O MEMORANDO MERKEL. De The Economist.

Enviado por Domenico Mario Nuti. Tradução e introdução de Júlio Marques Mota.

Parte IV

(CONTINUAÇÃO)

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XVIII. Uma parte destes €270 mil milhões pode ser recuperada, mas haveria aqui sempre alguma irresponsabilidade. A desvalorização iria aumentar — em termos de dracmas — o endividamento da Grécia contraído e expresso em euros. Isto forçará o governo grego, sempre que possível, a  expressar o  seu passivo em dracmas, infligindo assim pesadas perdas aos credores; e a isto  poder-se-á  seguir adicionalmente uma redução de valor em dívida. A prudência sugere que devemos não assumir nenhuma retoma  e que a Alemanha será sujeita a perdas  no valor de um terço das dividas que a Grécia contraiu para com a Europa  — mais do que a sua parte que é formal de pouco mais de um quarto, no pressuposto de que os outros Estados que foram sujeitos a um  resgate não será capazes de pagar mesmo nada . Isso custaria à Alemanha cerca de €90 mil milhões, fazendo subir a factura  (incluindo o pacote de ajuda) para quase 110 mil milhões. À custa do  contribuinte será preciso €10 mil milhões para apoiar os bancos alemães, que subscreveram activos gregos . Assumindo  que o Estado ficou com  metade das perdas resultantes, isto elevaria a factura total alemã para quase  €120 mil milhões, ou seja, 4,5% do seu  PIB.

A caminho da falência

XIX. Se na verdade é assim, isto é um valor bem baixo quando  comparado  com o provável valor actualizado  das prováveis transferências da Alemanha para a Grécia a serem feitas nos anos  mais  próximos ou  talvez a serem feitas mesmo durante décadas. Mas há um risco considerável que um Grexit se possa  transformar em calamidade pois os  mercados podem reagir  mal à ideia de que a pertença à zona euro não seja irreversível. Na pior das hipóteses, pode haver um colapso dos mercados e que pode  mesmo rivalizar com o que ocorreu a seguir à  falência do Lehman Brothers no final de 2008  o que, por sua vez,  poderia desencadear uma recessão à escala da terrível crise de 2008-09. Numa situação de pânico e debaixo de uma enorme pressão  (Barack Obama estaria imediatamente a par da situação) poder-se-ia ser levado a admitir a mutualização de dívida sem obter o quid pro quo do controle fiscal a nível europeu que sobre o qual a Chanceler tem sido bastante  exigente. Depois de se ter estado durante  tanto tempo contra o pedido  que a Chanceler assine um cheque em branco é o que pode ter que acabar por fazer .

XX. Dado o risco de que a Alemanha pode ter que pagar um preço tão elevado  para uma saída da Grécia, não significará então  que plano b é um plano para nunca arrancar? Não necessariamente. Uma outra conclusão pode ser a de que o cenário aparentemente mais seguro de uma saída apenas da Grécia é, na verdade, a opção mais arriscada. Se a Alemanha vai ter que fazer grandes concessões para lidar com a saída de um Estado, pode então fazer mais sentido fazer tais concessões em conjunto com uma cirurgia mais radical que comece  realmente a enfrentar a crise do euro. No total, cinco dos 17 Estados foram já resgatados ou irão pedir o resgate  — testemunha bem o facto  de que eles não foram capazes de lidar com os rigores da moeda única. Os outros quatro — primeiro a Irlanda, depois  Portugal e agora a Espanha e Chipre — também estão instavelmente   na zona de possível exclusão. Expulsando-os também poderia ser bem melhor para eles e para o próprio euro e  para a Alemanha também, porque tornaria a área restante do euro muito mais viável.

XXI. A situação dos outras quatro economias reflecte tanto a dívida privada (especialmente em Chipre, na Irlanda e na Espanha) como a dívida pública (que foi claramente a situação na Grécia e em menor medida, em Portugal). Mas a fragilidade fundamental que todos eles agora partilham com a Grécia é que estes países devem aos estrangeiros muito mais do que lhes devem a eles. Em cada um dos cinco países, os passivos para com o exterior  ultrapassam  a posse de activos sobre o estrangeiro entre 80% e a 100% do PIB em 2011, colocando-os num grupo cocorrentes entre si no interior da zona euro (ver gráfico 2). A Itália, por outro lado, tem um passivo relativamente baixo face ao exterior e que é apenas cerca de  21% do PIB (mais baixo ainda que a posição dos Estados Unidos que é de 27% do  seu PIB).

XXII. Os níveis da dívida pública externa – são muito mais altos nos cinco países do que nas  economias emergentes que foram vítimas de “paragens  súbitas” de entradas de capitais  em que os bancos e os investidores estrangeiros deixam de emprestar e tentam retirar o dinheiro que aí teriam colocado . Não admira pois  os mercados perderam a confiança neles. Mas mesmo que os empréstimos de resgate possam proteger os governos, a perda de confiança continua a minar as economias periféricas, tal como os depósitos dos  estrangeiros são retirados e os investidores estrangeiros se recusam a comprar a  dívida desses países. O financiamento do banco central preenche esse vazio  mas esta situação  faz com quo os bancos fiquem dependentes do BCE, levando-os a reduzir os seus empréstimos às  empresas e às famílias. Isso dificulta  ainda mais a situação da  economia e de forma ainda mais intensa e torna mais difícil colocar  as finanças públicas em ordem.

XXIII. Assim como estão a ser sobrecarregadas por níveis insustentáveis da dívida externa, todas as cinco economias partilham a infelicidade de tentar recuperar o terreno perdido em termos de competitividade através da desvalorização interna, em que os custos domésticos são reduzidos ano após ano para esse efeito. Com a excepção da Irlanda, que alcançou uma valiosa redução nos seus custos unitários do trabalho, depois de ter sido o país em que estes mais terão subido, dificilmente se poderia seleccionar um grupo de países menos capazes de serem bem sucedidos com uma desvalorização interna. Os mercados de trabalho no sul da Europa são bem conhecidos por protegerem os seus insiders (trabalhadores permanentes) em detrimento dos seus outsiders (empregados com contratos temporários ou desempregados). Esta rigidez significa que as empresas reduzem os custos laborais através de congelamento de novas admissões e com o despedimento dos trabalhadores temporários, em vez de reduzir as remunerações salariais.

(continua)

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