Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte II – Compreender a alta finança. 3. Compreender a finança nº 3 – De que mercados financeiros necessitamos ? (2ª parte). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Seleção de Júlio Marques Mota, tradução de Francisco Tavares

Parte II – Compreender a alta finança

Parte II texto 3 1

3. Compreender a finança nº 3 – De que mercados financeiros necessitamos? (2ª parte)

logo finance watch Por Finance Watch, 2014/2015

(2ª parte)

Perspetiva histórica: como se passou do investimento à especulação?

À partida, os mercados financeiros estavam estreitamente ligados à economia real e financiavam-lhe as atividades. Contudo, desde os anos 1990, esta ligação desapareceu progressivamente. A desregulamentação dos mercados financeiros traduziu-se numa utilização crescente do capital para fins puramente especulativos e de curto prazo.

A) Incentivos inapropriados

O horizonte temporal não é a única diferença entre um investimento e especulação. Em mercados justos e transparentes, a entidade financiada e o investidor estão ligados, para o melhor ou para o pior. O valor captado pelo investidor vem da atividade da economia real. O investidor e a entidade financiada ganham ou perdem juntos.

A especulação é um jogo de soma zero onde o dinheiro obtido por um especulador é perdido pelo outro lado da transação e vice-versa. A especulação procura extrair lucros com o simples ato de comprar e vender ativos, por isso precisa de mercados secundários altamente líquidos – e certamente não é mais um jogo de soma zero desde o momento que afeta outras pessoas e cria externalidades económicas negativas em ambos os lados da transação, externalidades que, em última análise, recaem sobre a sociedade em geral.

Aqui poderá ver um pequeno vídeo realizado por Finance Watch que explica a ligação entre a especulação sobre produtos derivados agrícolas e a evolução dos preços (preços de energia, alimentação, etc.).

 

Como dizia Keynes, os mercados só podem ser eficazes no seu papel de alocar capital para as atividades mais produtivas se a grande maioria dos intervenientes do mercado tiverem o que se designa de perspetiva “empresarial” (a que chamaremos “investidores”), por oposição a uma perspetiva “especulativa”. Na sua análise das lições da crise de 1929 causada pela explosão de uma bolha financeira especulativa, Keynes não acusa indivíduos ávidos de lucros e mal intencionados. Em vez disso, aponta para uma estrutura de mercado que encoraja os jogadores a especularem ao invés de contribuirem para uma alocação sã de capital. Devemos, portanto, “ajudar” os mercados financeiros a cumprir sua função essencial ao serviço da economia real, caso contrário, não estaremos imunes à explosão de uma próxima bolha especulativa e à crise que isso causará.

 

B) Interconexão do sistema financeiro

Teoricamente, a explosão de uma bolha financeira não deve afetar necessariamente os atores fora da bolha, mas na verdade isso acontece porque as companhias de seguros, os fundos de pensões e os bancos (principais intervenientes dos mercados financeiras) estão envolvidos e conectados entre si. Além disso, quanto menos transparência e informações disponíveis houver sobre os produtos financeiros comercializados nos mercados, mais provável é que os produtos tóxicos sejam vendidos e disseminados em todo o sistema financeiro. Mas, em última análise, um produto financeiro não precisa ser tóxico para criar interconexão dentro do sistema: as variações de preços e as decisões de compra ou venda, mesmo de um título não tóxico, afetam muitos atores diferentes ao mesmo tempo. Imagine que muitos bancos investiram nos mesmos tipos de produtos financeiros: se o preço desses produtos muda repentinamente, todos os bancos são afetados simultaneamente criando condições de colapso em cadeia.

Outro fator que contribui para a interdependência das instituições financeiras é o facto de os bancos (e especialmente os maiores) não são apenas financiados por depósitos, mas são amplamente financiados por outros bancos, fundos de pensões, gestores de ativos, fundos de investimentos, etc. É esse tipo de financiamento dito de mercado que estimula o crescimento das atividades dos bancos nos mercados financeiros (especulação). Acontece que esse financiamento é concedido a um custo artificialmente baixo, uma vez que os investidores assumem que os estados não deixarão cair os bancos, em caso de dificuldades, bancos esses que têm depósitos garantidos e uma atividade comercial capaz de colocar em falência outros bancos. E este é um problema para os reguladores bancários, porque em caso de crise, eles não serão capazes de impor perdas aos credores de grandes bancos (um processo conhecido como “resgate interno”, ou bail-in) com receio que se transmitam as perdas a outras partes do sistema financeiro. Se quiser saber mais sobre este assunto, você pode ler a nossa publicação “Trilemma bancário da Europa“.

