamento da atividade económica.

O cancelamento, ou um acordo sobre a liquidação das dívidas numa base que praticamente equivaleria ao cancelamento, em troca da estabilização da moeda dos devedores, juntamente com certas concessões comerciais e um acordo para reduzir o armamento, seria um pequeno preço a pagar por este país em comparação com os grandes benefícios que para o mundo inteiro, incluindo nós próprios, daí resultariam.”

  1. “Medidas como as que propus podem assustar os nossos cidadãos que sejam ricos. Contudo, devem sentir-se tranquilos ao refletirem sobre a seguinte citação de um dos nossos principais economistas:

“É absolutamente impossível, como este país tem demonstrado repetidas vezes, os ricos deixarem de obter a riqueza e os rendimentos que ambicionam nada deixando ficar para os outros que valha a pena. Podem construir e manter fábricas fechadas e carruagens de comboio parados, edifícios de escritórios vazios e bancos encerrados e podem conceder empréstimos a países estrangeiros; mas enquanto classe nada deixarão restar que valha a pena, para além do montante dos lucros que obtêm resultante da despesa dos consumidores. É do interesse dos ricos – para os proteger dos resultados da sua própria loucura – que reduzam os seus lucros para que os consumidores tenham rendimentos para aumentar a procura contribuindo para o aumento do volume de negócios e de lucros adicionais”. Fim de citação.

 

Ficámos tão espantados como, imagino eu, terão ficado os senadores americanos, na sua maioria conservadores. Ficámos tão espantados que não descansámos enquanto não ganhámos espaço para criar esta série. Ninguém que goste minimamente de economia pode ficar insensível a textos desta qualidade, proferidos neste contexto e em 1933! Nós não ficámos e sabemos de muitos autores que também não ficaram. A lista seria longa, mas francamente creio que dispensável.

Curiosamente, com a série praticamente constituída demos conta de alguém de grande craveira intelectual, Thorvald Grung Moe, durante mais de 30 anos alto quadro do Banco da Noruega, colaborador do FMI, do Banco Mundial e do Banco de Pagamentos Internacionais, que nos explica em Setembro de 2020 como foi o seu trajeto para chegar a Marriner Eccles, a importância de se ler hoje a obra de Marriner Eccles e sobre o qual terá trabalhado depois durante um ano sabático. Diz-nos ele na resposta ao jornalista Beckworth que lhe pergunta: estou curioso de todo, em saber como é que entrou neste tópico? O que o levou a querer olhar para Marriner Eccles?

(…)

Grung Moe: Bem, sim. Não. Essa é uma boa pergunta porque absolutamente não era isso que eu pretendia. A minha intenção era escrever algo sobre Minsky.

Beckworth: A sério?

Grung Moe: E acabei por escrever sobre Eccles. Mas a história é assim. Comecei a escrever sobre o sistema bancário paralelo e estruturas financeiras frágeis. E isso realmente levou-me a olhar de forma mais estreita para o sistema bancário como um problema. E então deparei-me com Henry Simons e Irving Fisher, como sabe. E houve aqui uma coincidência porque Minsky fez o seu trabalho de licenciatura em matemática em Chicago, na verdade. E aí mudou então para a faculdade de economia. E o corpo docente de economia da época era composto por economistas famosos, como Paul Douglas, Viner e Oskar Lange, mas também Frank Knight e Henry Simons. E Simons era na verdade um dos professores de Minsky. E ele admirava-o muito, embora eles tenham desenvolvido teorias bastante diferentes.

Grung Moe: E então, antes do artigo sobre Eccles, na verdade fiz outro artigo sobre a revisão do famoso artigo de Simons ‘Regras versus Autoridade’ que, como sabe, é uma espécie de referência fundamental para, juntamente com Kydland e Prescott, a discussão de consistência temporal e descobri aí que Simons realmente fez fortes referências à necessidade de controle das finanças antes que se pudesse ter um sistema monetário operacionalmente viável. Enfim, essa é uma história diferente. Mas, enquanto lia sobre Henry Simons, também me deparei com a discussão do grupo de Chicago sobre a necessidade de uma política orçamental ativa no início dos anos 30. E isso foi interessante porque foi na época em que Keynes realmente defendeu as operações de mercado aberto enquanto visitava Chicago. Mas aquele grupo de Chicago havia escrito em 33 e 34 textos em que, na verdade, defendiam uma política orçamental ativa para sair da depressão.

Grung Moe: E é aí, através desses trabalhos, que tropecei em Eccles porque havia neles referências à sua declaração no Congresso em 33, que achei fabulosa. Eu vou voltar a isso. E então comecei a ler sobre ele. E, a facilitar o interesse nele, temos hoje os arquivos do FED de St. Louis. Portanto, é uma maneira fácil de entrar nas atas do FOMC e em tudo mais. E isso abriu-me um caminho que realmente achei muito interessante. Além disso, estava intimamente relacionado com a discussão crítica da época sobre a necessidade de uma política orçamental mais ativa. Quer dizer, o meu amigo deve-se lembrar que após a crise que rebentou em 2008 houve um impulso para uma política orçamental ativa que foi abortado porque todos pensaram que estávamos fora da crise. E acho que foi em 2011-12 que as pessoas ou, desculpem, os países recuaram e focaram-se mais na política monetária. Portanto, em suma, quero dizer, esse foi o pano de fundo para começar a ler Eccles”. Fim de citação.

 

Uma trajetória que podemos considerar paralela à nossa. Chegámos a Marriner Eccles por indicações pontuais, de Joaquim Feio e Michael Pettis, entrámos na leitura da sua audição no Congresso, ficámos entusiasmados e ficámos com uma enorme vontade de criar uma série tendo por base a sua obra. Esta série é assim o resultado desse entusiasmo. Dei conhecimento deste meu espanto e desta minha intenção a Michael Pettis que me responde na volta incentivando-me a fazê-lo e tanto mais que estaríamos a colocar em português alguns dos trabalhos daquele que, para ele Michael Pettis, era o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED.

É, pois, pela “mão” destes dois economistas e professores, Michael Pettis, especialista de renome mundial no que poderíamos chamar de macroeconomia da economia aberta [1], e Joaquim Feio, que reputo de grande especialista em História do Pensamento Económico, que somos incentivados a criar esta série. A estes dois economistas de perfis que me parecem muito diferentes, mas ambos exemplares naquilo que representam em termos de ensino, dedico este meu longo trabalho. Não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas, depois deparávamos sempre com a difícil passagem de textos OCR para Word no que se refere aos trabalhos de Marriner Eccles.

E a razão de fazer uma série desta dimensão, mais de quarenta textos selecionados, muitos mais lidos, mais de 700 páginas traduzidas, é que quando o tema me é relevante tenho um enorme prazer em ir ao máximo limite do possível quanto ao conhecimento que dela eu próprio posso obter e talvez também transmitir. Foi exatamente o que fiz e o que estou a fazer. Fui assim como estudante, fui assim como professor, continuo a ser assim como resistente ao ensino mainstream que nos querem ministrar nas Faculdades de Economias e garanto-vos que se contam pelos dedos de uma mão em cada Faculdade os docentes que nela fazem um ensino crítico [2].

Aqui devo abrir um pequeno parêntesis porque não posso deixar de referir que a possibilidade de um número tão reduzido que estou a pressupor se deve muito mais à natureza do nosso sistema do que à vontade dos docentes. Mas os que o conseguem fazer poderão ser chamados de quase mágicos pela simples razão de que o sistema está de tal forma trancado que torna esse ensino crítico praticamente impossível. Adicionalmente, este tipo de ensino traduz-se em muito trabalho, muito mesmo, não faz currículo a não ser negativamente, e gera mal-estar com os colegas quando em termos de ambiente existente já não se pode falar sequer em bem-estar. E será que ainda sobram dedos dessa única mão? De passagem apenas, vejamos algumas dessas trancas: o ensino crítico pressupõe por parte de quem está a aprender maturidade e pressupõe ainda um espetro largo de conhecimentos de base para o que se está a aprender para que o ensino crítico tenha sentido e ganhe a adesão dos estudantes e, em termos gerais, nada disto existe atualmente. Por parte de quem ensina pressupõe tempo para possa ensinar aos dois níveis: ao das matérias de base do programa de base e ao nível do fornecimento das ferramentas que permitam ao estudante ganhar uma capacidade crítica sobre esse programa de base. Ora este tempo de “disponibilidade” também deixou de estar disponível! Os cursos reduziram-se para 3 anos, as cargas horárias por disciplina normalizaram-se em 4 horas, entre o que é fundamental e o que é complementar, encheram-se os cursos com múltiplas opções livres, descaracterizando o núcleo central de cada um deles. Não há milagres, mas mais ainda, mesmo que isso se consiga, a lecionação da disciplina torna-se pesada e os alunos desertam porque a disciplina que assim funcione tem um número de créditos, ditos ETCS, desadequada face ao trabalho que exige! A menos que esta seja obrigatória. Ora, as licenciaturas estão cheias de disciplinas de opção, muitas delas colaterais ao seu objetivo central com o argumento de que assim se alarga o leque de conhecimentos, dizem-nos, mesmo que isto se traduza objetivamente no seu empobrecimento! Compare-se, por exemplo, no que era uma licenciatura de Economia antes de Bolonha e antes da enorme vaga de opções, o número de disciplinas obrigatórias e o total de horas de lecionação de economia com o que é obrigatório nas licenciaturas de Economia hoje.

Quer um pouco com o espírito de antigo estudante quer ainda como professor de um ensino que sempre pude fazer de forma crítica, com a elaboração desta série senti-me eu próprio gratificado e por diversas razões. A primeira porque me revi em muitas, em muitas coisas daquilo que ensinei; a segunda porque com ela também aprendi muito, muito mesmo do que poderia ter ensinado e não ensinei porque não o sabia. Por estes textos, pela posição assumida por Marriner Eccles nos grandes temas do seu tempo, ele esteve, e de longe. muito à frente do seu tempo, remando contra ventos e marés, contra os criadores de catástrofes. Mas como as grandes figuras do sistema financeiro ainda hoje são criadores de catástrofes, podemos igualmente afirmar que Marriner Eccles esteve igualmente muito à frente do nosso tempo, também. Vê-lo-emos com mais precisão na parte final desta nota explicativa.

Para demonstrar esta posição incluímos nesta série um conjunto de textos de Presidentes dos Conselhos de Governadores de grandes bancos centrais atuais por oposição às teses defendidas por Marriner desde 1933, o homem que em 1935 reformou o FED dando-lhe a força e o estatuto que ele tem hoje, FED este que dirigiu até 1948. E foi com essa força que o FED salvou a Europa na crise de 2008, ou melhor, que salvou o sistema financeiro europeu, como ilustra Adam Tooze na sua monumental obra Crash. É espantoso ver a sintonia da posição destes banqueiros com a posição de Morgenthau ministro do Tesouro de Roosevelt que terá levado à crise do New Deal (dita crise de Roosevelt em 1937) quando quis impor o orçamento equilibrado a Roosevelt porque isso simbolizava o meio de conferir confiança aos mercados e de, por essa via, a da confiança, criar as condições para que os investidores privados levassem ao crescimento económico. Pelo lado americano, levamos o leitor a confrontar as teses de Bernanke, Janet Yellen, Powell, com os textos de Marriner Eccles. Pelo lado europeu propomos o mesmo confronto. Em 2010, Jean-Claude Trichet declarava ao jornal Repubblica exatamente a mesma coisa que Morgenthau em 1937 na defesa de um orçamento equilibrado e da política de austeridade num clima de recessão! E podíamos continuar até ao memorando de 2019 assinado por figuras como Hervé Hannoun, antigo primeiro vice-governador do Banco de França; Otmar Issing, antigo membro executivo do conselho do BCE; Klaus Liebscher, antigo governador do Banco Central da Áustria; Helmut Schlesinger, antigo presidente do Bundesbank; Jürgen Stark, antigo membro executivo do BCE; Nout Wellink, antigo governador do Banco central da Holanda e com o apoio de Jacques de Larosière, antigo governador do Banco de França e de Christian Noyer, antigo governador do mesmo banco.

Nos seus textos o que é mais espantoso é a forma demolidora como Marriner Eccles se atira contra os dogmas dos criadores de catástrofes, o que hoje diríamos de outra forma, contra os dogmas neoliberais que dominam nos círculos do poder financeiro e político, nos manuais de economia, no ensino que por esse mundo fora se faz, e que são igualmente dominantes nos meios empresariais. Lembremo-nos de Joan Robinson que nos dizia, quando não se aprendeu mais nada, mais nada se sabe ensinar, e cito-a de memória. Exemplos de posições frontais assumidas por Marriner Eccles:

  1. Atira-se fortemente contra os defensores do orçamento equilibrado em tempo de crise, que confundem orçamento familiar com o orçamento de uma nação, como o fez Merkel na União Europeia durante a crise de 2010 a 2020, levando à crise da dívida pública (dita soberana). Eccles escreveu das mais belas páginas de texto que até hoje conheci.
  2. Atira-se contra o dogma da carga deixada para as gerações futuras, dogma este que serve de base à não utilização do défice orçamental como instrumento de política económica contra o desemprego em massa.
  3. Atira-se contra a ideia de que solidez de uma empresa significa que esta não tem problemas de liquidez e lembremo-nos da crise da dívida pública na Europa.
  4. Atira-se fortemente contra a ideia de que os ativos em carteira de qualquer empresa devem ser contabilizados pelo valor de mercado quando estes mercados estão disfuncionais.

Sobre os pontos 1) e 2) diz-nos Marriner Eccles na sua resposta ao Presidente da Associação dos Banqueiros Americanos:

Não está na altura de aprendermos esta simples verdade? É assim tão difícil compreender que quando um indivíduo deve dinheiro deve-o a outro indivíduo, mas quando uma nação deve dinheiro, deve-o a si própria? Quando um indivíduo paga uma dívida, ele paga-a a outra pessoa. Quando uma nação paga uma dívida, paga-a ao seu próprio povo. Ora, isto não significa que uma nação possa continuar a acumular dívidas ou que qualquer montante de despesas e impostos seja justificado. A questão é que entramos em conceções totalmente enganadoras se cometermos o velho erro de confundir a questão da solvabilidade individual com a solvabilidade da nação como um todo. A solvabilidade individual depende da continuidade dos seus rendimentos e do facto de viver com esses rendimentos. A solvabilidade da nação depende da produtividade de todo o seu povo”.

Sobre os pontos 3) e 4), referências da política neoliberal e do papel de revelação e determinação dos preços dos ativos feita pelos mercados livres, e que estiveram bem presentes na crise europeia de 2010-2020 e as suas vagas de especulação, vale a pena citar um seu esclarecimento ao Senador Vandeerberg:

Embora as grandes empresas possam obter amplo crédito bancário, há numerosos casos onde as empresas locais sólidas precisam de capital circulante ou de capital fixo em prazos mais longos do que os bancos podem conceder sem serem criticados pela maioria dos supervisores bancários que foram formados na escola que identifica liquidez com solidez.(…) Insisti em que a regulação e o controlo exercido pela supervisão sejam revistos para que os empréstimos bancários e a política de investimento possam responder às mudanças nas condições e nos requisitos atuais da atividade económica em geral e da indústria em particular. Num discurso recente, afirmei: “Os banqueiros não podem ser justamente responsabilizados por políticas bancárias governamentais restritivas, como estar por exemplo a confundir solidez com liquidez ou valor real com valores de mercado atuais deprimidos. Sou a favor da modernização dessas práticas e regulamentos, para encorajar os banqueiros a poderem responder às mudanças operadas nas condições e nas necessidades de crédito dentro de suas próprias comunidades e então desencorajar a alternativa que é a multiplicação de agências governamentais criadas para fornecer linhas de crédito que a comunidade bancária poderia e deveria em tempos normais estar preparada para possibilitar ao público”. Fim de citação.

Outros exemplos de posições frontais assumidas por Marriner Eccles são:

  1. Defende a criação de dinheiro feito de quase nada (de papel e tinta apenas com pequeníssimos custos de distribuição) desde que este dinheiro seja criado para colocar no sistema produtivo e gerar emprego e rendimento.
  2. Contra a ideia comum defende a articulação entre política monetária e política orçamental tendo como objetivo comum a maximização do emprego e do rendimento.
  3. Defende que o Estado Federal deveria ir aos mercados financeiros obter empréstimos que depois seria realocado nos Estados federados. Em comparação, olhemos para o plano de Recuperação e Resiliência da atual Comissão Europeia que não é mais do que um pobre equivalente do que defendia Marriner Eccles no seu tempo.
  4. Defendeu o crédito a baixo custo para compra de habitação e é a ele que se deve a criação do instrumento hoje banal que se chama compra de casa por hipoteca.
  5. Defende a anulação de grande parte da dívida externa que os países em dificuldade têm para com os países ricos. Um tema hoje na ordem do dia!

E podíamos continuar.

Marriner Eccles foi um dos principais pilares do New Deal, foi logicamente um dos decisores em política económica dos mais relevantes no século XX e a TIME em 1936 carateriza isso mesmo colocando a sua fotografia na capa e escrevendo: “entre o abismo e a América está Marriner Eccles”.

É pois parte da obra deste homem que iremos disponibilizar ao leitor da Viagem dos Argonautas e estamos certos de que hoje ou amanhã se perceberá que este trabalho não terá sido um trabalho inútil.

A série será dividida nos seguintes 6 capítulos que contêm os seguintes textos:

  1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal

1. 1. Marriner Eccles, presidente da Reserva Federal dos EUA (1934-1948), uma breve biografia. Por Francisco Tavares

1.2. Marriner Eccles (1890-1977) – resumo biográfico. Por The Living New Deal

1.3. Marriner Stoddard Eccles- Complementos biográficos. Por Leonard J. Arrington

1.4. O espírito dos construtores do New Deal: “O País Precisa, o País Exige, Ousadia, Experimentação Persistente”. Por Franklin D. Roosevelt

1.5. Marriner S. Eccles morreu aos 87anos; foi Governador do Federal Reserve durante 12 anos. Por Michael C. Jensen

1.6. Marriner Eccles, o Pai do Moderno Federal Reserve. Por PBS Utah

1.7. Marriner Eccles, pai do moderno Federal Reserve. Por Spencer F. Eccles

1.8. Lei de Apoio de Emergência ao Sistema Bancário. Por John Simkin

1.9. Reconhecer as fronteiras. Por David Warsh

1.10. Economistas Entre Dois Mundos. Por David Warsh

1.11. A doutrina Marriner- Como é que um banqueiro de Utah enfrentou a grande depressão. Por Jake Bullinger

1.12. Como combater uma Depressão – não uma gota de cada vez. Por Mark Wayne Nelson

1.13. Um Banqueiro Central de Mãos Atadas? Marriner S. Eccles e a Política da Reserva Federal, 1934-1951. Por Matías Vernengo

1.14. Marriner Eccles e o Acordo de 1951 Tesouro-Reserva Federal: Lições sobre a Independência do Banco Central. Por Thorvald Grung Moe

1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939. Por Henk Verweij

1.16. A história de um outro presidente. Por Richard H. Timberlake

1.17. Sobre a vida de Marriner Eccles e o seu legado macroeconómico duradouro. Por Thorvald Grung Moe

  1. Textos Gerais de Marriner Eccles

2.1. Testemunho no Congresso perante o Comité de Finanças do Senado dos Estados Unidos em 24 de Fevereiro de 1933

2.2. Resposta a Orval Adams, Presidente da American Bankers Association – 8 de Setembro de 1938

2.3. Discurso no 133º jantar anual do Clube Económico de Nova Iorque no hotel Astor

2.4. Carta do senador A. H. Vandenberg e resposta de Marriner Eccles

2.5. Marriner Eccles e o Pleno Emprego

2.6. Pode o capitalismo ser salvo ? (Fevereiro de 1935)

  1. Marriner Eccles e a Habitação nos Estados Unidos da América

3.1. Alteração da Lei Nacional de Habitação

3.2. O New Deal na Habitação

3.3. “Lei Nacional da Habitação de 1934” e “Cidades e Subúrbios”. Por Encyclopedia

3.4. 75º aniversário da lei da Habitação Wagner-Steagall de 1937. Por FDR Library and Museum

  1. Sobre a crise de 1937-1938, dita de Roosevelt

4.1. Necessidade de coordenar as políticas Orçamental e Monetária. Por Marriner Eccles

4.2. Lauchlin Currie-conselheiro de Marriner Eccles – resumo biográfico. Por Spartacus Educational

4.3. Sumário do programa para combater a recessão-1937. Por Marriner Eccles

4.4. As despesas federais e o orçamento federal. Por Henry Morgenthau

4.5. Esboço de um Programa como Tentativo para Combater a recessão. Por Marriner Eccles e Lauchlin Currie

4.6. Causas da depressão de 1937-38. Por Lauchlin Currie

4.7. Controlando as grandes flutuações na economia. Por Marriner Eccles

4.8. As Actuais Perspectivas Comerciais e Económicas (Maio de 1938). Por Marriner Eccles

  1. Da morte de Roosevelt à queda de Marriner Eccles com Truman

5.1. A.P. Giannini, Marriner Stoddard Eccles e a alteração do panorama da banca americana (extrato da dissertação de doutoramento de Sandra Weldin, Capítulo VIII, Tormenta: 1945-1948)

5.2. Depois da queda de Marriner Eccles (extrato da dissertação de doutoramento de Sandra Weldin, Capítulo IX, Fortes divergências de opinião: 1949-1951, pág. 198-217)

5.3. Ponto final na ruptura: Discurso de encerramento do 58º ano letivo no Utah State Agricultural College

  1. De uma crise a outra, da crise dos anos 30 à crise dos anos de 2010-2020

6.1. Saltar sobre o Abismo – Marriner Eccles e o New Deal 1933-1940. Por Mark W. Nelson

6.2. O que poderíamos ter aprendido com o New Deal ao enfrentar a recente recessão global. Por Jan Kregel

6.3. Leitura entre as linhas: Um memorando do Presidente do FED Marriner Eccles. Por Stephanie Kelton

6.4. Três presidentes do FED versus Marriner Eccles:

6.4.1. As condições económicas e financeiras e o orçamento federal. Audição de Ben Bernanke na Câmara dos Representantes

6.4.2. O canto de sereia da austeridade [sobre a política de Obama e a presidente do Fed Janet Yellen]. Por J. Bradford Delong

6.4.3 Sobre as Variáveis Não Observáveis, as Variáveis Estrela: intervenção do presidente do Fed Jerome Powell, em 24 de agosto de 2019, no simpósio patrocinado pelo Federal Reserve Bank of Kansas City

6.5. Presidentes do BCE versus Marriner Eccles:

6.5.1. A visão do BCE perante a crise pela boca de Jean-Claude Trichet

6.5.2. O Memorando do bando dos 8 sobre a Política Monetária do BCE

6.5.3. Quando os velhos banqueiros centrais sabem o que está errado mas não conseguem dizer o que está certo. Por Bill Mitchell

6.5.4. A visão do ex-membro do Conselho Executivo do BCE, Otmar Issing: O Mito que é a Teoria Monetária Moderna

6.6. Porque é que o perdão da dívida externa custaria muito pouco aos americanos. Por Michael Pettis

 

A série termina com um texto de Michael Pettis sobre o pagamento da dívida e do seu serviço dos países pobres aos países ricos (Porque é que o perdão da dívida externa custaria muito pouco aos americanos), um texto em que o autor retoma as teses de Marriner Eccles de então e desenvolve-as em função das coordenadas económicas dos nossos áridos tempos de hoje.

E terminamos a série desta forma porque consideramos que se alguém, hoje, está intelectualmente muito próximo de Marriner Eccles, esse alguém é inegavelmente Michael Pettis.

 

(continua)

 

Notas

[1] Disciplina que lecionei num dos mestrados lecionados na Faculdade de Economia em Coimbra.

[2] Este problema é hoje geral por toda a Europa, onde impera a lógica de Bolonha. Tomando como exemplo o ensino de Keynes diz-nos o professor Emilio Carnevali, “ a leitura deste autor  proposta pelos manuais de economia em todo o mundo é, em última análise, uma tradução em termos warlasianos (ou seja, de equilíbrio económico geral) de algumas intuições – por vezes nem sequer as mais frutuosas – presentes na obra original” [ e Carnevali acrescenta] : “com louváveis exceções – entre as quais, por exemplo, a Universidade de Roma Tre em Itália – a Teoria Geral na sua versão original está longe de fazer parte dos programas de ensino universitário”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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