C) Bancos demasiado grandes para poderem falir

parte I texto 13 1

O rápido crescimento dos mega-bancos foi um outro fator que desencadeou a crise financeira. Como James Rickards descreveu: “Os mutuários eram imprudentes, os corretores gananciosos, as agências de notação negligentes, os clientes ingénuos, e o governo encorajou o fiasco com metas irrealistas em matéria de habitação e concedendo linhas de crédito ilimitadas [vg. Fannie Mae e Freddie Mac agências de financiamento hipotecário quase governamentais nos Estados Unidos]. Dito isto, o facto de que haver tantos atores que podem ser acusados não deve nos fazer esquecer que os grandes bancos são os principais responsáveis. Sem bancos para fornecer crédito aos corretores que os revendiam e que alimentavam Wall Street com ativos tóxicos, tal estrutura de pirâmide nunca poderia ter sido erguida.

Bank Reform FRENCH

 

Esta é uma das razões pelas quais Finance Watch exige uma separação das atividades bancárias (para mais informações, veja o trabalho de Finance Watch “Compreender a finança nº 1 – Separar os megabancos?”, 1ª parte, 2ª parte, 3ª parte-conclusão).

 

________________________________________________________________________________________

«Podemos enfrentar os mercados financeiros? Conferência TED sobre as coisas que se fazem mas que deixaram de se poder compreender»

 

Parte II texto 3 6

Kevin Slavin

No seu livro de 2007, “The Age of Turbulence”, Alan Greenspan, presidente do Banco Central dos Estados Unidos de 1987 a 2006, descreve o quão difícil é controlar os mercados financeiros modernos: “os mercados tornaram-se demasiado grandes, demasiado complexos e evoluindo demasiado rapidamente para serem sujeitos a uma supervisão e regulação que datam do século XX. Mesmo que os reguladores ainda queiram desempenhar um papel de supervisão, é claro que suas capacidades foram significativamente reduzidas e estão diminuindo ainda mais“. A falta de uma forte regulamentação financeira permitiu que os mercados financeiros fizessem coisas (como as Transações de Alta Frequência, Trading à haute fréquence) que já não somos capazes de compreender. Este é o ponto desenvolvido por Kevin Slavin na sua brilhante conversa TED sobre este tema.

_________________________________________________________________________________________

Até que ponto necessitam os mercados financeiros de “liquidez”?

A liquidez é um conceito chave dos mercados financeiros.

parte I texto 12

Do ponto de vista dos investidores, a liquidez refere-se à capacidade de vender rapidamente os ativos financeiros que possuem (ações, títulos, etc.) e trocá-los por dinheiro ou outros ativos. Tudo isso num intervalo de tempo razoável e sem grande impacto no preço.

Do ponto de vista dos especuladores, a liquidez é vista como a oportunidade permanente e sine qua non de comprar e vender ativos financeiros com o único propósito de maximizar o lucro com as flutuações de preços. Num mercado essencialmente especulativo, uma liquidez excessiva conduz os jogadores na mesma direção ao mesmo tempo: todo o mundo compra ao mesmo tempo, todos vendem ao mesmo tempo. Então, chegamos à situação oposta em que se torna impossível vender ou comprar, ou seja, a uma situação de não liquidez do mercado. Os mercados que são muito dependentes da liquidez de curto prazo estão, portanto, constantemente em risco de “secar”, como foi o caso do mercado interbancário em 2008.

Por outro lado, se os investidores colocam demasiada ênfase na liquidez de um título antes de comprá-lo (por exemplo, ao decidir comprar um título somente se tiverem a certeza de poder revendê-lo facilmente caso os preços de mercado baixem), eles prestarão menos atenção a critérios tão essenciais como a análise dos riscos subjacentes do ativo, a sua natureza e ainda menos aos seus objetivos sociais e ambientais antes de comprá-lo.

Keynes considerou, entre outras coisas, que o dogma da liquidez provavelmente distrairia os investidores da sua função de alocar capital para fins produtivos. Segundo ele, nenhuma das máximas das finanças ortodoxas era “mais anti-social do que o fetiche da liquidez” (para saber mais, você pode ler o artigo de Finance Watch: “Liquidez – uma espada de dois gumes “).

 

Transações de Alta Frequência

O desenvolvimento das Transações de Alta Frequência (HFT-High Frequency Trading) é outro exemplo das novas técnicas e estratégias que ameaçam a equidade, a ordem e a integridade dos mercados financeiros. As transações de alta frequência envolvem o uso de algoritmos e computadores para a execução de estratégias de negócio ultra rápidas. Esta prática domina hoje muitos mercados financeiros. Os investidores institucionais usam algoritmos para ocultar grandes transações, enquanto as entidades especializadas em HFT usam os seus próprios algoritmos para encontrar e lucrar com essas grandes transações. As estratégias de transação de alta frequência podem não só prejudicar a confiança dos investidores nos mercados, mas também secar os mercados e aumentar o risco de abuso de mercado (ver na Parte 2 deste trabalho “Desmistificar as afirmações do lóbi financeiro”).

Para ver mais sobre este assunto, demos uma olhadela à nossa infografia sobre Transações de alta frequência!

Parte II texto 3 7

 

(continua)

Texto original em http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/1142-comprendre-finance-3?lang=fr

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: